RENATA NORMANHA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
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Esquina do desejo Ah! Quanta saudade... das horas que se foram, perdidas, mas oportunas no permanente tempo da solidao, nas caricias que falaram mais alto que o coraçao. Ah! Quanta saudade... do seu modo de me fazer rir, das cambalhotas que a vida me deu, dos sonhos que foram sonhados dos abraços que nao foram perdidos, da ternura que se fez tao natural, dos olhares que se cruzaram na curva do rio, na esquina do desejo. Ah! Quanta saudade... Saudade de mim mesma, da hora do tempo, da infancia que nao foi triste, do triste que nao me fez sofrer, do nao sofrer que me fez amar, do amar que me fez viver. Ah! Quanta saudade... do nada que se fez tudo, do tudo que se fez SER, do caminho que me fez tropeçar do tropeça que me fez cair, do cair que me fez voar. Ah! Quanta saudade... do silencio que trincou janelas, das janelas que me mostraram o mundo, do mundo que se fez seu mundo. Ah! Quanta saudade... dos sons de outrora, das musicas sonoras, dos risos, das vozes, da inebriante melodia da vida, da cadencia incerta de seus passos, da dança camuflada de seus sentimentos. Ah! Quanta saudade... dos momentos de ternura quando em teus braços me perdia, no entardecer de cada dia.. Ah! Quanta saudade... quando mergulhada na solidão nos perdidos instantes de minha dor, esperava que a qualquer momento voce voltaria... Ah! Quanta saudade... deixa-me seguir saudade deixa-me viver, saudade. ________________________________________________________                                                                                 Essa poesia foi escrita para                                homenagear meu papai.                                                       Pássaro da felicidade Incerto é seu vôo Transcendental é seu segredo Imortal é seu privilegio Contraditória é sua luta Pássaro de felicidade Sua procura é sua elevação Seu poema é sua afirmação Eterno é seu caminho Permanente é sua verdade Pássaro da felicidade Onde está seu canto Que oculta meu pranto Onde está seu canto Que desvia minha inquietação Pássaro da felicidade Seu refúgio é seu mistério Sua certeza é minha incerteza Seu mundo é minha limitação Sua realidade é minha abstração Pássaro da felicidade Sua presença me dá conforto Sua graça, minha existência adormece Sua beleza é minha prece Sua riqueza é meu legado Pássaro da felicidade Vem estar comigo por um instante Traga o sentimento do amor constante Cante o canto de cada dia Faça do meu mundo sua moradia. ___________________________________________ Cântico - XIII Intimidade desfeita Na desventura, algo transpassa Não era bem assim As paredes mal traçadas Livros enfileirados Estantes antigas Tantas histórias guardadas Nem mesmo foram sentidas Contestar, julgar, subsistir Reviravoltas que nos escapam Seres compassivos perante os próprios erros Impedidos de tantos dissabores Estranhas incompatibilidades Dominadas por uma dor irreprimível Valores mundanos Isentos de paixões humanas Um vazio de reflexões Uma ruína de misérias e dores Imagem de si mesmo Ofuscada pelo derradeiro desejo Suprir a lacuna do imaginário Feições tão desalinhadas Pela mediocridade do desprezo Olhares errantes, olhares complexos Sorrisos adormecidos Palavras submissas Tantos aplausos, tantos risos Tragédia ou comédia De uma vida de lacunas Provavelmente Não seria esta a minha vida ----------------------------------------------- Cântico XXXIII Na alternância do dia e da noite Sempre existe... A transcendência do inevitável encontro Da lágrima e do sorriso. O reencontro no silêncio do coração Do bem e do mal. A concepção das derrotas e vitórias Do ontem e do amanhã. O resgate da extasiante dignidade Do concreto e do abstrato. O mistério das crenças resolvidas Da luz e da escuridão. A compreensão do equilíbrio interior Do sonho e da realidade. As sutilizas das forças do destino Do belo e do feio. A verdadeira doação da luz espiritual Da essência e da existência. As imorredouras riquezas das ações Dos gritos e dos sussurros. O absurdo e a grandeza do espetáculo humano Da paz e da guerra. O retorno ou a partida dos exilados Do ser e não ser. E no equilíbrio do entardecer da vida... E na alternância da vida e da morte... A perda dos amores que trago dentro de mim. ------------------------------------------------- Cântico XLVII Minha alma adormecida Descansa em sombras esquecidas São horas de profunda saudade São tempos inquestionáveis Uma tristeza sofrida e sem piedade Não escuto o lamento do silencio O insensato se fez pesadelo Não recolho as lutas perdidas As derrotas não fazem mais sentido Sonhei os sonhos de outrora No livre arbítrio de minha existência Algemas do desespero e da insegurança Prenderam a essência de meu existir O ser humano tem em seu poder A escolha do bem e do mal São desafiados pela dúvida da justiça Do Criador e do ser criado E no último instante da vida Perante a totalidade dos fatos e dos atos Submetem a consciência Ao julgo da soberania Perguntas e respostas se desencadeiam Na tortura íntima dos pensamentos Angústias e sofrimento Se confundem na cadeia da existência Preso em suas maldades Do mal que me fez sofrer E agora... Suas portas se fecharam A intolerância do Criador Matou para sempre sua liberdade. --------------------------------------------- Cântico XXXVIII Nas minhas noites de insônia Revelo meus segredos Luto com meus desejos Padeço com minhas fraquezas Guardo minhas promessas Refaço minha agonia Entrelaço minha esperança Na espera de um novo dia Nas minhas noites de insônia Busco minha ausência Nos confrontos com minha consciência Por vezes vejo o imaginário Por outras, o ideal solidário Requeiro minha falência No emaranhado dos pensamentos Denuncio meu abandono Na espera de um novo dia Nas minhas noites de insônia Encontro meus desencontros Dos dias de meus reencontros Desfaço aquela agonia Da solidão que sempre foi uma mania Esbarro nas pedras do caminho Reconheço meu equilíbrio disfarçado Da falência e do desafio Na espera de um novo dia Sofro em demasia com minhas noites de insônia E no entardecer de todos os dias Torno-me sentinela inflexível das minhas noites de insônia. ------------------------------------------------------- SINFONIA DO SILENCIO Meu caminhar é lento Piso firme o solo da floresta Sustentando todo peso de uma existência. Deixa-me escutar o triste som Do cair abrupto de suas árvores Frondosas, imponentes, indefesas. Não sei se sou forte ou covarde Nada faço para impedir Que o homem, ser insensível, Destrua sem piedade essa beleza Indelével, suprema, inesgotável. Os galhos, as folhas, Raízes que se agigantam solo adentro, Inexpugnáveis donas de si, Parecem dar tempo ao tempo Chorando sua insuficiente grandeza Diante da imensa pequenez Do ser humano que não se apieda Da devastação dos bosques. Pouso meu olhar no silencio da mata Busco um sentido para as ilusões da vida – não há! Suas sombras misturam-se aos meus espectros Seus instantes perdem-se no tempo. Desvio meu olhar Diante de tanta majestade Surge o rei coroado de beleza, Um rio que se impõe Pela força de sua presença. Ambos se completam, Unidos buscam a preservação. Quero guardar as lembranças Das invisíveis lutas de cada um Que no esperar contínuo da vitoria Seguem seus destinos Sem deixar repousar suas esperanças. (Renata Normanha) ____________________________________________________