EVAN BESSA
PORTUGUÊS
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O CASAMENTO REAL

Neste penúltimo dia do mês de abril ninguém no planeta ficou indiferente ao casamento real. A mídia se encarregou de deixar todos bem informados acerca do acontecimento mais importante deste século para a Inglaterra e, posso até afirmar, para muitas pessoas de outros países. 

A Londres fria amanhecia com toda a pompa para mostrar ao mundo a realeza em festa. Bandeiras, seguranças, igreja devidamente decorada aguardavam o grande momento. Parecia aqueles contos de fadas que líamos nos livros de Andersen e dos Irmãos Grimm. “Era uma vez um príncipe”... E, daí em diante, a população ficou à mercê do evento. Nas ruas, cheias de gente, algumas pessoas com barracas, colchões, e demais apetrechos acamparam até a hora do esperado casamento.
Realmente, o que se viu foi um total deslumbramento para os olhos. Desde a pontualidade britânica aos moldes da cultura inglesa, até as rígidas normas do cerimonial que funcionaram adequadamente. 

A chegada dos convidados na Abadia de Westminster devidamente instruídos por um manual de normas distribuído pelo Palácio de Buckingham junto com os convites. Representantes de embaixadas, primeiros ministros, reis e rainhas de países distantes, adentravam a nave com seus trajes apropriados e as mulheres, com chapéus, muitos deles, extravagantes. 

A Família Real britânica e toda a realeza chegaram também na hora determinada e, por último, os personagens mais importantes: o noivo e a noiva. A cerimônia seguiu os trâmites previstos. A platéia e o cenário estavam de acordo com a programação executada em detalhes pelo Palácio Real. O casamento realizou-se e deu para perceber a felicidade dos noivos. Cada palavra, cada olhar eram de uma cumplicidade inimagináveis. 

Após a cerimônia religiosa o cortejo tomou as ruas de Londres e a população eufórica aplaudia, tremulava bandeiras para saudar o novo casal agora com títulos de Duque e Duquesa de Cambridge, designados pela rainha Elisabeth II. Os festejos tomaram o resto do dia 29 de abril, entrou à noite e foi até a madrugada.
Os súditos ficaram maravilhados com tudo o que viram. E no imaginário coletivo ficará gravado por muito tempo mais um acontecimento inesquecível, ou melhor, o mais novo conto de fadas do século XXI.


DIA DAS MÃES 

Acordei, lembrando de você, mamãe! As recordações vieram em cascatas como cachoeira derramando-se no alto do despenhadeiro. Nesses momentos, a gente se sente vulnerável, insegura e com a emoção à flor da pele. Tudo isso porque você não está mais comigo. Todos festejam o Dia das Mães e eu aqui sozinha experimentando uma saudade dolorida. 

Saudade palavra que tem um peso semântico muito forte e traduz uma carga emotiva significativa. Vocábulo que não existe em outro idioma. É a saudade, hoje, que me acompanha, segura minha mão a todo instante e não me deixa lhe esquecer... Plagiando o que disse Roberto Carlos: “Você é a saudade que gosto de ter/ Só assim/ Sinto você mais perto de mim/ Outra vez”. É o consolo para sair da tristeza de não poder lhe abraçar, beijar e repetir sempre, como fazia quando você estava no plano terreno, o refrão: Eu te amo!!! Lembro que você ficava manhosa como uma criança ao ser acariciada, e o sorriso aparecia nos olhos miúdos e nos seus lábios. O rosto ficava corado como de uma adolescente ao encontrar alguém importante para o seu coração. 

Chega-me agora tanta coisa que me faz sentir a sua ausência. O cuidado que devotavas a cada filho era exagerado. Como queria defender suas crias dos problemas, das dificuldades da vida! Se um filho adoecia, podia ser um adulto, a preocupação era a mesma de quando éramos crianças. Ficava telefonando a cada hora, ensinava remédios caseiros, acompanhava tudo de perto. Mesmo com a idade avançando você não perdia a fixação pelo bem estar dos filhos. 

Quando meu irmão sofreu um AVC e ficou imobilizado em cadeira de rodas, você dizia: Por que não foi em mim? Eu já estou velha. Ele vai ficar bom? E indagava a quem se aproximasse sobre a cura do filho. Permanecia ansiosa querendo estar a par do tratamento. Falava com a fisioterapeuta, com a fonoaudióloga, observava se os remédios estavam sendo ministrados, conforme prescrição médica. E como seu rosto mudou a partir do acontecido! Sua fisionomia demonstrava preocupação, aflição e ansiedade! Faltava-lhe chão. 

Você, que era “antenada” com o tempo e com os acontecimentos ao seu redor, curiosa, depois da doença do filho, nada lhe importava, nada a deixava feliz. O seu foco estava na reabilitação mais rápida possível para ele. A plantinha que era linda e viçosa aos poucos foi perdendo o viço, a alegria de viver. Não a reconhecia. Onde estava o bom humor, as piadas, as brincadeiras e as “danações” que fazia para chamar a atenção? Aos poucos você foi perdendo a vontade de viver. Não entrou em depressão porque com o seu temperamento era impossível, mas a mudança se fez com a dor, o sofrimento e por se sentir impotente diante do quadro à sua frente. Sua tristeza maior era não poder curar o filho... E como rezava! 

Acho mamãe, que você foi saindo da vida devagarzinho para que não nos assustássemos. Queria que os filhos não sofressem mais ainda com a sua ausência. Tudo em vão, mamãe! 

Sua presença ficou impregnada em todos nós. Você saiu de cena, no entanto, continua no palco das nossas melhores lembranças e nos nossos corações. Isto porque, mamãe, para nós você não morrerá nunca! Encantou-se em algum lugar do infinito...



