SIMONE MANCINI CASTILHO
PORTUGUÊS
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Martim-Pescador Foi em agosto que a mãe dera à luz Martim que, nascido cego, conhecera somente a escuridão. Dos olhos para fora, as irmãs Lúcia e Marina deram contorno à sua infância, e o dia-a-dia junto ao mar tratou de preenchê-lo com sua água viva. Sem o dizível das imagens, as cores francas ou o explícito enquadramento do olhar, Martim via sem fim. Conhecia a praia larga, o macio e o duro vento, o sabor da chuva por perto, o cheiro da areia molhada pisada já noite, o mar do dia seguinte. E foi ainda rapaz que mergulhou em sua profundidade, revelando-se o melhor pescador de sua ilha natal. Seu dia começava com a avaliação dos sinais naturais: punha-se de pé em frente ao mar trocando segredos mútuos, ouvindo a extensão da maré, a pressão do vento no corpo, sua direção, se traria ou não chuvas ou se seria suficiente para dar força às velas. Sabia ouvir as ondas e compreender se fariam espuma ou se o mar seria um berço com um leve movimento de abano. Encontrariam cardumes? Na superfície? Ou partiriam para o peixe de profundidade? Além de respondê-las, conseguia pressentir o horário do dia em que ocorreriam e ninguém saía ao mar sem consultá-lo. Martim não via, vivia o mar e trazia-o dentro de si em profundo respeito. Mas outros rumos estavam reservados a Martim-pescador, como era largamente conhecido na ilha. Sozinho no barco, o mar do final daquele dia devolvia-o imerso no silêncio das águas calmas do trabalho findo quando, já perto da praia, finos e aflitos sons despertaram sua atenção. Tão frágeis que Martim chegou a duvidar se, de fato, os ouvira. Mas, sim, vinham de pequeninas aves boiando à mercê das águas, num ninho desprendido das vegetações junto às pedras. Martim por certo não os vira, mas a presença das vidas diminutas definitivamente o atraíra para dentro das águas que até então sua pele não ousara conhecer. Sem o chão sob os pés, Martim pela primeira vez sentiu a água envolver-lhe por completo, num misto de prazer e pertencimento que aos poucos foi lhe tomando o fôlego, como se quisesse absorver sua essência. O mar lentamente tragava-lhe a alma e sorvia o sopro de sua existência. Emergindo e submergindo, engolia e respirava o oceano da sua vida, indo-se, esvaindo-se, ao mar, fora de si, adentro, agora um só. Martim se foi. E o mar permaneceu... carregando, no mesmo abraço, o ninho com as vivas e pequeninas aves e o corpo de Martim-pescador.