FABIANA DE ALMEIDA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
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Se eu tivesse nascido homem, teria aproveitado melhor a infância. Aproveitaria mais e melhor as brincadeiras; assistiria a todos os filmes de criança; teria corrido e caído mais. Subiria em todas as árvores, comeria as frutas e teria um cachorro. Se eu tivesse nascido homem, teria sido forte. Turbinaria meus músculos; seria atleta; jogaria vôlei, basquete – teria altura para isso; aproveitaria melhor minha adolescência. Minha força também estaria nas palavras, embora fosse melhor não usá-las. O olhar já bastaria. Se eu tivesse nascido homem, teria tido amigos. Amigos verdadeiros e poucos. Mas seria amigo de todos os que passassem por mim. Teria sido mais engraçado também. Olharia a vida com mais otimismo e não me importaria tanto com tudo. Se tivesse nascido homem, teria estudado mais. Estudaria para mim, para o meu futuro. Estudaria o que gostasse e seria bom nisso. Teria um bom emprego, e isso porque não seria um trabalho enfadonho, mecânico, operacional. Seria o trabalho dos meus sonhos, portanto, divertido. Se eu tivesse nascido homem, faria mais amor e menos sexo. Daria netos melhores aos meus pais. Netos que seguiriam a minha inteligência, a minha força, e amariam aos meus pais tanto ou mais do que eu. Se eu tivesse nascido homem, teria uma mulher incrível. Que gostasse de viajar, de conversar, de ler. Que gostasse de música e de mim. E quando envelhecêssemos, estaríamos felizes pela vida que tivemos, e poderíamos morrer em paz. Mas, se eu tivesse nascido mulher, teria sido menos tímida e mais engraçada. Teria aproveitado mais a minha infância nas brincadeiras de roda, de rua e nas só de meninas. Teria menos medo. Se eu tivesse nascido mulher, teria sido bonita. Beleza que todo mundo nota, não de corpo, mas de alma. Teria curtido melhor a minha adolescência, ido a mais discotecas, a bibliotecas, a teatros e a saraus de música. Seria poeta. Se eu tivesse nascido mulher, teria estudado também. Estudar me daria liberdade, autonomia, independência. Teria lido mais. Se eu tivesse nascido mulher, faria mais sexo e menos amor, e quando chegasse a hora, teria a graça de ser mãe. E teria a sensibilidade de cuidar, de ninar, de ensinar a vida. E meus filhos seriam bons netos aos meus pais. E também teriam sensibilidade, astúcia e amor. Se eu tivesse nascido mulher, teria um homem forte. Que gostasse de filmes, de rir e de brincar. Que gostasse da natureza e de mim. E quando envelhecêssemos, estaríamos felizes pela vida que tivemos, e não teríamos medo da morte, pois teríamos a certeza de que nos encontraríamos em breve. E quando eu nascer – se é que nascerei – é possível que me esqueça. E é possível que a vida se torne dolorosa. E intensa. E intolerável. Mas ainda assim, viverei. E não fará diferença em ser homem ou mulher. E encontrarei pessoas em meu caminho que me farão lembrar, e aprender a enxergar a sutil presença da oportunidade e do encontro. Breviarium As ruas estavam tiritando de gente. O sol escaldante machucava os olhos enquanto abafava ainda mais o calor debaixo das suas roupas fétidas e sem cor. Levava consigo apenas um cobertor e um saco cheio de tralhas, mas que serviam bem. Invisível na multidão poder-se-ia dizer que nem os céus o podiam ver. Seu estômago apertava a cada brisa que trazia o cheiro de uma guloseima ou de um almoço de restaurante. Sede. Já não a tinha. Era um dos sintomas de sua desidratação. Encostou-se a um muro pixado com nomes de gangues e sentiu o mundo rodar. Não aguentava mais caminhar, seus pés imundos não sentiam mais as pedras e nem o quente do asfalto, o calcanhar rachado sangrava. Suas pernas finas tremiam insensíveis à sua vontade, sua cabeça latejava. Seu corpo todo estava febril, os olhos vidrados foram se fechando lentamente. O sangue em suas veias borbulhava, suor gelado escorria por todos os poros. Não conseguia mais engolir, seu coração sofria tanto pra bater que começou a desacelerar. Foi escorregando pelo muro até sentir o chão. Olhava para o alto involuntariamente, seus pulmões ainda lutavam. A pele seca, inchada, descascada, drenava um líquido viscoso. Suas coisas esparramaram à sua volta, e despejou o nada amargo que havia no estômago. Ilusão, dor, arrependimento. Abriu os olhos e, dilatados, miravam o fogaréu incandescente do sol. E olhou tão profundamente que transcendeu o clarão e atravessou esferas intransponíveis. O que se figurou lhe era conhecido. O jardim, a criança correndo, a mulher sorrindo. Ele entendeu. E chorou. Enquanto o sorriso se avizinhava, seus olhos choravam e ele sorriu também. Já não sentia a náusea, a dor, a solidão. Desligava-se daquela máquina inútil, doente, e do alto viu o corpo inerte e inócuo. Sorriu. Vitorioso seguiu rumo à sua visão. E o sol quente ainda inundava as ruas com seus raios incandescentes. A multidão a passos largos e rápidos seguia, cada qual no seu mundo, introspecto. Indiferente.