DULCE VALVERDE
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

 

TEXTURAS

Deslizo os dedos na pele da memória.
Carinho é bom!
Quando não se sente o colo
e os pés tocam o solo,
sair é bom!

Deslizo os dedos nos pêlos do pensamento
Saber é bom!
E, quando chega o silêncio
pelo falar desatento,
calar é bom!

Bom é saber-se no elemento,
sentir-se em casa,
compreender o outro tom.
Compreender o som de dentro
saber que há Sol e neon.

Quando a clareza aflora
a incerteza vai embora,
a delicadeza vem e mora,
e tudo flui como um rio,
e tudo mais é macio,
e tudo mais fica bom!


D.V.

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TEIAS E CASTELOS

Abrindo os braços
eu engulo o verbo
eu mastigo a língua
protejo a menina
escondo a mulher

Compondo quadros
eu multiplico as flores
eu reinvento as cores
pra desfazer meu tom

Pintando versos
eu adquiro formas
desequilibro as horas
pra não me perder

Tocando flores
eu teço outros venenos
emaranho e exalo
segredos morenos
para enredar quem ver.

D.V.

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GALOPE

O meu amor não arrumou a mala
Saiu da sala e não me disse adeus.
Cruzou a vaga luz do meu silêncio
deitou na cama, sorriu e morreu.
É pirilampo rondando meus olhos
fragata verde sobre o cobertor
saudade aberta vigiando o peito
cavalo alado observando a dor.

D.V.


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COM O SOL EM TOURO

No meu nascer
fazem morada Vênus e Lua.
Na minha casa,
na minha rua,
onde o Sol levantava
pousaram a Deusa do Amor
e a Caçadora;
a guardiã dos amantes
e a maestrina amazona
Isthar,
Diana
Estrela da manhã
Arco de cetim.
Afrodite,
Artemis
Musa de Milo nascida de Zeus;
governanta dos ciclos, governanta das águas e da razão dos seres;
Vênus
e Lua.
Na morada nua
da minha casa, minha rua,
Diana traz a maré
que é vaza, que é cheia.
Meu lar, barco a deriva no mar do amor
Estela-Mares, reluzente, é Vênus
quem conduz a agulha de marear
e a alma do morador.

D.V.

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CASA DE SABORES

Ontem me veio aos olhos
a memória
E eu vi a casa iluminada da manhã
Fui lá no quintal,
fechei a porta
e abri todas as rosas que tinham cor de romã
As folhas que caíam na lembrança
tinham cheiro de maracujá
sabor de cacau e chocolate
feito por amor e devoção
Feito pelas mãos da minha mãe
mestras sobre o seu fogão

E acordavam o coração
manjares, adornos, cantares
feitos com amor e arte
e o calor da minha mãe

Aromas se espalhavam em toda parte
Tortas de maçã e chocolate
cheias de sabor e arte
e do amor da minha mãe.

D.V.

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DOCE AZEDO

Ah! e ai, meu tamarino
fruta que me faz chorar
Seu sereno me consola
e eu me entrego
boca aberta ao ego
azedo
medo oculto
de te decifrar
e saber de mim
e meu eu poder te dar
Um pouco desse doce assim
apenas, para clarear
o azedume do teu lume
como quem só quer deixar
nuances de um bom perfume
para um outro alguém lembrar.

D.V.

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AMOR EM FLOR

Que som respira o teu silêncio?
Que Luz clareia o teu carinho?

Meu amor sobrevoa o horizonte
suave, pleno e sereno

Meu amor não tem fronteiras:
É primavera quando inspira
Expira outonos e verões
Quando se deita é meu inverno
e desperta feito flor iluminada pelo Sol
a cintilar seus orvalhos de paz
que recebeu como carícia
de uma madrugada a mais.

D.V.


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CANÇÃO DE NINAR

Na noite
um manto azul
veste com estrelas
nossos olhos

e uma valsa
passa
atenta `as paisagens do sonho
dançando
encantada e lenta

O ar do pensamento
embalado pela Luz
repousa o movimento
e o coração
o inspira profundo

O coração o inspira
e vai
revoar o mundo

E traz
pra o fundo azul de dentro
notas dos silentes segundos sonoros
da Paz

E traz
pra fora das horas
uma canção de ninar.

D.V.

