CÉLIA LABANCA
PORTUGUÊS
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COMISSÃO DA VERDADE.

Considero-me uma transgressora nata. Embora “boazinha” e discreta! – Repeti no meu comportamento os de Tarcila do Amaral, Yolanda Penteado, Maria Bonita, Leila Diniz, Joana D’Arc, George Sand, Isadora Duncan, Nísia Floresta, Chiquinha Gonzaga, Virginia Wolf, Maria Moura, Elke Maravilha, Zuzu Angel, entre tantas outras que mesmo anônimas, ou não, como a minha mãe Alba Ferreira, mas que fizeram e fazem a diferença. Cada uma deixando uma semente em prosa ou verso, não importa, mas que de fato mudaram algo para melhor.

Tendo me lastreado intelectualmente durante os anos 60, 70, quando eu e a minha geração crescíamos da adolescência, com integridade, mesmo que cheios de alardes nas roupas, nas músicas, na moda, nos vícios e nos amores, todos nós líamos como se estivéssemos criando defesas, mental e ideológica para sobreviver aos caminhos ultrajantes dos valores da repressão, da violência e da dor de uma ditadura que para quem tinha pouca idade, parecia estar encampando o mundo! Aí, me fiz forte. – Intuía que havia saída.

Tempo passado, informação e experiências aumentadas, desafios vividos, aprendizado enriquecido, e a medida exata da extravagância determinando o meu gosto pela liberdade e pela consciência de ser cada dia mais uma cidadã comprometida com a maioria e suas minorias; apaixonada e corajosa sinto-me render à minha história, à minha idade e aos exemplos que escolhi seguir.

Li muito: biografias, história, política, romances, poesias, psicologia e filosofia, enfim... Conheci pensadores clássicos, contemporâneos, modernos. Todos os filósofos e os axiomas orientais. Muito pouco aprendi de religião, mas muito de espiritualidade, a ponto de hoje por convicção, abominar todo e qualquer tipo delas e de seus ritos mercantilistas. – Com certeza, Deus e as divindades nada têm a ver com isso, pois sedimentos morais somente advêm dos bons exemplos, sem moralismos baratos ou imposturas, e sem simulações. Com eles, adquiri a grande arma para compreender e enfrentar o desamor e a pequenez banal da alma humana.

Lembro-me que aos dezesseis anos escrevi uma frase num poema, agora perdido pelas gavetas da minha vida, que dizia: “Os homens, não geram homens. Geram parias. Geram monstros...” Essa frase bem dizia dos meus medos, tão próprios de minha idade, diante das descobertas e das inseguranças que o Brasil daquele tempo nos impunha.

Continuo desejando viver de paz e amor. Tema de minha geração de idealistas, cujos cabelos se enchiam de flores, com saias compridas e rodadas, que davam o toque da moda dos que não se alinhavam ao sistema. Tínhamos desejos claros de liberdade, forjados nas obras de poetas como Pablo Neruda, José Maria Rilke, Sidarta, Vinícius de Morais e, por aí vai... E, mais proximamente, na suprema compreensão tântrica de Bhagwan Sheree Rajneesh.

Somente o amor, que tive como lastro, dentro de minha casa, me fez não sucumbir à revolta. – Enfrentei cavalarias que marchavam contra nós, os estudantes; mentiras e mais mentiras em total desarmonia com os nossos ideais; a imprensa engessada; o desaparecimento sem explicação de vários amigos; as notícias mais cruéis das torturas aplicadas pelo homem ao seu semelhante, e o horror da impotência, e da inocência vilipendiada em nome dos que detinham o poder em detrimento das leis, da igualdade, e dos diretos humanos, sem saberem nem ao menos a quem estavam servindo, embora fosse muito menos à Nação.

Sobrevivi. – A vida continuou. Houve passagens deliciosas. Muitas que hoje vejo como privilégio. Agora, espero sinceramente que as Comissões da Verdade hoje instaladas pelo país à fora em nome da democracia, em respeito a ela, e à história, se façam como quem resgata com entusiasmo os nomes dos que foram imolados por nós, que resistimos em nomes deles.

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012. 


COMO CONVÉM A UM SÁBIO. 

Para Sérgio Bello.

Seguramente que as iluminuras de Sérgio Belo falam pelos seus companheiros anjos, e por todos os guardiões da natureza.

Pintor de estilo rigoroso, de profundo e intenso pensar sobre as grandes questões do ser humano e da arte ao longo do seu caminhar, de tão longe, desde os verões cáusticos dos trópicos, até os gélidos invernos europeus, carregando sensibilidade e solidão, por vezes doloridas, estaciona agora de encontro ao soberbo de sua recente obra para dele tirar do grito famélico dos grandes criadores, o pedido de socorro pela natureza e pela vida, provocador e versátil como convém a um sábio.

Ele fez como ninguém um percurso em busca das harmonias, como uma ode à sobrevivência do planeta, e, exatamente estas suas miniaturas ficarão gravadas enquanto fábulas, e nas nossas memórias, como reflexos deslumbrantes de seus traços e cores sofridas dos invernos, suaves das primaveras, e agressivas nos verões, como signos e símbolos de perenidade, espero, por toda nossa aventura de existir.

Nesta série o que ele faz é um tipo de musica, ou quem sabe, a expressão e o impressionismo de todas as artes. – Sérgio Bello, que até a ousadia de sua juventude verde não conhecia Van Gogh e seus girassóis, ou as praias e os coqueiros que seduziram Gauguin, muito menos Renoir e seus jardins de sonhos, remetendo modernamente a seus temas os cobre de homenagens e a nós amantes de sua pintura, versejando, como quem chega verdadeiramente para fazer a revolução tão esperada para esse terceiro milênio: a da consciência estética, ética, e de imediato, a da consciência existencial. Por certo, e apesar de todos os ruídos, rebelde, porque sabe a força que a arte encerra no ditado do necessário, e no guardar da história, que confiamos sobreviver.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. Em 2012. Para o Catálogo da Exposição Individual "GRITOS DE GAIA", do artista plástico Sérgio Bello, em Paris e em Olinda, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco - MAC.PE. Traduzido para o francês, abaixo:


Comme il convient à un sage
Pour Sérgio Bello

Il est évident que les enluminures de Sérgio Bello parlent au nom de leurs amis les anges et au nom de tous les gardiens de la nature. 
Peintre sensible et solitaire, au style rigoureux, qui au fil du long cheminement, souvent douloureux, qui l’a mené des étés brûlants des tropiques à la froidure des hivers européens, Sérgio n’a cessé de se questionner sur les grands problèmes de l’humanité et de l’art. Puis, s’interrompant soudain, nous a offert la magnificence de son œuvre la plus récente, de laquelle, provocateur et versatile, comme il convient à un sage, il tire le cri famélique des grands créateurs, l’appel au secours de la nature et de la vie.
Il a suivit comme personne un parcours qui mène à la recherche des harmonies et, comme une ode à la survie de la planète, ses miniatures resterons gravées dans nos mémoires comme des fables, comme les reflets éblouissants de ses traits et de ses couleurs chétives en hiver, suaves au printemps et agressives l’été, comme des signes et des symboles de la pérennité, nous laissant espérer que cela durera tout au long de cette grande aventure qu’est notre existence.
Cette série sonne comme une musique, ou qui sait, comme l’expression de l’impressionnisme de tous les arts réunis. – Jusqu’à l’audace de sa verte jeunesse, Sérgio Bello, ne connaissait ni Van Gogh et ses tournesols, ni les plages et les cocotiers qui séduisirent Gauguin et encore moins Renoir et ses jardins de rêve, mais la modernité qu’il a apporté à leurs thèmes les couvre d’hommages, eux et tous les amants de sa peinture, versifiant comme si, en ce troisième millénaire, il arrivait pour faire la révolution si attendue par notre planète, celle de la conscience esthétique, éthique et immédiate, celle de la conscience existentielle. Pour sûr, malgré tous les bruits, il connait la force de l’art et la nécessité de sauvegarder l’histoire, qui nous l’espérons survivra. 

Célia LABANCA
Ecrivain et Directrice du Musée d’Art Contemporain de Pernambouco, Brésil.
(Traduit du portugais par Annie COLLIN)


ERA O QUE FALTAVA! 

Mais uma vez me vejo surpreendida. A vida, de uma forma geral, me parece, é feita para nos pregar peças. Nós, como se infantis eternamente, estamos constantemente boquiabertos diante de suas peripécias. Eu, então, nem se fala! – Imagino que nada é melhor que viver. E, que nada é melhor do que se ser livre para ser o que é, se fazer o que quer, simples e naturalmente. 

Mas, há coisas que intrigam, e que nos encostam às paredes como se delas não tivéssemos saída. Como se elas, simbolicamente, não nos dessem o direito de ser quem somos, e fazer o que queremos de nós. Coisa estranha! – Pois é: sabe-se que a saúde e a longevidade dependem de um fino equilíbrio entre hormônios, nutrição, atividade física, e “cabeça boa”. Sabe-se também, que ao longo do tempo, estes componentes se esvaem, ou pelo menos, para quem tem muita sorte, e boa genética, eles apenas diminuem. 

Pois é... Algumas vezes já escrevi sobre minha guru a Dra. Louise Hay de quem já indiquei o livro “Você Pode Curar A Sua Vida”. Ela após anos de pesquisas chegou à conclusão de que não há doenças. Há doentes. – Foi ela quem criou um paralelo entre o dicionário das doenças reconhecidas pela ciência médica alopata, e a psicologia. Em cima deste conceito, de que o inconsciente faz o que quer de nós, até nos adoecer, é que sem que ninguém a atacasse, viajou, e viaja o mundo inteiro ajudando a curar vidas. 

Agora, surge no Brasil e no mundo um novo tipo de tratamento. Aliás, nem sei como se chama algo médico que não trata, previne, para não ter o que tratar! 

Talvez, eu que sou leiga, possa considerar esse novo método como medicina preventiva, e como único modelo de saúde capaz de confrontar as novas necessidades oriundas da verdadeira epidemia do envelhecimento mundial. – O mundo está envelhecendo e nada mais natural do que a ciência se preocupar em encontrar meios de fazer da velhice, algo mais saudável, confortável, e menos doloroso, ou trabalhoso! 

Então, acreditando como acredito em Louise Hay, e acreditando que o mercantilismo da medicina adoece mais, ou tanto, quanto qualquer baixa de defesas orgânicas, ou emocionais que a constituição humana possa ter, e que permita a instalação de uma doença, ou várias, é que passei a confiar nas possibilidades de uma medicina preventiva. 

Claro que quero envelhecer, como já está acontecendo. Não gostaria mesmo de ter morrido novinha em folha, sem ser autora de minha história, ou sem ter vivido o que eu vivi. – Como me disse Ettore Labanca, um dia, “a gente vai envelhecendo e a cabeça vai se tornando um Carro de Formula Um. Mas, o corpo, vira um Chevete 67” – Dei muita risada com ele. 

Vêm, agora, e era o que faltava, com uma conversa de questionar todos os métodos que se propõem a precaver doenças. Exatamente como aconteceu quando surgiram as terapias ortomolecular, dos florais de Bach, a Acupuntura, os remédios homeopáticos, e outras. Por quê? Só porque é novo? – Ora, exercer o direito de sonhar com uma longevidade saudável, com menos doenças, mais dignidade, e ter o livre arbítrio de optar entre se curar de doenças postas, ou prevenir e postergar o aparecimento delas é um direito. – Sinto muito! Aliás, indico que se usem todas as probabilidades. Principalmente para quem estiver se sentindo um Chevete 67! – Se forem biocompatíveis, melhor ainda.

Texto para o jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012.


FEITO DE MUITO VALOR. 

Acabamos de festejar Semana da Consciência Negra. – O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado anualmente em 20 de novembro; dia dedicado à reflexão sobre a inserção da raça negra na sociedade brasileira. – Importante elucidar para quem pergunta sobre a sua precisão, é esclarecer que o Brasil entre todos os paises independentes das Américas, foi o último a abolir “completamente” a escravatura, coisa que sociologicamente também explica o nosso comportamento preconceituoso e feudal até hoje, e a difícil luta pela qual passamos até chegarmos ao dia 13 de maio de 1888. 

O processo da abolição no Brasil foi excessivamente gradual: começou com a Lei Eusébio Queirós de 1850, seguida pela Lei do Ventre Livre de 1871, pela Lei dos Sexagenários de 1885, sendo finalizado pela Lei Áurea em 1888. Levou exatamente trinta e oito anos de embates e debates até a sua conclusão, e ainda deixou tantos problemas a serem resolvidos mais de um século depois. – A palavra Áurea, vem do latim Aurum, é uma expressão de uso simbólico que significa "feito de ouro", brilhante, magnífico, nobre ou "de muito valor". – Bom registrar. 

O dia 13 de maio é considerado data cívica no Brasil. O decreto n.º 155 B, de 14 de janeiro de 1890, estabeleceu um feriado nacional em 13 de maio, declarando-o "Consagrado á comemoração da fraternidade dos Brasileiros". – Este feriado existiu até 15 de dezembro de 1930, quando o Presidente Getúlio Vargas o revogou através do decreto n.º 19.488. De lá para cá, extinguiram-se outros, e outros foram criados, às vezes, de somenos importancia. Igual como tratamos as diferenças. 

Como se pode notar, e apesar de sabermos serem os procedimentos de mudança social todos difíceis e demorados em seus caminhares, a luta pela causa negra neste país, parece-me, tem sido das mais contundentemente necessárias porque não se encontram meios de abrir a cabeça de tantos para fazê-los entender que o negro, o branco, o amarelo, e quaisquer mais em seus tons de peles não se podem compor ou decompor em outra coisa senão nos seres humanos que definitivamente são. – O racismo então, é patológico, na medida em que agride a natureza, os direitos individuais, impõe a todos, limites de compreensão e oportunidades, e ainda permite aos racistas, se pensarem maiores e melhores que qualquer outro, o que não são. Ou seja, impõe-se por isto, à condição de esquisofrênicos absolutos, que é um tipo de psicose que leva a um sofrimento psíquico grave, caracterizado principalmente por enorme alteração no contato com a realidade. 

A resistência negra, e com ela a de todos que se consideram consciêntes de sua cidadania, vêm vencendo os obstáculos do tipo de sociedade que somos. – Mas, não seria agora que eu perderia tempo, nem espaço, para enumerar os negros de sucesso e de combate hoje em nosso país, apenas para nosso orgulho. – Eu sei que todos são feitos de muito valor. Até os que estão fora da mídia! 

Dizia Machado de Assis que “defeitos não fazem mal quando há vontade e poder para corrigi-los." – Está passando da hora então, de repensarmos a inclusão, e aqui me refiro a todos os tipos iminentes dela, até porque, ele também disse, naquele tempo, que "a abolição é a aurora da liberdade; emancipado o preto, resta emancipar o branco." – Uma vergonha que ainda não nos tenhamos emancipado para libertarmos nossos espíritos de seres humanos que deveriam ter vergonha na cara, e nos distinguirmos enquanto covardes que somos, quando não nos permitimos reconhecer no negro, ou no gay, ou no portador de necessidades especiais, parte de nós mesmos. – Assim, viva à raça negra, nossa irmã; filha da mãe de todas as raças! 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012. 


MERCADO DA BOA VISTA. 

Mesmo à tarde o sol por entre os jambeiros e as frestas dos toldos brancos, brilhava. O som alto me dizia das conversas e risadas quase infantis de toda aquela gente. – Todas as tribos. Uns namorando, outros querendo namorar, outros nem tanto, mas, todos se encontrando. Eu estava num dos lugares mais “cult” do Recife: o Mercado da Boa Vista. – Encantado como todo mercado. 

