ELISABETH CAMARGO MARTELLO
PORTUGUÊS
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CONTO "O PATO DE ANO NOVO"

       Nunca ninguém notara nela qualquer carência.Na noite em que assassinaram seus sonhos, viu que seria sempre assim. Um não encontrar aflitivo com a gente.
Qualquer coisa de bicho instaurou-se nela.
       Olhou para a mesa posta. A família reunida formava um burburinho alegre.Pratos e talheres tilintavam.
       _Catita está amuada.
       _Gênio do desgraçado do pai...
       _Vinho! Mais vinho!
       _Muito dinheiro no bolso...
       _E saúde.
       Embaixo da mesa tio Leandro esfregava a perna na coxa da...
       A cortina voou e lhe desviou a atenção.Lá fora, o mesmo quintal.
       _Viu como a Alzira mudou?
       _Também...com aquele padrão!
       _Depois o caso com o hum...
       _Cale-se.Toda nossa família é gente muito honesta!
       A mão do tio Leandro passeava sob o vestido transparente, a sua mão subia.
       O nome do pato era Cândido. Quando se alegrava abria bem as asinhas e saltava. Agora toda a graça dele era triturada ali. Deglutida.
       O vinho escorria pelo pescoço de tia Violeta. Estariam todos bêbados?
       _A menina não quer vinho?
       _Faz mal.
       _Qual nada.Hoje vale tudo.Entrada de ano!
       _O desgraçado do pai não punha álcool na boca.Nunca!
       _Quero água.
       A mão do tio Leandro desceu um pouco, estremecendo ao perceber a voz da criança.
       _Quero água.
       Jogava-lhe água corpo abaixo quando os dias eram ensolarados. Sempre guardou um temor de que ele se resfriasse ou apanhasse pneumonia. Mostrava
o alvo de suas tranças e o bico se sacudia todo, soltando as gotas translúcidas das penas brancas.
       _Tome vinho, menina.
       O copo ficou cheio. Tia Mariana chupava o osso como uma selvagem.Nos bigodes do avô um molho engraçado cor de tijolo. Os olhos de sua mãe estavam
enviezados.
       _Ai...ai...que delícia!Hum...que prazer!
       Os olhinhos redondos pareciam conhecê-la, era como se suas bicadas fossem
beijos. Puros, breves.
       _Eu o amava.
       _Ouça, querida. É apenas um pato.E está muito saboroso...(silêncio).
       _Experimente.
       _Não.Não quero.Quero água.
       O pedaço foi jogado no prato de Catita.
       _Coma, Catita.
       _Eu já nem ligo mais...
       _Essa menina não se cria.
       _O desgraçado do pai não comia carne!
       _É uma criadora de casos, Violeta.
       _Crianças no meio de tantas pessoas adultas!
       Catita levantou-se. A boca seca.Na garganta um soluço perdido.
       _Precisamos entrar juntos no ano!
       _Volte, Catita!
       _...
       _Volte!
       _Essa menina não ouve ninguém!
       _Deixe-a, Violeta.Nós também um dia já fomos assim....
      (Um silêncio intrigante tomou o ambiente. A frase talvez tivesse uma conotação mais profunda para cada um).
       Passos largos a levaram à brisa gostosa do quintal. O quintal era o mesmo. Uma peninha branca voou em sua direção. Acariciou-a levemente junto ao rosto de
pele pessegada.
       Lá fora, uma voz estridente se fazia ouvir:
       _É o pai escrito e escarrado.
       Catita soltou a pena. Talvez o vento, o velho vento se encarregasse de enterrá-la...
       E a menina, o olhar a se perder no espaço, só tinha consigo uma certeza: nunca
mais seria a mesma.

(Extraído do livro "Contos de verde essência")