RITA DE CÁSSIA AMORIM ANDRADE
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

ECOS DE TI

 

Mil vozes eclodem da tua boca,
aos meus ouvidos outonais,
ecos primaverais
de palavras
afáveis.

Migra do teu sal ático a eloquência,
aos meus lábios cerrados,
rastos lexicais
de locuções
arcádicas.


Manténs o teu ferrão, às escondidas,
aos que te devotam a paixão,
clavas mortais
de seduções
fatais.

Mentes, no compasso do teu penar,
aos que se vão descrentes,
couraças armadas
de metais
florais.

***



NÓ GÓRDIO
 
“O tempo cura o que a razão não
consegue curar” (Sêneca) 



Nó Górdio,
de desatar árduo.
Não fui eu a
desmanchá-lo;
foi o tempo.

Nó Górdio,
de secretos subnós.
Não fui eu a
destrinçá-lo;
foi o tempo.

Nó Górdio,
de profecia oracular.
Não fui eu a
violá-lo;
foi o tempo.

Nó Górdio,
de entrançado laço.
Não fui eu a
desenlaçá-lo;
foi o tempo.

Nó Górdio,
de fadário indelével.
Não fui eu a
apagá-lo;
foi o tempo.

***


ESTAÇÕES DE TI 

Apoteose de teu poetar
Fulgindo os cristais do renascer
Apanágio das noites de primavera

Arauto de ti mesmo
Vais derramando o teu canto
ígneo pelas noites de verão


Efeméride dos teus feitos
Navegando na escrita alucinante
Eflúvios das noites de outono

Ególatra do teu saber
Recolhendo pedaços de solidão
Abissal nas noites de inverno


***


UM AMIGO DE CURTA DATA E A SOMBRA
 
Mas foi em teu encalço, ó Zaratustra, que mais longamente voei e corri, e se me escondia de ti, era eu, no entanto, tua melhor sombra: onde tu pousaste, pousei eu também. (Nietzsche – Assim falou Zaratustra) 


Conheci um amigo de curta data.
Muitas curtas datas.
Quase sempre datas de criação.
Quando criava,
criava lá a sua amada e
criava cá a sua amiga.
Versos pra cá,
conselhos pra lá.
O amor derramava-se em poemas
e a amizade em elogios.
A amada era deusa,
a amiga conselheira.
E a vida se
enriquecia.
Rica a amada,
que se via reinando num palácio
encantado.
Rica a amiga,
que a tudo ouvia
embevecida.
A primeira,
deusa das deusas.
A segunda,
musa das musas.
A amada se deleitava.
A amiga mais atenta ficava.
Com o passar dos dias,
a amada se desinteressava.
A amiga a tudo
acompanhava.
O amigo era um poema
desvanecido.
Restava a amiga.
A amiga, musa das musas
já não era musa,
era a sombra
da amada.
Se a amada se ia,
de que lhe serviria a sombra?
O amigo-poema precisava esquecer
a amada.
Mas a sombra ali estava
para lembrá-lo que houvera
a amada.
Como apagar a sombra,
se a sombra teimava em ficar!
Como matar uma sombra
sem corpo?
Esvaziando-lhe o grafite,
desbotando-o.
A sombra viu-se sem chão.
Como poderia existir
sem alguém que lhe formasse?!
A amada já se distanciava
mas a sombra queria permanecer.
Antes de se apagar
de todo, a sombra usava de
truques para sobreviver.
Acompanhava o amigo e
tornava-se a sombra dele.
O amigo queria livrar-se
da sombra.
A sombra lhe lembrava
a amada.
A sombra inchava,
expandia-se.
Porém, sem perceber,
agonizava.
A sombra viu-se,
de repente, no Limbo,
onde não havia luz
nem havia sombra.
Dizem que Orféu
cheio de amor pela sombra,
resgatou-a.

