MÁRCIA BECHARA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
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1. Matéria que o escritor Marcelino Freire escreveu sobre a autora e seu livro "Casa das Feras" no Portal Literal, aqui:

http://portalliteral.terra.com.br/Literal/calandra.nsf/0/694B0E09CAF182BE032573F7006B5404?opendocument&pub=T&proj=Literal&sec=Olho

2. Texto que o poeta Fabricio Carpinejar escreveu sobre o livro "Casa das Feras", da autora, aqui:

http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=2914

3. Degustação no Portal Literal, aqui:

http://portalliteral.terra.com.br/Literal/calandra.nsf/0/4812BF7CC90E1A54032573B5006BB0AE?opendocument&pub=T&proj=Literal&sec=Degusta%E7%E3o

4. Entrevista da autora para a rádio Jovem Pan:

http://jovempan.uol.com.br/real/texto_comentaristas/20071203_120112.ram

5. [Leia um dos contos do livro Casa das Feras, de Márcia Bechara, Editora 7Letras, 2007]

CASA NOVO MUNDO

Dancineide considera insuportável a possibilidade de existirem pessoas que não acreditam que se morre por amor. Ela, que foi criada na raia firme das paixões, no mato, na louça, na janela e na farmácia, só acredita em usuras.

Que o corpo há de ser aproveitado em sua maioridade, misto de animal e homem e mulher. "Arriba a saia, Delinha!", grita Dancineide do quintal, num sorriso aberto de sol, pra moça evangélica do açougue, que diz que sonha com bíblias douradas, fato que alimenta de forma estranha a imaginação das crianças.

Dancineide compreende mais que ninguém no bairro as vontades de cada um e acha um desperdício não satisfazê-las, uma a uma, as dela e as de todo mundo.

Por esse motivo, à medida que os anos foram passando, ela deixou de ser convidada para certas festas da vizinhança, porque tinham constrangimento de sua língua solta. Dancineide, no entanto, não perde um baile da acústica Casa Novo Mundo, no avarandado do bairro vizinho. Montada em plena ribanceira, o barraco do Novo Mundo sacode todo primeiro sábado do mês com uma banda diferente, sempre formada por músicos que tocam melhor quando lhe servem não as cachaças da moda, mas a fina flor das caninhas – a "Peralta".

Nestas noites, a Casa Nova Mundo vira um armazém de variedades. Iluminada difusamente por um enredado de fios de lampadinhas coloridas, o barraco revive um Natal diferente a cada primeiro sábado do mês. Aquelas luzes coloridas piscando, o sanfoneiro, o arrasta-pés, e, quando em vez, um disco novo na vitrola. Que ali se dança de tudo, do "apertinho" ao "deus-nos-acuda", do "zepelim dourado" ao "rebel", da "moschetta" à "viúva cor-de-chuva".

Dancineide vibra quando aprende um passo novo. Sempre achou dificílimo um certo contratempo do "rebel", mas as meninas filhas da Lucinda lhes fizeram o favor de ensinar o truque do pé virado, antes de torcer o tornozelo para mostrar a barra da saia, o que lhes valeu uma fornada de brevidades feitas pela própria Dancineide, no domingo seguinte.

Ela enlouquece com os novos passos, dá gritos aflitos e comemora o feito comendo um pastel de vento da Casa Novo Mundo, com um guaraná ou uma caninha "Pitibiriba", permitida apenas para moças solteiras, porque é feita com raiz de pimenteira.

Mas o que Dancineide gosta mesmo é dos cumprimentos, não dos rebolados. Embora se divirta bastante com estes últimos, ela gosta mesmo é da hora de dizer "pois sim, pois não", dentro da "mochetta", dança que eles inventaram quando o marido de uma das moças do bairro morreu, para que ela risse um pouco e não ficasse tão infeliz. Como todo mundo respeita as crianças na Casa Novo Mundo, inventaram neste dia a "moschetta", o que fez a jovem viúva saltar para a roda e dar de comer balas de mel e flor de pessegueiro aos seus pequenos.

Durante a moschetta tem então esta parte dos cumprimentos, quando cada moça caminha de lado e com olhares furtivos em direção ao homem da roda que mais lhe agrada, e quando chega perto dele lhe oferece um cravo dizendo: "a qualidade do meu espírito tem a cor da rosa em nascimento. Se tu queres ser meu par nesta folia, aceita com afeto este regalo", posto que em seguida cada moça estende o cravo ao varão escolhido, que tem a possibilidade de dizer "pois sim" ou "pois não", ou ambos, se estiver na dúvida.

Claro que esta coreografia gerou inúmeras brigas de arrancar cabelo na Casa Novo Mundo, já que pode acontecer muitas vezes de duas ou mais moças elegerem o mesmo par. Durante algum tempo foi tão intensa a freqüência destas brigas que o pároco Francisco das Neves, responsável pela boa condução da casa e principal sócio do estabelecimento, teve que fazer dois sermões seguidos sobre o tema, e pensou seriamente em acabar com a "moschetta", já que valia mais desaforos que caninhas no bar.

