GILDA FREITAS
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

PARA SONHAR


O começo foi no meu mundo... um festival de cães uivando
Lanternas vermelhas piscavam... pulsavam... era o coração da noite
O místico desapareceu como um animal poroso. Ablastêmico e jocoso
Reexistir. Somente nas noites misteriosas quando cuspia os dentes
Misticamente sugo o meu sangue, quebro o talo do meu halo... pobre halo
Os galhos tensos molham-se, enverdecendo, se contorcendo
No altar duas velas acesas. Uma é para o vento compadecido, a outra para a tempestade enraivecida. Suas chamas? Tremulam como o luar cintilante
Ventos se arrastam, se ralham, fuxicam. Duas sombras. Tempestade de rócio
Puro prazer... grunhindo... grunhindo. Que ódio
Estala minh’alma mistificada. Desencantada voa para o peito do meu leito
Sem direção os ventos sopravam róseos. Espanto-me
Sopram receosos estranhos versos... tão dispersos... dispersos
Dispersados, soluçam desencarnados em plena reencarnação. Só lassidão. Pobre estação
A água corre viva, estala, estala. A pedra tomba e morre. Agora é pó sem dó
Não. Não é de madeira. É cinza na beira das brasas acesas
Úmida e faceira no fogo estilhaça. Se apaga. Não vira aço
Revira os pingos de luz acesos
A fumaça é o aço do fogo. A cinza é a morte da brasa, no nada, nada se abraça
As asas foram podadas, não voam, não voam... é pura ameaça
No vermelho, no branco, no cinza. Sinal de luto
Paradas não andam no ar. São estátuas pequenas, mortas na hora do parto... que pena, que pena...
E as penas das asas seguem seus caminhos, indo, indo...
Na estrada uma matinê de cinzas verdes e um colchão velho no descampado
Sem motivação, sem compaixão, sem nenhum refrão de violação
Só minha sombra em par, somando dois mais dois corações
Melodia sinistra no ar explode... bum!
O vento inventa história do Juízo Final. O Sol entreva. As estrelas desesperadas Prateado tudo fica quando a sereia canta... e encanta nas águas escuras
Nasce a claridade do dia no pedestal da aurora. Rompe sem o requinte das horas Ora, ora, começa outro dia... outro dia que grita para o outro dia... ora, ora
Não posso recomeçar pelo dia de ontem, não posso...
O amanhã brilhando na manhã não sei se verei... não sei, não sei
Não é um golpe certo. Não é concreto. É só arriscado, duro de se pisar
Os pés em chama, a boca seca, os olhos rasos nunca afundam
Nada transborda, a margem cresceu, o mar é profundo 
O mundo é gigante, eu pequenina no seminu de um estranho medonho
O chapéu está gasto. O leite é doce. A página está em branco
Assusta-me o branco silêncio sem saber o tamanho do tempo
Lago manso, comprido exílio, um jeito doce de me olhar
Por estranho que pareça, comecei muito antes de nascer
Tudo eu via, via da minha pequena janela. Pobrezinha. Nada via
É impossível comprovar... O sono da lua. O fantasma volta depois que morre
De fora a fora uma cascata ruge. Usa e abusa, mas não assusta
Rugido mortal, abusado sem sussurrar
A raiz presa ao chão de não sei quantos anos, maior do que ela
Mutações de sonhos, a sombra é o corpo, a vida é absurda, profana, profana
Falta-me imaginação para começar sem saber quem sou
É profano, profano... real demais para ser um sonho. 

Gilda Freitas