CASSIA MARIA VICENTE TEIXEIRA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Outono! Tons amarelados nas folhas que caem forrando o chão para os amantes. É tempo de semeadura, de colheita, de grãos que alimentam o corpo, do amor que alimenta a alma. É Outono, o verão se foi, deixando o bronzeado no aconchego das noites frescas. E, o amor que disfarçado deixa seu perfume no ar, leva às narinas uma sedução que fazem as borboletas coçarem o estômago de modo incomum...


MÃOS QUE AQUECEM

Sobre minhas mãos...as tuas.

Envolvendo minhas mãos frias.

Minha pele sente o dedilhar dos teus dedos

me avisando da tua proteção.

Sinto aquecer minhas mãos suadas e

num lapso esqueço o porquê da sua frigidez e,

fecho os olhos para eternizar este momento.

Nada mais importa...somente o teu calor.





E SE A VIDA FOSSE UMA ESTRADA?


E se a vida fosse uma estrada...
como seria ela? uma reta sem fim,
tortuosas curvas, frondoza, chuvosa,
barrenta, asfaltada, duas pistas, mão única
vazia, movimentada...?
Enfim...tantas opções...tantas divergências...
A vida não é uma estrada aos nossos olhos,
mas tem uma similaridade, porque a vida é um
caminhar para algum lugar,
lugar este que aparentemente
não o reconhecemos, mas que previamente
fizemos um traçado...e não sabemos
se este traçado será por nós cumprido.
Encruzilhadas terão pelo caminho, flores, sombras e sol forte,
chuva, balanço e uma relva fresca...a decisão será nossa.
E se a vida será uma estrada prazerosa ou não saberemos
a medida que formos desbravando-a.



NUANCES DO ENTARDECER


Venha! Venha depressa!
Veja o céu multicolor
envolvendo as nuvens,
desenhando o entardecer...

Vem chegando devagar, a noite...

O sol vai dando lugar à lua e,
a primeira providência é
chamar as estrelas pra compor
a fachada...

Percebe algo diferente?..

O vento que balança as árvores
trazendo uma canção lacônica
anunciando que a hora do aconchego
chega de mansinho...

Fique! Bem ertinho de mim...Fique!




Assim como eu...


Talvez a conversa tenha sido desencontrada,
um mal entendido desenhado nas entrelinhas,
um raro efeito retardado ou mesmo reflexo do passado...

Sabe-se lá o que passou pela tua cabeça,
certeza teus sonos estão entrecortados,
assim como os meus...

Talvez a vontade seja tanta e o medo tamanho
que as lágrimas aliviam a dor quando
a necessidade fica maior...

E em dó menor
se aninha feito passarinho,
assim como eu...



O fogo da última hora


Nosso amor arrancou a porteira do tabu
e nem se importou em deixar escapar
a loucura pelas estradas do desfiladeiro.

Desestruturou as curvas do vale fértil
rotulando a terra de céu azul.

Peça teatral na água do lago imoral.

A marca deixada no vapor corporal
subiu provocando o sol
que se contaminou pelas gotas suadas
e do céu as nuvens derramaram água
molhando os cabelos pra não deixar o calor
apagar o fogo da última hora.



A partida


Meus pés dançaram a ida,
meus braços travaram a partida.

Despi o trapo e vesti a seda
que deixei pra trás.

Colori as mãos de baton
e escrevi o coração partido.

A doidivanas não quis ajuda
rabiscou sem pensar, a despedida.

Melhor assim, sentiu o vento,
sem comentar o tom vermelho.

Borrado de dor, se desmanchou
no céu pálido da saudade.

Parti, deixando restos de mim.


Tudo pode acontecer


Tudo pode acontecer aos meus cinquenta e três...

Posso desabar na idade,
experimentar a dama fora do tabuleiro,
reclamar das costas largas,
fazer de coitadinha,
implorar paciência,
proibir o olhar crítico,
ser fanática por qualquer coisa,
bisbilhotar achando direito adiquirido,
insinuar velhos costumes...
enfim...posso tudo pra chamar atenção.
E, que chata seria!!!meus deuses diriam, tchau!!!

Tudo mesmo pode acontecer aos meus cinquenta e três...

Posso ser a tal,
experimentar a liberdade da idade,
exercitar o desabrochar da pele,
se agitar na vaidade,
romper o tratado de tara,
cumprir o papel de mulher fatal,
sentir o corpo leve e solto pra variar de coisas
que nem posso comentar...
enfim...posso assumir que sou mais com os três
do que com o dois que estão ficando pra trás.
E, que delícia será!!!meus deuses me dirão, vem!!!

Coisas e tais coisas são pros depois dos cinquenta,
que venham com soma de exclamações
que quero na cama recitar
amém.

Perdão?...Explicita demais?...

Essa densa explicação abre as comportas
da droga do veneno letal que
com as cinquenta e três vezes
muitos comprimidos consumidos
escapam pela garganta pronta a agitar a saliva
desde aquele primeiro choro angelical.