IZABELLA PAVESI
PORTUGUÊS
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Paixão Se achegue minha paixão Em arroubos de amor! Bocas quentes ardentes Sôfregos em mil desejos Encantamento e luxúria. Meu semblante espelho Nos teus olhos afogueados. E toco e dedilho tua derme E mergulho em teus braços, E mistérios e segredos teus. Agito uma haste incandescente Faço gestos de fada com as mãos Acendo chamas ousadas delirantes. E, brinco com esse fogo oceânico Dissolvido em sussurros e prazer. Das rosas vermelhas despetaladas Eflúvios impregnam-se às veias Invadem-nos a insensatez de amar Demais... na nudez das madrugadas, Poderosa, debruço-me sobre ti. Teu é meu coração amarrotado E descompassado... em desejos Me enlaço em teu corpo sedutor. Crava-me com mil beijos, delícias Encharcamo-nos de mel e paixão. Harmonia de corações vivos Descem véus incandescentes Um desfrute... um arrebatamento Em êxtase nos permitimos Intimidade e tesão. _______________________________________ As facetas de mim Para viver foi preciso metamorfosear-me! Foi preciso vestir e me despir... A roupa de bailarina não me servia, nem de hippie, de artista de circo também não, de modelo de algum escultor famoso menos ainda, e muito menos das matronas gorduchas de antigamente. Não tive tempo de ficar suspirando ais... Não me deram esse privilégio. Falaram-me de liberdade, de livre-arbítrio. Mas, qual a dimensão dessa palavra: liberdade? Quais os contornos do livre-arbítrio? O tamanho do espaço a tua volta, onde podes pisar, depende de descobrires (e permanecer distante) de onde estão os que manipulam e governam a sociedade, os que passam impunes e os que detem o poder. Foi preciso reinventar-me a cada fase da vida. Ensaiei e segui os códigos éticos do mundo. Afinal, a sociedade te dá as rédeas do sucesso, e se não souberes pra quê usá-las, ou seja, em torno de “quem” deves fazê-las girar, elas te serão suprimidas na calada da noite. Em síntese, saiba te virar com o que tens ao teu alcance... seja forte! E tive de sê-lo! Umas noites achei que meus pés se encontravam justo na entrada da porta dos loucos, e aí meu leitor, que duro foi achar as saídas, as veredas da salvação! Ah!... Os códigos éticos!... Nem sempre são fáceis de assimilar. A vivência é o ensaio da peça da tua vida e sem chances de voltar pra consertar os estragos. Não fui presenteada com um ensaio antecipado. Portanto, foi preciso me recompor seguidamente, e depois de tantos tombos, tantas desavenças, tantos incidentes, pouco a pouco, desfolhei-me e vesti-me de novas roupagens... Descobri um certo glamour e desenvoltura olhando a pose das grandes vencedoras, em momentos que talvez fosse melhor fechar o depósito de ilusões. Bom, apareceram estranhezas... mas, se o destino me reservou guinadas insuspeitadas e abismos a minha frente, esta mulher enigmática que me habita tomou-se de coragem, construiu pontes, e enfrentou os leões da selva de pedra. Fui buscar um estilo próprio, com desembaraço... Sobraram, claro, umas nervurinhas aqui e ali, e uns deslizes... isso faz parte! Uma nova aparência surgiu nas solidões e silêncios do meu ser, no descascar da matéria bruta que guardava em seu ventre essa minha forma magistral. Como num caleidoscópio jorrando vida, minhas facetas se integram. Uma é extrovertida, segura, elétrica; outra é contida, insegura, fleumática; e outra ainda, é só meio-termo: meio evasiva, meio moderna, meio saudosa, meio triste e meio euforia. Todas se movem com suavidade, entrelaçadas uma a outra, numa simbiose perfeita. Foi preciso perdoar, perdoar muito, e esquecer as dores de outrora, as quedas, as derrapadas morro abaixo. E preencher os vazios com afetos, laços, amigos, e com novos momentos de desafios, motivações, sensações, pessoas... Vida! Hoje carrego algumas certezas... guardadas num cofre de cristal. Talvez tenham sobrado alguns amores, ou muitos... é possível! Na dúvida, sempre sorrio. Melhor rir dos meus desacertos. Sei que de nada adianta medir forças com a sorte, pois ela vem pra você ou não! Ela até, talvez, me aguarde – persuasiva, ali na última curva do destino. Quem sabe?! Mas, por fim, nunca como hoje ultrapasso o limiar da porta que se abre tão determinada e confiante, tão esperançosa e alegre, tão desejosa de mais vida. A vida pulsa em mim ardorosamente! Certa que valeu o investimento numa boa dose de gentilezas e elegância. E no brilho contagioso das minhas retinas. ________________________________________________________