MONICA YVONNE ROSENBERG
PORTUGUÊS
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O estranho casal

Mônica Yvonne Rosenberg
Em cada um de nós, há heróis; fale
com eles e eles se apresentarão.
(ditado anônimo)

A tarde em Kassel estava esplêndida. Todas as Conditoreien¹ estavam repletas de adultos, crianças, cachorrinhos presos aos pés das cadeiras, todos saboreando a cascata de chocolate, os salgadinhos e os doces locais. O sol brilhava forte, o que não era comum nesta estação do ano, outono, e as pessoas pareciam extremamente mais felizes por poderem aproveitar um dia tão ensolarado.
Neste burburinho da doceira, um casal fazia planos e mais planos para seu futuro, antevendo a chegada ruidosa de mais uma guerra relâmpago; afinal, todas elas sempre são de expectativa curta e indolor, e sempre ocorrem ao inverso. Os vavalos seriam enviados imediatamente para o Brasil, assim como os cães de raça Schnauzer; e toda a mobília, que pertencia à família há mais de quatrocentos anos. Eles iriam se casar previamente, pois não ficava bem viajarem juntos sem já estarem casados. Lili estava sofrendo, pois não conseguia esquecer seu primeiro amor, Hans Joseph, rapaz alto, atlético, excelente jogador d tênis; o que mais a atraía nele era seu lindo cabelo preto (uma raridade então); ele trabalhava no mercado financeiro, e não pretendia largar a Alemanha por nada. Na verdade, a ele, o nazismo não incomodava nada. Parecia que ela só havia encontrado paixões inadequadas, pois Willheim, descendente da realeza, com muito orgulho de seus traços físicos arianos, ainda era mais desligado dos problemas mundiais que Hans, vivendo todos uma realidade inexistente. Foi este o motivo de Lili marcar as suas bodas com Rolf que, pelo menos, não vivia de rendas, gostava de trabalhar, e tinha uma noção real do que acontecia no mundo.
Lili mal continha a sua ansiedade e Rolf não conseguia desfazer a ruga de preocupação em sua testa, antevendo que estes planos não seriam tão fáceis quanto pareciam a princípio. O matrimônio já seria um grande sacrifício para ambos, mas não havia mais nada a fazer. O tempo passava rapidamente nestes dias, e não se podia perder um segundo que fosse, pois poderia ser tarde demais. Lili era a noiva conveniente para ele e sua família, pois até se dispunha a mudar de país com ele, mas a grande verdade era que ele não amava Lili; seu grande amor era Christianne, uma beleza alemã pura, muito educada, cabelos castanhos estilo Chanel, olhos verdes extremamente elogiados pela sua singularidade, advindos de sua avó italiana. Era alta, 1m69, magra e muito elegante. Seu grande defeito era o excesso de vaidade que possuía, o que a tornava um pouco superficial. Entretanto, também ela se mudaria para o Brasil, dentro de dois meses com toda a sua família, sendo que seu noivo Max só iria após seis meses, pois tinha negócios a terminar em Kassel, antes de poder viajar.
Max era um homem muito simpático. Para todos tinha uma palavra gentil. Parecia um Viking com seus olhos azuis, cabelos e barba castanhos, um pouco gordinho, altura mediana 1m78, uma alegria só. Vestia-se como um homem do campo e do lar, sendo que a única afinidade que possuía com Christy era sua alegria, que a fazia feliz.
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¹ Conditorei: confeitaria, em alemão (pronúncia: Konditorái). O plural é conditoreien.
Rolf comprou duas passagens de ida e volta – pois só assim podia-se sair da Alemanha a passeio – no zepelim, com destino a Paris para dali a duas semanas. Isto, a seu ver, daria para organizar toda a mudança. O Brasil parecia-lhes com a África, e o espírito de aventura crescia a olho nu. Passariam um mês em Paris e arredores como lua de mel. E, depois, embarcariam em um cargueiro em direção a Santos. Rolf pensava: “Se este maluco do Hitler não tivesse assumido o governo derrubando o fraco Hindemburg, toda esta mudança de vidas seria desnecessária..” Rolf não se conformava. Ele sempre achou que se casaria aos trinta anos. Agora, com 26 anos de idade, tinha que assumir uma responsabilidade que ele abominava; entretanto, como bom prussiano, jamais fugiria de seus deveres. Ele também nunca esquecera que Lili era sua principal prioridade.
