NINA DE LIMA
PORTUGUÊS
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                                              O P R É D I O
                                                                                 Nina de Lima
Brilham luzes nas janelas. Aos poucos se apagam algumas
E o prédio semi–adormece.
Mas meu olhar de poeta enxerga através das paredes
Do concreto, dos tijolos...
Para ele não existe janelas ou portas trancadas.
Tudo observa, tudo entende...
E assim, vai percorrendo sala por sala, quarto por quarto.
Em cada metro quadrado uma história,
Um sentimento, uma lembrança... 

Aqui, um leito vazio,
Alguém sozinho a esperar, olhos perdidos no espaço.
Jantar frio sobre a mesa, sala escura, casa triste... 

Acima, um berço todo enfeitado,
Um casal enternecido faz planos, sonha, se ama...
E a casa parece sorrir. 

Em outro andar, quem sabe?
Alguém procura em livros, em filmes ou fotos
Amenizar a saudade de um sonho, de algo, ou alguém.
Só a luz de um abajur ilumina a solidão. 

Ao lado, uma família reunida conversa após o jantar.
Fazem contas, planejam, quem sabe, aquela viagem?!
Casa ruidosa, iluminada.

Alguém, no andar logo acima,
Com carinho embala um berço, onde um rosado bebê
Se enrosca entre as cobertas
E na sala,candelabro, luz de velas e o tilintar de talheres.
Alguém na mesa à espera e a sorrir.
A casa vibra, tem vida! 

Em um cômodo pequeno, alguém no computador.
Acessará a Internet a procura de um amigo?
Estudará para exame, ou será um professor,
Um médico, um executivo?
Levanta-se, vai à janela, observa o infinito e volta a digitar. 

Será talvez um poeta, como eu, um sonhador?
Portas se abrem, outras se fecham.
Pessoas que saem, pessoas que chegam,
Gente que espera ou que se desespera...
Onde tudo acontece, onde nada acontece... 

E na pequena guarita,
O zelador sonolento se alarma constantemente.
Qualquer ruído o desperta, o deixa atento.
Não se permite dormir, não se descuida um segundo.
... E em sua casa, tão longe dali, os seus terão segurança?!
Quem sabe? Só Deus. 

E lá no alto do prédio,
Luz vermelha bem visível, avisa:
Atenção! Aqui há gente! Atenção! Aqui há vidas! 

Mais  no alto, bem no alto, onde a vista mal alcança,
Pequenina estrela brilha e pisca sem cessar.
Parece estar a dizer:
Estou aqui! Estou aqui! Eu velo por ti!...
Eu velo por ti... Velo por ti... Velo por ti.
.Por ti... Por ti.. ti... ti.... 


                                       R E G R E S S A N T E

                                                                                            Nina de LimaOlhos esgazeados,
face rija, embrutecida,
os lábios secos, rachados
e a pele ressequida.
Os membros estropiados,
mãos grossas e calejadas.
... E os passos incertos, cansados, retomam a caminhada...

__ Oh! Cansado viajante,
qual seu nome e seu destino?
__ Sou apenas retirante;
Ariovaldo, Juventino,
Valdevino ou Juvenal.
Não tenho terra nem nome,
sou quase um animal
que foge da seca e da fome.

Pro Sul vou me arribando
e no meu surrão de couro
quase nada vou levando.
Mas carrego a esperança
de um dia mandar buscar
a mulher e as crianças
para comigo morar
na terra onde há fartura,
trabalho, respeito e abastança.

Adeus meu sertão amado, queria poder ficar.

Olhos amargurados,
face rija, envelhecida,
os cabelos rareados,
a saúde enfraquecida,
os membros estropiados,
mãos grossas e calejadas.
... E os passos incertos, cansados, retomam a caminhada...

__ Oh! Cansado viajante,
qual seu nome e seu destino?
__ Outrora fui retirante, hoje? Talvez regressante 
nem sei muito bem  o que sou.
Pau de Arara, Nordestino,
nem o meu nome restou.

Fugindo da seca deixei
o meu caritó, o meu lar.
Vida melhor eu sonhei
e foi triste o despertar.
Por cidade empedernida
troquei a aridez do sertão.
O embalo de minha rede
por catre ao rés do chão.

Construí apartamentos,
embaixo de pontes dormi.
Catei lixo, comi restos,
mil percalços conheci.

Não amealhei tesouros
e hoje retorno, trazendo
no velho surrão de couro,
saudades, muitas lembranças
e a alegria de voltar.

Parti, fugindo da seca, da sorte ingrata e má.
Mas, apesar da fome, do calor e da opressão,
só queria regressar
e ao Criador suplicava em comovida oração:
NÃO PERMITA, DEUS, QUE EU MORRA,
SEM QUE VOLTE PARA LÁ! 



