ANGELA RAMALHO
PORTUGUÊS
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INVERNO E foi por entre os meus dedos que a sua mão me escapou, sem que eu pudesse retê-la. Fazia frio e foi-se a mão quente que me aquecia. Nesse inverno que agora me pega de sobressalto, corro ligar o aquecedor, mas descubro que nem todo o ar quente que sai do aparelho é capaz de aquecer meu coração. Meus olhos não querem ver a cama vazia e viro-me de costas para o lado que até pouco tempo ocupavas. Mas ocupavas em minha vida mais do que esse espaço. Consenti que adentrasse em minhas entranhas. Dei carta branca para que preenchesse todos os meus vazios. Sem pedir licença, tomaste de assalto minha alma. E assim, fui aos poucos, perdendo espaços dentro de mim mesma. E o coração... ah, esse não se emenda! Foi tomado de paixão como quem não teme o perigo! Baixou a guarda de vez e nem mesmo foi capaz de prever a chegada do inverno. E assim ficou à mercê do frio, tentando entender porque aquelas mãos foram aquecer outro coração? SENHORA DO MEU TEMPO!
“Acabe logo com isso”, ordenou em tom de ameaça. Justo eu, que não costumo agir sob pressão! Como acabar logo, se mal estava começando? E ainda tinha outras tarefas a executar, além da crônica inacabada, cujo rascunho ficou sobre a escrivaninha. Adiantei meu trabalho o quanto pude e ele me olhando sem paciência, insensível como todo algoz! Quisera eu mandá-lo às favas e fazer tudo a meu bel prazer, ignorando sua existência. Anos a fio me “torrando a paciência” e eu ali, agüentando firme! Tá certo que nem sempre me calei. Algumas vezes reagi, taxei-o de implacável, tirano, déspota, incapaz de voltar atrás. Mas ele fazia “ouvidos de mercador” e continuava à minha espreita, sem dar trégua! “Ainda está aí?” “Não percebe que está atrasada?” “Já são 9 horas!” Haja paciência! Como não ficar estressada diante de tanta pressão? Um dia ainda digo basta e acabo com essa história! Meu instinto libertário ansiava por isso! Numa segunda feira daquelas “brabas”, eis que o dito cujo veio apitar na minha idéia! Foi demais para mim! Era ele ou eu! Estávamos no limite do suportável e diante do fim de um dos dois, que fosse ele! Não pensei duas vezes: peguei o despertador que estava sobre o criado mudo, abri a janela e o atirei longe! Pronto! Meu objeto de tortura diária espatifou janela abaixo! Agora, posso dizer que sou senhora do meu tempo!

PARTES DE MIM
Uma parte de mim é festa,
outra parte é melancolia,
uma parte de mim silencia,
enquanto outra se manifesta.

Uma parte de mim é emoção,
outra parte um ser racional,
uma parte é sentimental
enquanto outra prefere a razão.

Uma parte de mim é menina
outra parte altiva senhora,
uma parte de mim vai embora
enquanto outra se descortina.

Uma parte me pede segredo,
outra parte se escancara,
uma parte de mim dá na cara
enquanto outra se encolhe de medo.

Uma parte de mim faz furor,
outra parte vive camuflada,
uma parte de mim é abafada,
enquanto outra vive o esplendor.

DIAMANTE BRUTO
Você gosta de músicas antigas,
de comidas simples,
de ficar em casa.
Você não liga para a aparência.
Você, tão sem cerimônias,
com seu jeitão de matuto...
Você, meu diamante bruto!

Você, simples e verdadeiro,
de mãos calejadas e de jeito rude,
que eu quero conhecer, mais amiúde...
Você às vezes lembra meu pai, severo, astuto...
Você, meu diamante bruto!

Você, homem de caráter e brio,
que me aquece quando tenho frio,
e me faz transpirar, sem ter calor.
Você, companhia da qual eu desfruto,
pedra preciosa, diamante bruto,
mas que, se eu lapidar, perde o valor.