HELENA MONTEIRO
PORTUGUÊS
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Viva o amor


Helena Monteiro
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Poetisa, escritora e psicóloga




Trezentos anos antes de Cristo, o filósofo grego Aristóteles já se preocupava e analisava a natureza do amor. Para ele, era o sentimento dos seres imperfeitos, posto que, a função do amor é levar o ser humano à perfeição.

Desde então, através dos séculos tem-se indagado sobre o amor. Outro filósofo e mestre de Aristóteles, Platão no livro O BANQUETE, cita o amor: “... parece-me que nos convém, aqui presentes, venerar o deus. (...) acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder,...”

As religiões, dentre elas, o cristianismo faz uso do poder do amor para se proliferar, vejamos o sermão de São Paulo aos I Corintios: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”.

Sem deixar de fora os poetas, que bem cantam o amor, citemos Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver;/É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer;”.

Só nos resta agora indagar que coisa é essa que através dos tempos move as ações humanas, alimentando sua busca? Que coisa é essa que ousamos escrever sobre a sua manifestação e poder? Que coisa é essa que em pleno século XXI continuamos tentando compreender? E nessas tentativas nos equivocamos quando acreditamos que primeiro nos apaixonamos, e, só depois, é que amamos. Outras vezes, cremos que o amor nasce de uma grande amizade. Ou então, arremessamos o amor – feito uma bola – para o tempo e dizemos a nós mesmos que o amor só acontece quando estamos, suficientemente, maduros para conhecê-lo, e, só o tempo será capaz de trazê-lo até nós. Enquanto isso devemos aguardar, o que fazer? Se tem que ser assim: paciência!

Dessa forma, continuamos meros espectadores do amor, a olhá-lo pelas frestas das janelas. Ficamos ansiosos ou esperançosos à espera do amor. Muitas vezes o percebemos como um parente ancestral que em data especial nos fará uma visita, então, o aguardamos no Natal. Se ele não aparece, depositamos a esperança no ano novo. Se ele também não vem, aguardamos no carnaval. Caso não venha, assim mesmo, continuamos a esperar e, passamos a acreditar, piamente, que o amor é feito de espera.

E por pensarmos desse modo, perdemos um precioso tempo em que deveríamos estar amando. Amando, sem querer explicá-lo, sem querer entendê-lo, sem querer desmistificá-lo, sem querer saber sua origem, sem esperar que ele venha de fora, pois ele habita dentro de nós desde sempre. Para que se ame dessa forma basta que nos entreguemos a ele, nos doemos a vida, a natureza, ao universo, aos outros e que conspiremos a favor do amor.

Só então, nos sentiremos perfeitos, plenos e podemos ir além do mestre Aristóteles e questionar por que temos que nos considerar seres imperfeitos para sermos merecedores do amor? Por que não é justamente o contrário? Por sermos perfeitos é que o merecemos! Se a natureza é perfeita, nós também somos natureza, logo somos perfeitos. Quem ousará questionar a perfeição que há no vôo leve e gracioso do beija-flor? Ou a perfeita graça da borboleta? Ou a perfeita operosidade e engenharia do João-de-barro?

Enfim, só nos resta amar todas as coisas a nossa volta: a luz do sol que nos dá bom dia; os pássaros que vem cantar no telhado; a água viva que bebemos; a energia que tiramos dos alimentos. E assim, notamos que o amor não é posse, não é desejo de complemento carnal ou sexual, mas sim, compartilhamento de vida. Caso não consigamos viver o amor resgatemos a menina ou menino que dorme dentro de nós, que sabe nobremente viver o amor chegando a dar vida a boneca ou pipa, beijos e abraços, sem esperar nenhum tipo de agradecimento.