DOLORES MENDES
PORTUGUÊS
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O avô infeliz Cinco e meia da manhã num ponto de ônibus de um bairro de Uberlândia. Hora de os trabalhadores da madrugada e dos idosos que vão aos laboratórios coletar sangue para exames. Um galo canta longe e logo se pode ouvir o canto de mais dois. Uma rolinha toma banho numa poça d´água num buraco do asfalto. O céu traz sua tradicional mancha vermelha indicando sol após uma noite de chuva. Duas idosas conversam sobre o tempo, a beleza das rolinhas e a infelicidade das pessoas. Vão ao laboratório para descobrir doenças que possam estar se instalando na velhice. Um homem aponta na esquina e tem dificuldade de caminhar. As duas olham, comentam. Vai perder o ônibus se não andar mais rápido. Faltam-lhe forças. A magreza deixa transparecer um pescoço comprido e os braços finos retratam a fragilidade. Tô sofrendo dos nervos, diz para as mulheres, que logo se comovem. Não dos nervos mesmo, aqueles que fazem a transmissão do impulso elétrico nervoso no corpo da gente. Elas entendem a linguagem dele e dizem que muita gente sofre dos nervos hoje em dia. São muitos problemas, está muito difícil viver. Quem tem filhos e netos não tem sossego, é droga pra tudo quanto é lado. O velho magro diz que já nem chora mais. O médico lhe pediu para relaxar porque senão não viverá muito. Mas a verdade é que ele mal consegue comer. A mulher morreu há dois anos, de desgosto. A filha tem 30 anos e está consumida pelo crack. Dá pra relaxar? Até dá porque a mulher está com Deus e isso é bom, a filha não tem mais jeito mesmo, mas quando a vida mexe com uma neta a coisa complica. A menina tem 11 anos e foi dada pela mãe a um homem em troca de um celular. O homem ficou com ela dois meses e a largou. Agora se prostitui em diferentes pontos de Uberlândia. O que deixa o avô deprimido é que lhe faltam forças para sair à noite à procura da neta. Quem sabe ainda conseguisse salvá-la. Mas a vida dele virou de ponta-cabeça. Não vai atrás porque não sabe onde ficam os pontos de prostituição e porque se sente doente. A neta não volta e ele não come, não chora, não dorme. Vai morrer e a netinha vai ficar aí no bem bom, dizem as mulheres do ponto de ônibus. Mas ele não concorda. Só quer alguém que possa lhe ajudar, um homem mais novo, que percorresse a cidade toda e trouxesse sua neta, para que a doença dos nervos se acalmasse e ele pudesse morrer de uma doença menos doída, como morrem os avôs dos netos sem crack. __________________________________________________________ Ribanceira Ribanceira é uma pequena aldeia de colonos, italianos, açorianos, onde as tradições e as lendas parecem sobreviver há séculos. É lá que o joão-de-barro sufoca a fêmea traidora na casa construída para dois. É em Ribanceira que os homens brincam a farra do boi e os meninos amarram folhas de fumo num cordão. Mais do que viver, morre-se na Ribanceira. É lá que os velhos têm a mania esquisita de preparar a si e aos outros para a morte. Preparam seus pássaros para o dia que tiverem que ficar sem o dono. Passam os anos à procura de gente moça que se comprometa a cuidar das orquídeas, das bocas-de-leão, brincos-de-princesa, olhos-de-boneca, rabos-de-macaco, cristas-de-galo e até mesmo de simples flores do campo. As velhas doam seus relógios de parede, os casacos de lã e as louças antigas e num cabide no canto do guarda-roupa penduram uma saia justa e um casaquinho. Pretos. Chamam de mortalha, e com a mesma naturalidade com que se balançam nas cadeiras nas varandas, riem a mostrar às visitas o guarda-roupa arrumado. Nas estufas, as folhas de fumo amarelam enquanto os meninos correm para cuidar das camélias e marquesas. Entre uma vara e outra de fumo procuram joões-de-barro, fazem a farra do boi e preparam suas mortalhas, para morrer em paz na Ribanceira. __________________________________________________________ A menina de olhos azuis Depois de duas horas andando por uma fazenda entre Uberaba e Uberlândia, entrevistando produtores e técnicos e aprendendo tudo sobre a cultura do girassol, resolvi parar em um posto de combustíveis na BR-050. Eu precisava beber água, parar um pouco e descansar meus olhos daquela amarelidão de uma extensa área de girassol. Assim que desci do carro vi um homem sentado no meio-fio e uma menina de cerca de quatro anos. Meu olhar perdeu o amarelo rapidamente e se fixou no olhar dela, um azul delicado, voltado para baixo, como o olhar do pai. Eles não se moviam. Sentados um ao lado do outro, estátuas vivas à espera de alguma coisa que só eles pareciam saber. Fui à lanchonete do posto, comprei água e quando cheguei ao caixa resolvi voltar. Pedi um refrigerante e um sanduíche. Cheguei ao pátio e ia até a menina de olhos azuis, mas não foi preciso. Ela veio correndo com os bracinhos estendidos, entreguei o sanduíche e o copo e ela começou a comer imediatamente. A boca cheia, não deu pra agradecer. Só olhou pra cima e deu um sorriso infantil. O pai correu, agradeceu, se desculpou, disse que estava procurando emprego e que não mandou a filha pedir nada, mas que ela não comia já tinha umas 8 horas, que assim que me viu saiu correndo dizendo que eu tinha comprado lanche pra ela. Mas eu não ouvia mais nada. Minha alma estava impregnada daquele azul-claro que olhava para cima e daquela necessidade de menina-estátua que não tinha o que comer. ________________________________________________________ Caminhada Sorria, sem dentes, com a naturalidade de um bebê. Um sorriso largo, franzindo a testa, o rosto quadriculado de rugas. Andava encurvada e veloz, um andar indefinido, quase tonto e um tanto seco. Nas mãos não tinha nada. Nos pés, um tênis de atleta. Branco. Na cabeça, além da revolta cabeleira, uma vaga idéia de vida. Não tinha dentes, mas a boca se abria num “olá” sorridente, quase uma risada, como se o tempo não fosse o algoz da carne. Velha serelepe. Ainda acha que nesse mundo tão louco alguém tem ouvidos para “olás” estranhos. E se dá ao trabalho de assustar assim as almas corriqueiras que tão pouco tempo têm para pensar em seus próprios atos. A atrevida velha sorri, sem algozes, sem culpa. Ah! Quisera eu ser velha assim, desdentada e veloz, a ninar a mim mesma numa canção derretida e derradeira; e seguir meus passos e me deleitar com as caminhadas indefinidas. E secar. Quadriculada, suave, mansa, boba. E morrer, como um simples, um bom e simples “olá”.