ROZELENE FURTADO DE LIMA
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O poema "Página 849" foi publicado nas Antologias abaixo relacionadas:
• Panorama Literário Brasileiro – Poesias dos Melhores Poetas de 2010 - RJ/CBJE
• 100 Grandes Poetas Brasileiros – Poetas Contemporâneos – 2010 - RJ/CBJE -
• II Coletânea Século XXI - PoeArt – 2011 Volta Redonda/RJ


Página 849
                  Rozelene Furtado de Lima

Deitei o olhar nos lençóis
A saudade abraçou o travesseiro
Nas paredes sombras em caracóis
No colchão macio, nosso cheiro

Nas cortinas respingos de desejos
No espelho imagens a dançar
Na fresta da janela espreitam beijos
Medeiam debruados por raios de luar

Releio as lembranças das páginas espalhadas
Da tua passagem nesse trecho da minha vida
Diante de mim desfilam sombras desnudadas
Que a alma teimosa registrou escondida

Transformadas em estrelas as cicatrizes
De um amor que ficou para sempre gravado
Cheio de enganos cometidos por aprendizes
Transitam no presente, migrantes do passado

São visíveis nas noites enluaradas
Vestígios reais, dessa forte paixão
Que fogem dos primeiros raios da alvorada
Libertando-me dos fantasmas da solidão

É mais um dia na luta com as lembranças
É mais uma nova página a escrever
É mais uma história em busca de mudanças
É mais um poema a espera de um bem-querer



O poema "Coração Faminto" foi publicado nas Antologias relacionadas abaixo:
• 50ª Antologia de Poetas Contemporâneos - Edição Comemorativa -2008 RJ/CBJE
• As Melhores Poesias de 2009 RJ/CBJE
• Panorama Literário Brasileiro - Poesia - 2009/2010 – RJ/CBJE
• III Antologia de Poetas Lusófonos – Leiria / Portugal- 2010
• Antologia Falando de Amor - Casa do Novo Autor 2010 – SP

CORAÇÃO FAMINTO

                       Rozelene Furtado de Lima

Quando via casais abraçados, enlaçados.
A alegria emanada através do amoroso par
Uma luz irradiada no brilho iluminado do olhar
Aquela auréola dourada unindo os enamorados

Despertava em mim uma emoção diferente
Que não era ciúme nem a inveja maldosa
Enredava-me um vazio, uma falta preciosa.
A energia que fluía no meu ser,era impaciente.

Sentimento de ter perdido o último trem
De ter chegado triste ao final da oração
De estar sem o total controle da situação
De viver sem rumo num eterno vai e vem.

Passa um véu de vergonha pelo que sinto
Busco a solução para tomar uma atitude
Meu íntimo solta um grito rouco: mude!
Vasculho ao redor de um coração faminto.

Procurando aceitar a vida como ela é
Juntei todas as migalhas num cantinho
Apaguei rastros desenhados no caminho
Reinventei ilusões pintando sonhos no rodapé

Com o interior claro, renovado e sedutor.
Livre das nefastas sensações de condenar
Sem a dúvida cruel de nunca me apaixonar
Conquistei também meu grande amor.


  O Poema "MÃE POESIA" foi premiado e publicado nas Antologias relacionadas:
(Poema classificado no XXV Prêmio Nosside de Poesia – publicado na
“ANTOLOGIA NOSSIDE 2009 – PREMIO MUNDIALE DI POESIA” REGGIO CALÁBRIA- ITÁLIA
• Antologia Del XXV Premio Mondiale di Poesia – La Antologia Plurilingüística y Multimedial, 75 poetas de 28 Países em 17 lenguas – 2009 - Calábria - Itália
• VARAL DO BRASIL Nº 9 – Edição eletrônica - MAIO – 2011 – Brasil /Genebra


