REJANE MACHADO
PORTUGUÊS
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METAMORFOSES Rejane Machado São bonitas as fábulas da Mitologia, que Ovídio nos revela. Imagine-se Pan apaixonado por uma Ninfa que lhe foge ao assédio. Como são vingativos estes deuses! A pobrezinha corre pela floresta, tenta esconder-se, ocultar-se entre a vegetação. Como se agita o seu pequeno coração, como bate, desgovernado, sentindo medo, terror, abandono cruel, entregue à sua própria sorte! E ele, cego de paixão e de desejo a procura por todos os lados. Dispõe de poderes que ela não pode imaginar e com os quais nem pensaria em competir. Resta-lhe tão somente ficar absolutamente quieta, sem respirar, que ele não a descubra, assustada, entre as folhagens espessas do bosque; mas os deuses têm poder, têm malícias, têm mil olhos a que nada escapa. E a sorte da pobre Ninfa está traçada. Julga-se salva, imagina que ele a esqueceu, não tem o direito de se descuidar da segurança, mas a noite se aproxima, ela precisa voltar ao lar, não pode, não deve ficar ao relento, sujeita aos perigos da floresta. E o carro de Apolo já se precipitou desgovernado, no mar oceano, reino de Poseidon. O mar encheu-se de cores sanguíneas; aos poucos tornar-se-ão violáceas. As trevas, em breve, cobrirão todos os espaços. E ela não pode permanecer ao relento. Sai do esconderijo com vagar, às apalpadelas, cuidadosa em não ser surpreendida. Dirige-se ao rio. Não há outro caminho. Atravessá-lo é a sua meta, é a sua salvação. Do outro lado estará livre da perseguição cruel. Louca! Temerária! Não estava preparada para aquilo. O deus é cruel, vingativo e não suporta uma rejeição. Surpreende-a em plena fuga, quando pensava estar quase salva. Ele a quer e diante da sua recusa, ofendido, transforma-a em um bambuzal viçoso, cantante: Não queres ser minha, não serás de ninguém. Quem imaginará que o som do vento seriam os seus gritos se ela ainda tivesse voz? Ela sobreviverá. O rio é generoso e não lhe faltará alimento. Seu verdugo, gentil, corta-lhe um galho e o oferta ao cantor sublime que dele fará uma flauta, e sua saga permanecerá. Este é Orfeu, que maravilha a todos os que ouvem o som incomparável daquele instrumento. É tão pura a música que sai daquela flauta! E tão encantadoras melodias brotam daquela haste verde, deslumbrando seres e coisas. A Natureza se dobra ao canto de Orfeu. Amansará as feras, acalmará os ventos, sossegará os ribombos da tempestade, trará calma e paz a todos os ambientes. E cederá aquela flauta mágica a certos poetas, que cantarão lindamente o amor. Não a qualquer bardo, mas àqueles que tiverem sensibilidade para fazerem reviver no instrumento os anseios do coração de uma jovem assustada. Cuja beleza a perdeu, porque não se contraria impunemente um deus. Ele a queria e ela se negou, tentou enganá-lo, escondendo-se. Baldadas tentativas. Quando pela primeira vez ele a viu, selou seu pobre destino, porque o altruísmo não é apanágio dos deuses. Do seu código de valores não faz parte a renúncia, a sublimação. Outra Ninfa veio banhar-se naquele mesmo rio da Antigüidade. Aretusa era o seu nome. Tão bela, que as águas a envolveram cantando de prazer. O que chamou a atenção do rio, ao acordá-lo e tirá-lo da sua contemplação, levantando-o do seu leito. Ele vê Aretusa, admira suas formas magníficas. E se apaixona perdidamente por aquela bela criatura. Um amor tão desesperado, avassalador, decisivo e forte, como são os amores das montanhas pelas nuvens, das marés pelos rochedos e penhascos. Ele, o rio poderoso, não resiste, encrespa-se e a arrebata, envolvendo-a nas suas inúmeras águas. Decide e realiza imediatamente uma cerimônia ancestral e definitiva: casa-se com ela. Liga suas vidas. Para sempre. Para a eternidade. Transforma a bela em uma fonte sempre a correr. E ela dessedentará a todos os sedentos. Poderão todos beber de suas águas, mas ela somente pertence ao rio. Mais tarde um belo jovem caminha pela floresta. Sente-se cansado e procura um remanso para encostar a cabeça. Virá sentar-se à fresca margem deste mesmo rio, já aplacado em seu furor. O som das águas a