VANIA RIBEIRO DE ANDRADE
PORTUGUÊS
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O Sobrado da Rua 0nze


Ana, jovem interiorana, recém formada, encontrou trabalho como assistente de redação em um conceituado jornal da grande metrópole, local que escolheu para viver e crescer profissionalmente.
Vivia basicamente do trabalho para o apartamento ou “apertamento”. Tinha como companheiro constante Algodão, seu gato de estimação.
Depois de mais um dia de trabalho, em seu apartamento com Algodão ao colo, sentou-se para ler um pouco, quando o telefone tocou.
– Alô! Senhora Ana? Não me conhece, sou advogado e represento o seu avô Jacinto. Ana ficou em silêncio, um leve tremor percorreu seu corpo acompanhado por um aperto na garganta.
“Meus Deus! Será que ...” pensou Ana.
– Alô? A senhora está ouvindo? – interroga o misterioso advogado.
– Sim, pode falar.
– Tenho uma triste notícia para lhe dar. Seu avô faleceu nesta tarde. Como sabe, ele estava muito doente, bem, já era esperado pela idade e enfermidade. Meus pêsames.
Apesar de saber da enfermidade do avô paterno, e, que estava próxima sua morte, sentiu uma forte dor, uma sensação de vazio, de desamparo.
– O enterro será amanhã, a senhora virá?
– Gostaria muito de ir, mas não sei se conseguirei chegar a tempo, pois tenho que comprar as passagens aéreas e ainda..., tenho o Algodão, o trabalho...
– O escritório já providenciou as passagens áreas, era desejo de seu avô ... e bem..., quanto ao trabalho providenciaremos o pedido de licença.
– Sim, eu vou. Vovô Jacinto era meu único elo familiar.
– Ótimo, pois ainda há a leitura do testamento que deve ser feita na presença de todos os herdeiros. Até amanhã.
No avião, relembrou o primeiro encontro com seus avós paternos, identificou-se de imediato com seu avô Jacinto. Tinha oito anos de idade, primeira vez que viajou de avião e sozinha. Férias inesquecíveis, quantas guloseimas: bolos, balas e doces. Muitos presentes. As brincadeiras com os primos eram incansáveis.
O avô Jacinto “bancou” seus estudos. Eles se correspondiam de forma constate e amorosa. Desde os dez anos de idade de Ana. Havia uma linha tênue e mágica que os ligavam, apesar da distância e pouco se verem. Mas, infelizmente ocorreram às artimanhas não declaradas da tia Alberta, o que ocasionou brigas, mentiras e mágoas. Naquela época, não compreendeu os fatos. 
Ana chegou a tempo de acompanhar o sepultamento do avô querido e prestar a última homenagem. Depositou um lírio branco sobre o caixão.
De imediato reconheceu os primos: Carlos, Jane e Rich, e os tios Flávio e Alberta. Cumprimentos frios e inexpressivos deixaram visível o descontentamento por ter comparecido. Porém, no meio de tantos rostos familiares e hostis, encontrou um sorriso, um olhar amoroso do seu primo Rich.
“Ainda bem que Rich está aqui, é meu refrigério, um oásis nesse espinheiro humano em que estou envolvida.” Pensou Ana com um longo suspiro.
Da leitura do testamento ficou para Ana o cobiçado sobrado da Rua Onze, murmúrios e grunhidos, abafados, foram ouvidos e identificados pelo olhar rápido e perspicaz da jovem herdeira. Eram da tia Alberta e da prima Jane.
Recebeu ainda um envelope selado com o brasão da família à moda antiga, subscrito: “a minha neta Ana muito amada”.
Voltou ao hotel. Enquanto acariciava Algodão, presente de seu avô Jacinto, lia a carta e grossas lágrimas escorriam por sua face. A carta possuía pedidos de desculpas e reafirmava o amor e o orgulho de seu avô pela neta querida e que ela era digna de ser a guardiã do Sobrado da família e que um dia dolorosamente entenderia.
Num ímpeto não desfez as malas, resolveu ir para o sobrado da Rua Onze, apesar de ficar meio afastado, pois lá viveu momentos de felicidade nas suas duas férias, e, agora, lhe pertencia.
Chegou ao entardecer. Ainda havia luz natural, e do jardim, isto é, o que um dia foi um jardim, o sobrado dominava a paisagem de forma imponente e majestosa. A velha construção possuía uma torre lateral e duas janelas imensas tanto no primeiro quanto no segundo andar. Eram janelas-vitrais, as quais compunham um estranho desenho para um sobrado centenário.
