MÁRCIA VILLELA
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O CINEMA E EU

Quanto tempo já passou desde que nasci!. Só que as lembranças permanecem mais vivas do que nunca!
Lembro-me bem da minha infância na Inhapim antiga, com sua gente antiga, alegre e original.
O cinema, a lembrança do cinema é a coisa mais preciosa que guardo. Revivo com carinho estas lembranças que marcaram de forma indelével a minha história. O Pai e a Mãe eram apaixonados por cinema(acho que eles iam pra namorar também...)
Aos domingos o Pai nos levava, eu, Paquito meu irmão, Martinha, minha irmã ainda pequetita e minha prima Antônia, filha da Tia Maria Santíssima, já mocinha e ainda de tranças, coitada!   
Era uma festa, pipoca e Roy Rogers na telona, Tarzan (John Weismuller com aquele grito poderoso voando no cipó!
E a gente via de tudo, tudo o que era possível, anunciado previamente pelo Zé Elias com seu megafone rua por rua da pequena cidade. E às vezes aproveitando o anúncio do filme ela mandava seu recado pessoal: “...Atenção, atenção, cachorro que mordeu na bunda da minha filha se morder outra vez não sei não. Brigado!!!” Isto com ênfase em altos brados. Figura pitoresca, na verdade ele era o Lixeiro da cidade, fazia o serviço numa carroça e quem a conduzia silenciosamente era a sua mula: a famosa “ Avenida.”
O cinema era do Zuzu e Seu Zé Peixoto donos da fábrica de macarrão, em cuja porta exibia o cartaz que anunciava a novidade do dia ou da noite com fotografias em preto e branco de algumas cenas do filme.
Eu delirava com foto de beijo e Ava Gardner, Rita”Gilda Haywoort, Sophia Loren e Gene Kelly”dançando na chuva” e mais e muito mais, a leveza e voluptuosidade de Ginger Rogers e Fred Astaire... O encanto começava quando o Pai comprava os bilhete ora da Mariquinhas Firmo, ora da Rosinha do Seu Ilídio Ferreira, ela pequenina e sensualíssima em seu batom vermelho sangue e a cabeleira negra na cintura, parecendo uma ...Luz del Fuego!
Prendia a respiração quando começava o prefixo musical, lindo: “Palavras de Amor”, orquestrado, e os jatos de luzes coloridas jogados na tela, como um preparativo para uma hipnose. Eu quase fazia xixi na roupa de tanta emoção!Aí vinha o noticiário com fotos antigas e repetidas e o canal 100 onde os grandes craques do futebol eram estrelas de primeira grandeza.
Lembro-me bem de Amarildo, Bellini (lindo!) levantando a taça Jules Rimet do Brasil Campeão Mundial de 1958, Garrincha, Pelé, Didi, Newton Santos e outros tantos que não guardei os nomes, mas as imagens
Continuam nítidas, arquivadas carinhosamente dentro do meu coração.
Era o Cine Alvorada com Ar Refrigerado. O tempo passou e hoje no lugar do cinema temos um supermercado; temos a novela da TV ao invés da novela da Rádio Nacional do Riode Janeiro, que antes era um luxo só! É a marcha do tempo, do progresso...
Ah, mas eu daria tudo na vida pro meu Pai me levar de novo, pela mão à matinê de domingo... 


Márcia Villela  - Da Antologia Doida ou Doída Demais?
(
marciasilveiravillelabol.com.br)

MEU PRIMEIRO AMOR

Paul Newman foi meu primeiro amor. Eu tinha 11 anos e via tudo o que era possível no cinema. Meu pai, louco pela tela grande, iluminada e aquele misterioso escurinho, nos levava pela mão. A mãe também ia: à noite. Vestida elegantemente,
lábios e unhas pintadas, perfume...

Iam os dois, cineminha simples de interior, sonhar, vibrar com Bogart, Yul Bryner, Laurence Olivier, Spencer Tracy e Clark Gable, os preferidos da Mãe e Greta Garbo, a preferida do Pai...

Nós ficávamos em casa com a Nana, a Bá, a Dinda, um anjo que cuidou de todos os meus irmãos e que viveu conosco até morrer. Ficávamos imaginando o que estariam vendo... Eu a mais velha, vestia as roupas da Mãe, pintava os lábios e brincávamos meu Irmão e eu de ir também ao cinema, e representávamos os espectadores e personagens daquele mundo mágico até que ouvíamos o inevitável barulho da chave e corríamos para nossas camas.

Naquele tempo não haviam revistas especializadas. Não havia a fofoca especializada, mas eu já lia o Cahier du Cinèma, dava duro para traduzir tudo, só com o francês do Ginásio ensinado pela Adir do Sr. Argentino, moça culta e fina, que falava francês fluentemente e já ido a Paris...

E Paul Newman era a minha paixão. Colecionava suas fotos que colava num caderno grande escondido debaixo do colchão. Até que um triste e inesquecível dia...sem querer...fiz xixi na cama: mijei na minha paixão.

Tinha 11 anos quando vi Exodus pela primeira vez. Depois revi mais umas vinte vezes. Cresci, desapaixonei-me de Paul Newman trocando-o por algo mais concreto sem entretanto, esquecer o brilho dos seus olhos azuis que me acompanharam vida afora sugerindo paixão, emoção...

Hoje, assisti na TV, um filme mais recente de Paul Newman, ele com 70 anos! Chorei cântaros. Os olhos ainda são os mesmos, os lábios vincados pelo tempo e as rugas...

Não Paul, você não podia envelhecer. Nem eu. Para mim você ainda é o mesmo de quando eu tinha 11 anos. Jamais me esquecerei que você enfeitou meu sonho, minha vida, um dia, há muito tempo...

Doida o doída demais? - Márcia Villela
(
marciasilveiravillelabol.com.br)

