ENEYDA ROSA FIOCCA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO


PASSAPORTE PARA MINAS GERAISO cenário é bucólico: colinas arredondadas, aveludadas, com vaquinhas pacíficas pastando mansamente. 
Tudo muito verde e azul!
A cena é serena: casinhas singelas salpicadas entre as douradas plantações de milho, assinaladas pela fumaça dos fogões a lenha.
No alto da paisagem, à cavaleira do monte, uma capela, toda azul e branca.
Estradinhas rurais cortam o verde, com seu marrom intendo, cor da terra  crua e nua.
Cavaleiros aprumados levantam poeira, percorrem as trilhas, campeiam as reses, rondam o terreno, vistoriam as cercas.
O gorjeio dos pássaros, o mugido do gado, e o som de córregos e cachoeiras compõem o fundo musical desse presépio vivo que são as cidades do interior das Gerais. Para nelas se viver, costumo dizer que são necessários os tres Pes:
Paciencia; Prudência; Perseverança.Sem esses tres predicados, ninguém sobrevive nas MInas Gerais.
Paciencia, porque o tempo transcorre mais lento, porque o ritmo  humano é mais morno, mais manso, mais lerdo. 
Os mineiros assemelham-se ás vacas que criam.
São vagarosos, pachorrentos, amolengados. 
Uai! "Pra quê pressa, Sô?!"
Os mineiros tocam o eterno na densa lentidão das esperas, no amor preguiçoso á terra, á rotina repetitiva e sistemática.
Prudencia, porque mineiro que se preze não corre risco á toa!
Aliás, mineiro do bom é cauteloso, precavido, desconfiado mesmo!
Deixam a ousadia e atrevimento para os forasteiros.
Afinal, " A pressa é inimiga da perfeição"
E o perfeito mineiro é contemplativo. Prefere observar a atuar.
Ser prudente é ser silente!É saber ouvir e calar,;é conter o gesto,;é franzir o cenho,;é segurar a lingua,;é frear o verbo.É matutar sózinho, é ruminar devagarinho.
 Enfim , é deixar a ação impulsiva para os outros
Essa mansidão ancestral protege o mineiro dos perigos.Mas também o torna medroso. Ele teme o novo, o diferente, o "de fora " do seu conhecido território.
Por isso, sua ancora é a tradição.
E seu escudo são as montanhas, que cunharam o medo ea desconfiança no seu matuto caráter, que encolheram sua alma ingenua, que limitaram seu horizonte vital.
Ser prudente é nunca ultrapassar tais limites, seja na mente,no corpo ou na alma.
O terceiro "P" é o da Perseverança. Sim, porque o que é válido, o mineiro repete .
Ele persiste, sempre do mesmo jeito,como seus bisavós ensinaram..
 Repete no jeito de fazer as coisas, de cozinhar, de ordenhar, de rezar, e por aí vai!
Pra que mudar o que está dando certo?certinho mesmo? uai!Creio que essa tenacidade cravou suas raízes no campo, na zona rural.
O matuto, habituado a lidar com a terra, precisou observar e perseverar para conseguir subsistir. 
Com o tempo, aprendeu que hoje semeia aqui, mas amanhã colhe acolá! 
O mineiro ganha quando persiste, quando respeita os ciclos temporais e naturais, quando obedece aos padrões tradicionais.
Nâo só ganha, como se orgulha de fazer tudinho do jeitinho que seus antepassados também fizeram :
 ordenhar vacas com as próprias mãos e sempre na mesma horinha; enrolar o "paiero" acocorado;picar o fumo de rolo sempre com o mesmo canivete;passar o café com coador de pano, sempre no mesmo tripé dos antigos;rezar e carregar o andor na procissão, sempre nos mesmos dias santos.
Para se viver nas mineiras cidades há que se cultivar os tres Pes:
Paciencia; Prudencia: Perseverança.
Sem esses tres predicados, o passaporte do forasteiro não é carimbado, não recebe o visto de permanência em mineiro território, uai!


