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O COTIDIANO DOS (AS) TRABALHADORES (AS) DO PETRÓLEO – ENTRE POSSIBILIDADES E SUBALTERNIDADES NO SEGMENTO DE GLP

A vida sindical não está apartada da vida social. As relações no sindicato entre trabalhadores e líderes sindicais, entre homens e mulheres se dá a partir das vivências que esses sujeitos tiveram em suas trajetórias na vida.
As condições de subsistência que enfrentaram, ensinaram a eles o que é viver, o que é superar dificuldades, o que é lutar pelo ganha pão diário.
No setor petróleo, mais do que em outros setores da vida social e do trabalho, truculência e medo são binômios que se entrelaçam nas relações entre os sujeitos. A contradição entre esses sentimentos é que fazem os homens e mulheres desse setor ser quem são. Não há como pensar esses trabalhadores e trabalhadoras sem distinguir suas atitudes exarcebadas tanto na passividade medrosa para defender seus direitos como no ataque furioso àqueles que atacam esses direitos. Não seriam a truculência e o medo formas de subalternidade?
Mignolo (2003) se refere à subalternidade como uma forma de pensar colonizada, onde as realidades locais são vistas a partir de parâmetros ocidentais, tidos como universais, únicos e verdadeiros.
Voltando a minha pergunta anterior e tentando fazer uma reflexão mais aprofundada sobre a forma de ação desses trabalhadores e trabalhadoras, vêem à minha mente novamente a palavra sentimentos.
Quando penso, eu ajo ou sinto? E você, que está lendo esse artigo? Quando você pensa, o que te faz colocar o pensamento na ação? O que nos faz superar os obstáculos e ir em frente? Analisando detalhadamente minha ação no mundo, percebo que meus sentimentos são preponderantes na potencialização do meu agir. Ajo porque me emociono, porque me sensibilizo para fazer algo que o meu pensamento e o meu sentimento dizem ser bons para mim ou para minha coletividade.
Assim, a ação de homens e mulheres no mundo não prescinde da pulsão do desejo, da necessidade de construir, destruir e realizar.
Não há como reduzir ou simplificar o sentimento humano. Somos seres emocionais, assim como somos seres racionais e de ação, tudo ao mesmo tempo.
A ciência ocidental não é neutra. Ao desqualificar o sentimento como potência humana, identificando e classificando-o como elemento da desordem e da falta de organização, divide a subjetividade humana em dois hemisférios. A razão estaria no hemisfério positivo, ocidental, do bem, da ordem, do controle. O sentimento estaria no hemisfério negativo, periférico, do mal, da desordem, do descontrole. Não é a toa que Morin (2001) discutindo o paradigma da complexidade irá denunciar de forma bastante contundente:

“A resistência à desordem não é só metafísica; também é moral. É preciso rejeitar a desordem dos sentidos, a desordem das pulsões, as desordens políticas. É preciso recusar a desordem na sociedade porque a desordem é crime, é a anarquia, é o caos. Portanto, a desordem foi vigorosa e eficazmente recusada pelo pentágono da racionalidade como uma subjetividade ignorante, como debilidade, incapacidade de chegar à razão científica.” (Pág. 212)

Assim, ao examinamos o conceito de subalternidade de Mignolo (2003) e cruzarmos com os estudos sobre a complexidade de Morin (2001) compreenderemos que nossa subjetividade foi forjada na noção científica ocidental de que a razão é superior à emoção.
Grosfoguel (2008) irá ampliar mais ainda nossa compreensão quando nos remete as formas de hierarquização existentes na sociedade. Para ele, o capitalismo, enquanto sistema econômico, por si só não é o único responsável pela formação de uma hegemonia civilizatória ocidental. Ele vai mais longe em suas reflexões, denunciando a forma de dominação eurocêntrica que se instalou no mundo, através da construção de uma cultura que hierarquizou o conhecimento humano, dividindo-o em conhecimentos superiores e conhecimentos inferiores. Ao fazer isso, é possível perceber, como ele mesmo diz as várias faces da colonialidade ocidental se manifestando ao longo dos séculos:

“Pasamos de los pueblos sin escritura (pictografia en lugar de letras) em el siglo 16, a los pueblos sin historia em el siglo 18, a los pueblos sin civilización em el siglo 19, a los pueblos sin desarrollo a mediados del siglo 20 e ahora a los pueblos sin democracia a comenzios del siglo 21.” (Pág. 3)