FALANDO DE FILMES, DE VIDA...
Já vivi cinco décadas e meia, e isto não me incomoda, haja vista que agora sou melhor que aos vinte. Mas, pensando bem, o tempo é implacável no seu” ofício silencioso de ir comendo tudo pelas beiradinhas.” E como bem o disse o filósofo popular dos anos 80, Cazuza:...” o tempo não pára, não pára não...” Ou também, como bem o disse Vinicius de Moraes: “a vida vem em ondas, como o mar...”
De cinco em cinco anos a minha vida foi definida por algo avassalador no reino das artes.
Na música, Chico Buarque escreveu a trilha sonora da minha vida e ponto; que me desculpem os demais que também curto.
Aos cinco anos de idade que é a minha memória mais remota, lembro-me de Chaplin com grande ternura. “ Carlitos” povoou minha infância com deliciosas trapalhadas e memoráveis gargalhadas.
Aos 10 anos apaixonei-me perdidamente: Exodus, um épico hollywoodiano colocou Paul Newman na minha vida para sempre. Oh, the old blues eyes... que pena que o tempo passou tão depressa!...
Aos 15 anos, veio Love Story com Ryan ONeal e Ali MacGrow, acompanhado de um rio de lágrimas, muitas, (Hollywood é especialista nesses dramas)...
Aos 20, já mais centrada e engajada em movimentos sociais, descobri os diretores europeus:Fellini, Goddard, Bergman, Pasolinni, Antonioni que faziam um cinema político, e visceral, fortíssimo. E o rosto de Marcello, o Mastroianni me incomodava muito depois da sessão de cinema... Nesse tempo eu curti muito “La Dolce Vita”, Amarcord, Ladri di Biciclette, La Belle de Jour; sem deixar de falar no lindo e romântico “ Um Homem e Uma Mulher com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintingant e o filme que marcou meus 30 anos profundamente: um drama maravilhoso, que considero o maior filme erótico de todos os tempos:
O Último Tango em Paris, com Marlon Brando e Maria Schneider, ele dando um banho de interpretação, literalmente.
Os europeus, primavam por uma nova estética:
fazia-se um filme espetacular, um cinema sério, arte pura apenas com uma boa história, uma câmera e bons atores; sem a pirotecnia hollywodiana., sem efeitos especiais, sem oba-oba. Eram filmes estupendos, uma coisa de tirar o fôlego!
Aqui na terrinha surgiu um novo cinema, o Cinema Novo, com Glauber Rocha incomodando à bessa o sistema. Pela primeira vez tivemos filmes representando e ganhando “A Palma de Ouro” em Cannes com O Pagador de Promessas. Mais que utópico nosso cinema era político, era uma realidade e juntamente com os irmãos Barreto, surgiram coisas incríveis como Os Cangaceiros, Terra em Transe do Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol também do Glauber,
Os Cafajestes, etc, etc; foi um tempo de produções fecundas e inspiradas. Nós brasileiros, éramos conhecidos e respeitados pelo cinema que fazíamos. Não a nível de indústria como Hollywood, claro, mas um cinema pobre e muito rico como expressão artística e cultural. Eles nos conheciam apenas por Carmem Miranda! Pois sim!
Até os 40 anos vi muita coisa boa que merece ser citada, ( a minha lista de “inesquecíveis” é interminável...), por exemplo como deixar de lembrar As Pontes de Madison, A Cor Púrpura, A Festa de Babette, Tomates Verdes Fritos, Simplesmente Alice, Café Bagdá, Chocolate, A Rosa Púrpura do Cairo, Carmen de Carlos Saura, e Spielberg, e Bertollucci e Scorcese e Woody Allen e Almodóvar que surgiu nos anos 80, com um proposta interessantíssima e de grande sucesso para o cinema espanhol. Sem deixar de falar em Cinema Paradiso que é um poema de candura...
Bom o tempo vai passando e a gente segue acompanhando a sua viagem, ou a nossa própria viagem.
Quando fiz exatamente 42 anos caiu-me às mãos um filme que mudaria a minha vida: Shirley Valentine, com Paulline Collins. Já eram tempos do vídeo-cassete, e a gente chegava facilmente ao filme em VHS, tecnologia, sabe como é.
Fiquei apaixonada por Shirley Valentine, sou e serei até o fim da minha vida! É a história de uma mulher de meia-idade, com os filhos crescidos e um marido mal-humorado, que ao se lembrar do passado não se reconhece mais, o casamento simplesmente a despersonalizou (alguns casamentos fazem isso com as mulheres...). Ela começa a se lembrar de como era feliz, porque era leve, ousada, audaciosa, não tinha medo de “pular do telhado”, de fazer coisas engraçadas e únicas que a tornavam simplesmente adorável e amada por todos, inclusive pelo marido quando ele ainda não era azedo como um limão.
A vida dá uma reviravolta e ela ganha de presente uma viagem para a Grécia, com que ela tanto sonhava. E esta viagem traz surpresas inesperadas, amores inesperados,
uma avalanche de possibilidades, que ela aproveitou uma a uma dando um novo sentido à sua vida e sendo feliz, criando ela própria um jeito melhor de viver e ser feliz, respeitando-se sendo fiel a si mesma. É bárbaro! O texto já foi peça de teatro na Inglaterra com enorme sucesso, traduzido em 40 idiomas e já foi peça de teatro no Brasil e que fui ver no Rio de Janeiro com a também ótima Renata Sorrah, amei!
Shirley Valentine surgiu em minha vida quando eu já não sabia o que fazer com ela. Estava me separando do meu marido, estava sendo abandonada, traída , o mundo parecia ruir, não havia colo nem chão suficientes para me sustentarem. A partir de Shirley deixei de ter dó de mim e parti pra cima da vida, de uma nova vida; com dificuldades sim, mas com uma liberdade que decidi agarrar e não abrir mão dela nunca mais. Dali pra frente adotei o “subir no telhado”, fazer uma coisa ousada e perigosa, de deixar as pessoas de cabelos em pé mas que me faz me sentir uma mulher livre, do meu tempo e cheia de possibilidades para ser feliz... Quando a vida começa a querer me ferir, revisito a Shirley e viro eu de novo. Enfim, a vida imita a arte, a arte imita a vida, eu sei que é um clichê, mas para mim é verdadeiro!
Dos 42 aos 50 anos vi muita coisa boa, mas não tomei o cuidado de registrar, porque agora a gente pega o filme na locadora leva pra casa e como o leque de escolhas é infinito
a gente fica meio perdida mesmo. A indústria cinematográfica lança um turbilhão de títulos anualmente, e torna-se praticamente impossível assistir a tudo. A gente vê o que consegue.
Sou cinéfila incurável.
Adoro cinema. Hoje tenho 55 anos, não, são 56... e vejo o que posso no telão , no escurinho que é mágico ou na telinha em casa, numa coisa moderníssima que mal surgiu já ficou comum: o DVD.
“O tempo não pára, não pára não...” como cantou o Cazuza.
Eu gosto tanto de cinema, eu adoro cinema ! Gostaria de estudar, fazer um curso específico, escrever roteiros, qualquer coisa em cinema eu faria, nem que fosse apagar as luzes quando saísse o último espectador da última sessão... 

Márcia Villela
(marciasilveiravillelabol.com.br )