Lá encontrei, como de outras vezes, não só as barracas com produtos bem cuidados; frutas novinhas em folha dependuradas à mostra portas a fora, bares e garçons em plena efervescência no leva e trás dos pedidos; o chopp geladíssimo e o ótimo uísque do bar do Lêleu, uma figura amigável e inusitada, que no carnaval promove o bloco “Maltrados por Lêleu” fazendo referência “afetuosa” e bem humorada de como trata seus clientes, e que lá dentro mesmo desfila a cada meia hora por entre as mesas, tendo a cada volta mais fregueses para lhe ser porta estandarte; os petiscos maravilhosos do Neto’s bar, do experiente ex - garçom do Le Cousine Bistrô, Petit Comité, entre os outros mais da excelente “restaurateur” Sophia Lins. – Experiência visual, auditiva, e gastronômica fantástica. Imperdível,  mesmo.

Lá se encontram ainda os pensamentos mais variados, os poetas, as poesias, os cordéis, o violão, os repentes, os forrós, num imenso caldeirão de alegria e originalidade como não se ver em nenhum outro lugar. Lá todo mundo canta, e todo mundo dança. Ainda sobra um gostinho de saudade da infância trazido pelo vendedor de pirulitos, seu apito, e seu tabuleiro todo furadinho. O cuscuz de tabuleiro de alumínio, e os vendedores de pipoca e de amendoins cozidos ou torrados, camarão cozido na bacia, caldo de cana, sem pastel! Todos perambulando por entre todos como se estivessem andando pelos jardins mais liberais e democráticos do planeta. – Ô gente bonita! 

Pernambucanos e pernambucanas da gema, da cana de açucar, dos mares verdes de areias brancas, do sol que fulgura de janeiro a janeiro, do maior e mais bonito carnaval do mundo, das festas de São João, suas pamonhas, canjicas e pés de moleques que lá se celebram. De muita história, e do som do trem que leva para Passárgada... Sim, me pareceram todos, amigos do Rei. – Que rei? Do rei, ou rainha da jovialidade, da candura, e da simplicidade que existe em cada um de nós quando resguardados dos preconceitos, dispostos a respeitar a diversidade existencial, e despertos para entender que a vida é para festejar. – O Mercado da Boa Vista guarda o que há de melhor da nossa cultura. E, vale muitíssimo a pena ir por lá. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012.


MUNDO VIRTUAL E SUAS REDES. 

Tenho escrito algumas vezes sobre a experiência de existir no mundo virtual. Às vezes contra, às vezes a favor. Mas, sem preconceito. Acho que não podemos mais nos desvencilhar dele, sejamos escritores, comerciantes, cientistas, professores, políticos, artistas... Todos, precisamos de compartilhamentos. – Sobre ele há a teoria da economia do conhecimento digital, também a do narcisismo virtual, que podem gerar perigos sem fim, até para a geração que nasceu com a internet, apesar do lucro possível. 

O jornalista americano, Andrew Keen, autor do livro “O Culto do Amador”, acha que o grande desafio hoje, “é cada um de nós não nos tornarmos vitimas do meio virtual.” – Eu também acho. – Diz ele que “nós nos definimos enquanto seres humanos pelos nossos segredos, e que quando nos revelamos deixamos de ser obras primas de nós mesmos, ou de quem nos criou.” – Belo tema para um debate. 

Na realidade, considerando-se o que fica para além da provável vitimização que podemos considerar como consequência da nossa frequência nesse meio, o pior, é o vício. Quem de nós não é viciado hoje em dia às imposições de um computador? Quem de nós hoje vive sem está plugado às notícias, às pesquisas, às probabilidades que ele oferece? Aos Iped, Ipod, e até ao que não pode! Este é o problema. 

No entanto, uma coisa é compartilhar conhecimentos com conteúdo, é filosofar; é trocar informações e experimentos que possam enriquecer a convivência social e intelectual, mesmo que virtual. Outra coisa é compartilhar mediocridades. Uma coisa é compartilhar pensamentos, outra ainda, é compartilhar intimidades. 

Essas, muito mais, deveriam pelo menos ser omitidas, em respeito a si próprios, e aos demais, por mais que sejamos ou estejamos sós. Elas, que poderiam até justificar os excessos, porque a solidão é dolorosa mesmo, pode perfeitamente, iludir a cada um, como se tivesse o poder de aboná-los. – Só que elas, como o próprio nome diz, são ou deveriam ser reservadas uma vez que têm o caráter da individualidade, e como tal não interessam a ninguém. O mesmo com relação às orações, que são inócuas, e por vezes desrespeitam o credo alheio. E porque igualmente o ideal de Deus é individual. 

“Toda exposição é um caminho sem volta”, afirma Andrew. Se observarmos que os serviços gratuitos que a internet oferece são muitos, e como de graça vale até injeção na testa, é fácil entender que ela registra tudo, e quem sabe, vende dados. Vende-nos como seus usuários. Até porque a era é esta: a dos dados. Assim, ela é mãos, pés, e olhos cibernéticos de nossa existência real no seu fascinante mundo “irreal”. 

Os excessos que cada um de nós possa cometer recairão contra nós mesmos. Assim, que se considerem intrínsecos os cuidados que devemos ter para que ela não faça de nós, como vem fazendo, seus instrumentos de lucro. – Precisamos resistir aos tentáculos da quase religião que se tornou, e do estilo de vida que ela estar a nos impor, senão estaremos criando uma plataforma quase desumana. 

Claro que o progresso tecnológico é fantástico, e fantasticamente necessário. Que a rede, e as redes sociais são uma realidade indiscutível, e que suas virtudes têm muitas utilidades. Claro, além disso, que cada um é livre para achar o que quiser, agir, e ser como quiser; mas, estar plugado sem consciência, é o mesmo que está disponível para ser detonado, destruído, discriminado, pisado, cobrado, massacrado. E, quem sabe, incriminado. Muito mais porque já há jurisprudência contra a exigência de provas. – Viver o mundo virtual, e descansar se meneando em suas redes sociais, cuidadosamente, e com independência, seria o melhor. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO, em 19.11.2012.


COM VERDADES. 

Hoje meu espírito amanheceu “facebookiano”. – Lá eu leio e vejo besteiras que não são isoladas, nem poucas; divirto-me e fico triste; tenho encontros e desencontros com pessoas queridas, e outras nem tanto; aprendo e “viajo” nas imagens, nas belas poesias, e nos textos surpreendentes de tanta gente genial também; fico feliz com os tantos amigos e amigas que tenho, sendo a grande maioria deles pessoas ótimas e amadas; mas, o que descubro de inconsciência, baixa estima, solidão, tristeza, não está no gibi! Infelizmente. Mas, eu sei que tem uma causa. 

Como aqui o meu espaço é maior, e posso escrever mais explicitamente, que é mesmo o mais parecido comigo, porque lá se escreve como telegrama, preciso dizer que fiz o impossível, literalmente um exercício hercúleo, para até hoje não falar de política aqui por conta do período, e por conta dos meus interesses; embora o faça no geral.

Mas, é fundamental que eu diga, e faça a analogia entre o que tenho visto nas redes sociais, e do quanto se tem de campanhas eleitorais pobres, bobas, sem criatividade, no ar e nas ruas. Todas, de uma mesmice atroz, no Brasil inteiro! Nenhuma determinada a criar consciência de cidadania que deveria ser a preocupação maior de todo e qualquer candidato ou candidata. 

Uma ou outra se diferencia conforme sejam maiores ou menores os vícios, conforme o brilho da inteligência de cada candidato, e os desejos de serem decentes com o mandato que pleiteiam. Ou ainda, dos que tenham o olhar mais moderno diante da realidade, e não se permitam somente prometer para continuar aquela prática infernal de não cumprir com o prometido, enfim... Porque o que estar aí é quase um desrespeito às inteligências dos cidadãos e cidadãs que têm direitos garantidos, e deveres de em 07 de outubro digitar nas urnas os nomes dos melhores. – Como? Não sei. 

Sou adepta da política que a considero de todas as atividades humanas a mais bela, inteligente, e imperiosa, porque de maior ingerência na vida de cada um de nós. Por isto, insisto em dizer o quanto me entristece ver as campanhas que não enobrecem as escolhas. 

O que tenho visto então são ações que se entrelaçam anacronicamente apenas respondendo aos interesses pessoais, de grupos, ou de partidos, senão da coletividade. E que não deveriam ser usadas para iludir, e burlar as consciências do eleitorado. – Uma prática que não deveria mais ser usada para construir farsas, porque é capital entender que um país injusto ainda como o Brasil, não é bom para ninguém. E que só com a igualdade de oportunidades, e com verdades, é que se pode fazer jus ao conceito fundamental de nação. 

Como disse Albert Einstein, “o mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”. – E, com a insistência pela inconsciência da população que vota, nossa nação não poderá prosperar no sentido de não atender ao cinismo, à corrupção, à demagogia que a torna vil, e ao nosso sistema político. 

Que todos saibam então, que a política deve ser um sacerdócio, ter olhar e atitude coletiva tecida na honestidade, na verdade, e no desejo de diminuir as diferenças. – E o eleitor e eleitora que se cuide, senão vamos permanecer manipulados e ludibriados pela inconsequência e descompromisso de muitos, e depois vamos atribuir nossas decepções, e distribuí-las nas redes sociais e nas contas do divino.

Texto parao Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012. 


NEGRINHA. 

Acabo de assinar uma petição pública porque considerei o tema perfeito para incitar a minha indignação, e em respeito ao que de boa qualidade nos permite o mundo virtual, muitas vezes. – Inclusive porque foi assinada também por uma mulher brilhante, bela e grande escritora, a Presidente da Rede de Escritoras Brasileiras, que represento para Pernambuco, Joyce Cavalccante. 

Tem havido um alarido de grande importância e proporções povoando agora o mundo intelectual brasileiro. – Ele trata do conto “Negrinha” de Monteiro Lobato que foi adquirido pelo MEC para um programa de inventivo à leitura entre alunos do país, em cujo edital está dito: “Não serão selecionadas obras que apresentem moralismos, preconceitos, estereótipos ou discriminação de qualquer ordem.” – Tais exigências já não seriam preconceituosas? 

Ora, o conto de Monteiro Lobato não é mais que um libelo à raça negra, e especialmente à sua personagem, sobre o qual se levantaram muitas vozes, cá para nós, inteiramente incoerentes, principalmente quando sabemos o quanto existem de motivos porque “a celeuma dá visibilidade, e populariza os nomes das pessoas”, como disse a professora Dra. Milena Martins da Universidade Federal do Paraná, autora de uma carta aberta ao MEC, e que ensejou a petição referida. 

Lembro-me do quanto Monteiro Lobato foi importante para a aminha geração; do quanto aprendemos e do quanto sonhamos e nos divertimos com os seus livros quando de nossa infância e até adolescência. E sei do quanto foi importante para as gerações que o abraçaram a partir da minha, por exemplo, como com o Sítio do Pica Pau Amarelo, que virou seriado de televisão, premiado, por anos a fio. 

Hoje, o pensamento de alguns quer desconhecer um clássico de nossa literatura, por conta de considera-lo racista. Deve ser porque não conseguiram interpretá-lo no seu tempo, à sua época, em uma sociedade reconhecida e assumidamente escravagista como mostra sobretudo o comportamento da senhora que “acolhia bondosamente” a “tal” negrinha, assemelhado aos das senhoras ricas da novela “Lado a Lado”, que mal começou já faz sucesso na televisão. Sem falar que de um machismo revoltante, como o de “Gabriela”, embora que também bem localizados em seus tempos, e sobre os quais nenhuma palavra se levantou! 

Nenhuma destas obras dissemina preconceitos, pelo contrário. Elas denunciam. – Não se pode ensinar sem o contraditório, da mesma forma que não se pode julgar sem ele. Senão, não se estará formando pessoas com visão crítica. – A não ser que o intuito seja manter a hipocrisia. A mesma que acha que não há machismo, discriminação à diversidade, conivência religiosa ao falso moralismo ou racismo em nosso país, ainda! 

É preciso que se entenda que cada obra, e cada pensamento, são impregnados da alma, do tempo, da ideologia, e dos valores de cada autor. Nelas suas personagens que aparecem fortes, claras, decentes, alegres; por vezes angustiadas, maliciosas, astutas, sofridas, etc. Mas, todos, sem exceção, designados a querer do leitor escolhas e reflexões. Senão, não se estaria fazendo literatura. 

A defesa da obra, no entanto, não é necessariamente à defesa do autor. Há inclusive uma máxima que diz que a pior das coisas, “é se conhecer o autor da obra”, e aqui, eu concordo plenamente!

Para ao Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012


PARA ALEX. 

Mesmo sem desejar tanto, hoje me sinto menos afeita aos eventos sociais. – Coisas do tempo. Quem sabe, da seleção que aprendi a fazer com ele. 

Dito isto, devo contar que ele para mim sempre foi um grande aliado, me ensinou tudo que sei, e me fez me ver uma pessoa capaz de ser um pouquinho melhor a cada dia. Mostrou-me inclusive o quanto está sendo bom e fácil envelhecer. – Por fora, faz favor! Porque por dentro, tudo em mim aumentou, desde a dignidade, à compreensão, a liberdade, a coragem, a amabilidade, e a amizade comigo mesma. Hoje, sou melhor companheira da minha alegria, e sei muito bem admirar a minha força, a minha luz, e as dos que me cercam. Ele ainda me deu o direito de ser extravagante sem abrir mão dos meus amores; de não trocar meus amigos e amigas e a minha família por horas pintando o cabelo, ou pelas obrigações sociais; pela ausência de aventuras, ou pelo trivial simples que a superficialidade existencial traz. 

Descobri com ele também que a felicidade exige valentia. E que ser feliz é ter a coragem de ser quem somos, em todos os momentos, pois como disse Fernando Pessoa, “ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos”. E... até de “ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta”. – Eu digo mais, vale a pena à briga constante por ela, mesmo porque, se um dia não formos autores de nossas vidas ao cabo delas não fizemos nada! 

Nestas parcas e simplórias linhas que ora escrevo, estou falando para José de Souza Alencar, o nosso Alex, que considero um jornalista exemplar, e que o tempo me deu como mais um amigo querido para eu respeitar, e admirar. 

Ele sabe em sua sensibilidade que estou dizendo da pessoa bem sucedida que é. Da sua prosperidade. Ele que como todo “meteco” (palavra grega, me ensinada pelo meu amigo irmão, Embaixador Isnard Penha Brasil, que quer dizer de alguém cuja origem familiar veio de outras paragens para fazer na terra escolhida, o lugar de sua lida, de sua felicidade, de seu sucesso.) chegou entre nós para desenhar um caminho de ensinamento, de princípios sólidos, e mostrar como se ter respeito pelo que se escolheu ser, e fazer. 

Espero que ele me compreenda. Pois, já chegou mais longe, e já compreendeu a vida mais, e melhor do que eu. – É em sua homenagem então, tais confidências, pelo nosso tanto tempo de afeição, e pelos seus tantos anos de profissionalismo, e que desejo, elas enriqueçam nossas afinidades. 

Naturalmente que não vou descrever o tanto que ele fez, ou é, seria redundante; e eu não faria porque por mais que eu dissesse aqui, seria pouco diante da sua própria história, e da sua autoria dela; seria ceder ao banal que sempre combati, e que ele se esforçou em seu caminho também por condenar. – Seu tempo maior, usou para fazer, delicadamente, com que os leitores e leitoras dos seus maravilhosos escritos entendessem e crescessem, e não caíssem nas armadilhas da hipocrisia e do moralismo baratos, e que com ele aprendessem a ampliar o conhecimento, porque é de sua propriedade existir uma oitava acima da maioria. 