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ACORDIS (BREAKFAST)

Quando a corda
quebra e acorda
os nós de nós
sorrimos desatados
e desbotados
de sós que somos
e andamos
soltos
que sonhamos.

E quando de acordo
acordamos
lado a lado
mão na mão
costas pra a solidao
cara pra o Sol
no céu azul do domingo
Nossos pés saem seguindo
e os travesseiros dormem lindos
no colchão

Voamos felizes
nas horas livres
compartilhando e poupando
o nosso amor café-com-pão.

D.V.

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MUSICAIS*

Ele faz amor com as mãos
ao tocar um instrumento
Ele faz canção em mim
ao arpejar-me com seus dedos
Juntos fazemos musica
Somos letra e melodia
harmonia, sinfonia
pulsação

Ele me compõe em frases
libidinosas e cadenciosas
sobre a pauta do nosso colchão
Ele me descompõe
deslizando manso sobre os pelos
desvelando meus segredos
com seu diapasão
Vibra-me violino
com sua vara afiada
Toca-me piano
com suas pressões digitais
Sopra-me saxofone
com seus labios madrigais
Canta-me, sexo-ao-fone,
e a gente explode
a gente some
ecoa longe e
jazz.

D.V.

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ROSAS ENCARNADAS

Encarnados em rosas
exalamos perfumes do Eu
Seu, meu
Nós
Encarnados, nus e sós

Mistérios de Deus
que somos
ensolarados e rubros brilhamos
E, enquanto amamos
o Infinito canta a nossa voz.

D.V.

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FADA BORRALHEIRA

`As vezes você chega
com seus vidros violentos
e me corta a pele,
e me sangra os pulsos.
Não sabes que esses vidros são afagos
e o vermelho derramado,
sorrisos alados
para a tua pobre dor guerrilheira

`As vezes sou gata borralheira
da tua fada madrinha
Mas, sou eu quem faço a magia,
e voce nem percebe.


D.V.
10/09/89


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SOBRE ONTEM A NOITE

Porque eu esqueci de contar um segredo
Um gozo de rosa
um sussurro
um brinquedo

Um segredo...
E era tudo o que eu tinha:
no peito um sofá
e na mão uma flecha

Eu cantei ladainhas
era pra ser só uma reza
O meu pão de cada dia
queijo, pólen e geléia
Amor com manteiga
Um chuveiro bem quente
e um sono na cama

Porque eu esqueci de contar do cabelo
Uma trança e um laço
longas unhas
anel no dedo
Um riso nos olhos
e o seu nome escorrendo no canto da boca
Bom dia!
Bom dia!
Seu nome na testa
e um bumbo escondido num grito
no riso da boca
...Saudade, Bom dia!

D.V.

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SECA

Tenho comigo presa
a voz
Enroscada pelas cordas
como serpente em cipós

Tenho a dor:
- de amores antigos
e da falta de amor
- da presença do amado
e da ausência de calor
- da timidez da menina
e do medo de ser da mulher

Tenho flores espalhadas na memória;
umas brotadas do solo
outras paridas das mãos

Tenho mortos e vivos na lembrança;
guerrilheiros, clandestinos e fugitivos
abrigados no pais do coração

Meu Deus, um pé de trégua pra essa garganta seca!...

Olho para o céu da minha boca
e rogo chuva
pois, o rio que corria
pelo chão da minha fala
hoje é vala
terra dura
sala escura
solidão.

D.V.

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DA LUZ DE UMA FLOR

Guarde essa flor no seu peito
Cor e Luz de um fogo perfeito
queimando sem maltratar.

A chama aquece e não apaga;
permanece!

Que os pés sigam em harmonia com a tua fala
Que escoes pela vala os pesadelos e as tensões
Que o Sol Maior te resguarde e afaste as tentações

E a flor-de-fogo do peito,
broto do Amor Perfeito,
guarneça a permanência do sentir nos corações.

D.V.

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ROSA MENINA

Dormem seios
bicos de neblina
arranha-céus de coração
Pulsa avulsa a mágica
arrepiando a pele
Sensação tocando a noite

A boca beija a blusa branca
Molhada de sereno e som
Molhada de suor...
de restos de Sol

Dormem seios veludo
em maos cetim
Carinhos marfim na face da Lua
Véu de nuvem clara
prateada
A derramar orquídeas pelo chão
pra ver passar o meu amor

Dormem seios
bicos de neblina
Tez rosa-menina
Mel de beija-flor.

D.V.