" A LINGUAGEM É UMA PELE
TATEIO MINHA FALA NO OUVIDO ALHEIO
ROÇO MINHA PENA NA EPIDERME DO OUTRO
APALPO SUA MACIEZ
CHEIRO SEUS ODORES
HIDRATO NOSSA CÚTIS
SECA DO PASSADO
ÁVIDA DO FUTURO, TÚRGIDA DO PRESENTE

A LINGUAGEM É UMA PELE
LIMITE DO MEU AMOR
SUPERFICIE VASTA, ERÓTICA
ARCO-IRIS DE POROS
QUE SUAM NOSSO ORGASMO!"

"SEIO NOTÍVAGO"   

Ele procurava a Mãe atrás do Espelho
E também naquela mulher de branco
Testemunha silenciosa do batizado de sua filha

Mulher oculta, convidada
Madrinha disfarçada de amante

Mãe, só isso: ele queria colo!
De madrugada, solitário, desamparado, carente
O calor do regaço amoroso consolava-o da noite escura

E dois mamilos,dois quentes seios da mulher-mãe-amante
Amamentava o paraíso perdido do homem adúltero
Então, acalentado, acolhido,ele se permitia chorar
Lágrimas tímidas,espremidas, antigas

E a mulher-mãe-madrinha-amante lambia seu sal
E enxugava seu pranto com sua pele de lua
E abraçava sua dor
E lhe oferecias seios e sexo

Então, o homem-amante se consolava
Devagarinho ele gozava e renascia
Das lágrimas e das cinzas da noite suja

Depois, simplesmente, ia embora
Porta afora

Talvez para sempre,
Talvez...





AMOR DE MÃE

A gente precisa de uma Mãe
De onde nascer e pra onde se esconder do Medo

A gente precisa de um POrto
Pra onde regressar ás vezes
E de onde partir pra sempre

A gente precisa de um NOrte
Pra consultar o rumo de dentro

Mãe/Medo   
Porto/Viagem
Idas e Vindas

A gente precisa de um OUtro
Com quem partilhar a Viagem
Com quem sair de Si
Pra quem voltar a Si

A gente precisa de um OUtro assim:
A gente precisa um do outro

A gente precisa de:
Um Amor maior que o Medo de não Ter
Um Amor maior que o Medo de Descobrir
Um Amor maior que o Medo de Viver

A gente precisa de um Amor de Mãe
Pra ter a Coragem de Ser!


ROÇO MINHA PENA NA EPIDERME DO OUTRO
APALPO SUA MACIEZ
FAREJO SEUS CHEIROS

HIDRATO NOSSA CÚTIS
SECA DO PASSADO
AVIDA DO FUTURO
TÚRGIDA DO PRESENTE

A LINGUAGEM É UMA PELE
LIMITE DO MEU AMOR

SUPERFÍCIE VASTA
ERÓTICA
ARCO-ÍRIS DE POROS 
QUE SUAM NOSSO ORGASMO!




POESIA: BRASA DORMIDA

POR TRÁS DA APARÊNCIA FRIA
LAVAS INCANDESCENTES ELA ESCONDIA
ANTIGA BRASA DORMIDA
SOB FOGO ESQUECIDO
QUE AINDA ARDIA

ATÉ QUE UM DIA O TEMPO VIROU
ALGUÉM ALI SOPROU
NA BRASA DORMIDA
AGORA RENASCIDA

A DAMA ARDENTE DE AMOR SURGIA
NA CHAMA DO LEITO QUENTE
NA BRASA INCANDESCENTE
DE NOITE E DE DIA







CRÔNICA: " A CIDADE É NOSSA!"