O capitalismo enquanto sistema econômico é um produto dessa civilização, formado dela e imposto por ela, e sua dimensão economicista estendeu seus braços por toda parte dinamizando o formato de uma civilização pensada e gerida pela Europa, num primeiro momento e pelos Estados Unidos da América nos últimos sessenta anos .
Mas, afinal, o que essas reflexões nos trazem de novo para pensarmos as relações de trabalho e as formas de poder que se articularam no mundo sindical, particularmente, no sindicato em que atuo?
A partir dessa perspectiva, pretendo me deter nesse artigo num segmento específico de sujeitos trabalhadores que formam uma categoria dentro de nosso sindicato que denominamos de gaseiros ,
Quais as expectativas desses homens que passam os dias carregando e descarregando nas costas bujões de gás de 13 kg? O que esperam da vida? O que esperam de seu trabalho?
O trabalhador gaseiro é um trabalhador predominantemente homem, negro, com uma musculatura forte e vigorosa que lhe garanta as condições de sustentar o trabalho pesado de carregar e descarregar os bujões cheios de gás para os caminhões que levam de 1.000 a 2.000 unidades desses bujões para os revendedores de gás das diversas regiões do estado do Rio de Janeiro. É uma atividade penosa e perigosa. Por mais forte que seja o trabalhador, sua sina, ao longo de alguns anos nessa atividade, é ter problemas sérios de coluna.
Numa atividade tão penosa e desgastante como essa, como se explica que esses trabalhadores se submetam, trabalhando 10, 12, 15 horas diárias? A hora extra que recebem não compensa a degradação de sua saúde. A legislação trabalhista assegura-lhes o direito de não fazê-las, mas eles se submetem.
Seria o dinheiro somente? As necessidades materiais? O que faz com que esses trabalhadores continuem se deixando explorar, sendo violentados por uma carga de trabalho excessiva que os deixa doentes, estressados e agressivos, tirando deles a possibilidade de compartilhar e conviver com a família e com seus companheiros?
Segundo Jair, líder sindical do segmento de GLP desde 1990, por várias vezes o sindicato tentou impedir a realização de trabalhos extras nas empresas de GLP, mas os próprios trabalhadores não deixaram que o sindicato atuasse nesse sentido. O que pensar dessa questão? Onde as possibilidades de atuação dos dirigentes sindicais dentro desse contexto?
Não há como pensar as condições de vida desses trabalhadores sem refletir sobre a subalternidade subjacente às suas condições de trabalho. As formas de trabalho refletem os padrões da colonialidade do poder e se subordinam a critérios periféricos e racistas. Assim, não é por acaso que o trabalhador gaseiro, em sua maioria é negro, em condições escolares deficientes e que o sindicato tenha mais dificuldades em criar um trabalho mais efetivo para melhorar suas condições de trabalho.
Jair não concorda que o sindicato não seja atuante nesse sentido. Ele declara que não pode fazer aquilo que o trabalhador não quer fazer.
O que podemos refletir a partir dessa afirmação? Jair é dirigente sindical, mas foi trabalhador do gás e carregou bujões durante muito tempo. Veio para o sindicato no final dos anos 80 e teve muitas experiências:

“Fui cunhado dentro da luta, realmente foi dentro da luta, porque em 88 a Empresa, eu ouvi, o Gerente do Departamento de Pessoal que iam me mandar embora e aí foi aonde o meu chefe de rua me falou: Olha o Gerente do Departamento de Pessoal me disse que você não veio nenhum dia. Ora a gente estava de greve e eu não fui por isso, estava lutando pelos nossos direitos. Porque se eu não brigo pelos meus direitos onde fica minha honra, minha dignidade? Eu estava brigando por isso e a greve era o instrumento que a gente tinha para fazer a gente avançar nas negociações. E realmente tivemos resultado e nossos salários foram assim uma coisa relevante, de colocar mais comida na mesa. Essa é a história da minha vinda para o sindicalismo. Então quando eu vi o Gerente virou para o Chefe e disse assim: Olha o Jair não! Não vou mandar ele embora porque ele está brigando pelo nosso direito! E o trabalhador que briga pelo direito dele ele também briga pelo interesse da empresa! Era onde dentro da empresa eu era considerado um dos melhores. Não era o melhor, mas também era um dos melhores vendedores de gás. E essa é a minha trajetória dentro da empresa e do sindicalismo.”

