CHRISTINA FREIRE
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Christina Freire Prisma O QUE SIGNIFICOU PARA VOCÊ ESCREVER O PRISMA? O corpo reflete sempre o seu drama, ele pode ao mesmo tempo, olhar o mundo e todas as coisas e também, olhar-se reconhecendo o que vê.Ele pode ver-se-vendo, tocar-se-tocando, sentir-se-sentindo. A idéia do Prisma (sólido de substância transparente, utilizado para refletir a luz), foi a forma que eu encontrei para compartilhar com aqueles que amo o meu momento d'alma. E assim, o corpo, enigma em que o imaginário revela muito mais do que é visto, tornou visível o invisível. QUAL SUA PROPOSTA NESTE LIVRO? No Prisma proponho que O Corpo, inserido em um cenário do imaginário vivencie através das sensações, produzidas pela melodia, e o reflexo de uma parte que irá se ampliando pouco a pouco, revelar em um todo , à abertura para a cena seguinte , que tira da escuridão e traz á luz, o que estava escondido ou negado . O PRISMA SERIA ENTÃO UMA MANEIRA DE NOS CONHECERMOS MAIS PROFUNDAMENTE? Ver partes de um todo, e reconhecê-las como próprias, irá nos possibilitar um precioso encontro com o nosso corpo , dando a ele uma nova imagem de unidade, que até então, era de fragmentação e parcialidade, surgindo assim a possibilidade de reconhecermos nosso corpo como próprio e pessoal. Esse reconhecimento é a construção de uma imagem corporal simbólica, única possibilidade que temos, para superar a sensação de totalidade que perdemos logo após o nascimento. E nos reconhecermos, novamente, na experiência da unicidade, que sentimos a medida que crescemos, não obstantes as limitações e incompletude. SERIA O PRISMA ENTÃO UMA SENSÍVEL E POÉTICA VERSÃO DA PROPOSTA DO SOMATODRAMA? Reconheço que o Prisma é a versão poética da obra didática que lancei no ano passado : O Corpo Reflete o Seu Drama, Somatodrama como abordagem Psicossomática, da Editora Ágora. A experiência de publicar o Prisma foi vivenciar e assim, acreditar que o invisível pode tomar forma e através de atos e palavras ser revelado. Todos esses anos, muitos foram os encontros, tanto na minha história profissional como pessoal, sempre especiais, pois me transformavam a cada instante, a medida que se revelavam em doces, fortes e intensas emoções .O Prisma através do ritmo e da palavra, me permitiu numa linguagem poética revelar o irrevelável. COMO VOCÊ ESTA SE SENTINDO, POR TER CONSEGUIDO TORNAR VISÍVEL E SEGURAR EM SUAS MAÕS O QUE ATÉ ENTÃO SÓ SUA ALMA HAVIA TOCADO? Premiada pela vida e encantada pelo mistério da alma humana. Hoje, quando sou agraciada com o olhar e um novo encontro, mais um lado do meu prisma é revelado. O Prisma, que teve como inspiração primeira o som, a música - matriz de minha identidada - pois sendo minha mãe, Benita, maestrina e musicista, já cedo a melodia fez parte da minha vida e nunca mais deixou de estar presente. Beatriz, minha irmã, com linda voz, já cantou pelas Américas e meu filho Sérgio, músico profissional e minha filha Paola com criatividade e doçura idealizou a forma, a construção por parte do Prisma. Ver partes de um todo, e reconhecê-las como próprias, irá nos possibilitar um precioso encontro com o nosso corpo, dando a ele uma nova imagem de unidade, que até então, era de fragmentação e parcialidade, surgindo assim a possibilidade de reconhecermos nosso corpo como próprio e pessoal. Esse reconhecimento é a construção de uma imagem corporal simbólica, única possibilidade que temos, para superar a sensação de totalidade que perdemos logo após o nascimento. E nos reconhecermos, novamente, na experiência da unicidade, que sentimos a medida que crescemos, não obstantes as limitações e incompletude . COMO VOCÊ DEFINIRIA ESTA SUA EXPERIÊNCIA Vivenciar o Todo nesta composição, foi e está sendo a mais adorável e rica experiência do verdadeiro encontro com o Criador. Como criatura acredito que durante uma existência, nossa história pessoal somente será revelada em partes, adquirindo movimento através dos encontros que nos marcam e nos deixam sensíveis à abertura do ato criador . O QUE VOCÊ GOSTARIA DE FALAR, PARA FINALIZARMOS NOSSA ENTREVISTA.Somente agradecer a Angélica e a Unilever pelo patrocínio cultural. A meu editor Gadelha e toda sua equipe pela dedicação na difícil e trabalhosa construção deste projeto. A Nelson Ayres, e a César Camargo Mariano pela música inspiradora de seu LP Prisma e a todos que direta ou indiretamente participaram de minha vida , inspirando-me nessa co-criação. CHRISTINA FREIRE, Psicóloga Clínica e Psicodramatista pelo Instituto Sedes Sapientiae, Professora e Supervisora credenciada pela Federação Brasileira de Psicodrama, Criadora e Coordenadora do Somatodrama - Grupo de Estudo e Pesquisas em Psicossomática e Psicodrama, Docente em Somatodrama na Escola Paulista de Psicodrama, Membro da Associação Brasileira de Psicodrama, Membro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática de São Paulo, Consultora Editorial da Revista Catharsis