A TRAGÉDIA QUE ABALOU O MUNDO

Os últimos acontecimentos ocorridos no Japão nos levam a refletir e repensar a vida no planeta Terra. O homem, ao longo de sua história, tem sido verdadeiro predador provocando a degradação da natureza. Na busca de obter êxito em seus objetivos ou em nome do progresso, da modernidade, o meio ambiente fica a mercê de desastradas ações a que, mais tarde, a própria natureza vai responder com catástrofes inimagináveis. 

Acompanhamos, diariamente, pelos meios de comunicação a tragédia que abalou o mundo. Há em todos uma perplexidade diante dos estragos deixados pelo maremoto, pelo tsunami, no Japão. Uma nação que já experimentou momentos de guerras, explosão de bombas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki. Com coragem e muita luta o seu povo renasceu das cinzas como Fênix. Hoje, estão vivenciando uma situação diferente, mas tão cruel e ameaçadora como a anterior. 

O mundo nesse momento se volta para ajudar e apoiar nossos irmãos japoneses. É um trabalho de solidariedade, pois a população conta ainda seus mortos e busca desaparecidos na imensa onda que arrasou a cidade de Sendai. Na realidade, são inacreditáveis as cenas que se observam através da televisão. Parece filme de terror, de guerra, em termos de destruição e desolação das áreas atingidas. Casas, carros, barcos, prédios que com a força e fúria das águas se converteram em pequenos brinquedos, dado a velocidade com que se destroçavam frente às ondas gigantes. Há, ainda, o perigo da radioatividade, proveniente das usinas atômicas, maximizando o sofrimento, tendo em vista o efeito negativo que pode provocar entre seus habitantes. 

O Japão nesse instante passa por imensas dificuldades. Sem água, alimentação, recursos de todo tipo aguarda auxílio das nações amigas. Necessita de socorro urgente, a fim de que possa atravessar essa quadra penosa e reconstruir a nação.
Imigrantes japoneses estão espalhados por todas as regiões da nossa terra e, mostraram sempre sua força inabalável para o trabalho, a disciplina, além de conservarem costumes e condutas singulares, respeitando assim seus antepassados. 

Diante de tamanha tragédia temos que refletir profundamente sobre o futuro do planeta. Como deveremos tratá-lo, como poderemos devolver a natureza tudo o que fizemos contra ela, e assim, encontrarmos formas e estratégias condizentes, usando o bom senso, para que vivamos num mundo melhor e com mais segurança.


A FRAGILIDADE DO SER HUMANO

Fazia algum tempo que não nos víamos. A dinâmica que a vida nos imprime, os compromissos assumidos, a roda viva do dia-a-dia impossibilitou que nos reaproximássemos. O tempo não espera por ninguém e muito menos quer saber de desculpas ou justificativas. O certo é que a distância nos deixou sem o menor contato. 

Ontem, por ocasião de uma missa, reencontrei uma pessoa muito especial. Qual foi a minha surpresa! Havia ali na minha frente, não a criatura que conheci, mas alguém dependente, amparada por duas cuidadoras. Seu estado de saúde demonstrava fragilidade. Olhei um pouco assustada sem querer acreditar no que estava vendo. Imediatamente, minha memória, tal qual um computador, processou um passado não muito distante quando a conheci anos atrás. O paradoxo do antes e do depois parecia uma coisa inaceitável. Aquela moça cheia de vigor, saudável, ativa, inteligente, que gostava de viajar, se divertir, não era a mesma. A colega de faculdade aplicada que se destacava diante da turma pelas notas, trabalhos e discussões em sala de aula, não mais representava aquela figura que guardei na lembrança e que todos nós admirávamos. A educadora competente preocupada em desempenhar bem o seu ofício, pois era vocacionada para o magistério, não era a que eu conheci. 

Lecionou por vários anos, concluindo o seu labor na Universidade. Veio de repente em minha mente o que disse Rubem Alves: “Ensinar é um exercício de imortalidade”... Acredito que como mestra ela ficou nos corações de seus milhares de alunos. 
Diante de mim havia um ser humano com um olhar distante, sem conseguir ficar de pé sozinha, com dificuldade de reconhecer as pessoas em sua volta. Fiquei perplexa, muda, aflita ao ter que me reapresentar para ela. Ao completar a “apresentação”, ela me fitou e deu um sorriso pálido, triste, inócuo. Parecia não estar conectada com a realidade presente. Mesmo assim, abracei-a com afeto e senti que os seus lábios beijavam a minha face. Emocionada, com os olhos marejados de lágrima, engoli a seco. Senti-me impotente diante de um quadro tão cruel. Desconfiei que ela estivesse sofrendo do mal de Alzheimer, uma vez que conhecia de perto a problemática por ter acompanhado anos de sofrimento meu próprio pai. Mais tarde, pude confirmar a suspeita, depois de falar com seus familiares. 

Durante o ato religioso não conseguia me concentrar... O quadro que tinha presenciado me deixou impactada e meus pensamentos em verdadeira turbulência. Foi difícil acompanhar até o final todo o ritual. Meu coração batia mais forte e não conseguia compreender o declínio de uma pessoa com tantos predicados, principalmente, o de saber fazer amigos. 

Diz uma lenda chinesa que “amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas: nenhuma tempestade consegue arrancar”. Assim me sinto diante dessa amiga querida, nada vai nos afastar, nem mesmo a doença que a acometeu. Nunca deixarei de admirá-la como um ser humano de valor e de princípios que atravessou meu caminho e, juntas, tivemos a oportunidade de aprender muito uma com a outra.