ELOISA HELENA
PORTUGUÊS
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Então era isso Então era isso. Eu tinha jogado todas as minhas cartas nesse jogo e provavelmente tinha jogado mal, porque nada acontecia de fato que me beneficiasse. Nada? Acontecia sim, eu me sentia pequena, quase uma inútil. Mas o pior era que nada era tão importante assim que valesse a pena mudar alguma coisa. Eu convivia mais comigo do que com qualquer outra pessoa. A minha companhia era minha melhor amiga ou pior conselheira. Eu ansiava por uma personalidade que não era EU. Alguém mais alegre, mais safo, mais social ou sociável. Tarde demais para mudar, me desconstruir era pior que morrer. Então era isso. A diferença entre o meu dia monótono era o monótono dia seguinte, e o seguinte que viria. Porque eu seria essa mesma pessoa que eu mesma desconhecia. Uma pessoa morna ou fria. Às vezes tinha vontade de chorar, mas do que ia adiantar? Ficava então com o olhar meio perdido, esperando que algo fora de mim acontecesse e me reconstruísse. Mas se de fato isso acontecesse, eu temeria e talvez sentisse falta da pessoa que sou hoje. Porque bem ou mal eu SOU. Então era isso. Um medo enorme tomava conta de mim, de me perder. As minhas referências estavam todas aqui e era o que eu tinha vivido e tinha sentido. Agora era ser feliz com qualquer coisa ou com coisa alguma. Talvez uma música, um sorriso alheio, um suspiro de enfado. Eu acreditava que nada poderia me restar a não ser a forma de olhar o contexto que a vida me apresentava. O meu olhar seria do meu jeito. Não mais me ver no olhar do outro. Isso seria para mim um exercício de sobrevivência e assim a minha vida teria no mínimo um sentido social: fazer parte desse cenário, desse planeta, desse mundão!