de Psicologia. Autora do Livro "O Corpo Reflete O Seu Drama: Somatodrama como abordagem psicossomática" Editora Ágora. São Paulo 2000. Artigos publicados em revistas nacionais e internacionais sobre psicodrama, somatodrama e psicologia clínica. Criadora do Curso de psicossomática com enfoque psicodramático para profissionais da área de saúde, além de cantora e poeta, participa do grupo vocal: Canto da Boca. AV. IRAÍ 79 CONJ.85B S.PAULO .MOEMA e-mail : crisfreiresti.com.br LIVRO: PRISMA -EDITORA ESCRITURAS, LANÇAMENTO DIA 16 DE ABRIL NA FENAC ,S.P. MARIA CHRiSTINA FREIRE SOMATODRAMA Christina é Psicodramatista e estuda a Psicossomática desde que se formou em Psicodrama. Este livro vem coroar sua busca de um processo psicoterápico mais eficiente para pessoas que padecem também de males físicos. Catharsis - Como surgiu a idéia do livro? Maria Cristina - Escrever um livro, sem dúvida, é um dos sonhos acalentados por nós, humanos, na seqüência do plantar uma árvore e ter filhos. Mas, deixando o sonho de lado, penso que só consegui transformar em um livro minhas experiências e práticas clínicas quando compreendi que criar também é aventurar-se e não temer a audácia de escrever o que é evidente e não ter medo de expressar aquilo que vemos e sentimos com nossa capacidade infantil de não julgar, mas sim constatar o que de forma clara e simples nos é mostrado. E confiar, pois toda a criação é um processo compartilhado e de co-criação, em que somos apenas a parte que irá transmitir aos demais o que já existe no todo. Catharsis - O que é somatodrama? Maria Cristina - Somatodrama é uma proposta que integra na teoria e na prática, a psicossomática e o psicodrama. Aborda o sintoma físico ou a doença orgânica como expressão de uma verdade inconsciente do ser humano que busca revelação através do corpo. Procura desvendar o conflito intrapsíquico que bloqueia o processo de crescimento e evolução do ser cuja expressão possível em seu universo relacional é o sintoma ou a doença orgânica. O somatodrama vê o sintoma e a doença orgânica como o protagonista do drama vivido pela pessoa, que emerge no cenário corpo e no palco do seu universo relacional. É a parte significando o todo. Reconhecer essa parte, essa estreita passagem é mergulhar e ir ao encontro de universos profundos e inconscientes, onde o adoecer é a possibilidade de renascer aqui e agora como autor e ator de nossa própria história corporal. É uma proposta de psicoterapia focal no sentido que propõe um atendimento sistematizado que objetiva e foca a queixa da doença, buscando alívio e descarga de tensões intrapsíquicas na crise, de forma a possibilitar outras vias de expressão além dos sintomas e da doença orgânica, resultando na mudança da percepção sobre a doença, a morte, bem como sobre o tempo e o espaço. Olhar os acontecimentos e o mundo de um novo ângulo nos transforma e questiona verdades até então reconhecidas como realidade. Aquietando o medo e reduzindo a ansiedade podemos resignificar conceitos e transformar antigas crenças já ultrapassadas sobre o que é saúde e doença, vida e morte. Catharsis - Como as emoções afetam o corpo físico? Maria Cristina - É através do nosso corpo que podemos expressar nossas emoções e nos relacionar. Mais importante do que pensarmos como as emoções afetam o corpo físico, é refletir como expressamos as nossas emoções e como nos relacionamos com as outras pessoas e com o mundo em que vivemos. Corpo físico e emoções devem ser vistas e compreendidas como uma unidade, incluindo relativos e opostos. A experiência corpo físico e emoções constituem um todo indivisível que flui, onde sagrado e profano integrado vão além de atuarmos na vida, mas levando, sim, a uma atitude consciente do como vivenciá-la. Acaso você saberia responder qual a dor maior? A do abandono ou a do estômago? O que podemos é pensar que se não conhecermos bem a linguagem corporal das nossas sensações, dificilmente poderemos reconhecê-las, decodificá-las em emoções e expressá-las como sentimentos. Não basta eliminar a dor física do nosso corpo para nos sentirmos curados. Nossa cura parece estar além do curar pedaços fragmentados. Reconhecer-nos como pertencendo à totalidade do Universo Cósmico faz-nos sentir co-responsáveis e harmoniosos como criatura. Catharsis - O que você chama de "alma"? Maria Cristina - Alma, essa dinâmica energética do psiquismo, que é a energia da vida corporificada. Um corpo sem animação é um corpo morto. E de que serve a animação sem um corpo para expressá-la? Se quisermos entrar em relação com a nossa alma, essa força dinâmica, devemos começar por trazer para a consciência certas percepções que normalmente são inconscientes, como por exemplo, resgatarmos simples sensações como a do nosso pé em relação com a terra, através da sola do nosso sapato. Ou quando respiramos, a troca que estabelecemos com o mundo exterior a nós. Nossas verdadeiras capacidades sensoriais estão na ação mútua e íntima, formada pela