LAIS DE CASTRO
PORTUGUÊS
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PASSAGEIRA DA MORTE


Diziam que ela tinha se levantado cedo e arrumado um grande baú de roupas e uma pequena caixa esculpida, de palissandra, com pertences valiosos, entre os quais um retrato pintado do velho pai, um terço de pérolas com cruz de madrepérola, bento pelo Papa, acreditava piamente nisso. Um missal negro que herdou da mãe, o camafeu de marfim que tirou da blusa da avó já morta. Era Delena, nome estranho mesmo nos idos de 1875 que marcavam sua passagem pela Terra. Loucura? Pois esta história passou de boca em boca na família durante quase dois séculos e quem quiser acreditar, acredite. Quem não quiser, que conte outra.
Podem dizer o que for desta família em que vim dar com os costados nesse mundo infame: menos que nela exista gente mentirosa. Ah! Não tem. Tem ladrão, vagabundo, alcoólatra, político, prostituta disfarçada de madame, isso tem. Tem grandes senhores, banqueiros até, médicos sérios, gente fina e gente do pior escalão... Se você tem uma família enorme e pessoas que continuam desenhando uma árvore genealógica através dos tempos aparece tudo isso mesmo, como formiga em açucareiro, os nomes vão aumentando, se multiplicando. Assim acontece nesta vetusta família de quatro décadas de cabeludos: tem de tudo, mas não têm mentirosos. Somos gente honesta, que não inventa e nem exagera. Então, se este caso macabro resistiu a 150 anos, deve haver nele um raso de exatidão. Além do mais, não somos nada imaginativos, para inventar histórias e personagens que os autores de folhetins criam há séculos.
Por isso vamos voltar à veneranda fazenda do interior, onde o velho Diogo e a velha Rita viviam, na oitava década do século 19 que agora, com o aporte do século 21 ficou mais distante e longínquo, ainda mais difícil de ser imaginado.
Havia ali tal silêncio que se podia ouvir cada folha seca que caía de uma árvore e pousava suavemente no chão de terra batida. Havia um tal ar puro que respirá-lo mataria imediatamente qualquer vivente dos nossos dias por choque alérgico. Havia o pomar de onde vinham as mangas irresistíveis, laranjas carameladas, ameixas douradas e abacates amanteigados. Havia a horta, de onde vinham as poucas verduras – couve, chuchu, repolho e morangas – que apenas aquelas, por hábito, se comiam. Havia o curral, de onde vinha o leite. E o matadouro, de onde vinha a carne. Das grandes plantações vinham o café e o arroz. Dos campos das culturas temporárias, não há porque esquecer o feijão – preto, fradinho e em favas – o milho e as raízes, mandioca, batata doce, inhame e cará, parte efetiva do cardápio daquele tempo em que vinho português se bebia como água nas casas grandes.
Difícil imaginar um tempo em que o gratin de abóbora era um prato fino, levado à mesa por escravos, muito antes dos cozinheiros franceses aqui aportarem e resolvessem valorizar o maracujá para misturar às nossas carnes e fazer molhos franco-brasileiros. Difícil, mas não impossível, que impossível, dizem também nesta família que me trouxe agnóstico ao mundo, é Deus pecar.
Era nesse cenário paradisíaco, sem luz elétrica rádio ou televisão, sem carros a motor, que Ford inventaria no início do próximo século, que se passaria a história da melancólica Tia Delena, solteirona conformada com sua solidão, ainda mais que tinha criado um sobrinho de nome Luiz que morrera jovem de uma maleita mal curada. Essa falta de sorte legara à mãe adotiva mais duas rugas profundas ao lado dos olhos azuis, dizem que de tanto chorar.
Pois estavam os dois velhos, Rita e Diogo, postos em sossego, quando ouviram o barulho de um tílburi negro com desenhos em rococó vermelho, bancos estofados em bom couro de boi também preto, que se aproximava. A chegada de alguém naqueles confins, que eram confins mas não estavam a mais do que 80 quilometros do Rio de Janeiro, trazia sempre uma festa, ou uma má notícia. Só por estes dois motivos balançavam e quebravam as costelas pelos gretados caminhos de terra batida os não tão intrépidos personagens antigos.