PARIS EXISTE, ANNE

Eu e Anne temos quase a mesma idade. Ela, afilhada de meus pais, na infância, era minha amiga, minha irmã, minha rival em tudo. Ela já era linda aos onze anos. Mudou-se para uma casa simpleszinha, em frente à minha, vivíamos grudadas uma na outra e quando não “estávamos de mal”, subíamos no pé de manga no fundo do quintal e ficávamos horas brincando, inventando histórias , ela me fazendo figa, ao me contar dos filmes que viu em Barra Mansa, num ano em que foi para estudar na casa de uma meia-irmã... Foi ela quem me ensinou:....”cuando calienta el sol aqui en playa, siento tu cuerpo vibrar, cerca de mi, es tu palpitar tu recuerdo, mi locura, mi delírio, mes estremezco oh,oh,oh...cuando clienta el sol..ooool...oool....,cuando calienta el sooolllll!!!! cantávamos assim mesmo, aos gritos, aos berros, em legítimo espanhol , eu pensava.
Não incomodávamos ninguém, pois não havia mais ninguém em casa. Sua mãe lecionava, trabalhava muito. Nunca estava em casa. Reinaldo, seu irmão já adolescente, vivia correndo de um lado para o outro, inventando moda, dizendo que ia ser aviador mas não aceitava a idéia de ter que ir ao ginásio antes disso. Mário e Janeth, os mais velhos estudavam fora, o primeiro envolvido em turbulências de movimentos estudantis, diziam que ele era “comunista”, cruz em credo, eu tinha horror desta palavra!
Certa vez, ficamos uma semana de mal, porque Anne me disse que seu “irmão Mário”, havia dito que o Papa era comunista! Imagine, o Papa? Paulo VI, estava no início do seu pontificado. Contei em casa e o Pai morreu de rir, fiquei sem entender essa... Mais tarde, passada e esquecida a rusga, ela emendou ... : __o Mário disse que ele é socialista, que é a mesma coisa! Socialista já soava melhor, ficamos de bem.
E encarapitadas nos galhos das mangueiras berrávamos....”lá tão distante, por trás do sol, lá bem distante, onde o por do sol, põe tons vermelhos na noite como um véu...lá onde aos olhos , a terra encontra o céu...vivia outrora... o meu bem, em Greenfields! (eu adorava essa parte do nome....) .....Greenfields....!!! Ela quase me matou de inveja quando viu antes de mim, Candelabro Italiano, lá em Barra Mansa, uma cidade muito longe e muito grande, que tinha cinemas lindos, e que a gente podia ver até quatro, cinco filmes diferentes num dia só! E cantávamos a música depois dela ter me contado o filme todo:...” Al di la... del sogno piu ambizioso, ci sei tu...al di la delle cose piu belle, ci sei tu...ci sei tu.....alllll di laaaa ...della volta infinita...alll di laa della vita, ci sei tu, ci sei tu, per meeeeeee lalarara...larara lararaaa... al di laaaaa,” em italiano nós cantávamos também, muito bem!
E eu pensava, ô meu Deus, quando é que eu vou poder ver tantos filmes num só dia?
Além do mais, ela crescia, já era “moça”, e tinha peitinhos, aos onze anos! E eu aquela jeca, caipira, tampinha, gordinha e menina, ia ser para sempre jeca e tampinha... Anne me humilhava e sabia disto, paparicando e sendo paparicada por meu Pai, me roubando o único amor que eu tinha...
Ia à noite com ele pelo quintal de nossa casa, vela acesa na mão, procurando formigueiros pra ele botar o remédio de matar as formigas, que cortavam as roseiras de minha mãe, os pés de laranja, mexericas, tudo que achavam pela frente...
Coisa mais chata! Vê se eu ia me interessar por formiga?
Deixava ela ir, não me importava. Ela não, era curiosíssima, adorava todo tipo de vida, qualquer bicho, até mandruvá daqueles mais nojentos, ela ficava horas examinado-os sem nenhuma demonstração de nojo. Depois ia à Enciclopédia Mérito ou à Delta Larousse da “minha casa” estudar-lhes a vida, um a um, passava horas assim, que esquisitice!
Na escola era brilhantíssima em todas as matérias, e cada vez mais linda, tinha uns olhos, indescritíveis, nenhuma estrela de cinema que eu conhecia tinha aqueles olhos...
Os dela, que continuam assim até hoje, benza Deus, são belíssimos, claros e transparentes, nunca vi segredos, mistérios, nem dor, nem lágrimas( decerto ela chorava...ela chorou), mas nunca vi, nem marcas. Talvez ela considerasse fraqueza deixar que vissem suas lágrimas ou marcas delas...não sei. Sei que ela toda sempre foi deslumbrante! Além do mais era alta, magra, elegante e eu uma nanica, perto dela.
Mas seu olhar é o mesmo de sempre, hoje eu sei: inquisidores, mesmo bondosos, generosos, mas sedutores, inquietantes, assustadores. Superiores.
Só agora, muitos anos depois é que “achei” um olhar como o dela, parecido com o dela, de uma modelo, uma atriz muito bela e cujos olhos fascinantes me lembram a minha Anne de sempre: Ana Paula Arósio. Dá um frio na espinha olhar para aqueles olhos! Todo o Universo vira pó de traque diante delas!
Anne viajava muito, mudava de cidade todo ano, não a deixavam quieta...eu não entendia...era levada daqui pra ali, e isso lhe fazia muito mal, mas para mim que nunca ia a lugar nenhum, era muito chique aquele vai-e-vem.
Numa dessas viagens, ela trouxe-me um presente. Para mim inesperado, hoje ela diz que não se lembra, mas eu? Jamais esquecerei um gesto tão profundo!
Numa dessas estadias em casas de irmãs casadas, quando voltou para as férias trouxe-me uma pulseira de metal, prateada, de chapinha, uma chapa maior na frente, ligada por elos a duas menores, uma de cada lado, uma pequena corrente e o fecho. Com o meu nome gravado! E ela tinha uma igual.
Comprou para nós duas! Eu achava que presentes a gente ganhava só no Natal, às vezes no dia Aniversário, da madrinha, e também nos poucos aniversários que íamos a gente levava sabonete de presente.Eu morria de vergonha! Sabonete? Mas ninguém se importava. Todo mundo dava e ganhava sempre as mesmas coisas: sabonetes, talco...
Mas eu ganhara uma pulseira vinda de longe e com o meu nome. Devia ser muito chique, pois ela tinha uma igual...
Ah, usei a minha até descascar e oxidar o metal, arranhar toda, destrambelhada que sempre fui, não a tirava pra nada. Estava ali no meu pulso, presa, agarrada para sempre à minha vida. Nas próximas férias Anne apareceu umas duas, três vezes com a dela, linda e reluzente, enquanto a minha já era... eu dizia que não a estava querendo usar naquele dia...
Certa vez ela inventou que o Padrinho( meu Pai), havia lhe prometido para quando ela fizesse 15 anos, um piano! Mas como? O meu pai, funcionário público, com aquela filharada pra sustentar ia dar um piano para a afilhada que ele adorava? E eu? E tinha mais... o piano dela ia ser cor- de- rosa!
Não agüentei, era demais pra mim! Uma noite quando estávamos todos reunidos na hora do jantar, em nossa casa, inclusive sua mãe, seu pai sempre ausente, sua irmã Janeth, decidi ir à forra: __sabe Anne, você vai ganhar um piano cor-de-rosa-... e eu... vou ganhar um piano de rabo!
A gargalhada foi geral, eu queria dizer que o meu piano seria melhor que o dela, pois seria um piano de cauda...
No mais, era essa disputa boba, infantil. Minha mãe costurava calçolas de botão para mim e para ela... Era assim. E eu não entendia porque meus pais a paparicavam tanto... admiravam tanto a sua beleza, a sua inteligência ( e hoje eu sei, ninguém me disse...), eles supriam a sua falta de uma família estruturada.
No meu entendimento aos onze anos, quando ela aparecia, tudo virava ódio e encantamento, só finuras para “nossa afilhada”.
Na adolescência mesmo, tive muito ódio dela! Apaixonei-me por alguém concreto, pois já era apaixonada para sempre por Paul Newman; por causa dela, vimos Exodus mais de 10 vezes, sabíamos as falas dos personagens de cor... e ela sabia que ele era” meu”. Foi então que no curso de Admissão ao Ginásio apaixonei-me pelo menino mais lindo do mundo: Bernardo Ab-Saber! Usava um paletozinho que fora do terno de sua primeira comunhão, uma gracinha!
Caí na bobagem de contar pra Anne... ela sorriu meio sem graça e começou a me evitar. Sempre fui bobalhona, sempre minha ficha demorou a cair. Um belo dia, vi os dois de mãos dadas na hora do recreio no Ginásio de Inhapim.
Quis morrer, mas a morte não vinha. Não sabia onde esconder minha cara, minha vergonha, minha insignificância.
Mas passou. Demorou pouco tempo e passou.
Enquanto cantávamos empoleiradas nas mangueiras de seu quintal, comíamos manga verde com sal, cortávamos as fatias até limpar os caroços que jogávamos no fundo do quintal da casa à nossa frente. Era provocação sim. Ele vinha, bonito, louro, com topete, catava os caroços de manga e dizia: vocês duas não tomam jeito! Era o Serginho. Ela sabia que ele era louco por ela, mas desdenhava, mas queria... ele era um pouco mais velho, já tinha tido namoradas e sempre arrematava o papo furado com um mesmo e repetido refrão:-- quando você acabar de crescer, vou me casar com você!
A gente morria de rir e tome mais caroço de manga. Nem tudo se cumpriu como deveria, ou a roda do destino rodou ao contrário. No futuro, ambos se casaram com outras pessoas, se separaram, sempre se amando. Ela continua solteira, e até onde sei, não arranjou mais ninguém, não quis. Mas ele... logo achou uma menininha de vinte anos doida por um homem muito importante do Mercado Financeiro!
Foi a primeira vez que assisti alguém rejeitá-la, estávamos muito distantes geográfica e emocionalmente, não pude dar-lhe meu colo, mas ela diz que superou, ou não diz, nem fala mais no assunto.
Naqueles remotos galhos de mangueiras nos prometemos que um dia iríamos juntas à Paris. Era certo. Sempre nos prometíamos isto. E se uma fosse primeiro, dava um jeito de contar para outra como era de fato.
Ela foi, mais de uma vez e nunca me mandou nem um postal daqueles de aeroporto. Certa vez descobri por acaso que ela estava viajando com as irmãs, presenteadas pelo irmão rico.
Senti um aperto na garganta, ela nem me disse que ia... aguardei o postal, a carta, nada, nunca veio nada me contando como é Paris de verdade. Afastou-se de mim por cinco anos, sem nenhuma explicação e doía, doía, doía... Depois voltou, a mesma, a minha amiga e irmã de sempre. Claro, que pelos revezes da vida, mais madura, mais mulher e sempre linda e boa. Mas aquele caso de Paris, foi bobagem Anne, mesmo eu não indo com você, mesmo eu não indo nunca, eu sei dentro de mim que Paris existe, com aquelas luzes todas, com aquele glamour com que sonhamos aos onze anos!
Eu já vi no cinema, Paris existe, já vi em fotos, existe sim, Paris existe Anne, e tem gosto de manga verde com sal...