correr entre as pedras, a frescura das plantas, o perfume e as cores da vegetação o encantam. Curva-se, coloca a mão na água, sente a sua frialdade, brinca um momento com as espirais que o agitam, perturba levemente a placidez anterior. Mas quando as águas se acalmam, o rio oferece-lhe um espelho em que as personas podem se mirar e descobrir-se. E o que ele vê o deslumbra: uma imagem de formosura sem par. Onde encontraria outro ser tão belo? Que semblante plácido! Que traços perfeitos! Apaixona-se de imediato pela figura que vê. Sem saber que pela sua própria imagem refletida no espelho d´água. E não resiste. Os amores destes seres da Mitologia são urgentes, intempestivos, não podem esperar. Atira-se ao encontro de si mesmo. Mas os deuses sabem que um ser tão belo não poderia simplesmente desaparecer. E concedem-lhe uma compensação. Pastores e ninfas que vierem se banhar descobrirão uma estranha e bela flor. Seu aspecto encanta, seu perfume arrebata. Narciso. Para sempre. Ali, também, nas suas margens, Níobe chora em desespero. Que lhe aconteceu? Qual a razão de tão grande desgosto? A perda de seus filhos. Não, não se ofende impunemente a nenhum deus. E se se trata de uma deusa- oh Júpiter! - muito pior, o ciúme de Latona não tem contemplação. É irracional. E o coração feminino sempre será um mistério indevassável. Por que Níobe se opunha ao culto religioso que se fazia à outra? No coração da Vestal começa a nascer um sentimento estranho, que precisa ser aplacado, e a antiga inconformação diante da desigualdade vem à tona. Pois que tendo apenas dois filhos, Diana e Apolo, - não pode aceitar a fecundidade da outra. Intolerável a felicidade da mãe de tantos guerreiros – (Homero nos dá conta de pelo menos 12, entre varões e belas jovens). E quando os moços fazem seus exercícios, próximo a Tebas, flechas invisíveis os atingem. As irmãs acorrem, assustadas, e terão o mesmo trágico destino. À Níobe, esposa de Anfion, o rei da grande cidade, só é concedido chorar, arrancar as vestes, cobrir-se de cinzas, tomar-se de um tal sofrimento que a imobiliza. Talvez algum deus, penalizado pelo seu sofrimento, ou por não suportar a manifestação da dor, porque nos reinos do Olimpo só se admite o prazer e os folguedos- a transformará num rochedo. Que arrastado pelos fortes ventos estacionará na distante Lídia, onde continuará pelos tempos, a verter suas sentidas lágrimas. E os seus lamentos não ofenderão os ouvidos delicados daqueles seres excepcionais! Completamente trágico. Mas afinal a tragédia é a marca destes antigos contos. E herança indelével que nos deixarão estes caprichosos deuses da Mitologia, a nós, fracos seres humanos, que teremos por destino inexorável conviver com esta marcas eternas. E poetas de todos os tempos encontrarão para sempre sua inspiração nessas histórias de amores tempestuosos, arrebatadores e sentimentos exacerbados. ___________________________________________________________ Sutileza ardilosa A poesia de Oleg,- belíssimo texto, fluente como o rio de Heráclito, no qual homem algum se banhará duas vezes, permite muitas interpretações: é difícil. E difícil não quer dizer hermético, o sentido desta longa e informal reflexão, na qual afloram lembranças - de que não se pode libertar, que cortam como estilete agudo e incômodo, e cada vez que se move enterra mais fundo e sangra, inundando o coração de imagens dolorosas. Ao tentar livrar-se,-muito mais se maltrata, magoa-se, acordando recordações vivas de vozes e gestos perdidos na distância dos tempos. No íntimo vive ainda- e viverá para sempre, pelo milagre da permanência da palavra, o herói que foi, de quem sente saudades. Deslocamentos constantes trouxeram-no para nós, sempre em busca da terra ideal, da pátria perdida e distante no espírito do homem que é salvo pela poesia, mas incapaz de esconder as cicatrizes das quais jamais se libertará, porque foram impressas na alma a ferro e a fogo. Texto belíssimo, que não se oferece fácil, ou melhor, que permite muitas leituras, entre elas uma aparente, e outra, mais difícil ou impossível de ser desvendada, sob o signo de uma tristeza