WANIA MAJADAS
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Texto de Fábio Lucas (Prefácio de O Diálogo da Compaixão na Obra de Luiz Vilela – Excerto)

Perspectivas Ensaísticas de Wania Majadas

Temos, com O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela, de Wania de Sousa Majadas, afortunada tentativa de analisar o conjunto da criação do ficcionista, sob uma óptica unificadora. Para alcançar seu objetivo, a ensaísta adotou o princípio diretor que une as invariantes temáticas sob o crivo de uma metodologia. Ou seja: observou como se distribuem nos contos, novelas e romances de Luiz Vilela os referentes emocionais e conceituais que distinguem o autor e se aglutinam no romance Graça.
O método consistiu em operar uma intertextualidade restrita. Vale dizer, Wania Majadas exerceu um estudo comparativo de elementos das diferentes obras do próprio autor, não obstante, em determinados momentos, ter dado o salto supratextual, na busca dos autores dignificados na metalinguagem. Revela, por exemplo, como certas personagens encaram sua condição de escritor e se remetem a grandes ficcionistas preferidos, mormente os russos.
Com objetividade e consistência persuasiva, Wania Majadas demonstra pleno controle da obra analisada e se dirige a ela frequentes vezes, para sustentar sua tese. Evita, deste modo, congestionar o trabalho com abundantes citações teóricas, como de ordinário acontece com investigadores inexperientes, que se arrimam em abonações variadas a cada passo do pensamento. A tal ponto que, não raro, teses universitárias parecem peças enciclopédicas, pontilhadas de reiterações de cunho exibicionista.
Com a leitura de O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela, o leitor absorve plenamente o conteúdo da interpretação e convive com o universo da imaginação criadora do ficcionista.
Alguns aspectos da narrativa de Luiz Vilela ficam evidentes: o pronunciado gosto pelo diálogo, uma das chaves-mestras do seu extraordinário talento de comunicação; a atração pelo “tempo perdido”, de tal modo que a todo momento sua narrativa se direciona para a infância ou para episódios retidos pela sensibilidade do narrador; a seguir, a permanente sensação que suas obras transmitem da incompletude da situação amorosa; por último, a exploração do apelo passional que nele produz a injustiça humana. Daí, a “compaixão”, que Wania Majadas localiza nas falas dos narradores, em seu choque com as situações enfrentadas.
Como bem acentua a ensaísta: “Percebemos que o eu dividido, a desintegração do ser, a perda da identidade, a tentativa de resgate dos sonhos da inf6ancia e a compaixão entrelaçam todas as histórias como se fosse uma rede, reunindo livro por livro e produzindo uma obra que, pela coerência, se aproxima de uma autoconsciência definida, mas que desta se distancia pela inconclusibilidade.” Aliás, utilizando uma observação estilística, Wania Majadas assinala o emprego da sátira e do chiste como fatores de abrandamento das circunstâncias dramáticas ou confessionais do narrador.
....................................................................................................................................
Para culminar seu ensaio, Wania Majadas procura nos conceitos, nos motivos livres e nas ramificações narrativas, as manifestações estéticas dos narradores, a fim de alcançar o substrato do pensamento do autor sobre a arte da ficção. É que Luiz Vilela utiliza frequentemente personagens intelectualizadas para encarnarem preceitos literários e juízos críticos.(......................)
Com tantas iluminações do texto, resta-nos concluir pela pertinência do ensaio e pela beleza de sua realização. Lê-se o trabalho com prazer, pois agrada e instrui ao mesmo tempo.





Excerto do texto de Apresentação que fiz do meu primeiro livro, O Diálogo da Compaixão na Obra de Luiz Vilela (2000). Ensaio.

(........................................................................................................)
Quando um escritor procura no cotidiano o sangue vivo que circula pelas artérias de sua obra, precisamos ter mais cuidado ao estudá-lo, porque o dia-a-dia está repleto de elementos que desviam a nossa atenção de fatos humanos às vezes muito importantes, exatamente por serem humanos.
A reação da maioria dos leitores ao ler textos onde tais fatos são a estrela, é ficar na superfície, na leitura horizontal, porque o cotidiano nos distrai, principalmente quando o autor se utiliza sempre dele para dizer coisas tão sérias sobre o ser humano, num questionamento de valores constante e numa demonstração de enorme compaixão por este ser humano.
Essa utilização do contexto diário está comprometida com uma linguagem simples, de fácil acesso, e isso nos obriga a concentrar maior atenção na leitura, pois estamos diante de uma simplicidade ardilosa, que nos expõe ao risco de ficar apenas na periferia de tais obras.
Nesse nível de facilidade aparente está situada a obra de Luiz Vilela, desde Tremor de Terra (contos, de 1967) até Graça (romance, de 1989).
Os aspectos humanos, e por serem humanos, universais (Tem razão Ute Hermanns em dizer, no posfácio à sua tradução para o alemão de uma antologia de contos de Luiz Vilela (Frosch im hals.Berlin, Babel Verlag, 1996, p. 150), que ele, por todos estes aspectos, é “ um autor que pertence à literatura mundial” (“ein Autor von Weltliteratur”) povoam a narrativa de Luiz Vilela de uma forma tão natural e verdadeira, que se torna difícil dectetá-la à primeira vista. Parece tudo tão óbvio e despretensioso!
O crítico e o leitor sentem-se, então, diante de um desafio. Não é fácil explicar o que nos parece tão simples. Não é fácil traduzir aquilo que nos é inerente.
Fazendo uma releitura mais atenta da obra de Luiz Vilela, percebemos a presença de temas e personagens que nos remetem à singeleza das lembranças de infância, das cidadezinhas do interior, dos telhados antigos, dos velhos casarões, das tias, dos avós, dos pais, dos animais de estimação. No entrelaçamento das vidas, visualizamos as tradições familiares, as imposições do ensino religioso e, sobretudo, o sofrimento humano. E, assim, a compaixão, principalmente pelos velhos, pelas crianças e pelos humildes, fica latente em todas as páginas, através de uma linguagem que nunca perde o senso da medida, mesmo quando, resvala pelos caminhos da irreverência.
Curiosamente, foram as palavras de uma das personagens da obra O choro no travesseiro (novela, 1979) que despertaram em nós a vontade de explorar esse veio tão rico e fundamental na obra de Luiz Vilela, que é a compaixão. A personagem Nicolau diz:

Dostoievski (....) é o maior de todos os escritores, porque é o que teve mais compaixão.
(CT, 32)

Tais palavras, mágicas, abriram possibilidades enormes de trabalhar com um material vasto e rico, onde a compaixão pelo ser humano, pelos seres animados e inanimados, estabelece um verdadeiro diálogo entre os elementos das dez obras do autor, que são as obras por ele publicadas até o momento.
(......................................................................................................................................)
Observação importante: após o romance Graça (1989), até onde foi minha pesquisa, de 1967 a 1989 (ao todo, 10 livros), Luiz Vilela publicou, 1994, a novela Te amo sobre todas as coisas, em 2002 a coletânea de contos A cabeça, e em 2006 a novela Bóris e Dóris.

Wania Majadas