MORGANA GAZEL
PORTUGUÊS
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ROMANCE        ROMANCE        ROMANCE       ROMANCE        ROMANCE      


TRECHO DO LIVRO ENSEADA DO SEGREDO
        Fred lembrava que acordou e resolveu ir à cozinha; queria um copo de leite. Mas seus pés levaram-no ao quarto de Gilda e paralisaram-no, ele não conseguia concentrar-se; sua mente não lhe obedecia.
        Gilda voltou-se tomada por uma devastadora surpresa, colocou o telefone no gancho e estacou, tinha a tez pálida como giz. Fred via as imagens em câmara lenta. Sua fisionomia nada manifestava; nem doçura, nem jovialidade, nem tristeza, nem raiva, nem desapontamento. Estava estática, vazia. Gilda olhava-o em silêncio, as mãos na boca como se quisessem segurar o grito que insurgiu abafado, quase um sussurro de puro desespero.
        – Fred!?...
        Ela o tomou nos braços, ele ausente. Sacudiu-o pelos ombros, gritou-lhe o nome, Fred não reagiu. Ela gritou mais uma vez, outra vez, outra vez...
        – Não! – ele berrou, desvencilhando-se dos braços dela.
        Gilda tentou novamente abraçá-lo, Fred afastou-a.
        – Não me toque! Você me enganou!
        Ele chorava alto, soltava uivos de raiva e dor, uma raiva feroz, uma dor avassaladora e ainda se encontrava à porta da forjada realidade. Logo descobriria que sua vida era um amontoado de mentiras. 