                                           HIDROMASSAGEM        
                                                                                             Nina de LimaT
Tépido vapor envolve o Box,                      
Displicente dispo roupas
suadas e empoeiradas
e as atiro no cesto.
Com elas também me dispo
dos problemas, do cansaço.
É tão suave o aroma
que se eleva da água
aromada pelos óleos
e pelos sais perfumados
que não resisto ao convite
e mergulho com prazer.
A espuma forma bolhas
diáfanas e coloridas
que eu sopro levemente.
E sorrio qual criança.
A criança que já fui
que ainda reside em mim
e às vezes, por vergonha,
impeço de aflorar.
Lentamente, minhas mãos
mornas e ensaboadas
vão percorrendo meu corpo
e os fortes jatos de água
me transmitem energia.
Sinto-me então renovada
sem medos, sem incertezas.
Somente a cabeça emerge
da espuma relaxante.
Leve, eu semi-adormeço
e os pensamentos libertos
não encontrando barreiras,
voejam qual borboletas,
livres e sem limites.
Perdida a noção de tempo
e a temperatura da água,
um leve tremor no corpo
indica o fim do relax.
Aqui estou eu, sozinha.
Eu e somente eu.
Bendigo estes instantes
de solidão benfazeja
e reencontro comigo.
O morno encontro da água
com as marcas de meu corpo,
sinais do tempo passado
e muitos anos vividos,
eu com ninguém divido.
Estes momentos são meus. 
Meus, e de mais ninguém. 






 

                                                                
                                                                                C A M I N H O S                                                                                                                  NINA DE LIMA


Não sabia andar, mas percorri longos caminhos.
Tinha medo de nadar, mas cruzei rios e mares.
Pisei em pedras, feri as mãos em espinhos,
Escalei montanhas, atravessei desertos, adentrei florestas,
Enfrentei geadas, secas e tempestades.

Também encontrei oásis, matei minha sede em fontes,
Ouvi cantarem mil aves, senti aroma de flores,
Voei com as borboletas e sob árvores amigas
Deitei meu corpo cansado.

Segui passos, deixei marcas, abri trilhas e clareiras.
Encontrei muitos amigos,
Alguns perdi pelo caminho
E outros não quiseram prosseguir.
Alguns, bem cedo a jornada terminaram,
Mas outros seguiram comigo.

Enfim, chegamos a um campo florido
Onde há regatos tranqüilos, água pura e cristalina,
Árvores de fundas raízes e de sombra acolhedora.
Muito sol, muita luz, muitas cores, muita paz.
Eu e meus companheiros resolvemos acampar.
Armamos as nossas tendas
E todos os caminhantes finalmente repousaram.

Algum tempo se passou,
Mas um dia, olhando em volta
Vi muitos outros caminhos que antes, nem sequer notara.
-- Aonde irão? Perguntei-me. O que haverá pela frente?
Será que os devo explorar ou assentar as raízes
Aqui neste bosque encantado,
Onde há tanta segurança, tanta tranqüilidade?...
Onde até mesmo as lápides que eram tristes e frias
Estão recobertas de heras e de flores coloridas
Que eu chamo de saudades?

Sinto então o desejo de encerrar a viagem,
Ficar ali para sempre.
Mas eis que alguns companheiros preparam-se para partir.
São jovens, desejam aventuras... Talvez algum dia retornem,
Porém já não serão os mesmos. E eu, estarei ainda aqui?

Penso, medito, analiso, decido-me e escolho uma trilha.
Calço em meus pés as botas da experiência
Para evitar que as pedras
Reabram todas feridas já então cicatrizadas.

Empunho com segurança o bastão da sabedoria
Que irá tateando o caminho para que não tropece.
Embalo meus sonhos, uma grande esperança,
Lembranças e recordações e as abrigo junto ao peito.

Protejo os olhos cansados com as lentes do saber
Para que a luz não os ofusque e me impeça de enxergar.
Refresco-me em uma fonte, mas levo vazio o cantil
Para prover-me da água de outras fontes e outros rios,
Que encontrarei com certeza.

Na mochila abro espaço para recolher lembranças
E na memória registro
Todas as cores e sons para levá-los também.
Despeço-me com um sorriso e conclamo os companheiros:
-- Vamos? Qual caminho seguirão?
Alguns preferem aguardar nossa volta,
Outros se distanciam e escolhem algum atalho,
Mas há os que seguem ao meu lado.
Levamos saudades, deixamos lembranças...

Que encontrarei na estrada escolhida?
As respostas não conheço, irei à sua procura.
E seguirei caminhando.
Até quando?... Não sei.
Até onde?... Até o fim do arco-íris...
... Até o infinito....