À frente do portão do velho sobrado, Ana perdeu-se em reminiscências. As paredes verdes cobertas com quadros e fotografias da família. A mobília impecável. Parecia ouvir as vozes das crianças cantando, o barulho das brincadeiras, as guloseimas, em fração de segundo se viu menina-moça, o burburinho das festas, o namoro, as brigas, a fuga...
Sacudiu com força a cabeça como a espantar velhos fantasmas e encarou o sobrado a sua frente. Abriu o portão e, a passos lentos, percorreu o espaço até a entrada principal. Respirou profundo e, decididamente, rodou a chave na grande porta de madeira e entrou. Estava deserto e silencioso. Só Algodão corria pela sala, pelos móveis, parecia se divertir.
Olhou ao redor e sentiu como se tivesse penetrado em uma câmara mortuária. Não havia luz elétrica. Cortaram pelo desuso. Porém, a luz da tarde perpassava pelos vitrais e clareava parcialmente a sala. No lusco fusco, formavam sombras desfocadas dos móveis cobertos por lençóis e papelões.
Misteriosamente sentiu um calafrio repentino por todo o corpo. O mesmo aconteceu com Algodão, pois ficou em posição de ataque, todo eriçado e correu para o colo de sua dona, se é que gato tem dono. Os desenhos dos vitrais projetavam formas fantasmagóricas nas paredes.
Ana fechou rapidamente a porta do sobrado e das lembranças. E dirigiu-se a uma pequena pensão para passar a noite.
No dia seguinte legalizou a situação da energia elétrica e resolveu passar alguns dias no Sobrado da Rua Onze. Seu instinto pedia isso, não sabia o que faria com a herança e tão pouco o porquê da necessidade de ficar no velho sobrado.
A luz da manhã percorreu os cômodos do sobrado, a imponência de outrora estava lá, apesar das cores desbotadas das paredes, as telas retratando os familiares seculares, as fotografias os mais recentes.
Numa tarde, ao passar a mão displicentemente sobre a parede próxima ao peitoril da janela da torre, encontrou uma quase reentrância. Curiosa, começou a examinar, dedilhar e, sem querer, pressionou uma diminuta alavanca e uma passagem secreta surgiu.
Desconfiada, olhou com cautela o local. Era pequeno, escuro, úmido e frio. Voltou o arrepio pelo corpo. Não havia janelas, mas na penumbra conseguiu distinguir uma mesa, duas cadeiras e um baú; entrou e, apressadamente, arrastou o baú daquele local. Na saleta verificou que ele estava trancado com um velho e grande cadeado. Qual o segredo tão bem escondido naquele velho baú?
Voltou à sala secreta e, com ajuda da luz do aparelho celular, procurou por cima da mesa, nas cadeiras e no chão pela chave do cadeado. Nada encontrou.
Saiu da casa, foi até o velho jardim, pegou algumas pedras e, com auxilio delas e muitas pancadas, conseguiu quebrar o cadeado. Finalmente abriu o baú e começou a retirar fantasias, máscaras, retalhos de tecidos, cinco diários e vários recortes de jornais cujas manchetes saltaram aos olhos de Ana: MORTES MISTERIOSAS NO VILAREJO.
De quem seriam? O que guardavam aqueles diários? Sentou-se no chão e escolheu um diário com capa de tecido estampado com pequenos buquês de flores desbotadas pelo tempo e com um grande número 1.
Começou a folheá-lo ao acaso, descobriu que o diário fora de sua bisavó Florinda, a qual possuía uma letra bem desenhada, porém forte; provavelmente dona de uma personalidade marcante, pois os traços e as palavras eram enérgicas e vibrantes.
E sentada no chão da sala iniciou a leitura dos outros diários escritos nas décadas de 30 a 50. Ana, petrificada, continuava a leitura daquelas páginas.
Atônita, não acreditava no que seus olhos teimavam em ler, enquanto sua mente rejeitava aceitar o conteúdo daquele diário que tinha as últimas folhas arrancadas, provavelmente de forma abrupta.
Maquinalmente devolveu as fantasias, as máscaras, os tecidos ao baú e este ao esconderijo secreto. Os recortes de jornais e os diários foram para a mala de Ana.
O Sobrado da Rua Onze, agora, causava-lhe um gosto amargo na boca e uma fina dor no estômago. Precisava esconder a verdade urgentemente, antes que alguém mais descobrisse o segredo.
Do jardim, ao dar a última olhada ao velho sobrado encoberto pelo céu enegrecido, compreendeu o vermelho sangue dos estranhos desenhos que dominavam as janelas-vitrais. Devorada pelas sombras fantasmagóricas, Ana respirou ofegante e, trêmula, fechou à chave o portão de ferro, e foi embora sem olhar para trás.

contato com a autora: volitaandradehotmail.com