Naquela época, não havia pessoas de cor na Alemanha; isto só aconteceu futuramente, com o exército americano de ocupação, que tentou desta forma castigar os alemães racistas que ainda viviam, apesar do caos reinante. Portanto, não foi surpresa para Rolf, quando Lili, vendo um carregador de cor negra carregando imensos fardos de algodão, correu para se esconder na cabine do navio. Para ela, parecera que iria ser atacada por índios, que os alemães da época imaginavam passear pelas ruas das cidades, e não só nas selvas. Era a falta de cultura e conhecimento dos estrangeiros sobre a nossa terra brasilis.
Na lua de mel, cada um ficou em um quarto separado. Aos que perguntavam o porquê, eles respondiam que era respeito. Interessante era o fato de que eles pouco se importavam com as perguntas, ou com o fato em si. Na verdade, era até estranha a alegria do casal em uma lua de mel tão exótica.
A viagem nas cabines primitivas do cargueiro faria qualquer cidadão de bom senso desistir da lua de mel enquanto era tempo, e voltar correndo para o conforto de suas casas. Os capitães, por mais que se esforçassem, pareciam lobos dos mares em pele de cordeiros. Seus paletós amarelados, suas camisas amassadas, os faziam mais parecidos com a confraria dos piratas bebedores de rum e fumadores de charutos (que causavam enjôos terríveis nas senhoras a bordo). Realmente, mudar de país nestes cargueiros, já era uma aventura por si só e era preciso coragem para enfrenta-la.
Chegando a Santos, reuniram as suas bagagens e foram encontrar os pais de Rolf, que haviam chegado anteriormente da Holanda. Procuraram uma casa onde todos pudessem morar e acomodar as mobílias, os cachorros e os cavalos de raça. Estes, sim, valiam uma fortuna. Os sogros de Lili haviam se instalado em São Paulo, no bairro de Higienópolis que, antes de ser loteada pela empresa City, fora uma fazenda de criação e de café.
A fazenda que a família de Rolf Hesses havia comprado para ser a sede do haras, em Amparo, foi denominada Finale, por seu o ponto final da viagem para os animais e toda a família. A casa de São Paulo era um palacete em Higienópolis, com fontes de águas límpidas, cujo som acalmava a todos os moradores. Os Paulesen, pais de Christianne, paradesespero de Rolf, haviam comprado um outro palacete na esquina da casa onde moraria com Lili e toda a sua família. Que sofrimento isto seria.
O haras Finale era um sonho. Toda pintada de azul e branco, no mais puro estilo colonial brasileiro, possuía um jardim magnífico cercando a casa, além de um imenso gramado, que ia até um lago onde, à tarde, os pássaros iam beber água, e que, quando o sol se punha parecia pintado de ouro puro. Algo de uma beleza ímpar, difícil de encontrar em um país que não fosse tropical. Os alemães estavam extasiados.
Após um mês, Christianne finalmente chega ao Brasil, cheia de esperanças de uma nova vida. Max, seu noivo, ainda iria demorar, mas ela sentia-se livre do perigo iminente europeu de uma guerra. Para Rolf, começava o sofrimento: ele sempre a amara, mas – por obrigações familiares – sempre pertencera a Lili.
Os Paulesen não cabiam em si de felicidade por ter a filha querida junto a eles novamente. A vida no Brasil era calma, o povo muito alegre e, ao contrário da Alemanha, era fácil fazer novas amizades.
Max chegou ao Brasil um mês depois de Christy. Durante um almoço na residência dos Hessen, ele, que havia atravessado o oceano para encontrar a noiva, se apaixona perdidamente por uma prima de Rolf – Maxine – moça muito bonita, porém simples, de cabelos curtos, ondulados e loiros, pele de pêssego; seus cílios era castanhos e longos, fazendo um lindo contraste com seus olhos azuis. Era delicada, muito caseira e parecia extremamente maternal.