Tenho encontrado pouco com ele. – Coisas do tempo. Mas, sinto saudades. 

Preciso agora agradecê-lo pela nossa amizade, e parabeniza-lo pelas homenagens merecidas que vem recebendo pelo seu exemplo de entrega ao nosso Estado, à sua profissão, e pela generosidade com que discorre sobre temas relevantes e belos seguindo os ditames e o exemplo da sua vida. – Com o meu carinho. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012.


PARA TÍ. 

Pelas janelas vejam-se as mais belas paisagens. Preguem os botões, e vistam roupas novas; ponham as cadeiras no lugar, tirem o pó das prateleiras, e das consciências. Coloquem dos jardins muitas flores nos jarros. Varram os tapetes; aloquem os quadros nas paredes; as peças mais bonitas, e os doces mais gostosos sobre as mesas. Ponham para tocar músicas de Bach, Sonatas de Beethoven, até uma das valsas de Strauss. Vistam o espírito com as mais utópicas, e lindas das fantasias porque a beleza precisa estar no banal, no prosaico, e até no “comum” das homenagens. 

Pois é... Tudo isso para festejarmos o tempo que tivemos entre nós Alcir Lacerda. – Meu amigo Tí, amigo do meu pai, e a quem minha mãe queria o maior bem. 

A morte para quem vai é um caminhar tranquilo para outra dimensão por mais que nos tenha sido doída a partida. – Tí como assim carinhosamente os mais próximos o chamavam, eu tenho certeza, se foi imbuído do seu futuro espetacular e majestoso; na bagagem levou imagens próprias do seu olhar de homem sábio, e artista arrebatado. No seu contemplar gentil do fotógrafo único que foi, também levou o admirável que lhe foi franqueado nas escolhas, nos temas, e na técnica. Foi ainda, ouvindo o sorriso dos netos, sentindo o carinho de Ceça, e de cada um dos seus filhos. E, uma imensa saudade, como só levam os que amaram e foram muito amados. 

Num lugarzinho mais que especial do seu coração também levou as tantas conversas, e as risadas que deu com sua irmã Zilda. Essa sim, igual a ele. Na alegria, no humor, nas afinidades de dedicação à família e aos amigos; tão pródiga quanto ele; então sua amiga, sua confidente, seu porto seguro no afeto fraternal. – Compreensiva, e generosa. 

Linhagem especial essa da família Lacerda! – São tantos que lhes esqueço dos nomes. Mas, lembro bem de todos com os quais convivi como da minha família. Todos tão bons, e de coração maior que a razão, que servem de exemplo para os que tiveram e têm o prazer e a honra de conhecê-los neste mundo tão cheio de dissimulações, e abandonos. – Ti tinha esta ascendência. 

Ele foi o fotógrafo dos fotógrafos. – O príncipe deles. No seu trabalho de longe se reconhecia a assinatura em preto e branco, e se tinha a confiança de que a sua intenção e visão eram usadas com espontaneidade, focadas, e baseadas na sua vivencia de homem bom, e na cultura, experiências e conhecimentos adquiridos ao longo de sua extensa vida de profissional honesto, dedicado, e virtuoso. 

A fotografia feita por um fotógrafo difere da mesma fotografia feita por outro. E essa diversidade de visões, muitas vezes sobre um mesmo prisma, até sobre o mesmo ângulo é o que tornava para ele o ato de fotografar fascinante e inesgotável. Ele sabia ter a sua fotografia mais do que qualquer linguagem falada ou escrita, uma linguagem universal, e na qual melhor se expressava. – Exatamente com a mesma sutileza de como se expressam os anjos. 

Para Pernambuco, para sua família e amigos, sem falar para a geração de fotógrafos que lhe sucederá, perder Alcir Lacerda, que ficará para a história, foi perder um artista de alma grande, extraordinário na prática do seu dom, e capaz desde sempre de simplesmente amar sem prudência os seus, e o seu ofício.

Texto para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2012.


RESGUARDO DA BUSCA. 

Disse um dia, a grande Clarice Lispector que “se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo". – Sinto em não anuir. Mais porque, concordo com ela em muito. Também, com a minha amiga Márcia Basto, e com outros escritores e escritoras que sobre ela escreveram belos livros, estudos e ensaios. Mas, não acredito que se fazer apenas o que se entende, e deseja, e se saiba os caminhos, possa dar errado, ou não levar a nada. Não acredito. 

Para mim, a irreverência, a ousadia, e a ação dos que se limitam a fazer apenas o que sabem, querem, e gostam, e são quem são, diminuiria, no mínimo, a falácia que a nossa sociedade nos impõe. – Contra ela e seus valores, quaisquer pequenos passos que fossem, já importariam pelo menos num tempo para pensar. Coisa que cada dia ela nos permite menos, na medida em que a nossa energia está toda voltada para a aquisição de bens, e poder, e neles o mercantilismo de tudo. 

O amor, e o ato de senti-lo independe do outro. – Independe, como faz quem eu chamo de “desobediente civil”, que são os que optam por si próprios, por reverem coautorias, por abrirem mãos das mentiras, por tornarem os sentimentos mais claros, por jogarem fora couraças e máscaras, porque o amor não precisa de nada disso. 

Amar significa antes de tudo, insistir por ampliar a própria consciência fazendo dela um campo fértil para a aceitação, e sua projeção no outro, tornando-se contra todos os tipos de misérias, e perdoando, inclusive de si mesmos. – Sem conotações religiosas, claro, pois que cada uma das “representações do Cristo na terra” não passa de entidades voltadas à cata do poder desenfreado, da dominação machista, e do incremento da ideologia do sacrifício, que somente levam à imolação pelo pecado que não existe, se a vida é vivida com boa vontade. 

Há sim que afoitar-se, arriscar-se, atrever-se, aventurar-se na constante, e até insana procura pelo crescimento individual; por caminhar pelos labirintos, por vezes escuros de nossas identidades como oportunidades únicas de nos tornarmos melhores. 

Penso isto porque não gosto dos holofotes sem sentido. Não gosto dos elogios fáceis. Não aceito discriminações e preconceitos porque me entendo parte do todo que não me leva à solidariedade mesquinha e egocêntrica; não me leva à fraternidade irrefletida, nem à generosidade exasperada de quem paga infinitas prestações aos céus, e não respeita o próximo. 

Este tipo de inconsciência fortalecida pelo imediatismo da vida moderna com seus apegos à matéria nos afasta da realidade de sermos em nossas possibilidades de evoluir os deuses que um dia fomos. – Afasta-nos da saúde, do equilíbrio interior, e nos leva à ansiedade, às frustações, à superficialidade total. Daí as más escolhas, que são as entregas mal feitas, que vão dar no que está dando todo o planeta. E a maioria, fazendo caras e bocas porque acredita que está tudo bem, obrigada. Mas... não está. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. - Em 2012.


SOBRE OS HERDEIROS. 

Ha coisas pela vida que me intrigam e acredito que a muita gente. – Mesmo após o período eleitoral; e, perdão por voltar ao tema, mas, uma delas é a “cara de surpresa” ou o questionamento de alguns relativos aos políticos eleitos, ou candidatos aos cargos públicos. – Esquecem que os desejos deles dependem, e dependerão fundamentalmente do voto popular. Ou seja, da nossa responsabilidade na escolha. 

A cada eleição no Brasil de hoje vemos que estamos vivendo uma democracia com regras, oportunidades, e liberdade para todos os lados. Para o nosso, as formas de conhecer cada candidato o melhor possível porque ninguém escapa mais das câmeras, das TVs, dos instagrans, das redes sociais, e dos registros feitos por historiadores, cientistas políticos, e pela imprensa. tem sido um negócio ótimo. – Sem falar ainda, que mesmo sem a sua aplicação por vezes em tempo hábil, ainda temos a lei da ficha limpa, a nosso favor. 

Por isso, incomodam-me as celeumas, as crenças infundadas sobre cada um dos candidatos, a mediocridade do disse que disse da intolerância, e da desconfiança quanto às suas capacidades para gerir os cargos que pleitearam ou pleiteiam como se as biografias que cada um deles escreve não nos dissessem nada. – Os novos ou experimentados na lida política têm “contabilidade” existencial e profissional conhecidas, e são obrigados à delas prestarem contas. Cai no conto, quem quer. 

As urnas existem exatamente para receber através do voto o que pensa e quer para sua cidade, Estado ou país, cada um de nós. Foi o que aconteceu no último dia 7 de outubro; prova de que o povo entende as mensagens, os trabalhos realizados, e o que quer para seu futuro. Ainda bem! 

Vou precisar, no entanto e apesar de tudo, ainda de me dispor a aceitar o que sempre me estranha: os mesmos questionamentos, e as críticas sobre as pretensões de filhos e filhas de políticos quando forem, ou foram, ou são candidatos. – Porque a maioria delas muito bobas. 

Uma grande parcela da população, e até parte da imprensa, pelo país a fora, interroga e protesta contra os filhos e as filhas dos políticos serem candidatos. Mas, será que um dia pensaram que em todas as profissões há herdeiros das culturas familiares? – Veja-se, por exemplo, os filhos de atores e atrizes seguirem a mesma profissão dos pais, de cantoras e cantores, de advogados, e aqui em Pernambuco temos o exemplo grato dos Neves Baptistas, todos comprovadamente competentes na ciência do Direito ao longo dos tempos, e que no próximo mês estarão fazendo cem anos de uma banca extraordinária; entre os médicos, jornalistas, cineastas, a mesma coisa, e por aí vai... 

Então, por que o assombro quanto aos filhos e filhas de políticos serem candidatos? Para eles também não seria natural abraçarem os caminhos percorridos desde pequeninos acompanhando, ouvindo, e participando com os pais do convívio com os trâmites da política, e da parceria com o povo que representam, ou representarão? – Claro que sim. É contingência natural da vida, muito mais porque escola melhor, nenhum deles teria, e porque o dom também se herda. 

Cabe por isto perguntar, qual de nós seria capaz de abrir mão do luxo de termos entre os nossos representantes, filhos e filhas de políticos cujo legado é de formidável espólio moral? Qual de nós abriria mão de um legado de dedicação, de serviços comprovadamente prestados ao longo da vida de cada um dos pais, se dedicada ao seu povo, à sua base, como entrega da própria existência? 

Bem, o que eu acho, é que no Brasil inteiro, e nós de Pernambuco, precisamos ter responsabilidades cívicas, e fazer nossas escolhas uma oitava a cima! Precisamos ter consciência de que a mesquinhez e a mixórdia não levam a nada, e muito menos ao incentivo da generosidade que se espera de um político que escolheu conferir sua vida ao seu povo.

Texto o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. - Em 2012. 


VEXAME. 

Estive pensando que estamos quase a cabo das Olimpíadas de Londres 2012, e do quanto foi e tem sido desassogado para cada um de nós acompanharmos a debacle dos nossos atletas. – Quase uma vergonha. Senão total porque havemos de compreender que ela é consequência da falta de base, de estrutura, de respeito, e de envergadura das nossas políticas de infraestrutura. 

Temos insistido ao longo de nossa história em acreditar que o “jeitinho brasileiro” dá jeito em tudo. Uma falácia das maiores. Porque sem que se pare, se criem, e se determinem objetivos de formas a fazer do nosso povo, humanisticamente, um povo ajustado ao seu potencial, infinito, e ao futuro, não estamos fazendo nada. – Nossos grãos que alimentarão o mundo já estão quase que sistemicamente envenenados, nossas frutas, nossas verduras; nossa educação com mais de dez anos de atraso para o resto do mundo caminha a passos de cágados; a tentação pela corrupção continua; o bem público não consegue ser entendido como tal; a ética não faz parte do senso comum, e como disse Frei Beto, “a produção em vista do lucro é contraditória à sustentabilidade e à espiritualidade”. Assim é que, os projetos de sermos um dos maiores países do mundo em qualidade de vida ordinária a todos, não não conseguirá também, receber nenhuma medalha. 

Estamos às portas dos dois eventos midiáticos mais importantes do mundo, a Copa do Mundo, e a Olimpíada de 1016. E, me preocupa saber como vamos realiza-los para que o vexame de 2012 em Londres, aqui seja menor. – Tudo bem que se poderia fazer uma análise mais acurada da humilhação que passamos se enveredássemos por discutir tudo isto como consequência de uma política colonial; mas, aqui não haveria tempo ou espaço, até porque o poder e o dinheiro são, e continuam sendo, constantemente, mais lucrativos e mais atrativos aos interesses individuais. 

Pernambuco tem se orgulhado do ritmo do seu crescimento, e por construir a Arena para a Copa dentro do cronograma exigido. No entanto, cabe discutir qual a nossa programação, e o que estamos fazendo para termos o retorno que um investimento desse tipo demanda se é indispensável fomentar a área cultural, que é antes de tudo um investimento direto nas pessoas, e sobre a qual eu não vejo sequer uma fala que nos informe se ela estará disponível competentemente, por exemplo, ao turismo no período da Copa. – Haja vista os nossos Museus, e especialmente o que eu dirijo o de Arte Contemporânea, que se encontra literalmente no chão, embora seja dos mais importantes da América Latina, referência nacional e internacional, e que poderia ser de grande valia, não só para a economia da cultura, permanentemente, e para a inclusão, mas para que desse orgulho à classe artística, ao nosso povo, e prazer ao turista que nos visitasse. 

Deixo aqui estes pontos para serem pensados. – Na realidade estou de volta, com muito prazer, escrevendo para este Jornal Folha de Pernambuco, porque moderno, democrático e livre; em respeito e gratidão aos meus leitores e leitoras, depois de uma infinita falta de tempo por conta de uma reforma insana que fiz minha casa, e que quase me levou todo o juízo, definitivamente, e ainda, por admiração ao seu líder, meu amigo, pouco mais que um príncipe, Eduardo Monteiro, pela sua gentileza, generosidade, e confiabilidade.

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO.  Em 2012.


VIVA O MEU CARNAVAL! 

Anualmente, como agora, vivemos o maior movimento de resistência cultural de que se tem notícia na história: o carnaval. – Resistência própria de um povo que vem lutando há pelo menos quinhentos anos para sobreviver a portugueses, holandeses, e outros que tais, ao poder público, a todas as demais intempéries políticas, climáticas, econômicas e sociais; e ainda, de quem no poder, nos guarda a cultura, e a manifestação dele como arte popular. 

A luta tem sido grande pela sobrevivência. Por isso, até passamos por decorações que conseguem transformar as cidades do Recife e de Olinda em episódios de esquizofrenia absoluta, cuja composição de cores, localização, e significados dos ícones não convencem a ninguém, senão à condição fronteiriça de quem os cria, acolhe e lhes paga a fortuna que invariavelmente custam, normalmente em detrimento de outros eventos culturais de excelente nível ao longo do ano, possivelmente a serem produzidos pelos equipamentos de cultura designados para tal. 

É preciso que os responsáveis entendam que a cultura vem do costume, da manutenção das tradições, do guardar, respeitar e valorizar o documento e o patrimônio, qualquer que sejam eles, e a manifestação popular, ou erudita, advindas da vontade, da criatividade, da ação e da atitude do povo. – Que ambas devessem fazer pensar, além de apenas serem consumidas sem qualquer consciência, em detrimento da preservação da crítica, do humor, e das músicas que caracterizam e são peculiares ao nosso carnaval. 

