TELMA BRILHANTE
PORTUGUÊS
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ACONTECIMENTO

Hoje me sinto feliz.
Felicidade momentănea.Uma voz segreda em meu ouvido : é teu esteinstante de vida, este momento, único, intransferível. Aproveita-o. 

Estava chovendo quando saí. A chuva me deixa uma sensação de plenitude, de brancura. Dilui as mágoas, a angústia  que me assalta a alma. O hoje é uma circusntância translúcida que me impregna de quietude, de paz. E a água da chuva, feito lágrimas, faz um caminho de purificação no meu rosto e eu me deixo conduzir por caminhos inimagináveis, feito alçar vôo rumo ao arco íris da minha infãncia, auréola colorida, diáfana,  que acolhia os meus devaneios.
O céu cinzento compõe o quadro melancólico de minha agonia que se mistura à euforia de viver. Paradoxos que se defrontam e se completam na lei dos contrastes. Me flagro pensando que somente o hoje é palpável, possível. Eu me sinto e me basto. E me enlevo com a beleza que me circunda, primevos tempos em que o
tempo era menino. Espojo-me na luz que me incandesce, nos raios mornos da claridade e me construo. 


AS CONTAS DO DESEJO

Não chegou. Vi-o no  sonho envolto em névoas. Sem rosto. Apenas a idéia de um ser inconcluso que veio incendiar os meus devaneios. Sem nome ainda. Apenas Ele. Procurei-o no tempo das horas, depois dos minutos, dos segundos. Desvaneceu-se na brancura do inominável.
Pouco a pouco foi se delineando seu rosto, de barro desfeito, modelado por mãos ágeis e serenas, numa criação de detalhes que o foram talhando. a massa informe foi gestando um Ser. Os olhos parados, sem viço. O nariz, a boca. E, como sob o efeito de uma varinha mágica, o Ser se ergueu, olhos ávidos de vida. Era Ele. Do meu lugar-semente adivinhei-o. Fui surgindo do meu casulo, lagarta verde bamboleando entre galhos de sol amparando a noite.
Ele olhou o mundo com olhos nascentes, provisão de afetos no campo sereno e sentiu a dor, o sofrimento talhando-lhe a alma. Depois me viu, na metamorfose que me transformou em mulher. Ternurou-se na candeia do desejo, fogo queimando os alicerces do sonho, solidão amaciada no enleio. O olhar me trouxe segredos que viajaram no sangue e transpuseram os poros em minúsculas gotas louvando a carne.
Encontramo-nos. No primeiro toque, frêmitos, abalos sísmicos, lavas incandescentes queimando as angústias.  E a felicidade doeu nas entranhas. O encontro perfeito do Céu com a Terra.
Desaparecemos no arco-íris.

Mini-contos;

SONHO DESFEITO

A casa dormia serena.
Uma promessa, uma vela acesa.
Silencioso, o incêndio invadiu os cômodos.
No Infinito, quatro almas buscavam abrigo.

IMPREVISTO

Rasteja a cobra na terra molhada.
Uma rã contempla a Natureza sob um sol luminoso e morno.
A surpresa. O grito. A dor.
O silèncio.

Poemas: 

GESTAÇÃO

rio que se mede
nas sujas águas 
do estio

traz a bigorna do tempo
a bater na margem úmida
brejo que emprenha as sementes
nas longas noites do cio.


AUTOMATISMO

a textura do véu das águas
é como luz que trespassa o vidro
descobrindo tênue fio de emoção
que se esconde na face
impassível

o homem caminha sob ruídos
de vidas anõnimas

manhãs prenhes de luz 
e de vida
tardes na alma.

voejam borboletas.

REFLEXÕES NUMA MANHÃ DE CHUVA

preso ficou meu olhar
nas tessituras 
do tempo

barrenta a água
e em flor o cacto
dormiam 
o sono das matas

impôs-se a força
se ergueram muralhas 
de egoísmo

estão prestes a cair 
de desalento

o dardo de Eros
 se perdeu
            e se plantou 
                     nas pedras. 


PASSAGEM DO TEMPO

silenciou o canto
o prumo vertical
rompe a terra
aninhando-se 
no seio da carência

a messe domina
o requebro dos vendavais
e tudo cessa
o salto no malassombro
foge no beco do chão

da vida o equívoco

brotam grãos nas pedras
de húmus intumescidas
no ermo fecundo
do tempo.

MISTÉRIOS
 
mistérios que habitam
o cerne da terra
fortes couraças
 nos ombros do sol

luz perdulária
nas ancas do tempo
cheiro magoado 
nas plantas do inverno

choram ao sopro
               dos ventos eternos

mistérios que habitam 
o sono das águas
da flor a leveza
no templo da noite

da insônia as marés
na fúria das ondas
na estrada o cansaço
das nuvens em fuga

os passos da lua
                    se perdem nas sombras.