CÁCIA LEAL
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Para deleite de quem curte uma boa leitura, estou postando algumas crônicas


Esta primeira foi a ganhadora do Troféu Corujão das Letras 2015, confira:

Num fim de tarde de outono
   Era uma tarde vazia e preguiçosa de outono. Saí para dar uma volta na praia e aproveitar o restinho de calor que o sol ainda desprendia maroto em sua vagarosa despedida. 

    O imenso mar azul turquesa, quase royal, fundia-se ao longe com o painel celeste, tornando difícil distinguir onde um nascia e o outro findava. O céu diluía-se pouco a pouco em um tom diáfano, que escorria até tocar o alto das montanhas verdes no horizonte.  

   O sol já meio cansado incitava a noite a despertar e ia aos poucos se esvaindo. Gaivotas rabiscavam a tela azulada por onde bailavam e, num rasante, com a ponta das asas, tangenciaram as ondas que vinham arrebentar sobre as rochas, envolvendo-as em um manto algodoado, que deslizava e dissolvia-se na areia fina.  

   Tudo ao meu redor estava perfeito demais. Sentei-me e deixei que meus pés mergulhassem na areia refrescante e úmida.  

   Foi quando percebi um pequeno grupo de crianças surgindo correndo alegres e eufóricas em direção à água. Elas pulavam e festejavam, como se fogos de artifício lhes trouxessem as boas-novas de um réveillon. Algumas traziam os pés descalços; outras calçavam seus chinelos de tiras de borracha. Vestiam roupas surradas, bastante desgastadas pelo uso. Os olhos estavam atentos em três barcos que se aproximavam e, pelo alarido que faziam, parecia que piratas lhes traziam tesouros d’além-mar.  

   As ondas quebraram uma vez mais na praia. Quando os barcos alcançaram a parte mais rasa, seus seis ocupantes pularam na água, a fim de os trazer para a areia, para impedir que a correnteza os puxasse novamente. Eles sabiam que, muitas vezes, o mar não permite que vá embora tão facilmente o que dele vem. Os homens, com seus chapéus de palha na cabeça, já bastante suados e fatigados, com a barba por fazer e a pele queimada pelo sol, arrastaram suas embarcações até a terra firme.  

   Assim que alcançaram um local seguro, as redes jogaram o produto de um dia de trabalho intenso sobre a areia ainda molhada. As crianças dançaram, riram e cantaram ainda mais felizes ante o resultado que se espalhava com fartura a sua frente.  

   Logo outras famílias foram surgindo para ajudar na labuta de separar os pescados, e cada um recebeu sua cota na partilha dos peixes de forma igualitária. E partiram da mesma forma como apareceram, deixando-me mais uma vez com minha solidão e a certeza de que algo mágico se passara bem diante de meus olhos.  

   Tudo ocorrera tão rápido e de modo tão natural, como se fosse parte da rotina desta comunidade. E eu fiquei ali, em meio àquela paisagem vazia de novo, na companhia dos barcos que descansavam, para no outro dia retornar ao seu ofício.Uma nova onda abraçou as pedras do outro lado e o mar estalou sobre a areia da praia, mostrando que permanecia com o mesmo vigor e a mesma energia. O mundo continuava a girar.  

    As luzes do palco começavam a se apagar, o sol adormecia e a lua despertava em uma tímida linha no céu já meio acinzentado, contrastando com manchas avermelhadas que surgiam no horizonte.  

   Resolvi me levantar e visitar os barcos e suas redes. Ver se teriam algo para me contar, além de toda a cena que eu presenciara. Quando já estava bastante próxima, percebi que uma das crianças retornara, outra vez correndo. Havia esquecido as sandálias, que tirara na hora do trabalho de partilha. Ela olhou-me com aqueles olhinhos sorridentes, com a mesma curiosidade que eu possuía, e aproximou-se ainda mais. Percebi, e ela também o percebera, que um belo peixe havia sido esquecido enroscado na rede. A menina aproximou-se da rede, desenroscou o animal e, vendo-me sem nada nas mãos, levantou os braços na minha direção e ofereceu-o a mim. Tudo o que me restou fazer foi aceitar aquele humilde presente. E a menina desaparecera novamente.  

   Foi, sem dúvida, um fim de tarde memorável, que merece ser eternizado. Se eu fosse um artista, conseguiria, quem sabe, captar melhor a magia desse momento em todo o seu esplendor. Porém não o sou, e tudo o que posso dizer é que, se eu pudesse emoldurar esse peixe, ele estaria até hoje em minha sala, mostrando ao mundo o verdadeiro valor da vida.

Essa paixão que nos consome
    Assisti a uma ópera bastante interessante ontem: “Carmen”, de Bizet. Não foi a primeira vez que a vi, mas me levou a pensar em algumas questões. Sob o meu ponto de vista, a obra fala da transitoriedade do amor, diante da incapacidade de conviver com o diferente. O soldado da belíssima história, passada no cenário da Guerra Civil Espanhola, apaixonado pela linda cigana, abandona tudo para segui-la. Pobre e inocente paixão, que o consome, a ponto de aceitar uma vida totalmente oposta à que vinha seguindo! 

    O que leva uma pessoa a se anular totalmente em busca da aceitação do outro? O que leva uma pessoa a exigir tal anulação daquela pessoa a quem diz amar? Uma vida bandida, como a que a protagonista vive, é completamente oposta à que o infeliz soldado estava acostumado. E mesmo hesitando em princípio, ele acaba abandonando todo o seu mundo. Volta-se à velha questão da anulação de um dos parceiros dentro de um relacionamento. Até que ponto vale essa anulação? Ainda teimo em bater na já desgastada tecla da falta de tolerância em qualquer situação de relacionamento. Afinal, é possível, sim, conviver com a diferença.

   A cigana não aceitava a vida do soldado, com suas regras e compromissos. Ele entrou no mundo cigano a que fora convidado/forçado, por seu grande amor. O preço a pagar foi muito alto. Anular-se, abandonar seu mundo em prol do outro, em um futuro não muito distante, vai-lhe custar demasiadamente caro. É inegável que, quando se ama, se deseja ficar ao lado do ser amado, compartilhar o máximo de tempo possível. Porém, até mesmo para isso existem limites que, se transpostos, podem ser prejudiciais a sua saúde física e mental.

   Na obra de Bizet, o preço foi a morte literal da protagonista (o que seria do teatro sem o bom e velho drama?). Na vida real, pode ocorrer desde uma morte social e psicológica, até mesmo a morte física propriamente dita.

   Por isso, torno a dizer aqui: amar, sim, é preciso, com consciência e uma certa dose de racionalismo. Vamos fugir dos extremos: “nem oito, nem oitenta”! Amar é gostoso, estar apaixonado é lindo e maravilhoso, principalmente quando se é correspondido. E, embora o amor que se esperava ser pra vida toda tenha sido um sentimento efêmero e frágil, capaz de espatifar-se ao mais leve abalo sísmico, a vida prossegue e, com ela, tudo o que pode haver de belo no mundo.

   Parece difícil de acreditar, mas precisamos aprender a superar esse mundo igualmente efêmero em que estamos habitando. Tudo parece muito passageiro, tudo parece estranhamente transitório. Não esqueçamos, todavia, que tudo muda o tempo todo.