Já festejamos os cem anos do frevo que é pernambucano, e patrimônio cultural imaterial do país, mas os governantes insistem em não ter por ele o menor respeito! – O que temos tido, vindas das camadas mais populares é a imensa, bela e única riqueza cultural a partir das manifestações dos blocos, blocos de sujos, caboclinhos, maracatus, etc, que não precisariam de nenhuma interferência do poder público, senão dos subsídios que lhes são de direito, mas que por outros interesses correm o risco de deixarem de ser o que são, ou foram, brevemente. Isto é gravíssimo! 

Imagine-se que ao nosso carnaval, sem um sentido plausível, cujo reinado e alegria do frevo acontecem somente por quatro dias durante o ano, há muito que impuseram os demais ritmos brasileiros, e os repertórios de música alienistas ao período. Para quê? E a que preços? O que tem estes tais repertórios e ritmos a verem com o frevo, ou com o Bloco da Saudade, com o Lili, com o Vassourinhas, com o Galo, o Nós Sofre, o Siri, o Guaiamum, a Porta; com os Tambores Silenciosos, o Bloco do Nada, o Homem da Meia Noite, a Mulher do Dia, Elefante, Pitombeira? E com os Maracatus, os Caboclinhos, os de Lança, os Papangús? 

Para se ter uma ideia da inconsequência destes desmandos e violência contra o frevo, passaram a convidar também para o carnaval de Olinda os “Calypsos” da vida! – Então, e assim, o que será do nosso carnaval pernambucano com seus frevos de bloco, de rua e de salão; seus clarins, seus metais, e seus tambores, daqui a uma geração? 

Visitem no MAC, a Exposição Coletiva “Viva o Meu Carnaval” em homenagem aos 100 Anos de Bajado, “um artista de Olinda”, com quadros da coleção particular do Senhor Eliezer Barros, e as pinturas naifs de Rosa Rendall, e Jorge Perdigão, que estarão à mostra até o dia 04 de março. 


Para o Jornal MIRANTE DE OLINDA. Em 2012.


VIDA LOUCA VIDA.

Já dizia Cazuza: “vida louca vida... vida breve... Exagerado! Eu adoro um amor inventado!” Pois é... Plagiando a irreverencia do poeta, na medida em que o considero um dos maiores da contemporaneidade, preciso afirmar que eu como ele adoro um amor inventado. Aliás, o único que reconheço. Porque se assim não for, não consigo vivê-lo, por tão grande em compreensão, em admiração, mesmo que entre crises. E tão grande em contentamento! – Que quando é demais se transforma em íntase, que é muito maior que o êxtase, e pode até matar.

Como a vida é mesmo muito louca penso que por agora, muitos tiveram todos os motivos para festejar amores nem tanto assim inventados, embora que de última hora somente para viverem o íntase. – A não ser que não tenham sensibilidade, ou sabedoria.

Chorei com a morte de Steve Jobs. Depois me regozijei. Morrer não é outra coisa, senão o caminhar tranquilo para outra dimensão. Digo isto sobre a morte, porque é assim que eu a compreendo, e é assim que acho que ela seja, e para o que serve. – Em seguida entendi que ter “convivido”, desfrutado, aprendido, crescido, e existido no mesmo tempo de um gênio, um visionário como foi ele, não é para qualquer um, não! Ele mudou a atualidade, trouxe para mais perto o futuro, deu, e deixou exemplos inestimáveis para o pensamento humano. Mostrou que se pode fazer do sistema algo melhor. Mais bonito, até. E, por tudo que fez e inventou se deve coloca-lo, em gratidão, no panteão dos admiráveis para ser lembrado durante os séculos como é Leonardo Da Vince, Newton, Tomaz Edson, Sócrates, Einstein, Galileu, Michelangelo, mistura estilizada, doce, poética que foi de todos eles, e de alguns outros.

As mesmas emoções me tomaram quando da premiação do Nobel da Paz à Ellen Johnson Sirleaf, à Leimah Gbowee, e à Tawakhul Karman, agraciadas pelos seus trabalhos, porque pacíficos, em favor dos direitos das mulheres, e consequentemente da humanidade, ainda mais sendo elas de países dos mais autoritários e autocráticos do mundo. 

Além disso, também me comovi ao confirmar a minha tese de que o poder dado às mulheres será a única forma de podermos alcançar a democracia e a paz duradora, “a menos que as mulheres não obtenham as mesmas oportunidades que os homens para influírem nos fatos em todos os níveis da sociedade”, como justificou o comitê do prêmio. – Nada mais felizmente: trabalho e reconhecimento.

Outro fato que considerei extraordinário e digno das maiores celebrações foi ainda a premiação do Nobel aos físicos deste ano, para os estadunidenses Saul Perlmutter, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley da Califórnia, Brian P. Schmidt, da Universidade Nacional Australiana de Weston Creek, e Adam G. Riess, do Instituto de Ciências do Telescópio Espacial, em Baltimore. – Eles comprovaram a expansão acelerada do universo, o que foi da maior importância para a cosmologia, porquanto de muito antes havia somente teorias.

Naturalmente que não posso discutir tal descoberta sob a ótica da física. Mas, pela ótica da metafísica até posso por achar que ela explica tudo, já que a ciência tem se limitado a estudar apenas a matéria. – Shakespeare disse “que mais há entre o céu e a terra do que possa pensar nossa vã filosofia”. Eu creio nisto. Então, se há crescimento do espaço, dentro do próprio espaço, para mim estão neles e nas suas pulsações de crescimento, os espaços para as probabilidades de melhorarmos enquanto raça, e enquanto condição, no sentido interno e intenso de todos os relacionamentos, e por onde eu também acredito se permitem “perambular” os gênios, e por isso são gênios.

Somos parte do todo, e o universo, parte de nós. – Isto seria o bastante para explicar as vidas loucas e breves, e ainda, nos fazer confiar no muito mais do que há em nós, para o além do trivial simples da matéria. E... das possibilidades dos amores inventados, visto que as soluções sensatas deixo nas mãos de Deus. 

Para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2011.


VAMOS LÁ, PREFEITO. 


A Assembleia Legislativa será instalada este mês para sessão ordinária em Santa Cruz do Capibaribe. O mesmo que vem fazendo, anualmente, em todos os Municípios do Estado. – Atitude louvável porque democratiza o Poder Legislativo, e se estende como homenagem a cada população, seus momentos, símbolos, e vultos históricos. 

A partir da informação lida nos jornais, recordei de um episódio do maior valor e pelo qual pouco nos importamos: o da Restauração Pernambucana, a guerra luso-brasileira que durou quase trinta anos, envolveu todo o nordeste, foi capitaneada por Pernambuco, já que Olinda era a capital do Estado, e que vitoriosa, expulsou daqui os holandeses. – De fato, o único dos levantes brasileiros que deram certo; ao contrário, por exemplo, da Inconfidência Mineira, que somente comemora a morte e a martirizarão dos seus líderes, sem triunfo. 

A importância desta guerra foi tão grande para o Brasil, que se não a tivéssemos ganhado, não teríamos preservado nosso território, teríamos permitido a destruição de Portugal, e estaríamos hoje divididos entre as potencias europeias, reduzidos a várias republiquetas de banana por este planeta a fora. – Não seríamos jamais o que somos. Pujantes pelas riquezas que temos concentradas em toda nossa dimensão geográfica, e que nos permite hoje ter voz e posição firme no cenário internacional. 

Plínio Victor, historiador e arqueólogo, meu amigo de uísque e de leituras, de muitas afinidades, ideológicas inclusive, me contou que Luciana Santos, Prefeita de Olinda à época, ao ser informada por ele dos 350 anos da Restauração Pernambucana, instituiu uma comissão para formatar as comemorações, e lhe deu a presidência. – A partir daí, ele conseguiu tornar Olinda, “Capital Simbólica do Estado de Pernambuco” em todos os dias 27 de janeiro por lei estadual aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa, em 2003, sendo o Projeto de autoria da Deputada Tereza Leitão. 

Ele não satisfeito, e sabendo da relevância do fato histórico, batalhou e conseguiu que o Deputado Maurício Hands apresentasse no Congresso Nacional um Projeto de Lei com a finalidade de transformar Olinda desta vez, em “Capital Simbólica do Brasil”. Aprovado, foi sancionado pelo então Presidente Lula, em julho de 2010. – “Art. 1o: Em 27 de janeiro de cada ano, a cidade de Olinda, no Estado de Pernambuco, será reconhecida, durante esse dia, como a Capital Simbólica do Brasil.” – Lei no.12.286. 

O exército daquela guerra foi organizado por cotas raciais. Os negros participantes foram liderados pelo pernambucano Henrique Dias, os brancos pelo paraibano André Vidal de Negreiros, e os índios pelo potiguar Felipe Camarão. – Assim é que nos dois primeiros anos quando das comemorações previstas pelas leis, aqui estiveram para participar dos festejos, representantes das Igrejas, dos Movimentos Negros, de todos os organismos da sociedade organizada, governadores, e prefeitos de toda a região. – Foi o “exercito” contemporâneo, representando, e homenageando o do passado! Mas... parou por aí! 

Então, como não se festejar tal acontecimento? Como Olinda e Pernambuco não se interessam por celebrar, nacionalmente, e por capitalizar todos os anos, uma façanha de tamanha grandeza dando visibilidade à nossa condição de berço libertário deste país, e conhecimento à nossa juventude para que se orgulhe da nossa história? 

Vamos lá Prefeito Renildo Calheiros! Sua sensibilidade de homem público, de homem conhecedor das artes e da história tem tal responsabilidade. – Portanto, vamos celebrar os dias 27 de janeiro como nos convém; e com o sentimento que deve nos mover a valorizar, e respeitar, o grande museu histórico, geográfico, e artístico a céu aberto que somos nós como patrimônio da humanidade. 

Para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2011.


UMA PROPOSTA.

Venho propor que as Academias, outras instituições que tenham como foco a arte e a cultura, ou mesmo algum órgão do governo, aos políticos estaduais e municipais, ou uma trading turística que possam criar, e agenciar mesas de debate, que o façam. Não só para que se discuta sobre elas em nosso Estado e meio, porém com o objetivo de analisarmos, com precisão crítica, o que está havendo nos Estados vizinhos com relação às práticas nestas áreas, muito mais competentemente que entre nós. – Parece, no mínimo, que falta amor entre os que lidam com estes assuntos por aqui. Ou os egos teriam maiores direitos em detrimento de uma produção que pode completar a revolução econômica que estamos vivendo? - Sem falar no veto à lei do Vereador Marcos Menezes que propunha preservar uma quota de 70%, nos grandes eventos para os nossos artistas! – Impossível, não?

Pois é! Estive semana passada, por alguns dias, em João Pessoa, na Paraíba, de onde voltei encantada. Lá se está fazendo uma profunda revolução social e cultural via arte. – Tudo tem sido pensado e realizado para gerar emprego, renda, para fortificar a identidade daquele povo, e o turismo no Estado. Tudo com o apoio, e o incentivo do governo, e do empresariado. Algo que nos poderia servir de exemplo. E ao país.

Claro que não estou sugerindo nenhum muro de lamentações. Contudo, que discutamos sobre as nossas dificuldades no âmbito da gestão pública e privada, sem que se coloquem os costumeiros panos mornos, que mantêm arte e artistas, cultura e educação, sempre relegadas ao segundo plano de qualquer política, e até do interesse social e econômico.

Lá eu vi os artistas, de todos os campos, serem valorizados. Há excelentes galerias de arte promovendo e fortalecendo as artes plásticas do Estado já que se reconhecem capazes historicamente para tal. – As galerias são privadas, e estão também nos centros e espaços culturais públicos que se alastram sem aventuras, mas com profissionalismo impressionante, o que somente qualifica a todos.

Com relação ao cinema, Carlos Mosca e o seu Moinho de Cinema, estão fazendo coisas extraordinárias, produzindo, ensinando, e recebendo prêmios a torto e a direito, dentro e fora do país, a partir de Campina Grande.

Os concursos de Arte públicos, que em Pernambuco não existem, lançam novos poetas, como o Concurso Nacional de Novos Poetas, com o prêmio Augusto dos Anjos, e o Concurso, também nacional para escultores, que escolheu as monumentais esculturas de Erickson Britto para lhes enfeitar a beira do mar. – São alguns pontos entre os que acho, devo destacar.

Fui ver novamente um dos mais emocionantes e admiráveis espetáculos da natureza que é o por do sol na praia do Jacaré, em Cabedelo. – Tive nova surpresa! A empresa de recursos hídricos de lá me pareceu responsável e mais humana na medida em que trabalha para manter o bioma daquela região preservado e belo como está, principalmente, tornando-o sustentável. Acesso perfeito, estacionamentos, pontos de taxis, e urbanização, também. Os jardins são lindos ao redor do conjunto. Há ainda ótimas lojas de artesanato com produtos de encher os olhos dos turistas, e bares com belos projetos arquitetônicos, e de iluminação, para receberem com cardápio e serviço impecáveis os que para lá vão para ouvir o bolero de Ravel, sincronizado entre todos os bares por uma tecnologia perfeita, e o espetáculo à parte do sax, e depois o violino da linda Belle Gusmão, até a Ave Maria de Gunnot, às seis da tarde. – Ou seja, a preços populares, espetáculos do mais altíssimo nível, diariamente.

Na orla de João Pessoa, os espetáculos se repetem. Há muitos bares, e todos seguem com música ao vivo, dando emprego e gerando renda, claro, sendo cada um deles para um tipo de repertório, democratizando a musica, e dando às pessoas o direito de escolher o que ouvir desde que seja de boa qualidade, que é a exigência maior entre eles, tendo, por exemplo, o show instrumental da sanfona de timbre e afinação europeias de Júnior Matos, que também é pianista de formação clássica, e a voz de Rostand num repertório irretocável. – Tudo porque o Presidente da Fundação de Cultura da Paraíba é o poeta, compositor e cantor Chico Cézar, que diz, e não contrata “forrós de plástico”? – Ou será então porque a cultura está entregue à gestão de quem é do ramo? Por isto João Pessoa e a Paraíba inteira hoje, respiram arte e cultura por toda parte. Sem desculpas, e amadorismos! – E Pernambuco? 

Para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2011.


TODO PODER ÀS MULHERES. 

De surpresa a história estar instada a marcar para sempre o dia 21 de setembro como o dia da primavera mais feminina, florida, competente e alegre em Pernambuco, no Brasil, e no mundo. – Até porque, havia muito tempo não se tinham motivos extraordinários para festejar. 

A Presidenta Dilma Rousseff neste dia discursou na ONU inaugurando-lhe a agenda anual. Pela primeira vez uma mulher inscreveu em sua biografia tal missão. Fez isso afirmando a sua voz como representante do Brasil, do gênero, e como a voz da democracia. – Emocionante. Quinze segundos de aplausos. – Defendeu negociações para minorar a crise econômica internacional; pediu respeito dos países ricos aos emergentes; elogiou a resistência da Palestina, recomendando-lhe reconhecimento de Estado independente; afirmou a posição do nosso país pela paz mundial, e reclamou por um assento permanente como membro do Conselho de Segurança, que ela considera termos direito. – Guerras e crises, existem por falta de recursos políticos, e de senso, também disse ela. Com toda razão. 

A segunda primeira missão vitoriosa naquele mesmo dia foi a de Ana Arraes eleita para Ministra do Tribunal de Contas da União. – Ela declarou que nos seus objetivos estará o trabalho para que as fiscalizações às obras públicas irregulares aconteçam independentemente de suas paralizações, visando à diminuição dos prejuízos. Também, que será boa olheira do uso do dinheiro público. – Cuidados que só uma mulher teria. Ou pelo menos, antes ninguém teve. 

