ANA CLAUDIA CALOMENI
PORTUGUÊS
BIOGRAFIA
 
BIOGRAFIA

Outro dia me falaram que escrever é um ato de liberdade, ainda mais num país onde ninguém lê. Perguntei se devia ficar feliz ou triste com a descoberta, mas ela não soube responder. “Você é engraçada”, me disseram. 

Estou à procura de. Só não consigo terminar a frase. Acredito que só vá conseguir terminá-la no momento exato em que encontrar o que procuro. Também não acho que caibam reticências. Elas são o último suspiro e dele ainda estou longe. Escrevo com medo e esperança que minha escrita sirva pra algo. Um grito surdo me acompanha e sinto vontade de escrever coisas que nem eu entendo.

Não sei de muita coisa. Não sei, por exemplo, que leques podem ter cheiro de madeira de sândalo. Não sei quanto tempo há de durar um silêncio e isso muitas vezes me atormenta. Na verdade, eu gostaria de estar aqui escrevendo a história de um homem que espera pacientemente numa estação de trem por uma coragem que nunca chega (bonito isso, né?), mas minha vida é feita de fragmentos, minha escrita também. É no descontínuo que me formo, coisa estranha isso. Gostaria de compreender mais coisas. Gostaria de compreender, por exemplo, por que a dor me fascina e por que fico tão assustada sempre que se aproxima a realização de um desejo. O prazer me dói? Por que me olho no espelho e não tem um dia que não pergunte “onde fiquei”? Desejo compreender que o mundo é redondo pelo simples e corriqueiro fato de que ele é apenas a minha eternidade. Não sei bem o que significam muitas coisas que penso, o que não me impede em absoluto de pensar nelas. Aliás, é nessas coisas que gosto de me perder. Nando costumava me perguntar em que eu pensava quando fixava o olhar num ponto que ele não conseguia alcançar. Ele me olhava, olhava pro lugar pra onde eu estava olhando, olhava pra mim de novo: em quê você está pensando? Invasão isso de perguntar em quê a gente está pensando, mas eu não reclamava, na época eu não sabia de muita coisa que sei hoje (o que me enche de esperança no futuro) e só dizia: estou descansando a vista. Eu acho é que dormia acordada. Igual a minha mãe, aprendi isso com ela. 

Sou carioca, formada em jornalismo pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Comecei a escrever ficção no final de 2000 e, entre interrupções e continuidades, sigo escrevendo quando dá na telha.