mansa. Perpassa uma poderosa imagística nessas cores que desdobram imagens nítidas. “Uma gota de tinta lilás’ na ponta de uma pena, abre um portal para a filosofia, com seus questionamentos sobre um tempo que não pode ser medido convencionalmente. Cerejas e papoulas vermelhas, o amarelo, o verde, o preto, o azul nos olhos da inesquecível avó, e finalmente o branco, a fusão de todas as cores, colocando num mesmo plano imaterial toda a massa pesada das experiências que moldaram sua personalidade final, motivo da sua indefinição enquanto indivíduo. Numa primeira e superficial leitura observa-se explícita memorabilia. Sabendo-se que veio de longínquas paisagens, de frias e intensas névoas, que foi capaz de “abdicar do sonho em prol da memória”, isto permite ao analista vários caminhos de abordagem. Confessa trazer dentro de si um mundo: um sítio impossível de localizar no meio de uma campina - cujo nome a memória rejeita- coberta de flores exuberantes. Mais tarde identificaremos essas flores que enfeitam esse espaço sem nome, onde viveu sua infância e começou a plasmar sua personalidade. São papoulas vermelhas. E saberemos: há frutos, também: cerejas maduras, suculentas: pretas e vermelhas. A se destacarem como mancha colorida sobre este campo impossível de nomear. “Quem sou”? - questiona-se, indaga em longas lucubrações mentais em muitos e profundos mergulhos interiores, num corte vertical à procura do verdadeiro eu. E o encontrará? Homem algum é singular, e ele se reconhece múltiplo. Definir-se é importante, lhe concederá segurança. Chão para pisar. A infância é o território mítico que dará suporte à envergadura do jovem, do guerreiro que é preparado para as lutas que o esperam e não o pouparão na escalada em busca de sua realização humana. Mas essas vivências intensas serão sua reserva e segurança quando tiver que deixar o espaço protegido para enfrentar os mares bravios que o aguardam ao Norte, nas tentativas de regressar a Itaca, ele, um ser harbóreo. Na alma levará marcas indeléveis. Adquiridas nessas excursões comandadas por Khronos X Kairos em confronto, meditando, em consequência longos poemas intimistas. Como se cavando fundo na memória, material de que se utiliza para uma viagem ao âmago de si mesmo em busca de claridade para ver a luz (para ficarmos no clima filosófico que será sempre a sua escolha de vôo). Não qualquer luz, mas uma luz “olímpica”, clama ao Senhor, porque deseja iluminar grandes feitos, e pede lhe conceda calma; talvez para organizar o grande conteúdo mental que guardou de uma vida rica e descuidada, incapaz de prever a hecatombe que daria fim ao seu amável mundo. (Khronos em atividade). E através de uma caminhada existencial por estes dois tempos completamente antagônicos descobrirá sua vera persona. Em oposição estão o tempo do não-ser, e o tempo da realidade transubstanciada em experiências do possível imaginado, enquanto ente movido por várias dimensões, que correspondem a toda sua trajetória humana. - E então já dispomos de alguns elementos para o esboço que perseguimos; é alguém que diz chamar-se Crates, e ser natural de Tebas. Entretanto, mostra-se um desconhecido (pois indaga sobre quem é !?) Insatisfeito, procurando definir sua identidade, realiza um longo mergulho interior à procura da sua verdade: a meninice feliz, as figuras inesquecíveis, marcantes, deixando na alma, impressas, influências benfazejas que formarão o arcabouço desta definição e o farão concluir: sou um homem. E um homem, sabemos, é a medida de todas as coisas. Mas para que o desvendemos, é dizer pouco. A partir daí -será um fugitivo, concluímos, que se acoberta sob uma personalidade angustiada que sofre “saudades de um Éden desmoronado”. E uma ligeira vista por outras páginas desvendará a razão do seu estranhamento: as muitas lutas, as imensas perdas e por isso a “morna tristeza que (o) borrifa”. Que perpassa esse texto sutil, e fortemente marcado por melancólicas e pungentes lembranças. Ao acaso, deslindamos outros enigmas. Sua origem longínqua, vindo de um país ao Norte, razão porque se denomina “um hiperbóreo”; habitou, crédulo, uma