MÃE POESIA
                 Rozelene Furtado de Lima

Além das fronteiras da percepção
Procurei o sopro divino da inspiração
Usar o tempo livre para imaginar
Rascunhar no tapete de papel e voar
Dar ouvido a voz interior e anotar
Sensações, falas sopradas ao vento
Denunciar libertando os sentimentos:
Amargura, tristeza, dor, amor e alegria
Alinhavados na bainha da mesma fantasia
Mas, a vida me envolveu e me ocupou.
Trocou meus planos e o tempo passou.
Conquistei um amor, filhos e casa... ganhei
Como profissional da família... dediquei
Livros esquecidos ficaram me aguardando
Vigilantes, papel e lápis me espreitando.
Segui juntando pedras em unidade
Passava o tempo e lavava a saudade
Esfregando a vida enxaguava a dor
Na água corrente perfumava o amor
Secava as gotas de lágrimas no chão
Palavras no varal letras de sabão
Emoções armazenadas na bacia
Até que reencontrei a mãe poesia
Mostrou-me que poeta não tem idade
Tem é determinação e muita vontade
Revi o sonho perdido dos braços da vida
Desvencilhei-me dos emaranhados da lida
Voltei a ler a sabedoria inserida nos versos
Espalhadas desde sempre por todo universo
Orquestradas no ritmo de idiomas e dialetos
Entre acentos, vírgulas e pontos eu borboleto
Palavras unidas na fonética dançam rimando,
Como sementes na boa terra vão brotando.
Expressores da emoção nos diversos temas
Que sejam eternalizados poetas e poemas!



O poema "Mandala da Vida" foi publicado nas Antologias abaixo:
Poema selecionado no Concurso Literário Internacional de Mulheres Escritoras- Cascas RS – 2009
• IV Antologia Internacional de Mulheres Escritoras – 2009 – Hoje Edições- Casca/RS
• Antologia Literária Cidade -Volume IV - Poemas, contos e crônicas-2010 - Belém-PA

Mandala da Vida
Rozelene Furtado de Lima

Rapunzel, viveu até eu cortar as tranças.
Chapeuzinho da cor vermelho sangue
Ficou até lobo me pegar
E sonhar com o sapatinho de cristal.
Alice, onde está meu anel?
E aí... acordei.
Na forma do violão adolesci,
Solfejos de amor eu escrevi.
O salto do sapatinho quebrou
O príncipe me abandonou.
E aí... me desiludi.
Fiz novos amigos: Ceci e Peri,
Helenas, Inês, Luisas, Kareninas,
Arthur e Merlin, Capitu, Bovary.
permeados por poetas e Coralinas
E aí... me permiti.
Escalei pirâmides de sonhos.
No chão escorregadio do amor
Andei, dancei, patinei e cai.
Na mandala da vida me perdi.
E aí... chorei.
Descartei farrapos e desfiz emaranhados.
Foquei em personagens com nova visão.
A luz da alma refletiu nos meus olhos banhados
Transmutando gotas aperoladas em joias de perdão
E aí... encontrei
Paixão à flor da pele e à raiz dos pelos
Que transcende livros e modelos
Tecido no coração, gerado no ventre do querer
Alimentado nos seios da vida para crescer
amor como eu sempre quis.
E aí... sou feliz!


                 SOGRA É SOGRA
                          Rozelene Furtado de Lima
Conto selecionado e publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - CBJE e no Panorama Literário Brasileiro - Os Melhores Contos de 2009” CBJE