Márcia Villela  (marciasilveiravillelabol.com.br)
16.06.2008 





1968: “ O Ano Que Não Terminou...” 

          “ Mãos à obra , camarada,
            antes que se cale o peito.
            ir-se embora, “num” é nada...
           triste é nada se ter feito...”                Para Geraldo Vandré de 
                                                                             Flávio Rogério Villela/ 
                                                                             Romeu Figueiredo


Este é o nome do livro de Zuenir Ventura, e penso que é o meu e o sentimento de todos os que o viveram. O mundo todo parecia que ia explodir, os quatro cantos do mundo fervilhavam em acontecimentos que exigiam mudanças na luta por direitos civis, nas artes e nos costumes, a década de 60 teve seu ápice no ano de 1968! Eu estava lá, eu vi, meninos, eu vi...
Eu sou antiga mesmo, acho que já nasci antiga, pois adoro lembranças, memórias, fatos e fotos históricas, provas irrefutáveis do que aconteceu” mesmo.”
Devia ter estudado jornalismo, sempre tive uma curiosidade investigativa, sempre quis saber da verdade!
Pois em 1968 eu tinha 17 anos e morava numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. Antes disso porém, em casa, tínhamos uma grande biblioteca, meu pai, abria mão de todos os luxos possíveis à sua humilde condição de funcionário público, além de sustentar uma família numerosa em que só ele trabalhava, para comprar livros. Para ele e para nós, livros substituíam qualquer par de sapatos, vestidos novos ou brinquedos. As roupas eram passadas dos irmãos maiores para os menores, que eram uma escadinha...
Os sapatos iam para o sapateiro consertar, punha uma, duas, três meia-solas e quando não tinha mais jeito: comprava-se um par novo, do mesmo modelo e marca, tipo “tanque” da Vulcabrás, que eram muito resistentes e agüentavam o rojão, da escola. No dia a dia: Alpagartas Roda! Ou as “ótimas” e duráveis sandálias feitas à mão pelo sapateiro Zé Balbino.
Minha mãe vivia grávida! Houve uma época em que haviam cinco crianças que ainda tomavam mamadeiras! E eu, a mais velha dos nove, sofri à bessa, apanhei, fiquei de castigo, porque o meu dever era estudar e cuidar dos menores. E eles eram muitos e não paravam de nascer... Eu só tinha sossego quando eu ou eles estávamos na escola. Resolvi então apelar para Deus, pedir-LHE que não deixasse mais nascer menino em minha casa... Mas a esta altura, a fábrica já estava cansada mesmo, teve só mais um e fechou.
Em casa era comum falar-se de política, após o almoço, e o jantar. O Pai e a Mãe liam muito e falavam do que liam e nós ali, ouvindo tudo, e quase sempre, política. O que acontecia no Brasil e no Mundo era largamente debatido depois do Repórter Esso .
Falavam da fome no mundo, e havia fome no mundo? Falavam das desigualdades sociais, dos preconceitos de raça, cor, religião, do horror do holocausto, meus pais abominavam os preconceitos, a miséria e as injustiças!
Eram católicos conservadores e por natureza, compassivos: a humanidade era problema nosso, sim!
Contavam romanticamente a história de Anastácia Romanova, filha de Nicolau II, o último Czar da Rússia, da qual circularam durante anos lendas que evocavam sua sobrevivência. Era dona de uma fortuna incalculável, desaparecida misteriosamente e que a Revista O Cruzeiro a cada edição achava vestígio dela em algum lugar...
Falavam das mudanças dos regimes políticos na Rússia, do Muro da Vergonha em Berlim (eu já tinha lido o Diário de Anne Frank , sem entender muito, mas chorei horrores...), e até a América Latina pipocava, com a queda de Fulgêncio Batista em Cuba e a posse do líder comunista Fidel Castro... Era muita coisa para nossas cabecinhas pré-adolescentes... Enquanto isto, folheávamos maravilhados O Tesouro da Juventude, que era um tesouro mesmo, tinha histórias infantis, contos de autores famosos, poesia, e o livro dos porquês... que tinha resposta para tudo... Passávamos horas declamando A Canção dos Tamoios, O Canto do Piaga, de Gonçalves Dias...Nós tínhamos que declamar e bem, grandes poemas que ressaltavam o civismo e o patriotismo!
Minha mãe é uma artista desta prática. Mesmo hoje, doente de Alzheimer, declama épicos imensos como Nero, Nero... e Augusto do Anjos com aquele vocabulário difícil, ela sabe tudo, do passado, tudo, ou quase tudo, tentando nos convencer de que não está delirando, pois agora, as últimas luzinhas da lucidez já se apagam... O Mundo não sabe a grande artista que perdeu! Mas ela nos queria declamando e bem, e cantando hinos patrióticos dos feitos heróicos de Tiradentes( imagine, com a melodia da Marselhesa!), Duque de Caxias, Canção do Expedicionário, Hino à Bandeira, Hino à Primavera, A Moleirinha de Guerra Junqueiro, numa musiquinha infantil, meio idiota, ai, mas que comovente!
Até um Hino à Getúlio Vargas ressuscitava e aprendíamos, pois enaltecia os valores cívicos de um grande brasileiro!
Ela estava sempre nos preparando para uma “guerra que viria...” e estava certíssima, hoje eu sei.
Era assim que teríamos de ser no futuro: pegar nas armas se preciso fosse e morrer na batalha, derramando o sangue pela nossa Pátria!
Aprendi tudo, pois adorava cantar e as letras eram poemas belíssimos, ou nem tanto, mas a cantoria era boa, muito boa.
Em 1968, eu tinha 17 anos e já havia “vivido” dois momentos históricos muito significativos: a Revolução de 1964, que fui sentir seus efeitos um pouco mais tarde, quando o país estava definitivamente e por tempo indeterminado amordaçado e preso a ferros à ditadura militar, página negra de nossa História, só comparável à escravidão; e a morte do líder guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara, morto em outubro de 1967 e para quem , eu e minha turma, mandamos celebrar, missa de sétimo dia... Era um tempo sem liberdade. Tudo era “ comunista, socialista, subversivo, cão danado, todos a ele...” Os “meninos “ de minha cidade que estudavam fora, pois na mesma só se podia chegar ao Ginásio, daí em diante quem quisesse se qualificar para uma carreira, teria que mudar-se. Muitos foram embora, e à esta época, quase todos estavam envolvidos em movimentos estudantis, sendo perseguidos, escondidos em casa de amigos, vivendo na clandestinidade, ou mesmo, foragidos com o DOPS-Departamento de Ordem Política e Social, em seus calcanhares...