unidade matéria-ambiente, nessa troca constante em que faço parte do todo e o todo faz parte de mim. Somos seres cósmicos. Universo e vida humana estão entrelaçados de tal forma que é impossível sua separação, Sentir a alma é integrar penso, logo existo com sinto, logo sou com percebo, logo crio. Catharsis - O que significa "vivência psicossomática?” Maria Cristina - A resposta à pergunta anterior talvez possa esclarecer o que é a vivência psicossomática. É a experiência que surge diante do conflito corpo e alma, conflito esse responsável pela grande dor de não conseguirmos elaborar essa divisão interna que nos fragmenta. É o porta-voz que irá transmitir, por meio do sintoma e da doença orgânica, a parcialidade, a falta de unidade do nosso corpo. Será porém essa mesma experiência a porta de entrada, a estreita passagem para o mergulho, o resgate, através da percepção das sensações do nosso corpo, que irá favorecer a possibilidade do reconhecimento da nossa identidade, agora como autores e atores de nossa história e, sem dúvida, um caminho possível para um trabalho de cura. Catharsis - O que é a crise da percepção? Maria Cristina - A crise atual, a crise da percepção decorre da nossa insistência em manter antigos conceitos mecanicistas e uma visão de mundo ultrapassada, não percebendo que fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais se interrelacionam. Essa nova visão exige mudança em nossos pensamentos, percepções e valores. Da segunda metade do século XVII até o final do século XIX, a visão mecanicista da física clássica era a forma julgada correta para descrever a realidade. Porém na ciência, e principalmente na física, do século XX, em que o universo passou a ser visto e percebido como um todo indivisível e harmonioso, uma rede de relações que na sua dinâmica inclui observador e observado, onde um transforma o outro, vem provocando uma revolução em todas as ciências. Para nós, este momento requer uma cuidadosa reflexão que já está ocorrendo, no campo da medicina e da psicologia, sobre o significado de nascer, viver e morrer, bem como sofrer e envelhecer. Tais questões propõem novos paradigmas, a revelação do novo, do nunca vivido, da probabilidade-incerteza, ampliando nossa consciência. É nos reconhecermos como co-criadores, unindo criador e criatura na co-responsabilidade, em que o universo - e o planeta - é o que é, porque somos o que somos. Catharsis - O que você acha mais importante passar para o público neste momento? Maria Cristina - É que possamos, no atual momento, criar espaços grupais para trocar nossa história, idéias, através de experiências vivenciadas por meio da ação e expressa pelos nossos corpos. Entrarmos na vida nos associando e de corpo presente desfaz o isolamento e nos abre a possibilidade de reconhecer-nos no outro, encontrando assim a verdadeira dimensão do ser humano. É e sempre será assim. Carregamos em nosso corpo nossa história vivida e sentida, a história do nosso povo, a história cósmica, o nosso drama. Se pudéssemos neste exato momento - "aqui e agora" como dizia Moreno, criador do psicodrama - visualizar-nos neste ponto do planeta, unidos, como um único povo que se reconhece na sua essência e que caminha como os nossos ancestrais caminharam, na busca da unidade e compreensão da experiência existencial de ter um corpo e uma alma, integrando-nos como uma unidade, tornando-nos assim conscientes e responsáveis, bem como co-participantes dessa dinâmica energética que tanto pode nos curar como nos levar a adoecer, talvez pudéssemos entrar em um novo tempo em que possamos escolher e assumir a autoria da nossa história. Catharsis - Suas considerações finais. Maria Cristina - É uma proposta de realizarmos neste momento uma prática para despertar o ato criativo em cada um de nós e assim possibilitar o renascimento e resgate de nossa energia espontânea e, criativa - 1 -Feche os olhos, e sentindo-se confortável, abra-se para as sensações. Sinta, não critique, não avalie. Só sinta. 2º - Imagine agora uma folha branca, sinta o ar à sua volta, perceba que o nada existe, observe o que nunca observou. Use para isso as sensações, visão, audição, olfato, paladar, sensações internas e externas ao seu corpo. 3º - Agora perceba quanta energia você acumulou e comece a usá-la. Crie o clima, o espaço, os meios necessários para essa experiência. 4º - Usufrua a sua criação. Quando terminar o seu ato criativo, perceba como você está. Caso julgue não ter conseguido sua expressão criativa, lembre-se que ela pode ser impedida pelos medos: medo de perder a vida, de perder formas conhecidas de sobreviver, ou até mesmo de perder conquistas antigas, e muitos outros fantasmas. Resgatar e redirecionar nossa energia criativa vital, que muitas vezes está direcionada alimentando os impedimentos em um ato criativo, é optar pela vida, e assim encontrar-nos com nossa natureza espiritual. Agradeço, a oportunidade do espaço da Catharsis para expressar meus pensamentos .