Não temos dentro dessa narrativa de Jair grande carga de emoção? As lembranças que ele traz, ao mesmo tempo em que mostram sua ação e sua luta junto com os companheiros de trabalho não mostram também as contradições ocultas e a colonialidade do poder enraizada nas relações internas da empresa em que trabalhava? Como uma greve pode ser boa para o patrão? Como que um dirigente que briga pelos direitos dos trabalhadores para terem melhores salários pode estar brigando pelo interesse da empresa?
O discurso daquele gerente de recursos humanos tinha relação com o legado da pós-modernidade, uma armadilha criada por um pretenso discurso democrático que trazia à tona o comprometimento com a colonialidade do poder, ocultando as reais condições das relações de trabalho na empresa. A greve buscava melhoria dos salários, mas não modificava as condições de trabalho nem o sistema de vida, que o próprio trabalhador e o dirigente sindical vêem como única forma de civilização.
O trabalhador aprendeu que não há outro mundo e nem outra civilização possível que não seja a que temos hoje. Assim, suas lutas são travadas a partir dessa concepção.
Por outro lado, os dirigentes sindicais ao desenvolverem seu trabalho junto aos trabalhadores e contra as condições de trabalho geradas por essas empresas se vêem às voltas com decisões a tomar que se parecem muito com a decisão que a personagem principal do filme A Escolha de Sofia tem que fazer.
Sergio Vieira, o Presidente atual do Sindicato vem tentando ao longo do último mandato analisar a situação desses trabalhadores. Ele desabafa:

“As empresas de gás não tem investido no aumento da produção de GLP. E isso quer dizer que esse mercado está estagnado. Se o mercado não tem como crescer, os empregos também não crescem, mas pelo menos se mantêm. Se a gente força na luta para que a empresa invista em melhores condições de trabalho elas irão investir em máquinas que irão desempregar os trabalhadores. È um problema difícil de resolver. A gente não quer o trabalhador doente, mas nas condições de trabalho atuais ele fica doente por conta do peso e do esforço repetitivo que faz todos os dias. Mas,ele prefere ficar doente do que perder o emprego e a gente não consegue convencer ele do contrário. Só quando ele fica muito ruim e tem que ir para o INSS é que conseguimos fazer algo por ele, mas aí a doença já se instalou.”

Desemprego ou doença? O que é pior? O que é melhor? Não há respostas possíveis se continuamos a pensar a partir de um paradigma colonial.
O que seria investir no aumento da produção de GLP a partir de uma outra lógica, uma lógica descolonizada? As máquinas iriam substituir os homens em que tarefas? Quais tarefas novas poderiam ser criadas a partir disso para que os trabalhadores pudessem ser aproveitados? O que está por trás da decisão de demitir trabalhadores?
A colonialidade do poder aumenta a dimensão opressora que o sistema capitalista possui. As empresas de gás, hoje, em sua maioria, multinacionais, seguem essa lógica colonial/capitalista.
Isso fica ainda mais claro, quando, conversando com Jair sobre a situação desses trabalhadores e refletindo sobre a necessidade de descolonizar os mecanismos de poder e a prática revolucionária, fiz uma provocação, dizendo que a revolução precisa ser feita todos os dias, dentro das possibilidades que aparecem no cotidiano, ele me respondeu:

“Você não faz revolução sem dinheiro! Você para fazer revolução você tem que ter dinheiro, dinheiro e dinheiro! Então vem ao encontro do que eu disse aqui! Se tivesse dinheiro a revolução estava pronta! Seria uma outra história! Todo mundo arregaçaria as mangas, todo mundo sairia para a luta, sairia para organizar a base, é o capital que manda.”