Maxine era filha de um irmão do pai de Rolf, Richard, que havia escolhido o Sul do Brasil para começar a sua vida; como viera antes de seu irmão Rudolph, pai de Rolf, já havia se transformado em um grande plantador de arroz em Porto Alegre.
O amor vencera os obstáculos mais uma vez e, rapidamente, Max e Maxine noivam e se casam, mudando para Porto Alegre, onde os sogros era fazendeiros de arroz. Max Smidt torna-se um ticoon² do arroz, e um sucesso como empresário. Maxine tem um casal de gêmeos – Marlis e Frederico – começando, assim, uma dinastia de Kassel no Sul do País. O Sul do Brasil tornou-se um reduto da colônia alemã, dividia em imigrantes do povo que vieram antes da guerra, e os que vieram depois ou durante.
Com estas dinastias no Sul, em São Paulo, Ribeirão Preto, Amparo, começa o desenvolvimento industrial e agrônomo feito pelos alemães no Brasil.
Uma vez que Max se apaixonara por Maxine, ficou cada vez difícil para Rolf resistir à tentação de declarar o seu amor a Chritsty. Assim, como não poderia deixar de ser. Alguns meses depois, ambos estavam envolvidos em um romance, às escondidas de Lili e de toda a sua família.
Ao mesmo tempo em que a paixão desabrocha entre Christy e Rolf, ele inicia uma bem sucedida carreira empresarial, embora precisasse arranjar um sócio brasileiro, que era dono de uma venda de secos e molhados, pois os alemães – durante a guerra – não podiam ser proprietários de nenhum bem no Brasil. Isto porque os brasileiros haviam declarado guerra contra a Alemanha, após um navio brasileiro ter sido (supostamente) afundado por um submarino alemão.
Após ter arrumado o sócio brasileiro, Rolf começa a fabricar pentes, botões, brinquedos e utilidades domésticas. Alia-se também a um compatriota que conheceu no Brasil, chamado Carlos, e que conhecia tudo sobre moldes fabris. Carlos era naturalizado e um excelente técnico. Rolf o conhecera no Clube Alemão. Com a dificuldade nas importações devido à guerra, suas fábricas iam de vento em popa, tornando Rolf um homem extremamente rico.
A fortuna de Rolf começou a ficar importante até em termos internacionais, e como não eram nazistas, não se haviam apoderado de patrimônio, como muitos alemães no Brasil, no Paraguai e, principalmente, na Argentina haviam feito. Não devemos esquecer o ouro alemão (judeu), que após ter sido legalizado na Suíça, acabava ficando em bancos argentinos, comandados por ex-agentes nazistas, acobertados por Perón e pelo seu ministro Rodolfo Freude, de excelente família alemã, totalmente simpatizante aos nacional socialistas. Após Perón, até o presidente Videla auxiliou os refugiados nazistas na Argentina, em troca de depósitos bancários de origens atualmente não consideradas legais. Na época em que foram feitas, também já não eram consideradas perfeitas ou aceitáveis.

²tycoon: magnata
O que ficava cada vez mais difícil de ser controlado era o romance entre Christy e Rolf. Várias vezes iam tomar chá na Casa do Leite, no centro da cidade, onde corriam o risco de serem vistos por pessoas conhecidas da família. Nestas idas e vindas, Christy engravida de Rolf. Para esconder a verdade, Rolf acaba apresentando um amigo seu a ela que, no auge do desespero, se casa com Guido Zanca, um imigrante como ela, porém de origem italiana. Guido havia ficado milionário com plantações de café em Ribeirão Preto. Foi inlusive chamado de O Rei do Café, pois chegou a possuir 92 fazendas de café na região.
Guido Zanca era um homem belo. Tinha aquela beleza mediterrânea, cabelos claros, pois sua descendência era do Norte da Itália, olhos azuis, alto com seus 1m87 de altura, e extremamente machista. Era um pouco rude, mas seu coração era nobre e bom. Como se dizia antigamente: bom filho, bom marido, boa filha, boa esposa. Era um homem do campo, sendo que seus interesses principais eram suas fazendas de café e sua família. Depois que teve seus filhos, tornou-se um excelente pai. Christy ficaria sempre em último lugar. Para sua sorte, Rolf estava sempre à disposição.