cidade varrida do mapa pelos romanos, na exacerbada ambição por aumento do Império,- apesar dos avisos do omnisciente avô que previu a derrocada da Grécia. Viu ruir o mundo antigo, seus habitantes feitos escravos, cerca de quase dois séculos a.C., e no retorno a Corinto atravessou o nebuloso período da juventude, viveu sagas que lhe permitiram ingressar no mundo adulto. (Kairos, um tempo sem medida). Sob forte clima sinestésico, onde as cores e os gostos têm papel predominante, desfilam visões nas telas do espaço vivido e projetam-se para o futuro, quando suas lembranças habitarão o território do que foi. Assume-se um heleno, habitante de Corinto, já sabemos, e vivencia experiências fabulosas, patrocinadas pelo próprio processo de existir: a ilusão da maturidade, incluindo armadilhas; incorporando Midas, sentindo o poder da posse material com toda sua carga de equívocos não estranhos ao amadurecer. São indícios ainda nebulosos para nós que buscamos conhecer este que se oculta por trás dos disfarces da poesia. O poeta, afinal, segundo Fernando, o Pessoa, é um fingidor. Teimosamente procuramos acompanhar essa trajetória poética inteiramente marcada pelas referências eruditas de um mundo perdido, entretanto real a partir de figuras míticas, de aventuras de antigos heróis que a bordo de antigas embarcações, cruzavam o Mediterrâneo, levando um jovem. Que deixando a segurança da torre onde guardou o que de mais caro a vida lhe deu, sabe cultivar aquele tesouro que é a fonte de toda sua inspiração neste novo tempo (Khronos) em que se define como Oleg Andreiev, e escreve um poema único em quase setenta páginas, tentando livrar-se do peso memorável. Dividindo a emoção que do contrário o subjugaria irremediavelmente. Nesse território onde a morte não tem poder, as coisas em sua frescura e nitidez se oferecem,” o vinho caro na geladeira, a mesa e a poltrona de palha” do tempo de agora, como também a lembrança viva das pessoas que se preservam para sempre. O acesso é restrito, entrada negada a estranhos, mas ele, parte deste mundo preservado,- poderá voltar quanto queira, e encontrará um riso amigo de avô, um companheiro sempre disposto a embarcar numa trirremes, ou fazer velas, chegar a cidades perdidas,-- através dos livros, através das grandes epopéias, ir e regressar de acontecimentos que revivem etapas, seja no Egito, Grécia, ou outro lugar qualquer ao longo do Mediterrâneo, integrar-se nelas, ser um natural e praticar atos comuns à época, tais como comerciar com grandes capitalistas de épocas remotas, gastar sua bolsa em tabernas vulgares com bebida e jogos de dados, desfrutar de prazeres baratos e sem poesia com hetairas vulgares, passar por sustos e perigos de salteadores que por sorte o libertaram, após despojado daquilo que o fazia sentir-se dono de metade do mundo e em seguimento o reduz à expressão mais simples do despojamento e da carência. Sempre os dois tempos em luta a determinar o destino de um homem. Empreender batalhas, desbravar espaços desconhecidos, desvendar territórios ignotos, tudo são experiências a somar e refinar o espírito, ritos de passagem para a madurez. Algumas vezes vence, noutras é dominado pelas Fúrias atentas ao pêndulo da sorte. Mas estes confrontos com o lado sórdido e sem poesia da vida. o fizeram crescer. E sempre regressará à sua Ìtaca, ferido, coberto de cicatrizes, mas de alma íntegra, porque foi bafejado por Orfeu que lhe ofertou, ao nascer, um presente inestimável: uma lira de onde tira as mais belas notas. Isto o defenderá do canto das sereias que não conseguirão distraí-lo da rota que traçou, passando ao largo da ilha maldita onde perderia sua alma, mas que o surpreendeu quando encontrou, deus que era, uma bela mortal que o fez desistir da sua condição divina e o trouxe para “um país singular” terra dominada por Phebo, cuja bandeira reproduz “um losango e uma esfera”, a qual assumiu para sempre. E a nós cabe lamentar pelo fracasso em desvendar esta poesia belíssima quanto estranha. Difícil, havíamos dito... Oleg Andreiév Almeida Memórias de um hiperbóreo, 7 Letras, Rio de Janeiro, RJ, 2008