SOLANGE CHALITA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Poema da extinta lembrança

    
Esquecer ou morrer-se
Até a última enervação
Nada sobre da
Demoníaca isquemia


Como um fluido fio
Recomeçar
Todos os dias
Sem revivescências

O que foi
Não mais está
Não é mais
nem será

Então
Nu
No tempo
Estar pronto


Não para rever
Mas para ver pela primeira vez
Tudo o que havia sido visto


Imune ao desgaste do que apodrece
Ser
Simplesmente novo
E amante


POEMA DAS POSSIBILIDADES

Alguma coisa
Forte
Rompendo um espaço indevassável
Pedia um poema

Havia um profundo soluço
Como sílaba forjada em aço
Forte como um jato de...
Como bala disparada
Para amedrontar o amado

Havia uma voz de pedinte
Precisa
Diáfana
Montando guarda nos disparates que podiam ser soletrados
À revelia dos passos


Havia mistério aos pingos
Escrita goticulando
Enredando o texto
Com extravagância
Estruturas frasais em pedaços

Então de muito longe
No longe mesmo
Fantasmas afásicos fincavam o pé
Para pedir

O quê ?

Mistério de visões silábicas
Sem sábados nem domingos



Perguntaram-me numa universidade: – Por que você é escritora?

Poderia elencar uma série de razões que me levam a escrever. Talvez a mais forte delas seja o prazer que o exercício da escrita me desperta. Escrevo com a alma e com o corpo de tal forma que, quando mergulho integralmente no universo da palavra, passo a viver numa dimensão extática, de total absenteísmo, como se levitasse. O ingresso nesse estado intermediário entre o mundo real e o mundo imaginário, é uma prerrogativa dos que criam, dos que sonham, dos que amam, dos que se encantam. Dos que sentem alegria, mas também dos que choram acometidos por dores várias. À medida que as palavras surgem e se solidarizam na estruturação do texto, vou sendo arrebatada por uma emoção crescente, desprendo-me da cadeira, sílabas pulam com o acelerar dos batimentos cardíacos, tento sustar os anacolutos, reorganizando o sentido da frase agora cronometrado pela digitação das letras no teclado. Escrever é compor com a música das palavras, como é também pintar através de sua plasticidade formal. É ser conduzido por uma profunda voz interior que nos leva através de um território desconhecido, quando, de repente, nos deparamos assustados com os nossos segredos, com nossas visões de mundo, nos revelamos a nossa própria identidade, expomos nossa sensibilidade e aí nos conscientizamos da importância de uma fonte interior coletiva de onde jorra a água da vida. Pela palavra nos fazemos seres coletivos, pois escrevemos para o outro, inclusive para outro de nós mesmos. A palavra escrita vivifica, revela, desvela, ama, acaricia, combate, transforma, revoluciona, agride, e até mata. É com esse material poderoso, que nós, escritores, trabalhamos incansavelmente, procurando encontrar a palavra primordial, instauradora, alada e divina que possa dizer tudo. Enfim, palavra, matéria prima dos poetas e ficcionistas usada em seus laboratórios alquímicos na busca da expressão perfeita.

2 - Muito cedo fui despertada para a emoção estética. Minha primeira forma de expressão foi a poesia. Adolescente, gostava de ler os parnasianos que figuravam no livro “Terra das Alagoas”. Na Faculdade Santa Úrsula, onde tive como professor de Literatura Brasileira o poeta simbolista Tasso da Silveira, achava um privilégio ouvir aquele aedo, de cabeleira branca e cego, falar de forma tão pessoal sobre os nossos escritores. Nessa mesma época, fui introduzida na leitura dos trágicos gregos. Até hoje me comove a releitura da Trilogia de Sófocles: Édipo Rei, Antígona e Édipo em Colono.
3 - Um texto bem escrito é um tesouro. Acho difícil indicar preferências porque o patrimônio literário universal é vastíssimo e inúmeros textos sedutores nos cativam : se penso em Machado de Assis, lembro-me do Mestre Graça, de Jorge de Lima, de Proust, de Manuel Bandeira, de Paul Éluard, de Camus, Apollinaire, de Guimarães Rosa, de Ledo Ivo, de Verlaine e de Rimbaud, de Clarice Lispector, de Homero, de Fernando Pessoa, de Olavo Bilac, de Sophia de Mello Breyner, da eterna Cecília, de Lia Luft, de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, de Nelson Rodrigues, de Frederico Garcia Lorca, de Gabriel Garcia Marquez, Juan Rulfo, de José Saramago e de muitos e muitos outros nomes de escritores mortos, e vivos. O importante é poder continuamente ser leitor de um texto que nos tonifique.

4 - E dos alagoanos? De todos os escritores gerados aqui, em solo arenoso ou pedregoso, sobre nossas águas lacunares, fluviais e marítimas e sob as pluviais, ofuscados pela luz dos trópicos.

Solange Berard Lages Chalita. Nascida em Maceió. Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Alagoas.