Tais acontecimentos deixaram antever a possibilidade que a humanidade tem de conviver com menos muros, e mais horizontes. Ainda, que anjos e demônios embora não tenham propósitos únicos, todos e quaisquer limites estarão ancorados na igualdade, na liberdade, e na morte dos medos pela supressão à cidadania, que só a argúcia, e a sensibilidade femininas podem discernir entre os embates políticos que vivemos, e confrontá-los. 

Estes fatos são sinais que vêm mostrar a probabilidade da consolidação de um renascimento moderno no planeta. – Novos alicerces estão sendo lançados pelo poder que as mulheres vêm adotando na imposição ao declínio das “barbáries” que vivemos. Suas novas diretrizes e proposições serão, sem dúvida, chancela para a construção de uma civilização mais amiga, menos ambiciosa, conquanto firme, autoconfiante, precisa; sem minorias remanescentes, e pela harmonia geral. – As barreiras culturais para que isto se efetive, sabemos, ainda existem, mas cairão por terra, cada dia mais sem sentido. 

“Ou nos unimos todos, ou sairemos todos derrotados”, afirmou lá a Presidenta, porque ela sabe, e não se faz de desentendida, que uma pessoa entre seis passa fome, e de cada três mulheres, uma sofre violências descabidas, cotidianamente neste mundo de horror, cujo sistema político e econômico precisa mudar como propõe a esperança. 

Mulheres como Dilma e Ana honraram nosso caminho quando se deram conta do conhecimento, e do conhecimento intuitivo inerente à nossa natureza receptiva. – Portanto que a tantas como elas sejam dados todos os poderes terrenos, porque os sagrados, cada uma de nós já tem. 

*Este artigo foi escrito também em homenagem ao falecido médico pernambucano Dias da Silva autor do admirável livro, “Todo Poder às Mulheres” – e que o mundo deveria ler. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2011.


Meu caro Emanuel.

Eu acho que o release que você recebeu é o mesmo que agora reenvio. Mas, vou lhe contar o que se passou no lançamento: primeiro, que em pleno verão, estávamos no dia 14.11, com 16 graus de temperatura, e em São Paulo chovia a mais não poder. Coisas de lá... Segundo, a livraria da Vila, a que fica no Shopping Higienópolis, porque ela é mais uma que pertence a uma rede, é lindíssima, enorme, e estava lotada. Como sempre, de muito mais mulheres, e ponha mulher nisso, que de homens! Uma quantidade que passava, eu acho, de 300! Uma loucura. Pincipalmente porque não havia coquetel, nem mesa de autógrafos, como usualmente temos aqui. Mesmo assim, uma enorme quantidade de repórteres e fotógrafos, e um quase deslumbramento das 100 escritoras, diante deles; dos da Revista Cláudia, e dos da Caras, então... Eu como não sou muito afeita a divulgar a minha imagem, senão a minha literatura, que considero moderna e coloquial, leve, e que nas entrelinhas se preocupa por fazer alguém pensar, e sobre a qual tenho orgulho na medida da minha despretensão, porque sou apenas uma contadora de histórias, tirei umas duas ou três fotos junto com algumas delas, só para constar. – Eu já havia me comprometido de ir a alguns lançamentos, anteriormente, e como não pude ir em virtude dos meus muitos afazeres por aqui, fui a esta. Gostei. Tudo muito organizado.

Quanto a REDE DE ESCRITORAS BRASILEIRAS - REBRA, à qual pertenço e represento em Pernambuco, é uma instituição sem fins lucrativos, presidida por uma excelente escritora, cearense, chamada Joyce Cavalcante. Ela tem por objetivo divulgar a literatura feminina no Brasil e no mundo, e cumpre com suas funções para isto com competência inusitada. Hoje tem quase 4.000 escritoras filiadas. Um fenômeno! Por todos os motivos, pela qualidade delas, e principalmente porque historicamente, se a mulher não podia nem pensar, muito menos falar, e hoje se expressa através da literatura como vem fazendo, pode-se dizer que a REBRA, como incentivadora, tem sido fundamental para que este contingente de mulheres tenha o apoio necessário, e o espaço, para tamanha manifestação.

Anualmente ela organiza e promove duas ou três Antologias, e as distribui no Brasil, e fora, como por exemplo, na França, em Paris, traduzidas para a língua local. Já aconteceu na Espanha, nos Estados Unidos, e agora, que fez uma parceria com a Livraria Varal do Brasil, que fica em Genebra, na Suíça, e só vende escritores de língua portuguesa, estaremos atingindo um público novo.

Para as escritoras pernambucanas, e eu acredito para as nordestinas, de maneira geral, a REBRA tem sido também da maior importância. Como você sabe, aqui não temos quem nos agencie, divulgue e distribua. O que torna a literatura feita em Pernambuco, “por vezes amadora”, embora de excelente qualidade. Nos falta o aspecto profissional que a ampare. O que temos são apenas gráficas, disfarçadas de Editoras, e mais nada. – Somente alguns escritores (as) conseguem entrar no esquema profissional do centro-sul. Os que não conseguem, porque nem perto chegam, eles (as) mesmos escrevem, produzem, e... mais doam que vendem os próprios livros. – Um esquema cruel, que deveria ser repensado! Imagine que nem a lei que temos, e que determina terem as livrarias do Estado 50% de livros de autores pernambucanos nas vitrines, é cumprida. Ou seja, somos a comprovação de que não existe uma política séria, nem decente de cultura. A não ser a de eventos (!) que apenas constata, ensina pouco, e mantem pobremente as tradições. Quando no mínimo todos os escritores (as) do Estado deveriam ter suas obras compradas, para serem lidas e estudadas pelas escolas, públicas e privadas, e pelas universidades. – Mas, fazer o quê?!?!?! Até porque o mesmo acontece com tudo que se refere à cultura mais erudita, haja visto, o que se faz com os Museus do Estado.

Quanto a mim, escritora, comecei a publicar muito tarde. Não tinha tempo antes de me dedicar a escrever. Mas, hoje, faço isto com o maior prazer. Tenho tido aprovação sistemática, e generosa dos meus leitores, e da crítica, o que me tem incentivado a não parar apesar dos percalços! Por sorte posso bancar a mim mesma, e ao que quero dizer! – Também sou articulista. Escrevo para colaborar, usando a minha ótica da atualidade, visão crítica, e para discutir o que me assombra, estimula, ou quando quero desabafar motivada pela nossa realidade tão inconsequentemente esdruxula! – Os meus romances, que é o que eu sei escrever, eles levam o meu DNA, são livres como eu, despretensiosos, e como eu já disse, leves, porque doloroso já é tudo que nos cerca cotidianamente, com poucos personagens, mas todos eles fortes, comprometidos com o que têm a dizer. – Escrevo por compulsão, conto histórias que não causam grandes suspenses, mas que aliviam quem ler. E assim faço sem querer ter razão.

Bem, Emanuel, acho que já lhe disse o essencial. Espero que lhe sirva para o que quer. – Quero lhe agradecer o interesse pela minha literatura, e lhe dizer que fico à sua disposição.

Espero você e Daniela para uma visita, e um cafezinho no MAC. 


Para o Jornal O MIRANTE DE OLINDA.  Em 2011.


CRISES QUE NÃO VIVI.

Há ocasiões pela vida em que nos pegamos de surpresa pensando sobre algum tema que não escolhemos. – Comigo acontece frequentemente, ainda mais porque sou viciada em pensar.

Nossa memória acumula temas, histórias, casos e causos, e num tempo determinado por ela, manda para o nosso presente, desde os afetos, às dores e incompreensões, que mesmo nos traumatizando, temos a possibilidade de descarta-los a partir de uma visão mais aprofundada que se possa formar sobre eles.

Um dia assim, fiz uma análise crítica sobre o tempo cronológico, depois que me veio à cabeça a minha idade. Pensei que poderia estar entrando numa das crises das quais tanto se fala: as crises da idade tal, ou qual. Fiquei surpresa novamente porque até ali nunca me senti vivendo nenhuma delas. Aí imediatamente concluí que teria que discutir comigo mesma sobre isto, e escavei as minhas elucubrações. – Uma das questões surgidas daí foi tentar explicar como cheguei até aqui com saúde, e sem amarguras.

Após a certeza de que não vivi as supostas crises das idades, me lembrei da minha geração, do que ela fez com o seu tempo. Concluí também que ela foi a melhor e a mais bonita que se tem conhecimento na história da humanidade, porque corajosa, feliz, livre, revolucionária, contestadora, romântica e vencedora. – Foi ela que teve a idéia e conquistou a liberdade no amor, foi ela que no mundo inteiro lutou pelos direitos humanos contra as guerras, e as ameaças do imperialismo e das ditaduras. Foi ela quem exigiu a pílula anticoncepcional, e cantou com os hippies a liberdade em Woodstok, e depois, bem depois, ainda comemorou no primeiro Rock’n Rio. Foi ela que não teve culpas de se amar e fazer com que nossos pais revolucionassem suas próprias vidas, e seus passados, para criarem entre nós o diálogo até ali desconhecido. Ainda foi ela quem primeiro entendeu as drogas como exercício existencial, e nunca como hoje, para fugir e permitir que elas lhes deformassem as caras e as almas.

Assim fui indo. Pensei que além de ter feito parte dos detalhes do que minha geração minutou, que fui, fundamentalmente, também, autora de minha própria história. A escrevi em linhas, que podem ter sido de ouro ou sangue, mas que foram minhas, e com isto criei possibilidades intelectuais que não me permitiram a mediocridade, nem o trivial simples da hipocrisia ou do falso moralismo que muitos escolhem viver. – Quem não teve tal consciência foi levado, e fadado a aumentar cada dia mais a solidão de suas existências, detendo suas energias vitais, e as empregando apenas para o mais perto do que o os olhos vêm e as mãos pegam, como se não existisse muito mais entre o céu e a terra, para no fim estarem sós. Inclusive sem a própria companhia. – Isto sim justificaria a crise de qualquer idade, pensei.

Quando se passa de meio século, porque quem já passou e pode olhar para trás, e não se envergonhar de qualquer indigência, tendo sido responsável ecologicamente para com sua natureza individual, chega salvo à frente, e poderá, com todas as honras e glórias, se considerar um homem ou uma mulher eternos.
Na eternidade, como se sabe, não se conta tempo, não se traduzem anos. Contam-se sim, as ações tomadas, as palavras ditas e escritas, o pensamento além da matéria, e o que ficou na memória afetiva de quem se amou.

Tudo isto, para dizer que ter saúde, depende da vida que se leva, que sem medos, deixam para a ciência médica, e os médicos de todos os matizes, cuidar de “coautores” de vidas automatizadas pelo consumo, e pelas superficialidades, e pecados. Pois, para, além disso, quem tem razão é a cientista Louise Hay, americana, autora de “Você Pode Curar Sua Vida” a quem presto aqui um tributo, porque ela diz que “não há doenças, o que há são doentes”. – E eu acredito nela. 


Para o Blog do Dr. Carlos Bayma. Em 2011


OUTUBRO ROSA.

Passou o mês de outubro e com ele a Campanha Internacional “OUTUBRO ROSA – Mulher Consciente na Luta Contra o Câncer de Mama”, aqui em Pernambuco encampada também pela Assembleia Legislativa. – Estive lá com outras mulheres para assistirmos uma competente aula do mastologista, mestre dos mestres, doutor Antônio Figueira. Ainda, para ouvir a doutora Nadegi Queiroz que discorreu por uma política de prevenção mais concreta; o senhor Anselmo Monteiro, coordenador do Projeto Ação pela Cidadania, e para prestar o meu depoimento.

Foi capital e louvável o trabalho da comissão formada pelas senhoras Mary Gouveia, Cynthia Barreto, Alba Bezerra, Suely Moraes, Débora Paes, cada uma delas concessionárias de importantes cargos naquela casa legislativa, e que tão bem dirigiram a campanha.

Para quem não sabe, o mês de outubro é dedicado à campanha mundial em prol da divulgação da prevenção e dos perigos do Câncer de Mama. – O chamado “Outubro Rosa”, que se iniciou nos Estados Unidos.

“O câncer de mama é uma doença que já provocou mais de sete milhões de mortes no mundo, Além disso, vinte e cinco milhões de mulheres no mundo inteiro receberão o diagnóstico dessa doença terrível nos próximos vinte e cinco anos. Com estes números alarmantes é preciso se fazer um trabalho intenso, função do poder público, para se conscientizar as mulheres para a prevenção, mesmo que ainda lhes falte, indiscutivelmente, uma política ampla, e mais séria, para que todas fiquem sabendo, por exemplo, que o SUS é obrigado por lei a fazer mamografia anual em toda e qualquer mulher acima dos quarenta anos, com o advento da Lei Federal no 11.664/2008, em vigor desde abril de 2009”, segundo parte do discurso do Deputado Vinícius Labanca, que como cidadão e homem público, se mobilizou por inserir a Assembleia Legislativa na campanha.

O Deputado cumpriu com a obrigação dele, exatamente como deviam fazer todos os homens públicos no que se refere à saúde da mulher, à política de saúde pública, e à aplicabilidade das leis, inclusive das que tratem deste tema, pressionando também a sociedade para que fiscalize, cobre, e exija o que é lhe é de direito na conquista, e no cumprimento delas.

Mesmo assim, acho que valeria a pena pensarmos o câncer de mama por outra ótica. Claro, ele é um câncer, e como tal temível, ameaçador, e arrogante! Tanto que junto com ele se desenvolve, também contra a mulher, uma cadeia econômica de enormes proporções, fazendo com que cada uma delas que tem, ou teve um câncer, se não se protegerem dela também, ainda correrem o risco de não só perder o peito, como o salário, a identidade, e se brincarem, de perderem até a alma.

O estigma que o câncer de mama induz, é apenas um preconceito a mais que se impõe contra a mulher. É tão forte que é capaz de torna-la culpada, imprestável enquanto fêmea, enquanto bela e poderosa que é, furtando-lhe até a autoestima como se nem a isto ela tivesse direito. – Nenhuma mulher, é apenas um peito. Uma mulher é bem mais que isso, ainda mais se já cumpriu sua função de mãe, alimentadora que é igualmente da vida.

As cadeias econômicas na sociedade de consumo são todas elas questionáveis porque sorrateiras. No caso do câncer de mama, vai desde médicos inescrupulosos, até as “fábricas” de fazer exames, a “indústria” da medicina estética, os laboratórios de produtos químicos. E ainda passa pelas fabricantes de perucas, cada uma mais feia que a outra! – E quem é responsável por alimentar estas cadeias? As mulheres, e principalmente as mais desavisadas, coitadas, que ainda se colocam como vestais da vitimização e dos preconceitos familiares, ou não, mas sociais.

Assim, que se saiba que prevenir é fundamental. Como é fundamental prevenir qualquer mal, até uma unha encravada! Mas, que se saiba, além disso, que precavendo qualquer câncer de mama é curável. Mais ainda, se cada mulher se precatar de viver a vida que não quer, de não ter mais o homem que não deseja, e de não se arvorar a ser a “mulher maravilha” que responde aos interesses do moralismo e da hipocrisia em detrimento dela própria, e de não se deixar escravizar por um peito que foi jogado fora, e já tem, ou terá outro no lugar.

Diz Louise Hay que “não há doenças, há sim, doentes”. – As ciências do comportamento afirmam que no espaço entre a cintura e o pescoço de todo ser humano se localizam psicológica, e emocionalmente, as suas emoções. Lá estão o nosso coração, e o nosso chacra cardíaco. É lógico então, que não fica difícil entendermos que antes da hereditariedade que possa existir, está uma grande, e profunda dor existencial, esta sim, mobilizadora de outras tantas, e até do câncer de mama. – Pois que esta dor seja dizimada pela atenção de todas as mulheres consigo próprias, pela prevenção do câncer, e pela divulgação da Campanha “Outubro Rosa” em todos os meses do ano. 