CONTO              CONTO             CONTO              CONTO              CONTO

A Caipora e Joaninha 

     Joaninha acordou com os gritos de D. Nazinha, pareciam vir da cozinha:
     – Levante, menina! Vá cumprá o leite! Tá ficano tarde!
     Sentou-se na cama, atordoada, sua impressão era de que o lençol lhe dizia: “Sai não, Joaninha!”
     Mas D. Nazinha entrou no quarto.
     – Cê inda taí, Joaninha?! Cê inda taí?
     Joaninha levantou-se e saiu de má vontade. Além de estar com muito sono, não gostava de se afastar sozinha de casa, tinha medo de cobras, embora a ninguém confessasse. Esforçava-se em ser corajosa como o pai. Caminhava, bocejando e recordava a D. Nazinha do tempo em que era apenas sua tia. Ah, quantos mimos ela lhe fazia! Porém, após a morte da mãe de Joaninha, o pai juntou-se à cunhada Nazinha que logo passou a imitar a irmã falecida, naquilo com que a menina mais se aborrecia: “Já se banhou?... Vá passá o pente no cabelo, Joaninha!... Venha varrê o terreiro, que eu vou cuidá do de comer...” A menina não via mais nenhuma graça na vida. Sentia saudade de quando era bem pequena e sua mãe era viva. Nessa ocasião, tanto a mãe como a tia faziam tudo por ela e nada lhe exigiam.
     De tão absorta, passou do portão do curral, entrou numa trilha do lado oposto e se embrenhou no mato. Abundavam ali cajueiros, umbuzeiros, ouricurizeiros, todos ressuscitados pelas últimas chuvas. Não estava perdida. Sabia que se retornasse pelo mesmo caminho, logo estaria em casa, tomando café com cuscuz de milho, molhado com leite fresco de vaca. No entanto Joaninha não fez nada disso. Ainda sonolenta, sentou-se à sombra da árvore mais frondosa, aconchegou-se entre as raízes salientes e adormeceu.
     Ao acordar, viu uma mulher de pé em sua frente, mirando-a, seus olhos escuros penetrantes, o cabelo também escuro, liso, curto, cheio de pontas, tez morena, uma só perna e vestia uns trapos que pareciam tecidos com fibras agrestes. Sem abrir a boca, falou dentro da cabeça de Joaninha: “Menina, vem! Eu mostrar a mata.” Joaninha seguiu-a, adentraram a vegetação. Apesar de não haver trilhas, a mulher caminhava com destreza, esgueirava-se, agachava-se e suas mãos auxiliavam o habilidoso pé. Joaninha imitava-a como se aqueles movimentos lhe fossem usuais. Chegaram a um riacho em que, no alto, ramos de árvores se entrelaçavam, a luz penetrava, difusa, o teto de folhagem. A mulher afastou-se. Joaninha ouvira, novamente dentro da cabeça, que devia esperar. Respirou três vezes, a outra voltou, nas mãos uma cabaça aberta, cheia de suculentos umbus, pinhas carnudas e araçás. Elas comeram e trocaram algumas palavras silenciosamente. Joaninha enfim havia aprendido o estranho modo de se comunicar.
     Ao finalizar a refeição, a mulher segurou uma das mãos de Joaninha, deu um grande salto, levando-a consigo. E tudo se apagou.
     Quando Joaninha voltou a si e ao mundo, as duas eram criaturas minúsculas em meio a gigantes formigas. A menina agarrou-se à mulher com medo de ser devorada por aqueles monstros. A mulher explicou que somente o tamanho delas havia mudado, estavam menores, mas invisíveis às formigas. Desesperada, Joaninha chorou e pensou, aos gritos: “Estou menor do que uma formiga?! Não! Quero meu tamanho!” A mulher respondeu silenciosa e animada: “Vem! Eu mostrar formigas. Engraçadas. Vem! Você boba! Eu devolver tamanho depois.”
     A menina, acalmou-se. Curiosa, pôs-se a observar as formigas. Uma fileira delas seguia na direção de um buraco, carregando pedaços de folhas maiores que elas. Outra fileira retornava sem nenhuma carga. A mulher ria como se fosse a melhor coisa da vida estar entre aqueles insetos. A menina acompanhou-a quando ela resolveu entrar no formigueiro. À porta um grupo de formigas patrulhava. Lá dentro, Joaninha viu uma bem maior, a rainha e, em outra câmara, deparou-se com larvas que eram vigiadas por formigas com jeito de babás. Na câmara seguinte, formigas trituravam os produtos coletados, formando montes iguais, alguns dos quais já recobertos por uma substância esbranquiçada.
     Joaninha estava tão entretida, admirando a divisão de tarefas, que a mulher precisou pensar bem alto para ela ouvir que era hora de partir. Quando saíram, o sol podia ser visto, fulgurante, no alto através das árvores.
     A mulher repetiu a mágica, e as duas retornaram ao riacho e ao tamanho normal. De novo beberam água e comeram frutas, depois voltaram a caminhar através da mata. A mulher falava a língua dos animais. Apesar de não compreender os sons, a menina ouvia na cabeça os significados. Teve de acompanhar, temerosa, um diálogo entre a mulher e uma cobra venenosa:
     – Eu ir embora. Nossa mata ficar perigosa! – disse a cobra.
     – Outra maldade? – perguntou a mulher.
     – Sim. Caçadores. Agora muitos. Eles matar minha irmã. Eles fazer pam, pam, pam... Ela morrer.
     – Você morder?
     – Não. Eles querer me matar. Fim de mundo! Nossa mata perigosa. Você ir embora?
     – Não. Criaturas dessa mata precisar de mim.
     – Ah, eles matar minha irmã. Você longe – a cobra lamentava.
     – É, eu longe. Se eu aqui, eu cantar, caçador se distrair.
     Apesar do medo de cobras, Joaninha quase chorou, penalizada.
     Quase noite, chegaram a uma caverna. A pedra que fechava a entrada rolou em obediência ao estranho canto da mulher. Do teto pendiam estalactites fosforescentes. A lua cheia iluminava o espaço através da entrada que a mulher deixara aberta. As duas dormiram sobre esteiras de folhas de ouricurizeiro.
     Ao acordar, Joaninha percebeu, perplexa, que se encontrava entre as raízes salientes da árvore onde se deitara para descansar. Mas não teve tempo de pensar. Viu o pai parado a olhá-la, parecendo petrificado. Ele se mexeu, agachou-se, abraçou-a e foram para casa.
     D. Nazinha gritou ao vê-la:
     – Onde ocê estava, menina? Quase me mata do coração – ela chorava. – Está toda lapeada. Que aconteceu com ocê? 
     Joaninha só pôde contar que havia andado, pela mata, com uma mulher, os detalhes desvaneciam-se, rápidos, em sua mente.
     D. Nazinha exclamou:
     – Coitadinha! Foi encantada pela caipora.
     No dia seguinte Joaninha levantou-se cedo, bem-disposta e foi comprar o leite. 
 