Eu tinha aquela foto famosa do “Che” colada no fundo do meu guarda-roupas. Mas o Pai e a Mãe sabiam...
Nossa cidade era muito visada “muitos dos líderes e o Presidente da UNE-BH” eram de lá, portanto visitada frequentemente pelo DOPS, revirando casas, bibliotecas, invadindo as nossas vidas e deixando marcas eternas, perseguindo e prendendo “nossos meninos”. Crime político e ponto. Não se discutia.
Mas nós tínhamos contacto com aquele mundo proibido e não era pela televisão, nem pelo rádio, mas pelas diversas e anônimas mãos de quem vinha de fora, trazendo pacotes verdadeiramente “preciosos”e que só eram abertos num lugar seguro e que não despertava a menor suspeita: a casa de minha prima Gracinha recém-casada com o filho de um fazendeiro e que morava na sede da fazenda, um sítio a uns seis quilômetros fora da cidade. Era uma casa antiquíssima e era na cozinha grande da fazenda, encolhidos em cima do fogão de lenha já apagado, mas quente 24 horas, é que líamos as cartas dos presos, dos foragidos, sabíamos de tudo o que verdadeiramente acontecia... E sempre um de nós lia em voz alta, Marx, Engels, Hegel, Marcuse, difícil de entender, mas devia ser bom, pois era “subversivo”! E tínhamos que nos preparar intelectualmente, fortalecer nossa ideologia, escovar o pensamento com filosofia... Para nos manter “acesos” uns bebiam caipirinha e mais uma “bolinha”, uma anfetamina usada para tirar o apetite, que nos deixava “ligados” por dias e noites sem dormir.
Outros, mais corajosos e descarados, e por ser um símbolo de rebeldia e status, fumavam uma “ erva boa”. Passávamos as noites de final de semana assim reunidos.
Éramos conclamados pelos nossos”camaradas”, a fazer alguma coisa, a ser uma “célula”, a sermos corajosos, guerrilheiros, pois o Brasil ia precisar que pegássemos em armas... E mais gente era presa, e sumida, e torturada. Nosso”tesouro proibido” era escondido no forro do quarto de minha prima, daqueles forros feitos de fitas de bambús trançados formando uma grande esteira, eram assim os forros das casas antigas e aquele ali já tinha quase um século!
Era lá que escondíamos os livros, correspondências, tralhas e que a cada dia aumentava mais e mais... até que uma noite, o forro não resistiu ao peso e desabou em cima dos recém-casados em pleno ritual de acasalamento! Foi um susto, e uma correria, o pobre do marido dela, o Osmar, nem sonhava que dormia debaixo de um barril de pólvora... Procuramos outro esconderijo seguro e não encontramos, o jeito foi apelar para uma cisterna velha, desativada, e o povo da roça não entendia porque; _ “aquês minin da rua vevi tiranu água naque’a cisterna véia di água salôba....” A gente morria de rir!
Gente como Wladmir Herzog, Edson Luiz de Lima, morto em março daquele ano no Rio de Janeiro, Wladimir Palmeira, José Dirceu, Mário Eugênio, o José Guimarães morto a tiros no confronto entre os estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de SP, eram da nossa família...
Éramos, eu, Graça Salgado, Marise, Vera, Miroca, Gracinha Patrocínio(nossa “big mother”, dando sua casa para ser nosso QG), viúvas de Che Guevara...E os meninos... Carlos Chagas, o Chagão, mais velho que todos e irmão de Carmo Chagas, já nesta época jornalista; Rogério Lacerda, cujo irmão Márcio Lacerda estava preso, Marquinhos “Babão” Maia, Guri do Seu Zé Peixoto, Ernani do Zuzú, Paquito meu irmão, Rui Barbosa...éramos a vanguarda, o vir a ser, o amanhã, se houvesse... Nossos pais não sabiam das nossas reuniões, mas sabiam, tinham certeza de que estávamos nos preparando para resistir e sobreviver...
Em 13 de dezembro de 1968 entrou em vigor o Ato Institucional nº 05 que veio por fim às nossas ilusões: suprimindo as liberdades democráticas, colocando em recesso o Congresso Nacional e cassando os mandatos do parlamentares “à torto e à direito”, censurando quaisquer pessoas que viessem a se posicionar contra o regime militar.
Era dezembro e o ano de 1968 não acabou.
Nossa cultura passava por um momento fértil, na literatura, no teatro, principalmente na música com o nascimento dos grandes Festivais de Música Popular e do Tropicalismo que reunia nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e outros tantos.
Fechou-se completamente o cerco, nossos “meninos” torturados e mortos, cada dia caía um...e mais um , e mais um em cada canto do nosso” Brasil brasileiro...”
Outros, políticos, artistas, intelectuais, conseguiam asilo em Embaixadas Estrangeiras e partiam sem saber se um dia voltariam...
Impossível não me emocionar! Ô ano difícil ! Aconteceu de tudo! Não só aqui, no mundo inteiro!
E foi justamente em 26 de Junho de 1968, que foi realizada no Rio de Janeiro a “Passeata dos Cem Mil”, reunindo estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães, autorizada pelo Governo Federal, que contou com uma aparição“apoteótica” de Wladimir Palmeira em inflamados discursos e que culminou com a queima da bandeira americana, demonstração real do pensamento do povo brasileiro através dos movimentos estudantis e manifestações de todas as categorias de cidadãos civis contrários ao regime militar...
1968 não acabou mesmo. Para os que o viveram cheios de ideologias , simbolismos e desejos; éramos uma juventude que queria mudar o mundo, cheia de esperança , disponibilidade e voluntarismo: era aquilo que cantava nosso hino”... quem sabe faz a hora, não espera acontecer...” , e para os que não o viveram, uma certa nostalgia por não tê-lo vivido...
O Zuenir Ventura fala disso nos seus dois livros, eu também como ele busco vestígios, pistas de 1968. Sei que nem tudo era maravilha, que havia muita coisa errada... e mesmo agora, 40 anos depois continua errada...mas eu não passo a minha bola, ou a minha “bala” pra outro de jeito nenhum... Eu tinha 17 anos em 1968, e foi em casa que aprendi que se alguém tiver que dar o primeiro passo, o primeiro pontapé naquilo que restringir o sagrado direito à liberdade, esta sou eu. Por coerência, fidelidade à minha história. E se necessário for, até o tiro da misericórdia, é meu!
Aqui registro a maior lição do meu aprendizado:
VIVA A LIBERDADE!!! VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO!!! 1968 continua...