Para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2011.


NEO CIVILIZAÇÃO OU CAOS. 

A tradição do meu núcleo familiar desde muito cedo me atribuiu compromissos enquanto indivíduo. Assim é que desde muito tempo sou responsável pela minha vida, por escrevê-la de forma decente, e vivê-la como mulher e cidadã comprometida com o humanismo, e com os meus afetos. – Tarefa que não tem sido fácil, por me impor uma lucidez nada terna, ou compassiva. 

Reconheço, por isto, que o meu exercício existencial tem sido doloroso, porquanto psicanalítico, conseqüência de uma busca desenfreada por entender a minha alma, e a trajetória humana, e o que temos feito delas ao longo de nossa estada por estes rincões terrestres. – Por vezes, tenho me desesperado. 

Agora, encontro-me de frente com a intimidação que para mim significam as eleições em nosso país. Primeiro por conta de uma democracia incipiente, frágil, que se considera “correndo riscos” ao se confrontar com o humor. Segundo por conta de propostas desleais, porque demagógicas, características do período. Terceiro porque temos um eleitorado ainda despreparado, pois que lhe falta visão crítica de uma realidade em mudança, que ainda precisa ser consumada, definitivamente, até nos levar a ser um país melhor. – Sendo que para isto as implicações são inúmeras e também muito difíceis. Quarto, porque, por incrível que pareça ainda se insiste por usar as premissas do machismo e do príncipe Maquiavel, como se elas não tivessem contribuído para as dificuldades maiores impostas à humanidade. 

Pergunto-me o que uma pessoa atilada pode fazer numa hora dessas. – Entrego-me, então, a uma reflexão que me leva a questionar quando será que a maioria de todos os organismos, e instancias de poder, vão compreender que ou se para, se reconhece que o capitalismo, e o socialismo definitivamente não nos levaram à felicidade, e que por isto é necessário aceitar e compreender as propostas de Riana Eisler, ou então, vamos naufragar juntos com o futuro. 

A proposta dela, historiadora, advogada, e socióloga nascida em Viena, hoje residente nos Estados Unidos, sendo a única mulher aceita entre os vinte mais importantes pensadores, tais como Hegel, Adam Smith, Marx e Toynbee, é também a minha. – Ela que me perdoe a pretensão! – Mas porque a compreendi, e ao seu pensamento, é que me apropriei dele para conseguir colocar os pontos nos “is” do que eu mesma penso, e já pensava. – Uma civilização neo-humanista. 

Uma civilização que troque a informação pela sabedoria, ou seja: que pense o futuro sobre a ótica e a ética da inclusão integrando a inteligência com a educação de paz e de não violência, inspirada na parceria homem/mulher, na sustentabilidade ecológica, e na espiritualidade do planeta para que se chegue à contribuição científica e espiritual como base do conhecimento da humanidade. – Valores que nada têm a ver com o que se vem praticando desde que o ser humano abandonou sua condição de nômade se aglomerando em agrupamentos que se tornaram somente econômicos. 

Isto pode parecer um soco no estômago, e é. São as tais implicações que considero difíceis, porque abrir mão do poder para transformar e qualificar a vida humana requer entre outras a grandeza somente existente no desenvolvimento espiritual, que os detentores dele nem de longe se importam. 

Minha esperança então se volta para a eleição de uma mulher que tenha sobrevivido aos desmandos do poder autoritário, e que espero o desempenhe a partir do próximo ano, femininamente, porque ela, como todas nós, guarda os mistérios insondáveis porquanto deusas que somos, desde os tempos primordiais, assim como o poder preexistente, que nos fez e faz mães, ao mesmo tempo vorazes, naquele que não teve início, nem terá fim, porque existe na unidade. – Vou pagar para ver se tenho razão. 


Para o Jornal Folha de Pernambuco. Em 2010.


FELIZ NATAL.

Recebi de Dalva Linch, escritora paulista, minha amiga, bela mensagem de Natal, que me emocionou e me fez pensar como ela: o que teria eu a dizer aos meus amigos, e aos meus leitores neste tempo de festas?

Ocorreu-me primeiro perguntar: festas de que? Para comemorar o que? – Lembrei-me instigada por ela, das guerras. Dos silêncios, das dores, das cicatrizes dos que por elas passaram, passam, e que nunca cicatrizarão! Das insanas perdas, dos inocentes úteis de todos os lados, e dos gastos que provocam para manter a ganância de uma enorme cadeia econômica, mesmo que na terra, uma enorme população de nossos irmãos, miseráveis, em desventura absoluta, ainda morra de fome.

Lembrei-me também da sociedade de consumo que nos atordoa em nome de um capitalismo que não se rever, de pessoas que vivem sem escrúpulos alijando pessoas, fortalecendo diferenças, criando conflitos, gerando crises, corrompendo-se e corrompendo, por nada, ou por quase nada.

Lembrei-me das cortinas de fumaça que o nosso país estar a nos impor, como se fôssemos apenas uma horda de simplórios sem consciência, porque aprovando leis sem o menor sentido para a maioria, como as das “blitzs” contra o fumo, e contra a bebida alcóolica, quando responsabilidade de não cometer crimes é apenas de quem os consomem, e que se a partir deles os pratica que paguem por eles, ora!

Este mesmo país se exime de cumprir com a sua obrigação com relação à verdadeira saúde pública, porque sem fiscalizar, aceita que o agronegócio acabe, indiscriminadamente, com as nossas vidas! – Está nos trocando pela balança comercial, pelo lucro “fajuto” que ele dá.

Assim, continuo sem entender: por que não nos mostram estatísticas que tenham justificado as tais proibições? Por que não impõem, estas, sim, “blitzs” contra as cracolândias? Endereços ele tem. Ou por que não cuidam de fiscalizar o que devia, e não reconhece que Deus deu a cada um de nós o livre arbítrio? Então... quer saber mais? Cala a boca Dráuzio! – Pronto, encampei a campanha! Basta de chatices inócuas!

Desculpas! – Sei que levantando algumas destas poucas questões, do horror, posso até está impacientando alguns, mas, é que eu acho que temos mesmo de ter visão crítica sobre nossos direitos, que estão sendo tomados, açodadamente, com desmandos contra a natureza; com aprovações de tantas leis dicotômicas para atender interesses alheios, e com as injustiças da própria Justiça.

Assim sendo, mesmo que eu lhes peça desculpas por isto, e deseje a todos e a todas que tenham boas festas de Natal, sou compelida ainda a pedir que, por favor, não esqueçam nas tranqueiras dos seus quartos de depósitos as suas dores, e nem as dos seus semelhantes. Que não se deixem enganar pelos presentinhos do Papai Noel, que apesar de belo, também não existe, ou pelo brilho das luzes que encandeiam o período. – Muito menos que sem razões lógicas mantenham suas aquiescências e obediências. Senão, nunca homenagearemos Jesus, com dignidade e harmonia pelo seu aniversário, “na medida em que ela só é compatível com a indignação e a luta”, como disse Saramago, e que eu ousadamente complemento: com honra e com humanidade, pelo respeito, e pela liberdade.

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2011. 


CIDADANIA ÀS MINORIAS.

Acabo de assistir emocionada a entrevista feita pela jornalista Marília Gabriela numa televisão a cabo com o Deputado Federal Jean Wylys, ativista pelas liberdades civis das minorias na Câmara Federal. – Eles discutiam direitos individuais e a necessidade de se ampliar políticas públicas que assegurem e reparem os danos à condição humana impingidos pela ação dos preconceitos.

Como cheguei a uns três dias de viagem de férias pelos Estados Unidos da América começo a retomar minha vida prática. Mas, estou com a cabeça ainda de sobressalto. O choque diante das diferenças quanto aos direitos humanos são tão grandes entre aquele país e o nosso, que fez com que a entrevista calasse em mim, como se eu tivesse encontrado alguém com quem pactuar meu pensamento que está como os de quem “atravessa desertos fora de si”, como disse Fernando Pessoa.

Somos um país preconceituoso e homofóbico. Somos um país cuja memória e culpas, não são contadas, computadas, assumidas, haja vista as causas de maltratos históricos contra os negros, os gays, as comunidades LGBT, os quilombolas, os índios, os idosos, as crianças e os adolescentes. – Tratados como tema secundário ao longo dos tempos, sem fiscalização das leis existentes, sem apoio dos poderes do Estado, públicos ou privados.

Este ano está sendo considerado o “ano-chave dos direitos humanos”. – Já era tempo! A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara precisam dizer a que veio, e os parlamentares precisam deixar de empurrar com a barriga o projeto de lei que tipifica como crime a homofobia, e, além disso, devem efetivar a reforma da lei contra o racismo. Afinal, a sociedade mudou já faz bastante tempo, e não se pode achar democrático um país que não dá a todos, indiscriminadamente, o direito de serem livres diante de suas escolhas e orientações existenciais. – O direito é público, a fé é privada, e o Estado que é laico deve assegurar, protegendo e reparando, políticas públicas que diminuam as dores advindas dos preconceitos.

A discussão a respeito do sério e desumano problema do preconceito contra os homossexuais suscitado em todo país, instigado sem propósito, a não ser para se manter o falso moralismo, a desfaçatez, e fortificar os convencionalismos contra as minorias, por pessoas que juram cumprir a constituição, e logo após tomarem posse, passam a exercer suas funções visando apenas interesses pessoais, nem sempre não escusos, parece, vai chegar a bom termo. O Supremo já deu parecer favorável à união civil estável entre eles.

Claro que se pode questionar a política externa americana, é democrático, mas a sua política interna, a que trata o cidadão como tal, é exemplar. Lá todos os direitos individuais, constitucionais, são respeitados, cumpridos a risca por ambos os lados. – Lá o fumo tão debatido, não impede que haja fumódromos em todas as partes, em espaços internos e externos. A mobilidade é para todos; para os portadores de necessidades especiais são peculiares, desde todas as leis de trânsito, e as demais em benefício da maioria. As escolas emprestam livros e material escolar para todos e quaisquer alunos. E apesar da crise que hoje ainda vivem a cidadania não deixa de ser reconhecida, respeitada, e a qualidade de vida para aquela população é inquestionável. – As minorias são tratadas com profundo acatamento, tendo todos os direitos assegurados. E... Não servem de assunto para debates medíocres, nem hipócritas.

Então, se são elas aqui responsáveis por cumprir as leis e pagar os impostos cobrados, por que não são considerados cidadãos e cidadãs para efeito de direitos? – Por favor, que se antenem os parlamentares, para que não se percam as ilusões! 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2011


ATÉ QUANDO? 

649 soldados argentinos, 255 britânicos e 03 civis mortos foi o saldo da guerra das Malvinas entre os dias 02 de abril e 14 de junho de 1982. – Esta lembrança me preocupa. Àquela época eu era uma jovem senhora, com um filho pequeno, e lembro-me do quanto me assustei quando entendi que eu e ele éramos vizinhos de uma guerra. 

Até ali eu conhecia sobre as guerras pela leitura, e pelo cinema. Já conhecia o quanto cada uma delas foi desnecessária. 

As informações não eram globalizadas, e nem rápidas como as de hoje que pesquisando na internete logo se encontra que: “A Guerra das Malvinas (em inglês Falklands War e em castelhano, Guerra de las Malvinas) ou Guerra do Atlântico Sul ou ainda Guerra das Falklands foi um conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido pela soberania sobre os arquipelagos autrais tomados à força em 1833, e dominados desde então pelo Reino Unido”. – “Arquipélagos autrais são os constituídos pelas ilhas Malvinas, Georgia do Sul, e Sandwich do Sul, situados perto da costa argentina”. – Perto! Ou seja, porque os interesses ingleses vinham, e vem do distante continente europeu que abriga a Grã Bretanha, que nada tinham a ver, ou tem com as águas argentinas, e sulamericanas, apesar das discussões entre eles de quem pôs os pés lá primeiro. 

Antes, e agora se registram os trinta anos deste que foi um triste episódio histórico. Sem dúvidas, a Argentina que reclamava, e reclama como parte integral e indivisível de seu território aquele arquipélago, especialmente a ilha das Malvinas, que considera "ocupadas ilegalmente por uma potência invasora", tinha e tem razão. 

Deixando de fora o exacerbado “sentido de patriotismo” que caracterizava o período militar na Argentina, a incompetência própria das ditaduras, as injunções e conjunções de um tempo de guerra fria, a má informação sobre o mega sistema de ataque dos ingleses naquele tempo (e muito mais hoje), e nisto tudo as surpresas com as inteligências (ou não) de ambos os lados, o desrespeito total aos direitos humanos em detrimento de uma cultura de paz, recrudesse. – A ambição deslavada e despudorada dos sistemas políticos vigentes, apesar de todas as crises que abatem o mundo continuam a nos ameaçar, como se qualquer interesse econômico valesse a perda de vidas humanas. – Até quando?
Ora, a Argentina reivindica a posse dos territórios das ilhas desde o século XIX, apesar das vitórias militares britanicas que não aceitam negociar, apesar de sabermos que “a contradição não pode acontecer entre objetos lógicos”! – Os habitantes argentinos voltaram a frequentar as Malvinas desde 1999, mas a relação entre o arquipélogo e os continentes, ainda não é adequada. Por quê?
Se o micro reflete o macro, o que se vê a partir das disvergências entre os dois países é que o ser humano não aprende, nem apreende as lições que a vida, a história, a perda, a estima, o afeto e a ausência dele, vêm nos dando ao longo dos séculos. – Lastimável! E quase sem solução, apesar de que eu acho que precisamos todos, ouvir os apelos da Presidenta Cristina Kirshner: "Peço que, mais uma vez, no entanto, para se dar uma oportunidade à paz e não à guerra” – O mesmo que ela enviou à ONU. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2012


A MAIORIA APROVA.

Há um tempo, não muito longe, podíamos fazer de tudo neste país, ou quase tudo: só não podíamos falar mal do Presidente! Vivíamos apesar dos grilhões e baionetas que nos ameaçavam os dias, uma liberdade intelectual de fazer inveja à juventude, e a muita gente que ainda vive hoje. – Naquele tempo, os maus exemplos nos impeliram a pensar, criar, sobreviver, e... a não deixar de falar de flores! Era impressionante.

Hoje vive-se uma democracia. – Por vezes, não encontro sentido nessa crença. Quase a considero somente teórica. Mesmo que se possa falar mal da Presidenta da República!

Tenho observado, generalizadamente, que a imprensa se esmera por esconder o Brasil do Brasil; que a criatividade do nosso povo está menos crítica, e menos bem humorada; que o período tão desejado de desenvolvimento, parece, tem acabrunhado os mais otimistas, e incitado os céticos; que o denuncismo, como quem está em busca do tempo perdido, tem se rasgado em “eitas” sem mostrar saídas, ou soluções, e que as estatísticas primam por não serem lidas. – Uma pena!

Também já pensei que a tal madorna (ou seria oposicionismo “festivo”?!) neste país, decorre da falta de consciência da atualidade porque os críticos não tiveram tempo ainda de amadurecer as mudanças. E que isto é natural nos períodos de adaptação quando de cada transformação social, e do conteúdo que cada revolução possa imprimir. – Mas, será que não tiveram mesmo, ainda, o tempo adequado para reconhecê-las? A história mudou. A miséria também demudou.

Lembro-me que no auge do movimento feminista, os nossos desejos, aqueles todos que justificaram as nossas lutas, por vezes se exacerbavam, mesmo assim tínhamos o apoio dos que pensavam como os do pessoal do Jornal O Pasquim, que nos apoiou em todos os momentos. – E que poucas de nós, mulheres, que por comodismo ou não, não fizeram parte dos mesmos sonhos, das mesmas batalhas, veem se beneficiando das nossas conquistas até hoje.