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OBS:
 conto selecionado como um dos melhores de 2010, pela CBJE.




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A Flor

Da vastidão
de séculos incontáveis,
de dimensões imensuráveis,
ergui-me e aqui
tenho vivido,

a buscar
por longo tempo
o sentido da vida
no espaço infinito
no céu, na terra,
em ti.

A eternidade
em vão perscrutei.
Jamais desisti.
Peregrinei.

Um dia,
deparei com uma flor
a embelezar, feliz,
um descampado árido.
Ela, que nada buscou,
foi a grande mestra
que me ensinou.

O sentido, encontra
quem cumpre o destino
assim como faço, disse a flor.
Quem atende outro chamado
num labirinto se perde
sem ter em mãos
o fio de Ariadne. 


OBS: poema selecionado na seletiva de maio/2010, da CBJE.
***

Resposta Final


Comecei com a palavra

Insignificante

E me pus a cortar pedaços,
um a um,
desnudando signos,
casulos de mensagens.
Do primeiro corte, restou:

Significante

O que esta palavra diria a mim,
alma de muitos mistérios
de muitos silêncios
repleta de antigos baús?
Alma que resiste a perguntas-faróis,
espadas a decepar
pedaços-subterfúgios, disfarces.
Cai mais um que insistia em esconder:

Cante

É uma ordem? A que devo cantar?
No final saberia
No final do tempo das ilusões,
dos medos.
Quem dera agora!
Cuidado, não se apresse,
disse a mim mesma.
Mas, indômita, a espada desceu:

Ante

Cessaram-se perguntas.
Vislumbrei lá no fundo:

Ante a morte, nada há a temer. 

               

OBS: poema selecionado na seletiva de agosto/2009 da CBJE.
***


FÉ 

Deus, onde te escondes?
Quanto busco um sinal de ti,
tua luz, tua palavra, tua presença.
Mas ouço apenas um sepulcral silêncio.
Seria tua morte ou tua indiferença?
Ou simplesmente foges de mim...
ou de tuas promessas?

Comigo um dia estiveste.
Indicaste-me o caminho a seguir.
Acaso pensas que não te reconheci?
Ando a buscar-te em pássaros e insetos,
crianças, velhos, moribundos, sãos,
na brisa, nas tempestades...

Jamais desistirei de ti.
Apresenta-te. Urge teu serviço.
Afasta ao menos rochedos impenetráveis,
árduos obstáculos, na estrada em que trilho.
É tua parte; de ti, basta um sopro, um gesto.
De mim, força dantesca seria exigida.
Ou planejas uma tal força
em mim?

Enlouqueceste?
Seria esta uma criação demoníaca.
Num comum mortal, o poder de Alighieri!?
Chega de criar! O mundo só precisa de reparos.
Também não te quero em mim... explodiria.
Quero-me em ti, dependendo de ti,
de tua sabedoria.

Apresenta-te, pois, e faze tua parte. 


OBS: Este poema, selecionado na seletiva de setembro/2009 da CBJE, foi classificado como um dos melhores de 2009 e publicado na coletânea "Panorama Literário Brasileiro - Poesias".
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