MARCIA ETELLI COELHO
PORTUGUÊS
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SÃO TANTOS FRANCISCOS... 
 

Francisco é o nome do santo padroeiro
da natureza itálica e dos animais.
Irmão do Sol, vida e luz para o mundo inteiro.
Servo de Cristo, instrumento de vossa paz.

Uberaba contempla um grande missionário,
cândido no espírito, um exemplo de fé.
As letras de Buarque encantam o cenário.
Em Navarra, outro santo, também Xavier.

Francisco é o rio que se apresenta mineiro,
embala as carrancas que afugentam o mal.
Com a graça de ser o Nilo brasileiro,
berço de lendas, integração nacional.

Muitos são os Franciscos e, entre os que eu conheço,
meu coração se abre para aquele Odará.
Suas águas doces me serviram de espelho.
Em seu leito manso descobri o meu lar.

Assim como ele, eu não sei ser pequeno.
Avô carinhoso, deixo-me navegar.
As gaiolas flutuam no fluxo ameno,
e eu sigo o meu curso, sonhando com o mar.

Se, na prova maior, a bondade se cansa,
nossa força servil se desfaz, traiçoeira.
O rio afoga, sem dó, a quem nele se lança.
Mágoas eu dissipo na sutil cachoeira.

No apogeu do silêncio, nós dois temos medo.
Ventos distantes nos convidam a sair.
Canastra trancada... Quem detém o segredo?
Raízes fincadas... Tão difícil partir!

Na calada da noite, o progresso é urbano,
antecipo a saudade, embargo minha voz.
Como águas singelas compõem o oceano,
há um rio São Francisco em cada um de nós.


Poesia Ganhadora do Primeiro Lugar no Concurso Minas do Ouro do Congresso da SOBRAMES 2010 (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores) e do Prêmio Bernardo de Oliveira Martins 2010. 

PERDIDO EM UMA ILHA DESERTA 
       
Renato está perdido em uma ilha deserta. Observa sua roupa rasgada. Não consegue definir quantos dias se encontra ali. O sol queima sua pele clara. Bolhas nos pés denunciam a busca frustrada por outra vida. Ele, que sempre viveu no conforto, não tem o mínimo para sua sobrevivência. Na terra árida, não encontra frutos para saciar a fome. No céu sem nuvens, não enxerga pássaros para devolver-lhe a esperança. A angústia mina suas forças. O silêncio é atroz.
De repente, Renato avista um barco, ao longe. Seu coração dispara. Acena desesperadamente. Não há nada para fazer fogueira. Não existem árvores para subir. Apenas seu corpo pula, frenético, querendo chamar a atenção. Mas o barco se afasta e Renato emudece. Ajoelha-se... Prostra-se no chão.
No leito 22 de um hospital psiquiátrico, Renato acorda assustado. O pesadelo repetido o atormenta. O abandono onírico diante de uma natureza estéril intercala-se com os delírios confinados por quatro paredes. Os gritos frequentes impõem um poder que não mais possui.
Renato não aceita limitações.
Desde jovem, preparou-se para conquistar riquezas, mas não aprendeu a lapidar seus sentimentos.
Ergueu impérios sem alicerces que viu, estarrecido, tombarem, um a um.
Refugiou-se no atol das drogas. Percebeu, tarde demais, que não havia saída.
O breu reforçou sua solidão.
Renato tenta fugir. Os seguranças, porém, são mais espertos. O médico aumenta a dose dos remédios para acalmá-lo. Em vão. Todas as noites, ele agita-se com o mesmo drama: a ilha deserta, o barco distante, o desespero, a decepção.
Certa vez, o barco muda o rumo e se aproxima. Renato nem acredita que será resgatado. Sobe no barco, com as pernas trêmulas, sem olhar para trás. Só lhe interessa a água fresca que vem ao seu encontro.
Rostos amigáveis acolhem seu cansaço. Confortam a dor com palavras desconhecidas, no embalo suave das ondas do mar. Renato alegra-se. Temia nunca mais ouvir nada além da própria voz. Seus olhos brilham ao verem gaivotas sobrevoando o porto, bem mais próximo do que pensava. E ele sorri, como há muito não fazia.
No hospital, o enfermeiro inicia seu plantão. Vistoria os quartos. Estranha a quietude de Renato. Chama-o, mas ele permanece imóvel. Ninguém sabe definir a hora de sua morte. Mas suas feições estão tranquilas com o leve sorriso de quem, após uma noite tenebrosa, acolhe os primeiros raios de sol. 

Conto agradeciado com a Primeira Menção Honrosa do Prêmio Flerts Nebó 2011.

IMORTAIS Os sonhos não morrem... Enfrentam entraves do corpo e da mente, superam barreiras que o destino não viu. Dissolvem a angústia de uma alma dolente que assombra a saudade com o que desistiu. O tempo sustenta o correto caminho, reverte as vertentes, destaca os sinais. Em grupo é mais fácil, melhor que sozinho. Partilha que soma, duplica e refaz. Sonhar acordado, recanto da lida, restaura a energia do mundo real. Um simples desejo, ilusões, fantasia, a louca utopia da paz mundial. Os sonhos são sopros do que o íntimo almeja, divina alavanca, esperança motriz. Diversos formatos, a mesma viceja: ingênua querência de ser mais feliz. No embalo da vida, se a dança termina, o sonho rodeia, escolhe outro par. Orquestra se afina e fascina a menina que apanha os anseios espalhados no ar. A menina sou eu... E eu ainda acredito nas setas brilhantes dos meus ideais. Por pura magia refletem no escrito enredos e cenas, alegres finais. Quando hoje as sombras enfim se enternecem, estando a um passo de abrir os portais, descubro que os sonhos até adormecem, porém, de teimosos, não morrem, jamais. PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2015