Naquele tempo também não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças, credos, ou preferências sexuais, e não éramos processados por isso. – Os processos de hoje acirram diferenças, não resolvem nada, e apenas elegem loucos! Também íamos a bares, fumávamos sem parar (e continuamos vivos!), bebíamos, conversávamos, cantávamos, e discutíamos política e democracia, mesmo que morrendo de medo.

Mas, a verdade é que tínhamos este tipo liberdade. Só não podíamos falar mal do Presidente!

O engodo hoje é crasso! Vimos vivendo um governo popular, comprometido com a diminuição dos números da miséria, com a melhor qualidade de vida dos menos favorecidos, clara e indiscutivelmente, e presidido por uma mulher de fibra e que tem história. No entanto, nenhuma das jornalistas mulheres em toda chamada grande imprensa lhe têm feito um comentário elogioso, sequer! – Tenho me perguntado por quê?

Será que para elas o discurso que a maioria usa frente às câmeras de televisão, continuadamente, é para somente agradar aos chefões, e alienar o povo? Não deveria ser esta uma prática esquecida? Ou será que elas não reconhecem que o feminismo no Brasil alcançou a gloria com a chegada da Dilma Rousseff ao poder pelas mãos da maioria da população brasileira, que também é de mulheres? – A mesma maioria a quem ela tem beneficiado com firmeza, carinho e dedicação.

Como mulher, assusto-me com tamanho descompromisso de gênero; com tamanho descaso; com a contundência delas por desestabilizar este governo feminino, e por tamanha falta de isenção crítica. Mas, que para minha sorte, a maioria do povo o aprova. 

Publicado na Revista Virtual O VARAL  do Brasil. Em 2011 


AMEAÇA.

Ameaça: é o signo sob o qual está sendo escrita a história contemporânea, e a futura da humanidade. – Como se já não bastassem a fome, a falta d’água, o analfabetismo, a exclusão social; as doenças sexualmente transmissíveis, as incuráveis; os desentendimentos e as ganâncias políticas; a corrupção, a demagogia, a mentira, as guerras, as bombas; as crises econômicas, os monopólios, as ditaduras; os preconceitos ainda insistentes e desnecessários contra a mulher, as ideologias, as raças, e as orientações religiosas e sexuais dos gêneros; o efeito estufa, os desmatamentos, a violência, a matança de animais, as catástrofes naturais, as ameaças nucleares... Todas se autofecundaram? Ou cada um de nós tem algumas responsabilidades nos seus nasceres? Na sua sustentação?

Declaro-me agora, como capaz de não abrir mão da minha “rebeldia” cidadã, como mulher e mãe, e me permito a conclamar a todos os meus conterrâneos a pensarem, debaterem, e se posicionarem contra a instalação de uma usina nuclear em nossos rincões, mais precisamente, no Município de Itacuruba, como informam e querem. – Para tanto, havemos de considerar a insegurança, e os seus preços em dólares e em vidas, enquanto os convido também a raciocinarem comigo sobre o que segue. – Não trato aqui sobre profecias, alarmismos, ou apocalicismos. Trato sob dados da realidade. 

Que tipos de seres somos nós que permitimos e nem ao menos questionamos tais ameaças tão dolorosas como as que temos vivido, e que são temas tão universais, a não ser depois da tragédia do Japão? Que coisa é esta que nos mantêm anestesiados como estátuas de gelo em nossas individualidades deixando transparecer em nossos olhares a representação dos papéis, mal representados, que insistimos em manter diante de nossas próprias vidas, e da vida no planeta? Que coisa inédita é esta, porque inexplicável, que faz com que cada uma das pessoas seja incapaz de se aperceber da própria inércia? Que desmando é este que faz com que cada um se mostre renovado e feliz, mesmo que esteja claro na leitura de seus atos e ações, a insensatez que comete mentindo para si próprio, como se nada estivesse havendo no mundo agora? Ou como se todo o passado não tivesse existido? Que inconsciência é esta que subtrai possibilidades, comprometimentos, e mudanças? Que tantas crenças limitantes existem que não nos permitem ultrapassá-las? – Sinceramente, não sei! Mas, com certeza, é tudo propriedade da indigente condição humana, e do desconhecimento da efemeridade; que não é só do outro, ou do que foi circunstancialmente atingido. 

Confúcio disse que sábio, não é o que sabe das coisas, mas o que ler os sinais. – A natureza, de todas as formas, nos tem mandado avisos claros, para além de quaisquer sinais, espalhando-os por todos os continentes, indiscriminadamente, dizendo que é hora de parar. E parar, não significa regredir ou retroceder. Parar, nessa hora, significa limitar o desatino, o desvario. Significa que pensar sobre o que realmente se ve e se vive é uma atitude civilizada, madura, e indispensável, apesar de Shakespeare que disse haver muito mais entre o ceu e a terra do que possa pensar nossa vã filosofia! – É não ser omisso, porque, com a omissão sim, a sociedade regride, como li um dia desses num outdoor.

Também não é hora de repensar. Não temos mais tempo. Ele urge no sentido de tomarmos uma decisão: ou energia limpa, ou candeeiros e velas! – Mesmo que possam considerar tal afirmativa radical, como ela é. Mas, é bom que se entenda que a vida humana é pelo menos, comum de dois. Não dá para ser diferente. Exatamente como ela, no seu sentido mais definitivo, é única e una com o universo. Não temos por isso o direito de continuar sob a iminência da destruição de nós mesmos, e dela, desde os microorganismos...

Os dados estatísticos demonstram, de maneira inequívoca, que todos os fenômenos da natureza vêm crescendo de maneira ininterrupta. De acordo com a ONU, o número das catástrofes naturais no mundo inteiro vem aumentando nos últimos trinta anos numa taxa média anual de 6%. Há instituições oficiais que já trabalham com a expectativa de que em 2030 possa haver até 54 países usando energia nuclear, quando hoje são 29. – Com a nossa condescendência? – Isto para mim, é trabalhar sob ultimato, e dos piores! 

O Japão está devastado, e não há mais como evitar; o Haiti ainda não se refez; o sul do Brasil e o centro sul têm sofrido horrores; outros países também. Todos identicamente, se considerarmos as vidas perdidas, os patrimônios, os prejuízos, o medo definitivamente instalado. – O que falta então para nos perguntarmos o porquê de com tanta tecnologia, tantas pesquisas, e tantos cientificismos, até exatamente agora, não se consegue, por exemplo, não só, não prever, como não evitar tamanhos flagelos? Será que só aprendemos a destruir e devastar o planeta, e não encontramos mais, de volta, o caminho dos sonhos? 

O Japão, é a prova. Preparou-se fundamentalmente para a defesa, e para reduzir riscos, e não conseguiu reconhecer onde e porque ocorreram as explosões nucleares de lá, que somente aumentam os índices de contaminação, não obstante todos os cuidados tecnológicos tomados. – A França já se manifestou cautelosamente mesmo tendo cinquenta e oito reatores em seu território; o Brasil tem duas usinas, e projeta ter 9. A Áustria já se manifestou contra, a Itália suspendeu seus programas desde a década de 80; a Alemanha, e a Suíça suspenderam seus contratos para novas. E nós, vamos continuar? – É no mínimo, absurdo! 

Somos um país pródigo em ventos, água, sol. Por que não investimos na energia limpa que eles, como matérias primas, nos presenteiam? – Ora, por favor! E ainda propõem uma usina nuclear para Pernambuco? Francamente, é demais! Aceitando vamos apenas continuar na indigência que nos trouxe até aqui, e não nos fez feliz. 

Para concluir e para se entenda melhor as questões aqui levantadas, temos outra ótica: é preciso que se saiba ainda que a vibração planetária é afetada e intensificada pela consciência de cada um de nós. Assim é que, cada um que despertar para a consciência de Deus, elevará a vibração do planeta. Isso significa aprender a respeitar, a amar, ter esperanças, e generosidade. Perdoar, compreender, e transformar. Nunca calar. Senão, não se sai da penumbra! 

Portanto, pensar sobre o que estamos vivendo, é uma questão indispensável de ecologia pessoal, e existencial. 

Para o JORNAL FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2011. 


RESPONDA QUEM SOUBER. 

Nada contra ninguém, porque não identifico um responsável, ou uma. Talvez possa considerar como tais, porque permeiam ações e atitudes descabidas, a ignorância, a irresponsabilidade, e o desamor.

Estou falando de carnaval. – As comemorações carnavalescas vêm de nove mil anos antes de Cristo. Presume-se que nasceram de rituais exotéricos quando os povos primitivos saudavam o fim do inverno e a chegada da primavera que dava início ao período de plantação. Tinham a ver com a renovação da vida; com a liberdade, a fertilidade e a abundância. Tinham a ver com todos os deuses e com a integração, hoje perdida, entre os humanos e a natureza.

Oficializados, os festejos ganharam quatro dias para a folia antes do início da primavera, a partir dos dias 17 de março daquele calendário. Junto com a “Baccanalia” como lhe chamavam, os romanos passaram a comemorar também a “Liberalia”. Dias estes que os reis e os poderosos usavam para dar liberdade geral às populações do campo para saírem às ruas e fazerem uma enorme farra, permitindo serem a comida, a bebida, as cantorias e as danças, dispostas sem limites à “Carnavalia” daquela população, até a sua proibição pelos excessos. – “Pois é... Não sabíamos que foi a partir da tal proibição que estas comemorações chegaram até nós, como quem passeia, com calma, por toda a península ibérica como se já se soubessem moradoras imutáveis e inabaláveis do sol dos trópicos!” Disse Aminta, personagem de um dos meus romances.

Em Pernambuco ele esteve ligado em sua origem às classes trabalhadoras urbanas, e serviu, sobretudo, como mecanismo de aproximação entre brancos, negros, e mestiços. – Foram aqueles trabalhadores responsáveis pela criação dos clubes carnavalescos em rechaço aos preconceitos, inclusive religiosos da época. Clubes que terminaram por fazer partícipes as elites econômicas e intelectuais do Estado.

Já o nosso frevo, teve sua origem entre os negros capoeiristas. – Eles tiveram papéis importantes na configuração do frevo porque eram descomprometidos com as manobras do dobrado, do xaxado, do lundum e das marchas militares tocadas pelas bandas marciais criadoras do andamento e do ritmo do frevo. Quando passaram a interagir com o tal frenético som, criaram passos, os “passos” que representam a dança que é a expressão máxima do nosso carnaval.

Mas, a história do carnaval infelizmente hoje é outra. – Hoje no país, ele passa pelo show bizz, pelas mostras afro, e chega ao carnaval eletrônico dos trios elétricos, somente comerciais, descaracterizando-o da manifestação popular que lhe deu origem, porque industrializando-o, objetivam apenas o lucro municiado pelo consumismo e pelo imediatismo em detrimento da cultura genuína e democrática dele.

Aqui o institucionalizaram. Para isto, tiraram-lhe a coroa, e inventaram-lhe um codinome, passando a chamá-lo de multicultural! – Esqueceram que o frevo com mais de cem anos merece o reinado de apenas quatro dias por ano somente para ele; que misturá-lo a outros ritmos senão os que lhe definem, não é outra coisa senão desatino, senão ganância; que substituí-lo em pólos absolutamente dispensáveis, de animação, permitindo que os outros tantos ritmos que têm anos inteiros para serem tocados, mostrados, cantados, se apropriem e se locupletem dele, é, portanto, no mínimo dispensável. Ainda, esqueceram do que disse Tolstoi, com a maior propriedade: “se queres ser universal, cantas bem a tua aldeia!"

Insisto ainda em dizer que o que caracterizou o nosso carnaval o fazendo único no Brasil, e realmente emanado do povo em sua raiz, foram os frevos de rua, com seus metais; de bloco, com paus e cordas; de canção, feito para cantar; de salão que são marchinhas mais animadas para dançar, e o frevo rasgado, de competição, para ser somente tocado. – Foram deles que vieram contemporâneos os maracatus, os bumbas meu boi, os caboclos de lança, as troças de sujos, e mais todos os clubes e demais blocos carnavalescos, e a legítima história de luta e resistência expressada entre povo, frevo e carnaval, tão singulares e sérios em seus propósitos, e que hoje, em grande parte, penam por estarem sendo alijados com a intromissão abusiva dos ritmos estrangeiros, ameaçando-os de em breve deixarem de ser o que sempre foram para nossos afetos e memórias.

Os investimentos públicos para o período são altíssimos. Mas, poucos, muito poucos são eles para a manutenção do nosso Carnaval de Pernambuco (é melhor chamá-lo apenas assim), por conta das fortunas para manterem-se os chamados pólos de animação para artistas e músicas invasoras que não lhe dizem respeito.

A quem interessa a descaracterização do carnaval de Pernambuco? A quem interessa abafar as nossas tradições incentivando quem já tem mercado o ano inteiro? Qual o fundamento para feri-lo quase de morte transformando-o num festival qualquer, aos milhares, que já existem país a fora? Por que cercear o humor, a crítica e a dança do povo, características do período, e ainda nos enfiar os “Calipsos” da vida carnaval abaixo? Por que não se convidam para os tais pólos de animação os Papangús de Bezerros, os Caretas de Triunfo, os Clubes de Carpina, de Vitória, os Maracatus de baque solto e virado da Mata Norte, o Pintombeiras dos Quatro Cantos, o Vassourinhas, o Lili, o Grito da Véia, o Bloco da Saudade, os Tambores Silenciosos, o Bloco das Ilusões, e tantos outros, subvencionando-lhes, para ouvir o que cada um tem a dizer mantendo o intercâmbio legitimamente cultural do carnaval de Pernambuco? Por que o Boi de Parintins vem para Olinda e o nosso Bumba Meu Boi não vai para lugar nenhum? Por que trios elétricos no carnaval de Olinda?

Por favor, que alguém me responda somente essas perguntas. A mim, ao povo, à arte popular, à cultura desse Estado, e aos seus fazedores. – A indignação com o expatrio do frevo, a vulgarização e banalização do carnaval pernambucano, e a célere marcha com que os vemos indo para a vala comum é grande. E é de muita gente. 

Artigo publicado no Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2011. - Transcrito para os Anais da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco.


NEO CIVILIZAÇÃO OU CAOS. 

A tradição do meu núcleo familiar desde muito cedo me atribuiu compromissos enquanto indivíduo. Assim é que desde muito tempo sou responsável pela minha vida, por escrevê-la de forma decente, e vivê-la como mulher e cidadã comprometida com o humanismo, e com os meus afetos. – Tarefa que não tem sido fácil, por me impor uma lucidez nada terna, ou compassiva. 

Reconheço, por isto, que o meu exercício existencial tem sido doloroso, porquanto psicanalítico, conseqüência de uma busca desenfreada por entender a minha alma, e a trajetória humana, e o que temos feito delas ao longo de nossa estada por estes rincões terrestres. – Por vezes, tenho me desesperado. 

Agora, encontro-me de frente com a intimidação que para mim significam as eleições em nosso país. Primeiro por conta de uma democracia incipiente, frágil, que se considera “correndo riscos” ao se confrontar com o humor! Segundo por conta de propostas desleais, porque demagógicas, características do período. Terceiro porque temos um eleitorado ainda despreparado, pois que lhe falta visão crítica de uma realidade em mudança, que ainda precisa ser consumada, definitivamente, até nos levar a ser um país melhor. – Sendo que para isto as implicações são inúmeras e também muito difíceis. Quarto, porque, por incrível que pareça ainda se insiste por usar as premissas do machismo e do príncipe Maquiavel, como se elas não tivessem contribuído para as dificuldades maiores impostas à humanidade. 

