GISELA RAO
PORTUGUÊS
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Eu que amo tanto


“E tem que, de repente, em meio ao descontrole, enxugamos os olhos, alisamos a roupa e saímos à rua, acreditando que há um sonho ali na esquina e que dele depende a nossa salvação”

Gostaria de falar de duas obras que estão por aí, para quem quiser ver. Uma é o visceral livro da atriz e jornalista Marília Gabriela: “Eu que amo tanto”. A outra é o belíssimo filme “Ensaio sobre a cegueira”, do diretor Fernando Meirelles. Vou falar um pouco sobre cada uma delas. Em seu livro, Gabi entrevista algumas integrantes do MADA (Grupo anônimo de Mulheres que Amam Demais). Os relatos são, como eu posso dizer, tão tristes e profundos que chegam a pregar a alma da gente na parede. Gabi diz, na contracapa, que são histórias de mulheres que cumprem a vocação do nosso gênero, tudo se permitindo, sentindo e vivendo, sem refrear suas paixões.
 
É impossível não se identificar com algum dos relatos porque certamente você, assim como eu, em algum momento da sua vida amou demais. Para o MADA, o “amar demais” é quando o amor vem abraçado ao sofrimento e consideramos isso normal. São mulheres que estragam suas vidas, seus corpos, sua saúde, sua alma em nome da paixão por algum homem sempre “filho da mãe”. Ele, o cara, é quase sempre o carrasco da história mas, mesmo assim, elas se arrastam como fantasmas acorrentados recebendo, geralmente, migalhas emocionais em troca. Já em, “Ensaio sobre a Cegueira”, de Meirelles, a atriz Julianne Moore interpreta uma mulher que abdica de tudo para acompanhar seu marido, temporariamente cego numa epidemia, a uma espécie de isolamento, junto com outras pessoas com o mesmo problema.
 
Como Julienne é a única do grupo que enxerga ela é uma peça fundamental para que o ambiente seja mantido razoavelmente limpo da sujeira material e, principalmente, moral. Digo, moral, porque é óbvio que, diante do caos que explode rapidamente, o lado “Hyde”, podre e perverso do ser humano se revela rapidamente. Morando no isolamento, Julienne não perde só sua liberdade, perde também seu casamento porque, em determinado momento do filme, seu marido fala: “Você está fazendo papel de mãe, de enfermeira, até a minha bunda você limpa...”. Então, poderíamos concluir que Julianne também é uma mulher que ama demais, certo? Mas não vejo assim.
 
Nesse caso, vejo uma mulher, não intoxicada por uma paixão, mas sim arrebatada por uma generosidade, por um amor que arrisco chamar de universal. Ela apenas não se importa em fazer esse papel, como também não se importa quando vê seu marido a traindo com uma jovem também cega. Ela compreende. E perdoa. Ela não se importa porque, aqui, ela está ciente de uma missão maior, repleta de bondade e compaixão. Aqui, não é o seu homem o centro do universo e sim o grupo todo, talvez a humanidade. Aqui, não caberia a frase “Mulher que ama um homem demais” e sim “Mulher que ama o próximo demais”. E, então, pergunto à Marília Gabriela: não seria essa a verdadeira vocação do nosso gênero?

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