NO…LIA RIBEIRO
PORTUGUÊS
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MAL DA ANGÚSTIA

Deixem-me com minha angústia
Companheira de infância
Em meu peito encarcerada

Essa tristeza de ausência
É razão maior da minha poesia
De versos imperfeitos

Por isso, deixem-me sofrer
Os sobressaltos e a apatia
Que me reservam os eleitos

Nada me dá mais prazer
Do que a dor de experimentar
Uma angústia adaptada 


BEIJO PARTIDO


O que uma língua
Pode fazer à outra
Senão tocá-la
Com profundo desejo?

Como pode um homem
Aniquilar uma mulher
Senão recusando-lhe
Um beijo? 


CASA


Hoje acordei bem cedo
Os passarinhos cantavam na varanda
Enquanto os homens dormiam

Aos poucos
O tempo ensaiou seus primeiros acordes
O barulho dos carros ecoou pela sala
O tilintar das crianças trouxe encantamento

Sentada no sofá
Fiquei a observar o cotidiano
Daquela família comum
Tomando forma
E a vida seguindo seu ritmo normal

Hoje não recebi flores
Nem declarações de amor
Mas foi o dia mais feliz de minha vida 



MOLHADOS


Tem som de voz
Que molha
Roçar de braços
Em ônibus
Sorriso de desconhecido
Na rua

Tem olhar que penetra
E molha
Segundas intenções
Entrelinhas
Reticências

Tem corpo que molha
O outro
Sem qualquer contato
Movimentos sinuosos
Que provocam
Maremotos

Tem gesto de não
E palavra de sim
Ou vice-versa
Que nos deixam sem ação
Estupefatos
E molhados