Márcia Villela   (marciasilveiravillelabol.com.br)
26.06.2008
Doida ou Doída Demais? 

QUANDO EU ERA PEQUENA...

Quando eu e Maria Joventina, ou a Maria do Sr. Beco, éramos pequenas o mundo era outro, tudo era maior do que nós, nossos pais eram vivos, eram os nossos super herois e tinham muito poder...
Éramos crianças que obedeciam aos mais velhos. Respeitávamos os adultos. Fazíamos pequenas traquinagens sempre acompanhados de muito medo e culpa de magoá-los.
Quando nós éramos pequenas tudo era proibido! Baile de matinê de carnaval? Nem pensar! Minha mãe me mandava para o Retiro de Jovens com as Filhas de Maria. Três dias de adoração ao Santíssimo!
Ninguém merecia! Mas quando o tal do retiro acabava ainda dava pra passar no Clube e pegar um restinho do Carnaval, que delícia!
Certa feita, minha professora Leila e mais uma turma estavam no baile quando um rapaz esguichou um lança-perfume nela e pegou um pouquinho em mim... Meu Pai do Céu, aquilo era o máximo! Nunca havia sentido na vida um perfume tão intenso e sofisticado como aquele! Meu vestido era feito de um material sintético muito em moda, o tal de Volta ao Mundo( danado de quente) e no carnaval do ano seguinte o cheiro ainda estava lá, mesmo depois de muitas lavagens. Quando eu era pequena, era seguro brincar na rua. Era natural ser solidária a uma amiga  como a Maria do Beco fazia com a Lia do Divino,  vendendo verduras da horta de sua avó, por que a mesma tinha necessidade e a amiga já mocinha tinha vergonha de fazê-lo! Quando eu era pequena, o Rio de Janeiro era um lugar muiiiito longe, e era a Capital do Brasil! Em casa , o Pai lia a revista O Cruzeiro e a Mãe, A Cigarra...Quando eu era pequena, sentada no colo do Pai, eu aprendi a ler na Cartilha d”O Cruzeiro. Eu lia as duas!
Quando era pequena eu aprendi valores que gravei em minha mente, que formaram meu caráter e personalidade e me fizeram essa boboca sentimental e emotiva que eu sou.
Quando eu era pequena, haviam três realidades: a dos adultos, que eram calmos e gentis. A das crianças, com deveres a cumprir e muito lazer. E a terceira a da minha imaginação sem limites que me transportava para reinos encantados de príncipes e reis muito justos e bondosos.
Cresci acreditando nisto! E ainda acredito! Acredito que seres humanos bons, honestos, responsáveis, com senso de justiça podem fazer um mundo melhor! Não é possível que tenham me enganado, a mim e a todos nós, quando éramos pequenos... Nossos pais não mentiriam para nós! As histórias maravilhosas nos eram contadas pelos livros da coleção Pérolas Infantis, e todos os porquês do mundo, estavam no Tesouro da Juventude! Minha fantasia não foi alimentada por Pollyana, tampouco Alice No País das Maravilhas, sem desmerecer as heroínas estrangeiras, me alimentei foi de Monteiro Lobato e Seu Hilário, o contador de histórias oficial de minha cidade, que levava o sonho e o encanto cada noite numa casa. Quando eu era pequena, ninguém era pobre. Ninguém era rico. Isso não fazia diferença nenhuma. Nem ser preto, ou aleijado, ou doido varrido. Todos eram respeitados, e tratados do mesmo do jeito, igualmente, como seres humanos!
Haviam problemas e pessoas problemáticas, mas não entre nós.
A cidade era pequena como um presépio, um vale simpático encravado entre as montanhas de Minas. Povo bom de doer! Hospitaleiro, acolhedor e amigo em todas as circunstâncias! Como dói a saudade que sinto de tudo e todos que passaram pela minha vida quando eu era pequena...
Falava-se em guerra em voz baixa e disso eu tinha muito medo. Pois ouvia o Pai falar de um homem muito louco chamado Hitller, que fora um maldito! Pior que o pior capeta do pior inferno! Dizem que ele fez no mundo um oceano só de sangue dos judeus...Mas como, eu pensava? Se Jesus era judeu e Deus...e se sendo judeu e Deus, por que permitiu...?
Difícil e complicado entender tamanha monstruosidade! Uma abominável página da História que até hoje, eu e a humanidade inteira não entendemos!
Talvez seja essa a razão do meu desencanto e o meu grande descompasso com o mundo em que vivo e que deixa certas pessoas incrédulas em relação a mim que sou tão diferente delas! Sou sim, e me orgulho disto. Cresci praticando igualdade, fraternidade e liberdade. Quando era pequena eu não conheci hipocrisia, mesquinharia, egoísmo, violência, nem descaso com o próximo.
Quando eu era pequena eu era feliz, e sabia que o era. Só não sabia que a felicidade não durava para sempre e que mais tarde acordaria num mundo caótico, egocêntrico e feroz. Não dá mais pra voltar a fita, não dá pra voltar ao tempo que a cada dia se desbota como fotografia antiga. Me dá vontade de dizer:” parem! Parem o mundo que eu quero descer!” Que mundo é este? Este tempo de realidade cruel, mentiras e superficialidades, decididamente não é como o tempo de quando eu era pequena. Como cheguei até aqui? Teimosamente reinventando a vida todo dia. Sou otimista, tenho esperança, creio nos homens. Sou mais uma sobrevivente. Soa piegas, melancólico, e é. Mas esta sou eu, desde o tempo em que era pequena.