Delena, irmã de Rita, chegava com a mucama e dois baús. O conteúdo da caixa menor todos já conhecem. No grande, havia uma longa saia de linho branco, simples e alva, uma blusa do mesmo linho enfeitada de rendas francesas nos punhos e gola. As roupas de baixo estavam impecavelmente limpas e engomadas e eram também níveas e puras, como a proprietária.
A irmã demonstrou alegria com aquela chegada inesperada, o cunhado ficou feliz por poder variar o cotidiano. Almoçaram e passearam pelo pomar, de onde tiraram a sobremesa. Sob a sombra das árvores mais frondosas, laranjas fresquíssimas embalaram a caminhada e adocicaram as bocas.
Paz, solidariedade e esperança eram tragados pelo charuto do velho Diogo ao final da tarde daquele dia ameno, enquanto dividia o chá das cinco com a mulher e a cunhada. Lembrava-se dos filhos, na distante Lisboa, um estudando direito em Coimbra, outro, moço fidalgo, a serviço d‘El Rey. Nas baforadas, soltava sua satisfação de ver seus sonhos realizados, embora tivesse também perdido a filha menina, vítima de um sarampo insistente. Rita, que nunca mais tirara o luto, depois de 15 anos da morte infantil, tinha voltado a sorrir levemente. E os vizinhos foram autorizados a retomar os saraus das sextas-feiras no piano de ébano emoldurado por dois enormes castiçais de bronze onde se acendiam, somadas, as 56 velas que iluminavam, para a época, feéricamente o teclado.
Na sala quase vazia, que quase vazias eram as salas de antanho, os sofás eram adamascados, os tapetes bordados em casa e as mesas laterais, ovais ou redondas, repetiam o ébano do piano. Nada mais havia e nada mais precisaria haver, além do tear, que ficava no canto, próximo a um dos janelões, pois os olhos de sinhá exigiam boa luz solar para tecer. Naquele ambiente nobre e simples, os três saboreavam, gole a gole o chá do capim limão, que dez minutos antes balançava ao vento. E os biscoitinhos de nata, sequilhos, derretiam na boca.
Até que Delena avisou estar ali porque viera morrer. Tão quanto drástica fora a frase, tanto quanto natural a reação de incredulidade da irmã. Delena insistiu, advertindo a ambos que o seu filho, ou o sobrinho que havia criado, viria buscá-la naquela noite. Como sabia? Em sonho, ele lhe aparecera comunicando calmamente o fato. Ela não tinha nenhum medo, nenhuma ansiedade, nenhuma sensação de que o sobrenatural mostrava ali seus desígnios. Apenas acatava seu destino, como se fosse comum a morte enviar aviso prévio. Rita insistiu de que aquilo era uma bobagem, ela se pusera louca com a despedida do filho adotivo, andava a trilhar caminhos excêntricos ou a ler romances ingleses em demasia. Nada que uma boa temporada na fazenda, amparada pela irmã e pelo cunhado, não pudesse curar.
Depois da ceia, servida por volta das sete e meia da noite o mais tardar, Delena, contrita, se recolheu. Ia seguir solitária seu estranho desígnio como solitária vivera toda a vida. Banhou-se longamente no enorme tacho de cobre que a mucama enchera de água quente. Rezou seu terço de pérolas que “ia com ela”, segundo sua vontade. Recordou as palavras do filho, mas não deitou uma lágrima nos lençóis de linho cru que a irmã lhe oferecia. Escorreu longamente nos cabelos prateados o pente de marfim que trouxera também de sua fazenda, enquanto pensava que, afinal, não tinha sido feliz, nem infeliz. Vestiu as roupas debaixo para a viagem final e deixou as de linho e renda estendidas sobre a outra cama do quarto. Ordenou à mucama que a vestisse logo de manhã, já morta, com aqueles fatos.
Quem encontrou seu corpo inerte foi Rita, como não poderia deixar de ser. Ela considerou o acontecimento normal já que não se entregou jamais ao temor de fantasmas recidivos. O velho Diogo ensimesmou-se e passou uma semana sem dizer uma palavra. Uma só semana foi o tempo também em que se mantiveram suspensos os saraus, já que Delena ordenara que assim deveria ser.
Ela deixou o tílburi e os cavalos como testemunhos silenciosos de sua chegada. Não precisou deles para partir.
Nessa família, não inventamos nem exageramos. Matamos a mentira como erva daninha e cultivamos a verdade como trigo de bom pão.