Quando Paula e Felipe mudaram para uma casa mais espaçosa, bem mais luxuosa e localizada num bairro com todas as características de “morar bem”, foi a concretização de um sonho para o casal. Depois de nove anos de casados conseguiram comprar a residência tão desejada. Precisava de algumas reformas, uns ajustes, mas eles teriam o tempo que quisessem para planejar. Trataram de fazer uma limpeza no quintal, arrumar o jardim, pintura na parte externa e interna e... Entrar com o pé direito.
Resolveram que convidariam aos poucos parentes e amigos para conhecerem o melhor lugar do mundo. Aquele lugar onde você deixa seus sapatos onde quiser, usa roupas confortáveis, lambe a colher, arrota e bufa como majestade – o lar doce lar. Com uma pequena ressalva: divida o espaço com alguém que você ama muito, só assim um não vai implicar com as manias do outro. Caso contrário campo de batalha é pouco.
Numa manhã fria de final de outono Paula tinha ficado preguiçosamente na cama, Felipe ligou do trabalho dizendo que levaria a mãe para almoçar, pois ela estava muito curiosa para conhecer a nova casa. Paula ao receber o telefonema do marido tentou adiar uns dias a visita da sogrinha com a desculpa que o almoço já estava quase pronto e não tinha nenhum prato especial para servir. Ao que Felipe argumentou: - Que é isso? Mamãe é de casa, deixa de bobagem, querida.
Paula foi até a cozinha avisou a empregada e acrescentou mais alguns detalhes na refeição e pediu que ela caprichasse na arrumação da mesa e das travessas. E saiu rapidamente para comprar umas flores para enfeitar a sala, porque sogra é sogra. Dona Josefa fazia parte do primeiro escalão das sogras insuportáveis, com ar de quem possui a escritura da verdade e não dava tréguas. Cumpria com rigor o papel de que sogra é aquela que tem sempre razão. Embora aparentemente fosse simpática e boa, dando a impressão que não se intrometia na vida deles, Paula tinha cuidados especiais: usava armadura a prova de ataques repentinos e disfarçados com artilharia pesada. Sogra é sempre sogra, aqui ou no fim do mundo. Paula achava-a dissimulada e cheia de sutilezas. Como uma costureira dava as alfinetadas que só a nora percebia e fingia não sentir nem entender. Não dormiam na mesma cama, não moravam debaixo do mesmo teto, não eram vizinhas e só se visitavam de vez em quando e então dava para agüentar.
Paula tinha descoberto que tratar a sogra com certa cerimônia evitava intimidades e espantava a desarmonia. Querendo ou não a sogra é sempre mal vista pelas noras e vice versa. É bom que cada uma cuide da sua jurisdição sem interferência da outra para que a paz perdure para sempre. E a regra principal é nunca falar mal da sogra. E mesmo porque falar da sogra está falando da mãe do outro e desde os primórdios desrespeitar esta regra é briga na certa. Minha sogra é uma santa e ...a sua é santa também.
Mãe e filho chegaram felizes e sorridentes. Ele contava os detalhes e ela examinava cuidadosamente todos os cômodos sem fazer comentários. Tomaram um aperitivo e sentaram-se à mesa. A empregada cumpriu com carinho as recomendações da patroa: mesa bem posta, travessas arrumadas com esmero.
Uma saladeira, com legumes cozidos ladeados por folhas de alface e tomate lindamente decorada, foi preparada por Paula. A sogra foi a primeira a servir-se. Paula amarelou quando olhou para o prato da dona Josefa. Uma lagarta verde da cor da folha se esticava medindo o contorno da alface. É uma lagarta fina, comprida de mais ou menos cinco centímetros se esticada. Chamamos de medidor porque ela junta as duas pontas fazendo uma alça e depois se estica puxando a outra parte, mas ela fica um pouco indecisa até grudar uma parte e soltar a outra. Dando a nítida idéia de que está sempre medindo alguma coisa.
A nora nervosa precisava agir rápido, até então só ela tinha visto a asquerosa lagarta de pelinhos curtos. Felipe feliz conversava com a mãe. Na cabeça de Paula ela buscava um recurso milagroso. Enquanto a lagartinha verdinha da cor da alface decidia se segurava na manga do casaco verde da mãe de Felipe ou continuava como uma bailarina se equilibrando para atingir pelo centro do prato o extremo da outra folha apetitosa. De repente, Paula levantou-se olhou para a sogra e disse: - Não sabia que a senhora gostava tanto de alface, e ao mesmo tempo retirando o prato da mesa, vou ver se tem mais alface na cozinha. Saiu rapidamente da sala levando como se carregasse um troféu: o prato com salada e a bela e intrigante lagarta como uma deusa vitoriosa olhando por cima de tudo.
Felipe não sabia o que dizer para a mãe. A sogra sem graça não entendeu a atitude da nora.
Alguns minutos depois Paula volta dizendo que a empregada está providenciando uma salada de alface cortadinha, especial para dona Josefa e colocou um outro prato limpo para sogra. O filho serviu a mãe carinhosamente, e ela mal tocou na comida e comeu uma pequena fatia de pudim na sobremesa. O almoço foi um desastre!
Paula nunca mais serviu alface para visitas. E às vezes que Paula comia na casa da sogra todos os pratos eram enfeitados com alface, até a carne. Uma vez dona Josefa colocou um pé de alface como decoração da mesa.
A lagarta medidor causou um rasgo na relação do casal, que mesmo cerzido com muitos beijos, carinhos a marca ficou aparente. E sempre que querem almoçar ou jantar juntos com sogras, procuram um bom restaurante.
A dona Josefa quando se referia à nora dizia: - “Aquela comedora de alface”...