***



A MENINA E O TEMPOPara mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(Mário de Sá-Carneiro – Dispersão

                      

O pátio da escola estava lotado naquele horário. O recreio tinha de tudo, lanches, jogos de peteca, paqueras, meninos exibicionistas, meninas a cochichar. Depois de aulas maçantes, seria justo aquele rufar de saias pregueadas.
A menina magra de carne e músculo, de face pálida encoberta por volumosos cabelos avermelhados que iam até a cintura, sentou-se em um banco de cimento, a balançar, nervosa, as pernas. Acabava de vê-lo sentar-se no banco próximo. Olhou-o de revés. Odiou-o! Odiava aquele garoto letárgico, branco que nem uma vela, sempre só, a escrever, não sabia o quê. Até no intervalo de aula, ali estava ele, papel na mão e lápis entre os dentes, a matutar.
— Por que me olha assim? — gritou ela para ele — não vê que o detesto!...
Nem um som saía da boca do menino. Seu único gesto foi abaixar a vista, humilhado. Ela fez uma pausa, esperava que ele reagisse. Mas não, o menino ouvia os insultos, mudo. Aquele silêncio irritava-a ainda mais. Ele, nada dizia, só a amava — que adivinhasse os seus poemas, não eram para ela? — Por que não lhe alcançava o coração?!
Súbito, a menina se levanta violenta, enorme, rumo a ele. O jovem estremece. Sente o palpitar de todo o corpo, fremente. Os papéis rolam pelo chão. Ele também. Ela o arrasta pelo cimento bruto, arranha-lhe a pele, endoidecida. Todos correm para vaiá-lo, forma-se um círculo de rostos descomunais. Ela lhe soca o nariz e o sangue escorre. O menino sabe que poderia esmagá-la se quisesse, mas não quer. Sente prazer naquela agressão. A dor vai transmutando-se numa sensação desconhecida. De repente, um choque elétrico percorre-lhe o corpo. Sente que alguma coisa escorre pelas calças e a dor some. Ela também.
— Para onde ela foi?
........................................................
— Por que você está aqui, não me deu meia hora?
— Exatamente, meia hora...
— Não! Foram apenas alguns segundos.
— Meia hora...
— Não e não. Quero ficar mais tempo. Quero que ele me perdoe. Saiu tudo errado. Quero beijá-lo...
— Seu tempo acabou.
— Quero ficar com ele para sempre.
— Não temos permissão para mudar o destino das pessoas. Só lhe foi concedida meia hora.
— Não! Vou ficar, já disse.
— Você teve o seu tempo, agora não podemos demorar, sob pena de recebermos o castigo.
— E aquela história de livre arbítrio..., não posso escolher?
— Você desperdiçou seu tempo, aguerrida!...
— Por quê! Ele é meu, só...
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O despertador tiniu. O garoto se espreguiçou. Retirou o lençol que lhe prendia as pernas e correu para o banheiro, descalço. Tinha poucos minutos para descer a escada e fazer o desjejum. Escovou os dentes em frente ao espelho. Parou assustado! Uma cena veio-lhe à mente. Como ela sumira?! Por certo teria escapado por entre as pernas dos colegas. E os arranhões?!... A pele estava limpa. E o sangue do nariz?!... Meteu a mão na calça do pijama e apalpou o órgão. Havia sim, uma coisa gosmenta. Teria sonhado? Lembrava-se dela. Ah! Da próxima vez iria sentir o lamber das línguas na boca daquela menina.
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— Vou vê-lo novamente?
— Você sabe que não... Por que insiste em perguntar?
— Eu nunca mais vou esquecê-lo.
— Vai sim, ou melhor, não vai mais se lembrar dele.
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Ontem, lembrei-me de um passado, mas não sei de que...


***


Vi a Luz 

Vi a luz
e ela se formaria
e os sentidos
ali permaneceriam
e me emergiam
numa afabilidade
gratificante.


Vi a luz
e ela se expandiria
e os sentidos
ali despertariam
e me emergiam
numa claridade
ofuscante


Vi a luz
e ela me seduziria
e os sentidos
ali se entregariam
e me emergiam
numa sensualidade
fulminante

Vi a luz
e ela se explodiria
e os sentidos
ali se mortificariam
e me imergiam
numa fragilidade
debilitante.

Vi a luz
e ela me engoliria
e os sentidos
ali se esvairiam
e me imergiam
numa obscuridade
sepultante. 

***