ERA AQUELA "HORA AZUL".
A ÚLTIMA CLARIDADE DO DIA TINGIA DE ANIL O CÉU REDONDO DA CIDADE DE SÃO THOMÉ DAS LETRAS, NAS MINAS GERAIS.
AS PEDRAS BRANCAS E NUAS CINTILAVAM COMO ESPELHOS PUROS DAQUELA LUMINESCÊNCIA CÓSMICA.
LUZ, SILÊNCIO OE PAZ.
AS PESSOAS EMUDECIAM DIANTE DO TREMENDO ESPETÁCULO, SOTERRADAS PELA SOBERBA ABÓBADA CELESTE.
OS SINOS DA IGREJA REPICARAM .
LOGO, O POVO TODO ESTAVA REZANDO EM UNÍSSONO A "AVE MARIA CHEIA DE GRAÇA..."
A MISSA ACABOU .
AS TREVAS GULOSAS SORVERAM DE REPENTE A ÚLTIMA LUZ DO CÉU.
ACENDEU-SE O FOGO DOS BOTECOS.
UM VOZERIO VADIO PERCORREU A PRAÇA, AS RUAS, A CIDADE
OS HOMENS ENCHIAM A CARA
OS MOLEQUES BRINCAVAM NAS RUAS.
AS MÃES CHAMAVAM EM VÃO PELOS FILHOS
OS CÃES LADRAVAM Á TOA.
BREU E BARULHO NO FERIADO VAGABUNDO
DE REPENTE, UM CAMINHÃO ENORME  INVADIU A PRAÇA, COM SEU SOM ESTRIDENTE
O PREFEITO OFERECIA MÚSICA AO IGNORANTE POVO INDIFERENTE
SENTADA NUM BANCO DA PRAÇA, EU PROSEAVA COM MEU AMIGO, O POETA POPULAR, O NEGRO ANALFABETO,O SEU "ROSA", TESTEMUNHO VIVO DOS "CAUSOS DA CIDADE", GUARDIÃO DA TRADIÇÃO ORAL DA PROVÍNCIA.
EU OUVIDA COM ATENÇÃO MAS,A MÚSICA AUMENTOU DE VOLUME E CADÊNCIA,ABAFANDO A PROSA,CONVIDANDO Á DANÇA
OS NATIVOS PERMANECIAM SENTADOS, COMO QUÊ ENGESSADOS NUMA POSTURA DE PEDRA, ESTÁTUAS HUMANAS.
SEU "ROSA" GALANTEMENTE CONVIDOU-ME PARA DANÇAR
O POVO  ESTAVA ENRIJECIDO , TRANCADO NA SUA PROSAICA E ANCESTRAL NSENSIBILIDADE
MAS NAO O  POETA "SEU ROSA" QUE GINGAVA AO SOM DA MÚSICA, ENSAIANDO OS PASSOS, PROVOCANDO--ME..
NUM ACORDE MAIS INTENSO E INSISTENTE, LEVANTEI-ME
MEUS PÉS SAMBAVAM SOLTOS E LIVRES NAQUELA PRAÇA VAZIA, COROADA PELA RESPLANDECENTE ABÓBADA ESTELAR
O RISO MAROTO DO "SEU ROSA" ACOMPANHAVA A MÚSICA E A ALEGRIA
JUNTOS SAMBAMOS E SAMBAMOS...ERÁMOS O ÚNICO PAR A BAILAR.
O SUOR ESCORRIA E A GINGA AUMENTAVA.
DE REPENTE, MEU AMIGO PAROU E TOMOU-ME O BRAÇO
APONTOU EM VOLTA, PARA TODAS AQUELAS PESSOAS SENTADAS,INERTES, INSENSÍVEIS Á MÚSICA E Á BELEZA.
FEZ-ME NOTAR QUE ÉRAMOS OS ÚNICOS A APROVEITAR A DANÇA, O ESPAÇO E A CHANCE
E. NUM ASSOMO DE SINGELA LUCIDEZ, COCHICHOU BAIXINHO, COMO QUEM CONTA UM SEGREDO DE ESTADO:
"DONA ENEYDA, A CIDADE É NOSSA!"