Márcia Villela (marciasilveiravillelabol.com.br)
18.10.2009 



FALANDO GREGO 

Kalimera! Kalispera!   Bom Dia!     Boa Tarde!

É uma mania, e admito, uma doideira minha mas vivo assim:
viajando sem sair do lugar. Viajo muito, até na maionese... Sou pisciana, romântica, sonhadora, aventureira. Viagens mágicas de encantamento e fantasia, que só o cinema pode me proporcionar. Nunca me canso. Como num passe de mágica saio do meu corpo e me transporto para dentro do filme que acabei de ver, saudando e sendo saudada na língua do país onde a história se desenrola. Passei a década de 90 assistindo comédias românticas. Gosto de tudo em cinema, sou apaixonada e gosto sim de filme de mulherzinha! My Life In Ruins, ou Falando Grego, é um delicioso filme , dos seis que vi no feriado prolongado. Conta a história de Geórgia (Nia Vardalos) uma greco- americana que se muda para Atenas para lecionar história clássica, perde o emprego e pra se virar, trabalha numa agência de turismo pra de lá de fuleira . Claro que ela não se dá com o trabalho! Sua vida é um tédio e ela quer dar aula de história e mitologia grega para um bando de turistas desinteressados que só sabem se entupir de sorvete e comprar souvenirs de fabricação e gosto questionáveis, no calorão da Grécia. Ônibus velhos, hotéis baratos, calor infernal e turistas metidos a engraçadinhos tornam Geórgia uma mulher frustrada. Até que ela conhece o “urso que tirou carteira “ e que vai ser o seu motorista naquela que será a sua última excursão pois ela irá...Começa o filme mostrando a jornada de Georgia em busca do seu “kefi”, palavra grega que significa, alegria, vivacidade, brilho pessoal. E para isso recebe a ajuda de um turista muito especial, Irv Gordon (Richard Dreyfuss).
Com seu senso de humor e espirituosidade ele lhe mostra as possibilidades de viver bem, ser feliz e não perder a chance de encontrar, enfim, um grande amor. Recuperar seu kefi . E assim Geórgia para de reclamar e percebe que tudo o que sempre quis sempre esteve bem debaixo do seu nariz...
O enredo é lugar comum, meio que chavão, mas a diferença está nas seqüências de humor baseadas nos mal entendidos e na cara de “ahn” que só a Nia vardalos sabe fazer. (Ela é a mesma de Casamento Grego). Além do humor, as paisagens. Ah, as paisagens. Phaternon, Monte Olimpo, Teatro de Epidauro...Uma mais linda que a outra, as tais ruínas onde se perdeu a vida de Georgia.
O segredo do sucesso dos chavões de Hollywood está aí: todo mundo já foi Geórgia, um dia. A ponto de um dia se olhar e ver que perdeu o viço, o brilho, que não faz mais o que gosta, preferindo fazer o contrário para agradar gente que não gosta...E de repente, resolve-se chutar o balde, mandar o mundo às favas, picar o pé na jaca e nem é preciso virar a mesa. O destino se encarrega de virar a mesa por si só... Mas não foi Hollywood quem inventou isso. Na verdade o conflito sem solução dentro de uma trama nasceu no teatro clássico, na Grécia, onde se fundou as bases para o teatro ocidental de hoje. A virada do personagem deve ser a minha virada. A de todos. Geórgia encontra seu “kefi” por mim, por todo mundo que assiste ao filme. Sem mover uma palha, respiramos aliviados quando sobem as letrinhas dos créditos, inconscientemente.
Entre tantos toques filosóficos de como viver a vida, uma aula de história esplêndida,o filme ainda me deu esta pérola: “você está procurando obstáculos, ao invés de procurar pela mágica!”
Estou na idade de fazer coisas definitivas, ir à Grécia por exemplo: pronta, madura, só que crio eu mesma os obstáculos. Preciso rever meus conceitos e recuperar o meu kefi!

Márcia Villela (marciasilveiravillelabol.com.br)
22.10.2009 


 O CANTO DA SABIÁ


“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá...
Cantar
Uma sabiá...” SABIÁ - Tom Jobim e Chico Buarque 


CHOVE CHUVA, CHOVE SEM PARAR...

“Nó gente” tá chovendo demais da conta! O serviço de meteorologia diz que esse clima tão inconstante é ocasionado pela frente fria que vem da Argentina e cria uma zona de convergência com o Atlântico Sul vindo da Amazônia “aquelas nuvenzinhas” que aparecem no mapa da TV, trazendo esse aguaceiro em plena Primavera! Imaginem quando chegar a época “das águas” mesmo, o Verão...
Minas Gerais, que nem tem Atlântico, está inteirinha sob esta tal de zona de convergência há dias!
Governador Valadares não escapou. Parece um dilúvio, o Rio Doce está subindo... Nada alarmante não! É o de sempre. Todo ano é a mesma coisa. Nos bairros ribeirinhos, como o Santa Terezinha, a Ilha dos Araújos,( antes bairro nobre, hoje área de risco), o São Tarcísio, Santa Rita, São Pedro, São Paulo, todo mundo já vive desconfiado, sempre prontos para subir “os trens”: cadeiras, sofás, camas, fogões
e quem tem piano sabe: piano não pode ver água...
O jeito é mandá-los para algum lugar seguro. Assim a população de uma cidade inteira vai convivendo e se acostumando com estes hábitos, a ocorrência das enchentes e deslizamentos de terras sobre casas construídas nas encostas dos morros e o que é mais trágico, soterrando por vezes seus moradores. E não são poucas, pois pobre só pode morar no alto morro e pra todo lado tem pobre!
Esta situação não é só nossa. No mundo inteiro o aquecimento global se reflete no clima que está virando e deixando tudo literalmente de cabeça pra baixo.
Valadares é uma cidade plana, quente, cercada por morros. E ainda temos a Ibituruna, uma linda montanha de pedra que segundo os leigos concentra e espalha todo o calor do sol. Conjecturas de mineiro, metido a entender de tudo...
A cidade cresceu muito nos últimos anos e a meu ver, desordenadamente, mesmo sem entender de planejamento urbano dou ouvidos às desculpas esfarrapadas de engenheiros e autoridades municipais burocratas que diante dos iminentes e inevitáveis “ estados de emergência e calamidade pública ” justificam o injustificável e me pergunto: por que? Por que com tanta verba e tantos profissionais competentes chegou-se ao limite do suportável ?
Nos bairros periféricos, ainda há ruas que em tempo seco os ônibus não passam, não sobe carro, nem o caminhão do lixo por causa das imensas crateras deixadas pelas chuvas e a natural erosão. A natureza, quando ameaçada, silenciosamente vai fazendo o seu movimento.
O que também assusta é o perigo e risco a que estamos sempre expostos diante do estado de precariedade das estradas em que circulamos. Segundo o que anunciou na última semana o CNT- Conselho Nacional de Tráfego , 70% das estradas brasileiras estão longe de serem consideradas ideais.
A BR-381 que liga Governador Valadares a Belo Horizonte é cenário de constantes acidentes com vitimas fatais como os que ocorreram nos últimos 15 dias, deixando um número inacreditável de mortos. A duplicação da BR-381, principalmente nos seus pontos críticos - de João Monlevade até GV- parece que não sai do papel, mesmo tendo sido aprovado o projeto e provisionada a verba para tal.
Falar disso não nada confortável, é mesmo desanimador. Bem como é desanimador saber que se tivesse o Governo, investido em ferrovias a exemplo da Europa, do Japão e outros países, não estaríamos em pleno século XXI com rodovias estaduais e federais intransitáveis. Sem dúvida, mais ferrovias só trariam benefícios, tais como: manutenção mais barata: o desafogamento do transporte pesado que é feito de Norte a Sul do país por rodovias, teríamos menos acidentes e melhor estado de conservação das mesmas. A malha ferroviária brasileira data do tempo do Império, fala sério!
Mas sempre há uma luz no fim do túnel.: 2010 é ano eleitoral, de novo. Pode ser aconteça um milagre ou ações governamentais, que enfim, resolvam nossos problemas internos com mais eficiência e rapidez.
Sabiázinha é otimista, tem fé e muita paciência. Cantando espera...
Márcia Villela
31.10.2009 


