TATIANA ADES
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Havia uma chama, quase imperceptível
Naquele bloco de gelo .
Havia uma necessidade de não apagar
O pouco que restava daquele corpo gélido e frio.



E brincando de escultora , tentei a qualquer preço
Lapidar o grande dente branco para encontrar o nervo
Escondido e aflito e já quase morto
Misturado a sangue e podridão.



Brinquei então na minha secreta escavação
Cutucando aqui e ali,
Mexendo no perigo iminente
Escorregando em cada célula morta
Para enfim poder alcançar a única viva restante.



E nessa luta desenfreada, a chama chegou a aumentar
Em alguns momentos,
Fazendo –me acreditar num oásis qualquer
Num deserto qualquer.



Pena a percepção lastimável que tive
Nunca houvera chama, nervo ou vida!
Nunca houvera a possibilidade de
Fazer um coração seco voltar a
Bombardear vida!



Foi quando percebi que um bloco de gelo
Simplesmente é um bloco de gelo
E não devemos tentar julgar tal fato!
Foi quando percebi que a pequenina chama que outrora
Eu avistara dentro da grande névoa esculpida
Não passara de um clarão meu ,um breve clarão
Que na tentativa desenfreada de explodir,
Refletiu no bloco branco a minha própria cor
E tentou me enganar
Tranformando–me num cego
Que fita a rara beleza de uma obra!

Tatyana Ades



Trecho do livro "As Escravas DE EROS "

O DIA EM QUE AMEI HITLER

O chão gelado denunciava um turbilhão de sentimentos e Nina, deitada nua, sentia o corpo gélido se derreter e unir ao chão num processo simbiótico entre a dor e a esperança, a morte e a vida, o hoje e o amanhã.

Estava assustada e confusa, esticou-se mais e mais até alcançar um pequeno diário que guardava há anos e abriu exatamente num capítulo com título que ela mesma julgava horripilante: “O dia em que amei Hitler, por Nina M.”

Posicionando-se de lado, sentiu que o corpo estava bem mais magro; percebeu os pequenos ossos que saltavam e espremiam o chão, a dor e as lembranças. Então, num ato súbito de coragem, resolveu reler o conteúdo do dia em que amara Hitler e antes que o fizesse, decidiu que a metáfora do título seria substituída pelo nome “O dia em que me amei pouco”. Simples, fácil e menos drástico. Mas a vida de Nina pedia, de certa forma, essa dramaticidade, esse sentimento exacerbado, e ela chegou a se questionar se o fato de ter vivido tantas exuberâncias não fazia parte de um universo dela, dedicado a ela, um teste dos deuses para provar que ela era, sim, insana, exagerada e muito passional.

Olhou para os rabiscos nas páginas e identificou pedaços “suados” por lágrimas da época em que escrevera e uma sensação de calafrio percorreu seu corpo de forma tão intensa que ela precisou correr para alcançar um cobertor, nele se enrolar, voltar à posição de “mulher ao chão” e recomeçar a sua leitura. E em voz alta, leu:

“No dia em que amei Hitler, o céu estava nublado e o vapor da água da banheira anunciava o meu crime. Eu era cúmplice de um jogo perigoso e fatal e sem a percepção consciente do genocídio que estava causando nas células de meu corpo e mente. A cada toque, uma morte; a cada beijo, um grito; a cada consentimento, cinzas pelo chão.

“O amor sugeria felicidade e paz e eu estava amando a própria guerra que travava toda vez que os olhos castanhos de Hitler exigiam que os meus fossem azuis. Eu estava berrando na calada da noite e ninguém poderia me ouvir, pois o meu grito era silencioso e frio; assustado, porém apático.

“As mãos de Hitler eram brancas e fortes e no primeiro dia em que ele anunciou seu plano de guerra eu já estava cabisbaixa concordando com suas maquetes diabólicas, seus discursos persuasivos, seus pensamentos insanos, apenas para poder estar ao lado dele, o homem que viria destruir territórios dentro de minha fragilidade de mulher.

“Quando se é comparsa de uma guerra, a mente é escrava de cada plano traçado, cada movimento do soldado à espreita, cada fuzilamento e cada sangue derramado ao chão.

O corpo se faz disponível para o grande ditador sem a percepção óbvia de que ele poderá te aniquilar com o tempo, ou mesmo quando a percepção é um pouco vívida há a sensação de que ao lado de Hitler somos fortes e corajosas, ousadas e resolvidas, somos mulheres seguidoras de um grupo nazista, andando desenfreadamente atrás de nossos guerreiros frios e sádicos, porém aparentemente protetores e selvagens, nossos donos céticos e desumanos que nos fazem gozar a vida e estourar a champanhe gritando à mente e a cada célula do nosso organismo o quanto queremos persistir ao lado desse guerreiro que nos tem como escravas.

“O dia em que amei Hitler se transformou em anos e por mais que o meu ditador me deixasse em profunda agonia, outros surgiriam para satisfazer o meu ego inflado e minhas mãos trêmulas de dor e prazer. Hitler foi a minha grande obsessão por anos e a cada guerra perdida, mesmo enxergando todos os corpos ensanguentados pelo chão, eu me dispunha a encarar com ele outras estratégias, outras batalhas ainda mais cruéis, contanto que o seu corpo estivesse sempre ao lado do meu com cheiro amargo de ódio, frieza e fatalidade.

“Ele foi a minha doença, meu pecado, minha culpa, minha dor, minha destruição e finalmente o meu caos, meu abismo sem volta.

“Quem diria que eu amaria Hitler de forma tão intensa? Quem poderia imaginar que uma mulher tão inteligente e dona de seus atos pudesse ser inconsequente nas escolhas de seus homens? Ah, mas ele é Hitler, eu gritava indignada quando alguém contrariava a minha decisão, erguendo a cabeça e defendendo o meu herói tão onipotente e essencial para a minha vida.

“Sim, eu já amei Hitler e assim como eu, muitas mulheres também. Pode parecer estranha tal observação, mas é real e infelizmente não poupa a quase nenhuma de nós.

“O dia em que deixei de amar Hitler, o céu já estava alaranjado, como um rosto que cansou de chorar após tanta desilusão. O chão estava frio, mas eu certamente saberia me aquecer sem os pés do ditador. Um corpo déspota caiu ao chão e morreu e em troca, surgiu alguém novo, uma mulher que percebeu que passou anos de sua vida amando um covarde. E foi assim que tranquei minha alma, fechei as portas de casa a sete chaves, obtive a percepção necessária do medo, bebi o último gole de licor, quebrei um prato antigo de Hitler e adormeci para uma nova vida.”