Estas 92 fazendas de café haviam pertencido anteriormente a Frederico Smidt, o primeiro Rei do Café que, na crise de 1929, para honrar os compromissos assumidos, vendeu suas 98 fazendas em Ribeirão Preto. Logo em seguida, o então presidente da república, Getúlio Vargas anistia todas as dívidas existentes dos cafeicultores. Frederico Smidt após ter vendido suas fazendas antes da anistia, acaba suicidando-se em casa. Em seguida, foi o coronel Lunardelli que assumiu o posto de Rei do Café e, finalmente, este título passara para Guido Zanca, também de origem italiana. Mais tarde, o Museu do Café seria na antiga sede da fazenda, em Ribeirão Preto, de Frederico Smidt, alemão, chamado na Alemanha de Keef Smidt, ou Smidt do Café, primeiro Rei do Café do Brasil. Só como curiosidade, o nosso expoente do café foi também sogro de Santos Dumont – Pai da Aviação. Uma de suas filhas havia se casado com ele.
Como Christy e Guido haviam se conhecido em uma festa na casa de Rolf, convidaram Lili e seu marido como um dos dezesseis casais de padrinhos do fabuloso casamento realizado na casa da família Zanca, em São Paulo. As lembrancinhas do casamento foram moedas de ouro, amarradas em um saquinho de amêndoas douradas e prateadas para trazer sorte aos noivos. Os alemães, por mais ricos que fossem, não estavam acostumados a tanto luxo, e chegaram inclusive a achar um desperdício de dinheiro. Havia mais de dois mil convidados para a festa, e o terreno da casa de oito mil metros quadrados chegou a parecer pequeno. As orquestras se revesavam na hora de tocar, e a dança entrou pela manhã adentro, quando foi servido um lauto café da manhã aos convidados que ainda se divertiam no baile. Foi o casamento do ano! Precisavam deixar quatro salas livres para a exposição de presentes e enxoval. Os alemães estavam pasmos.
Os presentes que Christy ganhou da família, do noivo, de seu pai, pareciam de princesa. Dos sogros, ganhou um conjunto de colar, pulseira e brincos de brilhantes. Do noive, uma aliança de brilhantes e um solitário de uns oito quilates. Dos avós de Guido, ganhou jóias, pratarias, e assim por diante. De seu pai e mãe, ganhou jóias de família e porcelanas alemãs lindíssimas. Para ela, não fosse a paixão por Rolf, assim como a sua gravidez escondida, tudo pareceria um sonho. Infelizmente, nada é perfeito.
O que Christy mais amara foi o seu vestido de noiva, vindo de Paris, da Casa Dior, que usou com uma mantilha de família de cinco metros de comprimento. Até ela se achara maravilhosa em seu traje de noiva, e tinha certeza de que não poderia ser mais bonito.
Após a festa e o casamento, ambos foram a Buenos Ayres, em lua de mel, uma vez que a Europa toda estava em guerra. Na volta da viagem, Christy anunciou a Guido sua suspeita de gravidez, e ele ficou extasiado, assim como toda a sua família. Figli maschi desejavam todos, aos recém casados!
Cheio de cuidados com a futura mamãe, Guido instala Christy na casa da família na Avenida Paulista, e começa a seguir o que seria a sua vida daqui para frente. Durante a semana, Guido cuidava das fazendas em Ribeirão Preto e, durante os fins de semana, vinha a São Paulo para que sua amada Christy não necessitasse se locomover durante sua gravidez, nem correr o risco de perder o tão esperado bebê.
Após uma gravidez extremamente confortável, Christy dá à luz a Valentina, uma bela menina loira, de olhos azuis, com lindas bochechas vermelhas. O parto havia sido natural, o que encheu de orgulho ambas as famílias. A única pessoa triste era Rolf, que nem ao menos podia mostrar seu amor a Christy ou a Valentina. A verdade é que Valentina se parecia em muito com Rolf, o que fez seu pai começar a desconfiar de tudo. Valentina nasceu na Maternidade Pró-Matre Paulista, cercada por todo luxo que a pequena herdeira do Rei do Café merecia.
É certo que Guido, como bom italiano, preferiria que o primeiro filho fosse homem para sucede-lo nos negócios, mas ao primeiro olhar dado a Valentina, seu coração se derreteu.