O CANTO DA SABIÁ


“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá...
Cantar
Uma sabiá...”  SABIÁ - Tom Jobim e Chico Buarque

               Um Relógio e Xícaras de Chá

Aqui no Leste de Minas Gerais, mais precisamente em Governador Valadares, não existe uma família que não tenha pelo menos um parente na América.
Eu não fujo à regra. Tenho primos e primas, até uns Silveirinhas humildes moradores da zona rural, que até onde eu sei só sabiam plantar e colher feijão, milho e,sonhos, foram parar nas lonjuras das terras do Tio Sam. Tenho uma prima Ângela Silveira, numa função importante no jurídico de uma grande empresa.
É a única. Os outros parentes todos, entraram nos EUA ilegalmente, alguns se legalizaram e permaneceram criando suas famílias, construindo o que chamam de “um futuro melhor”. Os outros? Sabe Deus...
O vai e vem de brasileiros mineiros que vão pra Boston , Miami, e para os quatro cantos da América, é incessante, viajam para lá fácil como se fossem para Belzonte.
Nessa leva de matutos desqualificados para trabalhos bem pagos, foi minha prima irmã Gracinha Patrocínio. É de Inhapim e mora num cantinho aconchegante fora da cidade chamado Córrego dos Aredes. Foi ajudar as filhas Carolina e Sheila a criar suas crias e aproveitando pra ganhar um dinheirinho, que ela não é boba e tem uma energia danada, muita garra, um bendito entusiasmo e curiosidade por tudo na vida!
Ficou cinco anos, trabalhou em tudo: limpou casas, lavou pratos, e embalou produtos em supermercados, mais zil coisas que davam qualquer “dolinho”.
Nas folgas, passeava. Passeou pra daná. Foi na Disney, viu o Natal de Nova York, ixe, aproveitou a vida, como se diz por aqui.
Lambeu e se lambuzou de neve e das belezuras do primeiro mundo capitalista. Até que um dia, pela sua condição de ilegal, e pelo fato do marido , Osmar, estar muito doente e cardíaco não se deu com a friagem, acharam que era hora de voltar.
Minha prima gosta de coisas boas, e não escolheu serviço para economizar um dinheirinho e dar-se coisas que nunca pode ter. Entre tudo que viu e adquiriu, cismou com um relógio magnífico!
Comprou o relógio. Não era um relógio qualquer! E sim, um relógio sofisticado, de pé, madeira maciça, mostrador dourado, pendulo idem, um som divino e que pesa meia tonelada! Novinho, comprou numa loja especializada. Custou-lhe todas as economias! Pra trazer o “bichão” foi uma novela, veio num container de navio.
Trouxe casacos de peles sintéticas às dúzias, botas de andar na neve de todos os números para qualquer tipo de pé. Uma tranqueira doida. Presenteou todo mundo!
E fotos? Quilos de fotos : na praia, com o Pateta na Disney, velejando num barco muito chique, outras com o letreiro HOLLYWOOD às suas costas só pra causar inveja! Coisas de sonhos!
A sedução irresistível do mundo capitalista!
Eu também ganhei casaco de pele não-sei-pra-quê , já que a temperatura aqui é sempre acima de 35º graus à sombra, mas quem é que precisa ficar na sombra? Um dia vai chover, vai fazer frio... Na tradicional Festa do Inhame de Inhapim em Julho, faz um “fri que ninguém nem guenta”. Quem sabe eu não viajo ao Sul de Minas onde tenho parentes ou vou ao Festival de Cinema de Gramado no Rio Grande do Sul? Vou precisar! Luvas? Claro que ganhei, de pelica. Gorros, um tanto e uma montanha de cachecóis, posso precisar um dia.... se for ao Polo Norte antes que derreta!
Entre tantos agrados de pouca serventia: um aparelho de chá comprado num bazar de garagem. Foi paixão à primeira vista. Pronto, esse era o meu presente. Direto do “salvation”.
De cor marfim, quatro xícaras, pires, açucareiro, bulezinhos, um para o chá e o outro para o leite, lindamente torneados e ornados com florezinhas de fina porcelana. Uma xícara tem até uma marca de trincado no fundo. Mas está inteira.
Coisa véia mês! Mas com história! A-M-E-I!!! Adoro objetos que me contam sua história. Imaginei em quantas reuniões agradáveis , celebrações, ou momentos de angústia e de aflição eles serviram. Claro que sim, pois um bom chá em qualquer circunstância é sempre bem vindo!
Inaugurei-o com pompa e circunstância em companhia de uma grande amiga que como eu adora antiguidades e rituais.
Depois da inauguração, servi inúmeros chás, pois gosto de “viajar” na lembrança e memória muda que me traz este rico serviço chá. O lixo da América é um luxo para a boba romântica e sentimental que sou.
Do outro lado da bandeja há uma data pintada: 1938. Antes da Segunda Guerra Mundial!
Ixe, minha imaginação voa. Vou direto ao cenário do filme O Grande Gestby e não sei porque me lembro também de Al Capone. Quem saberá dizer?
Gracinha todo dia diz que vai voltar, mas o Osmar, ela e .o seu joelho já não andam bem...Já exportou o Charlie , seu filho caçula que deixou para trás mulher e filhos e já tem outra família...
Mas isso já é uma outra história...
Isto é simples e descaradamente, a vida.

Márcia Villela
16.11.2009