Qual a lógica dos saberes e da ação dos dirigentes de nosso Sindicato? Um misto de subserviência ao projeto capitalista e a uma lógica de subsistência e competição? A crença na luta pela solução dos problemas básicos da vida cotidiana? A luta ideológica? A visão de que a vida prática se desenvolveria sob outras formas de articulação coletiva?
Entendi que era tudo isso junto e mais um pouco. Quando se trava uma luta, muitos sentidos existem por trás dessa luta. O processo de colonização no Brasil foi bastante eficaz em criar formas ideológicas de iludir trabalhadores e trabalhadores de suas reais possibilidades.
Discursos difundindo a necessidade de uma Identidade Nacional, de um Desenvolvimento Nacional, de uma Soberania Nacional. Valores que foram acolhidos na subjetividade do povo, que firmou a idéia de uma forma única de civilização, ocultando uma diversidade de projetos e mundos possíveis.
Tomando como referência os estudos de Mignolo (2003) e de Grosfoguel (2008) percebi o potencial epistemológico de nossa subjetividade que, apesar de incorporar a colonialidade do sistema mundial moderno, permite uma construção paralela que vai além dessa lógica.
Quando o sindicato foi criado em 1931, o formato de sindicato era a representação por categoria profissional, um modelo de sindicalismo dúbio e contraditório que em muitas frentes de luta se mostrou vanguardista e revolucionário para aquela época. Mas esse mesmo modelo serviu aos interesses coloniais de formar uma massa trabalhadora dócil e centrada numa democracia de resultados, que possibilitasse a construção do projeto civilizatório que lançou suas garras por toda parte e dividiu os trabalhadores da mesma forma que dividiu as sociedades.
A hierarquização social e política que a ideologia civilizatória construiu no Brasil produziram dirigentes sindicais hierarquizados, burocratizados e afeiçoados ao corporativismo sindical. E quem são esses dirigentes sindicais? Quando destacamos o dirigente muitas vezes esquecemos que ele é trabalhador também, que foi como trabalhador que se tornou dirigente num determinado momento.
O que leva um trabalhador do gás para o sindicato? Pelo que venho observando as razões são variadas. Trabalhar pelas condições de vida de seus companheiros. Fugir do trabalho penoso que exercem. Exercer o poder. Ter liberdade para viver uma vida mais digna. Assegurar seu emprego. Melhorar suas relações sociais. São necessidades e expectativas que levam os gaseiros a fazer parte da direção do sindicato.
Devemos julgá-los por isso? Julgar sua astúcia para lidar com as situações adversas que enfrentam é mascarar a realidade colonial e não levar em conta as várias possibilidades de construção de projetos alternativos ao enfrentamento dos problemas inerentes à sua condição de trabalhadores.
Tenho críticas aos fazeres de nossos companheiros dirigentes sindicais com relação às estratégias que utilizam em seu trabalho de base com os trabalhadores e dialogo com eles sobre elas. Mas, apesar das críticas que faço, entendo que o diálogo informal e as pequenas reflexões de cada dia se constituem em formas de aprendizado que possibilita a nós, dirigentes, o vivenciar da práxis política. Saberes e conhecimentos são resignificados o tempo todo e novas práticas e ações dos sujeitos aprendentes vão acontecendo, de forma rápida e contundente.
Pude ver isso nas últimas manifestações de 2007 por ocasião das negociações da convenção coletiva de trabalho. Tenho visto isso na quantidade de sindicalizações que esses dirigentes vêm trazendo para o sindicato.
A educação precisa de militantes em todas as instituições. Ser educadora numa entidade sindical é algo mais do que propiciar cursos de formação sindical e política aos seus integrantes ou aos trabalhadores.
Ser educadora é observar todas as oportunidades que o cotidiano apresenta para provocar o processo de reflexão, promover o debate, estimular as discussões de idéias, favorecer a transformação de mentes e de corações.
Desvendar velhas subalternidades e descobrir novas possibilidades. Estamos perseguindo esse caminho. Aonde iremos parar ainda não sei. O currículo do sujeito aprendente é a vida e o devir e no devir iremos pouco a pouco descobrindo as melhores estradas.
Se pudermos perguntar: uma outra democracia é possível? Uma outra sociedade é possível? Poderemos também questionar: outro sindicalismo é possível? Outros trabalhadores são possíveis? Outros dirigentes sindicais são possíveis? Tudo indica que sim.
Não há formas de luta certas ou erradas. Não há estratégias boas ou más. Mais do que gaseiros, os trabalhadores petroleiros do GLP são gente! Gente grande! Gente com capacidade de criar relações e soluções como Grosfogel (2008) diria: Crear um universal que sea pluriversal.

BIBLIOGRAFIA

GROSFOGUEL, Ramon. University of Califórnia – Berkeley. 2008.
MIGNOLO, Walter D. HISTÓRIAS LOCAIS / PROJETOS GLOBAIS – COLONIALIDADE, SABERES SUBALTERNOS E PENSAMENTO LIMINAR. Editora UFMG, Belo Horizonte, 2003.
MORIN, Edgar. CIÊNCIA COM CONSCIÊNCIA. Bertrand do Brasil. Rio de Janeiro, 2001.
RIBEIRO, Darcy. O POVO BRASILEIRO. Companhia do Bolso, São Paulo, 2006.
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THOMPSON, E. P. A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA INGLESA I – A ÁRVORE DA LIBERDADE – Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1987.
____ . A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA INGLESA II – A MALDIÇÃO DE ADÃO – Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1987.
____ . A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA INGLESA III – A FORÇA DOS TRABALHADORES – Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1987.