ANABEL SAMPAIO
PORTUGUÊS
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LAÇOS E ABRAÇOS Annabel Sampaio Foi um desafio Roubar do seu olhar menino O encanto masculino Pelas madrugadas a fio. Quando caminhávamos descalços pelo corredor da lua. Pisando no deserto da lamúria Entregando com vontade Ao suplicio da saudade. De todos os nossos abraços Acolhidos à saciedade Matando toda a vontade Após tantos recados de amor. E sentir-se amado Nem doado e nem roubado No conforto de nossos abraços Como laços perpétuos atados. Somos náufragos abraçados no mar revolto. Almas que se uniram na chama da vida. Corpos que se encontraram no abraço da volta Após tantas despedidas. Na labuta de meus desejos Tão seus Sufocados em anseios Tão meus. A silenciar tantas vozes na alma A ouvir tantos segredos com calma Pelas súplicas de nossos beijos trocados. Pelo calor de nossos abraços molhados. E agora Não me olhes com esse olhar cheio de promessa Se a loucura de me atirar em seus braços em nada confessa Que você veio só para mim. E nessa despedida Eu faço do lamento o riso Com jeito de improviso Só para fingir que eu nunca esperei por ti. A Saga da vida Annabel Sampaio Como uma flor que se rompe do caule Lânguida e fora de época Esvaindo-se de sua natureza efêmera e bela Que se cai do abrigo frondoso da árvore que lhe deu a seiva Pelo sopro desvairado do vento A natureza açoita com frieza Entre tantas, a mais linda flor que se viu um dia Agora, furtada de vida Dádiva Lilás Sorrateira como o breve tempo Pintada com as nuances pálidas do envelhecimento Ainda exala fragrância inócua Jaz na varanda do templo Bailando ao som do vento Rolando pelo chão árido de esquecimento Bailando como uma Viveu com esmero na trepadeira da janela Antes do alvorecer da primavera Beleza frágil de vida. TRECHO DO LIVRO MISSÃO BIRKENAU ( ROMANCE QUE SE PASSA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL) -Capitulo 5- No seio da família judia Petronella entrou em Amsterdã como se entrasse em um túmulo cheio de ossos que continuavam a arder por um passado tão sofrido. Não era essa metáfora mais compatível com a sua emoção, porém, ela ouvia todos os ossos dos judeus blasfemando pela morte indigna. Pela história, a Holanda já havia sido invadida por tropas alemãs e estava em plena Segunda Grande Guerra. A noite de inverno já havia caído. O céu estava cor de anil. Todavia, o vento soprava pelas avenidas longas dando golfadas de escuridão, emitindo assobios que urravam como lobos famintos em busca do genocídio. Acabrunhada, ela se enrolava no casaco azul marinho que lhe pesava os ombros, enquanto perambulava com graciosidade pelas ruas desertas da cidade em busca do abrigo secreto dos judeus. Seus passos cadenciados repercutiam ao longe, provocando ecos. As casas perfiladas ao longo da rua, pintadas de cores variadas ao estilo de Baviera. Por todo lado havia indícios de desmoronamento, entulhos que estreitavam as ruas e encobriam parcialmente canteiros de hortências que começavam a florir. Petronella se abaixou e colheu um tufo de pétalas verde-claras que já tendia para o lilás e colocou na lapela de seu casaco. Naquele momento, ela já não se seduzia pelos ares nostálgicos da antiga Amsterdã. E tão pouco temia que isso pudesse deixá-la susceptível às lamentações emocionais incontroláveis de seu coração. A melancolia não era permitida mais, embora soubesse que, se tratava de uma época trágica e marcada pelo racismo e pela dor. A lua mostrava-se prateada e pendente sobre a cidade parcialmente destruída. De vez enquando, Petronella via vultos apressados pelas ruas se escondendo pelas edificações com vigas semidemolidas. À margem do medo Nazista, a noite avançava fria e fraudulenta de segurança. Apesar da necessidade de apressar-se, a moça lia os inúmeros panfletos colados nos postes e muros. Todos eles possuíam os dizeres: Nicht für juden! (Porcos judeus). A cidade se desmoronava. As ruas se estreitavam em entulhos de demolição por todos os