Apesar da tristeza que Rolf sentia por não poder demonstrar todo o seu amor por sua filha, de um outro lado estava eufórico. Lili, infelizmente, por motivos que saberemos a seguir, jamais poderia torna-lo pai, de maneira que esta situação era o mais próximo que Rolf chegaria da paternidade.
Dez meses após o nascimento de Valentina, quando Christy pára de amamenta-la, Rolf começa a se aproximar novamente de sua amada. Lili vivia feliz da vida, e nem se apercebia do que acontecia ao seu redor. Era muito amiga de Christy, sua amiga da Alemanha, afilhada de casamento, e nutria por Valentina um amor incondicional, já que não tinha filhos seus, nem a expectativa de tê-los um dia.
Rolf, então, compra uma garçonière³, na esperança de reconquistar seu amor e ter um ninho para ambos se encontrarem. Como paixão não tem explicação, nem razão, o romance entre Rolf e Christy é retomado, apesar dela também amar Guido, só que de uma forma diferente. Com o passar doa anos, Christy teve mais quatro filhos de Guido e Rolf, que se chamavam Bruno, Giovanna, Luca e Enrico. Luca era loiro de olhos azuis e parecia um deus viking. Bruno era moreno claro de cabelos pretos e maravilhosos olhos azul-violeta. Fazia sucesso onde quer que fosse. Giovanna era dona de cabelos castanhos ondulados e bochechas cor de rosa. Tinha os olhos verdes e parecia um bibelot.Enrico, por sua vez, tinha cabelos castanhos e olhos verdes. Parecia-se em tudo com sua mãe.
Era uma família linda! Uns filhos eram morenos de olhos azuis, outros loiros de olhos azuis ou verdes, mas com a mistura de raças, todos eram lindíssimos, com características diversas, um orgulho para papai Guido, que amava seus filhos acima de tudo no mundo, e era um excelente pai.
Os filhos da família Zanca, junto aos seus primos, os filhos de outros imigrantes, os filhos dos quatrocentões brasileiros, acabaram se tornando a juventude dourada brasileira do pós-guerra.
No início, os quatrocentões encaravam os imigrantes como usurpadores de sua terra brasilis, mas com o tempo, com o desaparecimento das riquezas das famílias tradicionais, e o surgimento das grandes fortunas dos estrangeiros, acabaram aceitando estes novos co-habitantes.
Rolf e Lili viviam com seus pais no palacete em Higienópolis e tinham criado

³ garçonière: apartamento de solteiro
um patrimônio considerável até em termos internacionais. Infelizmente, não tinham filhos para herdar esta fortuna, o que começou a fazer Lili ficar deprimida. Rolf, ao contrário, sentia-se realizado com os filhos que sabia serem dele, e pretendia deixar-lhes tudo o que possuía.
Apesar de Lili, como boa alemã, possuir quatro schnauzers, denominados Apolo, Duke, Kitty e Zeus e seus cavalos puro sangue inglês, aos seus 45 anos de idade, começou a sentir que algo faltava em sua vida. Assim, uma brilhante idéia começou a se formar em sua mente, uma vez que não podia ter filhos.
Lili começou a achar que adotar órfãos alemães seria uma idéia boa e extremamente viável. Com sua influência junto ao Consulado Geral Alemão de São Paulo, que acabara de se instalar no pós-guerra, a língua seria a mesma, os valores também, quem sabe até seriam luteranos como a família. A educação não deveria variar muito, de modo que Lili achava que a adaptação seria bem fácil.
Quando levou sua idéia a Rolf, ele foi determinantemente contra, achando tudo isto um absurdo, um sonho de uma noite de verão. A verdade era que como ele possuía filhos seus, mesmo que fossem desconhecidos para o mundo, ele se encontrava satisfeito com os afilhados que granjeara nestes anos de Brasil.
Os filhos que tivera com Christy, mais que o satisfaziam como pai, e ele se tornara um tio tão presente, que as crianças o consideravam seu segundo pai. O que ele mais sonhava era futuramente tornar seus filhos seus sócios nos negócios, e se ele tivesse sorte, talvez até um deles viesse trabalhar com ele. Seria a glória para ele.