Mas as moças que freqüentavam a casa acorreram ao pároco aflitas, que aquela dança era certeza de muitos futuros casamentos e que ele estava ameaçando a continuidade da comunidade. Posto este desafio, Francisco das Neves não quis se interpor mais entre as moças e o destino, e resolveu permitir novamente a mochetta na Novo Mundo.

Além deste cumprimento, Dancineide gosta demais do momento de declamação que antecede os bailados na Casa Novo Mundo. Com a promessa de que ao final da noite cada um fará o que bem entender e que quem não estiver de acordo com esta cerimônia fale agora ou cale-se para sempre, o que provoca risadas gerais no povaréu, já alto das primeiras caninhas, começam então todos a serpentear seus versos em roda. De poeta conhecido ou de punho próprio, todo verso é igualmente respeitado.

Tem o Zé das Ceroulas, coitado, que escrevinha tudo que lhe vem na cabeça sem discernimento ("e sem discernimento, comemos pão achando que é promessa", Lucinda sempre avisa). O resultado é que o Zé, que ganhou este apelido porque tem mania de lavar ele mesmo (e só ele) sua roupa de baixo, e não deixar que nem a mulher o faça, o Zé começa a desfilar versos sem rima sobre lágrimas e traições, e ninguém da Casa Novo Mundo gosto muito destes temas, acham chato. Mas respeitam o Zé, porque lá dentro toda criança e todo poeta é respeitado.

Depois a romaria de declamações vai correndo em torno da roda, sempre no sentido anti-horário, e quem não quiser dizer um verso basta no lugar dizer uma cor ou um nome de fruta. Dancineide sempre espera a sua vez de dizer "rosa", que é a cor que mais lhe agrada. Fica aflita, sua, esbaforida diz "rosa" quando é a sua vez.

Não que ela não saiba versos, ela sabe, e tem alguns de lavra própria. Mas tem medo de dizer em público, porque lembra sempre da vez em que a Joaninha deu de dizer os seus, muito bem acabados em rima e conteúdo, mas que falavam dos mistérios da alma com tal desenvoltura e habilidade que ninguém quis lhe dizer "pois sim" naquela noite, tiveram medo do oculto da alma da Joaninha.

A Casa Novo Mundo é um lugar onde todos nós gostaríamos com toda certeza de ir, toda vez que nossos pudores perdessem centimetragem em nossos escudos para o bailado, o perfume e o amor.

Polvilham naquele lugar pétalas, especiarias e álcoois, para que as cenas que cada um vive naquele lugar fiquem eternamente gravadas na memória junto com uma inscrição de cheiro, um registro que acenda as percepções toda vez que caímos adormecidos no cotidiano dos dias. Como deseja ser livre, a Casa Novo Mundo insiste para que todos os seus convidados também o sejam.

Só vai lá quem quer. O caminho não tem mapa do tesouro. Não tem placa indicativa na porta, mas também não lhe dificultam a chegada. A Novo Mundo está sempre lá, na beira da ribanceira, no subúrbio, iluminada com pisca-piscas de Natal. Tem gente que volta para casa com o aroma do cravo amassado no terno de quem disse "pois sim" na hora de uma moschetta. Tem gente que volta impregnado das damas-da-noite do quintal que antecede a ribanceira, porque preferiu dizer seus versos lá fora, sobre as omoplatas alheias.

Pelas mesmas razões Dancineide tem asco à mais singela das especiarias, pois não suporta o alecrim que polvilham no peixe. É que era este o cheiro do cavalheiro que lhe ofereceu um gole de "Peralta" e lhe contou versos anônimos de amor, mas não na roda de declamação, foi nos curumins do ouvido dela que ele cochichou as belezuras.

E ela exaltou-se. Só que no mais tardar chegou outra moça de saia e ele fez cochichar os mesmos versos, que Dancineide pescou tudo no pedaço de espelho do banheiro feminino, onde as moças se acotovelam para passar batom.

Ela jogou-o ribanceira abaixo, enquanto ele dançava um "deus-nos-acuda" para ela, já torto da Peralta. Ele dançava com um ramo de alecrim na mão e era mesmo um besta, tentando mostrar que sabia fazer o passa-quatro antes da rodada final da dança. E Dancineide também não admite que dancem errado.

Mas o que acontece na Casa Novo Mundo fica lá dentro, todos sabem. A ribanceira que engoliu o desastrado é muda, não há de revelar-se. Por esta razão Dancineide aprende passos certos, não confia em homens que não declamam na roda e acha insuportável que não acreditem que seja possível matar ou morrer por amor.