cantos. Embora Amsterdã se ruísse pela guerra, a cidade passava um ar de nostalgia. A metrópole acinzentada encontrava-se abandonada beira ao caos, com construções se rompendo como feridas de guerra, compondo um cenário sombrio e liquefeito da mais fiel tradução de morte e de extermínio. Estar em Amsterdã naquele momento da cidade ser dominada pelos Nazistas era para Petronella Van Dan o mesmo que se encontrar dentro de um quadro antigo ruído pelo tempo, onde as bordas estavam dilaceradas pela artilharia e pela pintura ofuscada pela fumaça dos crematórios. Pois, a moça sabia que, naquela mesma noite muitos judeus holandeses estavam sendo capturados pelos Einsatzgruppen e, após serem obrigados a se despirem, eram obrigados a entrarem nas valas, onde eram mortos a sangue frio. De repente, um estrondo seguido de uma explosão ribombou nas imediações resplandecendo um clarão amarelo-alaranjado que se propagou provocando uma nuvem de fumaça. Foi quando uma frota aérea vertiginosa rompeu o céu cuspindo granadas. “Meu Deus, devem ser os fluxos de bombardeiros das grandes esquadrilhas para combater o exército Nazista”, pensou ela quando percebeu que estava na mira de um bombardeio aéreo. Um golpe de vento atirou Petronella ao chão, enquanto uma sirene com som atordoante foi acionada. As luzes se apagaram e a cidade mergulhou em uma vasta escuridão repleta de focos de incêndios, enquanto que longos feixes de luz brotavam do chão como se tentassem abater os aviões inimigos. TRECHOS DO CAPITULO 3 Quando a viajante do tempo adentrou a porta da década do ano de 1944 a sua inquietude foi rompida pelo coral de Heil. Era como se melindrosas vozes trouxessem o resto de sua alma que ela havia deixado em 2162 para viver o ano de 1944. Petronella Van Dan inspirou e fechou os olhos por alguns minutos quando ouviu os interlúdios pastorais de Bayreuth Wagner. Nada seria capaz de registrar tão bem aquele momento quanto a música mais ouvida da época. O "Corpo Elementar Quatro" possibilitava a Petronella uma boa dose de sensibilidade que ela não tinha no "Corpo Elementar Um". Seus ouvidos estavam mais apurados e a sua emoção à flor da pele. Assim, Petronella adentrou-se à porta do tempo, numa noite fria de uma cidade estranha. Seus olhos ficaram aflitos quando ela viu uma paisagem que não esperava ver. "Que raio de lugar é esse?", pensava ela. Com os olhos tristonhos, Petronella viu as sombras alongarem-se pelas ruas parcialmente destruídas, mostrando uma metrópole à beira do caos de guerra. Todavia, não era naquele local que a equipe de Dr. Oppenheimer programou para que ela e Goethe chegassem. Trêmula, ela girou o botão do indexador de tempo para proceder a leitura do Index, que mostrou no visor o dia 17 de junho de mil novecentos e quarenta e quatro – Cidade de Amsterdam. _Oh céus! Estou há quase um mês antes do programado! Por que deu errado?- Pensava ela prestes a fazer a maior choradeira. Então, com a oscilação de suas cordas vocais, ela apeou o indexador flutuante e, com dificuldade, ela ajustou a voz no sensor, na tentativa de conectar-se com um computador de bordo acoplado em um satélite. _Patrulheiros, vocês estão a postos? Câmbio! -Estamos a postos, câmbio! _Responderam depois de alguns segundos. _Estou em Amsterdam! Como pode isso? O que houve pelo amor de Deus? _ Confirme o seu index. O que mostra o seu rastreador? _ Perguntou a voz através do capacitador de mensagens. -Acho que houve algo errado. Estou em Amsterdam, não em Nuremberg. -Hmmm...De fato, houve um salto errado. -Que data? -17 de junho de1944, confere? -Está errado! Você saltou na data e no local errado! Era para ter saltado na data de 19 de julho de 1944, em Nuremberg. _Oh céus! E agora? -Conforme o index consta que o Patrulheiro Goethe se encontra em Nuremberg, porém, um mes antes dessa data. _Goethe está em Nuremberg? _Exato! _Maldito Goethe! Ele não foi me encontrar conforme o combinado! _Deve ter acontecido alguma coisa que ele não foi pegá-la no Beco do Tempo.