Lili, por sua vez, ficou indignada com Rolf pela primeira vez na vida, porque achou um tremendo egoísmo ele lhe negar esta alegria. Ela sempre estivera do lado dele, apoiando-o em todas as suas decisões, porque ele não podia agrada-la desta única vez?
Ela estava se achando injustiçada ao último, pois havia se sacrificado para salvas todos os bens que possuíam em Kassel, enfrentando uma terra desconhecida, deixando sua vida de lado e casando-se com Rolf por obrigações familiares. Além disso, ela havia contribuído para que o patrimônio da família Hessem crescesse no Brasil, e por isto e aquilo, ela considerava sua idéia um direito adquirido.
Após meses de discussão, Rolf começou a ceder perante a idéia da adoção. Afinal, até ele reconhecia que Lili, apesar de ser sua prioridade, havia desistido de ter sua vida própria quando se casaram, para salva-la de todos os males de uma guerra. Seu pai Rudolph fizera questão de trazer consigo para o Brasil sua filha ilegítima. Filha de uma camareira da casa dos Hessem. Dolly, como era seu nome, havia falecido ao dar a luz a Lili. Bertha, esposa de Rudolph, nada sabia sobre o tão bem guardado segredo de Rudolph, que em um ato de suposta generosidade assume a tutela d sua filha bastarda. Bertha, mãe de Rolf, com dó da pequenina, dá a ela todo o seu amor durante toda a vida, e inclusive fica toda entusiasmada quando seu filho Rolf resolve toma-la como sua esposa e traze-la com toda a família para o Brasil. Somente Rudolph, Rolf e a própria Lili sabiam da verdade, e o segredo seria mantido a qualquer custo para não magoar a mãe de Rolf, que sempre demonstrara tão boa fé em tudo.
A verdade é que tanto Rolf, quanto Lili, para atender um pedido de Rudolph, aceitaram se casar, sabendo que não poderiam ter filhos, nem uma vida em comum, mas que pelo menos a família ficaria unida.
Christy, ao saber da decisão tomada por Rolf em relação à adoção que Lili desejava, ficou indignada. Como não conhecia o segredo da família Hessen, achou um absurdo que Rolf deixasse parte de seu patrimônio a pessoas que não fossem os seus filhos. Como ela era também extremamente ambiciosa, a fortuna de Guido não lhe parecia suficiente.
A personalidade de Christy não tinha evoluído para seu melhor ângulo. Ao contrário, com o passar do tempo tornara-se uma pessoa convencida de si mesmo, egoísta e superficial. Rolf e Guido, no entanto, nada percebiam. Guido, porque supria seu tempo livre com as cocotes parisienses de Ribeirão, e Rolf, porque era realmente um eterno apaixonado.
Christy, de maneira alguma, pretendia dividir a fortuna de Rolf com os filhos adotados de Lili que nem dele eram. Ela era muito consciente do fato de ser mãe de dois filhos de Rolf, e não abriria mão disso. Valentina e Luca tinham até os traços de Rolf para comprovar o fato.
Tudo já estava difícil quando, de repente, o mundo parece cair sobre Lili e Rolf com a doença repentina de Rudolph. Bertha, que estava casada com ele há cinqüenta e oito anos perdera o chão e não sabia o que fazer nem o que pensar.
Como sempre acontece nestas horas, a morte, com sua foice pontiaguda, fica rondando à espera de uma chance para agir.
Rudolph começou a decair rapidamente, mas ainda teve tempo suficiente para pedir a Rolf que lhe desse a sua palavra de honra que seria justo com Lili e deixa-laia adotar as duas crianças, se ela assim o quisesse. Disse a Rolf que havia lutado e trabalhado muito, podendo deixar um bom patrimônio, suficiente para seus dois filhos. Que eles ficassem em paz, cuidassem de Bertha e de si próprios, e que sob pressão alguma esquecessem que eram irmãos, e que sangue nunca vira água.
Christy ficou para sempre desconhecendo o segredo que unia Lili e Rolf. Teve que se conformar com todas as decisões que ambos tomavam de comum acordo. Bertha também foi poupada do segredo enquanto viveu.
Assim, são guardados muitos segredos importantes...