Pergunto-me o que uma pessoa atilada pode fazer numa hora dessas. – Entrego-me, então, a uma reflexão que me leva a questionar quando será que a maioria de todos os organismos, e instancias de poder, vão compreender que ou se para, se reconhece que o capitalismo, e o socialismo definitivamente não nos levaram à felicidade, e que por isto é necessário aceitar e compreender as propostas de Riana Eisler, ou então, vamos naufragar juntos com o futuro. 

A proposta dela, historiadora, advogada, e socióloga nascida em Viena, hoje residente nos Estados Unidos, sendo a única mulher aceita entre os vinte mais importantes pensadores, tais como Hegel, Adam Smith, Marx e Toynbee, é também a minha. – Ela que me perdoe a pretensão! – Mas porque a compreendi, e ao seu pensamento, é que me apropriei dele para conseguir colocar os pontos nos “is” do que eu mesma penso, e já pensava. – Uma civilização neo-humanista. Uma civilização que troque a informação pela sabedoria, ou seja: que pense o futuro sobre a ótica e a ética da inclusão integrando a inteligência com a educação de paz e de não violência, inspirada na parceria homem/mulher, na sustentabilidade ecológica, e na espiritualidade do planeta para que se chegue à contribuição científica e espiritual como base do conhecimento da humanidade. – Valores que nada têm a ver com o que se vem praticando desde que o ser humano abandonou sua condição de nômade se aglomerando em agrupamentos que se tornaram somente econômicos. 

Isso pode parecer um soco no estômago, e é. São as tais implicações que considero difíceis, porque abrir mão do poder para transformar e qualificar a vida humana requer entre outras a grandeza somente existente no desenvolvimento espiritual, que os detentores dele nem de longe se importam. 

Minha esperança então se volta para a eleição de uma mulher que tenha sobrevivido aos desmandos do poder autoritário, e que espero o desempenhe a partir do próximo ano, femininamente, porque ela, como todas nós, guarda os mistérios insondáveis porquanto deusas que somos desde os tempos primordiais, assim como o poder preexistente, que nos fez e faz mães, ao mesmo tempo vorazes, naquele que não teve início, nem terá fim, porque existe na unidade. – Vou pagar para ver se tenho razão. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2010. 


O MEU VOTO. 

Perdoem-me, mas estou indignada! Como podemos falar em transformação e desenvolvimento econômico, social, e humano nesse país, se em plena campanha eleitoral para Presidente da República ainda estamos arraigados a uma das piores doenças da humanidade que é o preconceito, hoje somente comparável à super bactéria, porque até o HIV já está controlado? – Será que as pessoas não entendem que suas vidas dependem da classe política, e que a mesma não deve ser vista personalizando-se candidatos, mas sim, discutindo-se seus projetos, compromissos, e intenções para a maioria? E por que não se têm mais responsabilidade com o direito de votar?

A democracia nos permite quase tudo. Os limites estão somente impostos à questão do respeito. Ela permite-nos criticar, apoiar, escolher. Permite-nos também votar, que significa o direito sagrado de escolher o nosso representante, e a partir dele, o nosso futuro. – Votar não significa brincar, agredir, desrespeitar, sacrificar. Não significa não se ter responsabilidades. Não significa ter preconceitos contra quem quer que seja, porque a palavra escolher trás em si, a possibilidade de se eleger propostas, valores, e conceitos que tenham a ver com cada um de nós, e com a sociedade, por isso, constitucionalmente, escolhemos em quem votar. – O melhor: ela nós dá também o direito de trocar os nossos eleitos se eles não corresponderem aos nossos anseios enquanto povo.

Estamos indo já, já para o segundo turno das eleições presidenciais. – Embora o voto de cada pessoa possa, e até deva ser secreto, em minha vida, gosto de assumir o que faço e o que escolho fazer. Dou-me então, ao direito de declarar, definitivamente que o meu voto, foi, e é da senhora Dilma Rousseff.

Naturalmente que como toda pessoa contemporânea, dependo hoje, sistematicamente do computador. Através dele trabalho, recebo e envio mensagens, jogo buraco, faço pesquisas, me comunico com meus amigos e amigas pelas redes sociais. Ainda nele, e com ele, aprendo. – Pois é...

Faz mais de um ano, enquanto não se falava ainda nem em eleição, muito menos em candidatos, que eu venho recebendo milhares de mensagens por dia, pelo meu e-mail, destratando, literalmente, a candidata Dilma Rousseff, numa avalanche de calúnias e agressões, num nível, e numa quantidade que considero somente pertinentes aos extremamente doentes, fixados, inconsistentes ideológicos, desconhecedores da história do país. – Sem brincadeira, um abuso! Um desrespeito à inteligência de qualquer um; à minha consciência política, aos meus valores de mulher e de cidadã. Imagino o mesmo sintam milhares de outras mulheres, e os homens de bem.

A senhora Dilma Russeff não teria chegado aonde chegou se não tivesse tido a vida que teve; que a ensinou, a fez forte, capaz, e à qual ela não esconde, ou renegou, como fazem outros que como ela, viveu a mesma época, e se insurgiu contra os infortúnios do período militar em plena juventude; juventude esta que nos deu, e dar a todos, o ímpeto que lhe é peculiar. – Não! Ela se reconhece com erros e acertos. Mas, se reconhece, também, capaz de se dedicar a uma causa maior que é a de continuar a transformação que esse país precisa e vem vivendo, e para a qual de várias formas ela contribuiu após quase quinhentos anos de manipulação da nação pelos interesses nos quais não cabiam a miséria brasileira. – Nem tentativas de minorar desigualdades entre as demais regiões, e o Norte e Nordeste.

A senhora Dilma Rousseff é hoje, na minha ótica, a única candidata crível de continuar o que o Presidente Lula vem fazendo por nós enquanto nação, cujos números, em todos os campos, não me deixam mentir. – Ela não é, nem está comprometida com São Paulo, metrópole da qual nos orgulhamos, mas que precisa de ajuda federal bem menos que nós nortistas, e nordestinos; ela não representa o empresariado sulista, ou do centro sul, nem os banqueiros daquelas regiões; ela é apenas uma mulher que teve coragem de viver a própria vida e conquistar o próprio destino, nele o apoio do Presidente, e de com ele se comprometer, por isso, voto nela, que talvez seja mesmo uma grande ameaça para os que não se conformam com as mudanças, e são avalistas de um passado comandado pela política elitista feita aqui até oito anos atrás.

E... “puxando a brasa para minha sardinha”, ainda tem outra: ela é mulher, e não é burra.

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2010


NÃO POSSO FAZER NADA! 

Algumas vezes penso que as pessoas são más. Elas querem, porque querem que eu seja triste. Acho que me consideram enfadonha, ou pelo menos vivendo num mundo não reconhecido por elas. Já ouvi críticas ao meu estilo, aos meus livros, ao que penso, e até à minha forma de viver. Há quem ache que sou romântica, e sou mesmo. Há quem ache que sou utópica; também sou. E há no meio de muitos, quem ache que sou violenta, ou mesmo agressiva por não abrir mão de minhas verdades – e olhe que não é das delas, ou das dos outros, das minhas!

Tudo bem, porque quem tem cabeça a usa como quer, desde para dividir orelhas, até para pensar o que quiser. O mesmo para quem tem boca. – Agora, querer que eu aceite e compactue com a hipocrisia, que a cada dia mais adoece este planeta, é impossível. Também querer que eu abra mão de mim mesma, dos meus valores, da minha honestidade, diante de mim, ou mesmo da minha força, que é criativa e operante, o que considero um dom, para ser “boazinha”, e conivente com o moralismo também doente, que têm instalado em seus corações; estou fora!

Acredito que somos conseqüências do que recebemos de nossos pais e mães. Freud continua tendo razão, e a genética também. Sem falar nas heranças espirituais, pelo menos para quem acredita numa existência além, e após a vida, como eu. – Porque, quem, como eu, viveu uma vida familiar de liberdade, verdade e amor, sinceramente, não tem repressões, ou maldades, ou mesmo outros sentimentos menos nobres para despejar mundo afora. Por isto, sou verdadeira, para além do que devesse ser... Talvez!

A verdade eu sei que dói, mas que dói bem menos que a mentira, a falsidade e a traição, eu tenho certeza. Assim é que sou feliz. Muito feliz por que autora de minha vida, de minha vontade, de meus sonhos e fantasias, que venho paulatinamente realizando, uma por uma, e por isto, não vou deixar de ser como sou. Nunca.

Naturalmente que sendo como sou, eu sei, surpreendo algumas pessoas. Muito mais se elas ainda estão apegadas a valores materiais e morais, que não as compromete por ousar, inovar, transgredir, ou melhorar a si mesmas, ou ao seu entorno. – Não. Eu não consigo ser como elas.

Ajo mesmo como um trator, em se tratando de minha vida existencial. Luto e enfrento a favor de tudo que acredito. Uso minha inteligência emocional também para superar dificuldades, e encontrar saídas. É a forma que tenho para alimentar minha enorme capacidade de recuperação. Não economizo nada que me seja possível fazer pelo que sou, e quero, se acredito. – Não reconheço forças superiores que possam evitar as minhas, porque tudo que faço, faço por tesão, por mim, e pelos meus. E... Apesar de ser tão forte, como diz a maioria, sou absolutamente frágil quando se trata dos meus amores. – Ah, contra eles, viro uma fera!

Nada do que sou, no entanto, me tira a visão crítica de nada, nem do mundo, do meu país, ou Estado. – Gosto, e sei de política, tanto quanto sei de futebol. Gosto e sei de artes plásticas, uma das minhas paixões, tanto quanto sei de literatura, de cinema, de teatro, de dança, de viagens. Adoro todos. Aliás, eu adoro mesmo é viver! – Tenho amigos e amigas, e principalmente os meus amores, que me dão razão e me acalentam os devaneios, e ainda pegam no pesado comigo! São eles, que me autorizam a coragem de ser quem sou. – Juntos, escolhemos caminhos menos dolorosos, porque somos cúmplices.

Claro que conheço os desmandos que os Poderes Institucionais impõem aos povos. Claro que sei o quanto as Igrejas corroem os juízos menos favorecidos. E é claro que sei também, que a fome, a miséria, a violência, o analfabetismo e as drogas são resultado de políticas demagógicas e caóticas, produzidas de forma a alimentar indústrias, e a indústria da guerra. Sei de tudo isto, e tanto me incomoda saber, que escolhi a fraternidade e a verdade, como meus lemas de vida. – Não obstante, nada, e nenhuma dessas coisas, tiram-me o otimismo, muito menos, o desejo de tentar mudá-las. É o único meio que me justifica viver contra as marés.

Há ainda, quem me considere individualista. Não sou, mas sou sob alguma ótica! Até porque me dou direito à extravagância de quebrar paradigmas, de acreditar e respeitar as liberdades individuais, as diferenças, e nas possibilidades que são capazes de mudar a realidade. Acredito na ampliação da consciência, e não permito que o pensamento clássico, me leve a lugar nenhum. Não! – Sou capaz de não acreditar que toda idéia é criativa, pelo menos aquelas que reconhecem a tragédia, e a piedade como fins em si mesmas; e que ainda permitem a alguns, se locupletarem dos papéis, cômodos, das vítimas.

Sabe Deus, o quanto devo estar sendo chata pensando e dizendo aqui sobre mim, que não interessa a ninguém, eu sei! Mas, é que eu precisava. As pressões de toda ordem são tantas, que eu não quero que elas me influenciem, ou me amargurem. Por isto esta cartaze, este desabafo. – Desculpem os que me lêem agora, os que não me conhecem, nem aos meus textos, porque eu cultuo a transparência, exatamente como a verdade, como já disse, e quando penso assim, digo, e me exponho, estou confiando que o meu leitor ou leitora, são meus amigos, e amigas. Solidários como eu.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, 16.05.008 
(Somente publicado aqui)


COLEGAS: VAMOS À LUTA! 

Já fazia um tempinho que eu procurava por um espaço na minha vida, na minha cabeça, no meu trabalho, para dar uma parada e vir escrever o que anda me incomodando.

Tenho observado e não é de hoje, claro, que nós, os artistas de um modo geral, precisamos ser entendidos e aceitos uns pelos outros como se não nos faltasse a mãe, incondicionalmente, porque nós mesmos não nos entendemos, não nos reconhecemos, não nos damos valor. – Naturalmente que acho há nisso um componente humano, talvez de infantilidade, de imaturidade, insegurança. Mas, me vem parecendo que sermos portadores, ou portadoras do dom artístico, é que é o grande problema!

Problema no sentido mais amplo, mais matemático do termo! Problema que não conseguimos equacionar, não permitindo que nos vejamos no outro, nem o outro em nós; problema que nos faz não encontrar saídas; não usar nem o mínimo de nossa inteligência emocional. – Não temos tido a menor capacidade de reconhecer que a realidade existe, e que os universos do sonho e da fantasia são apenas para fantasiar. - Não adiantam concorrências.

Assim, entramos para dentro de nós próprios, e nos entregamos ao enorme mundo da frustração que somente nos torna banais, iguais em lamentações, iguais nos cantos fúnebres, iguais em não conseguirmos criar o futuro, nem as possibilidades econômicas que nos façam sobreviver decentemente como cidadãos satisfeitos com o nosso fazer. – Com o fazer artístico que foi sagrado ao longo dos tempos, pelos Deuses e pela humanidade, e em cujas funções eram as ousadias e as ironias que mudavam o mundo.

Hoje, acho, está a grande maioria de nós, oferecidos à comiseração, nos permitindo quase a fazer somente a arte menor, a “low art”, para agradar o mercado, perdendo os caminhos da libertação.
Temos lutado, cotidianamente, pela autopromoção, sem o comprometimento na formação de uma platéia, seja de colecionadores, leitores, ouvintes, como se fossemos apenas seres comuns! – Perdemos a capacidade de agir politicamente, de nos mobilizar para encontrar saídas, como que conformados com migalhas. Como se nossas auto-estimas não existissem mais.

Tal atitude vem tornando desacreditado o mercado e os que fomentam a cadeia consumidora, as galerias de arte, as livrarias, os promotores culturais, que com a gente têm convivido com certo desprezo, como se fizessem favor em nos vender, colecionar, divulgar. Justamente porque não estamos nos reconhecendo matérias prima da cultura capazes de abrolhar e disseminar, e dos lucros que somos capazes de aferir, muito mais num país como este celeiro de grandes criações, e criadores, e tão necessitado da produção de todos nós.

Assim vamos deixando que lucrem os que nos menosprezam, acreditando numa demagogia acobertada por tendas, por refletores e por espaços, e gôndolas montados, todos, de forma estética, e competente cientificamente pela “ciência do consumo”, somente para nos cobrar cinqüenta por cento, muitas vezes mais, de tudo que criamos. Só não nos trazem platéia e público que nos admire e nos consuma. – Porque é deles a responsabilidade de formar tal contingente de pessoas, embora, que com a cobrança efetiva levada como ação, coletiva e política, até às últimas conseqüências, como quem requer o respeito devido, enquanto artistas e cidadãos e cidadãs que somos. Porque se assim não fizermos, permaneceremos somente egos, sofridos e sós, sem platéia e sem valor, calados, porque fora isso estarão apenas nos condenando ao ostracismo, e da nossa arte. Ou então, nos permitindo a buscar através das leis de incentivo à cultura, ou aos projetos inventados pela burocracia, o superfaturamento, o desespero da não captação de recursos, para continuarmos nos confins do mundo das fantasias, fugindo para onde não tem saída, e com as sobrevivências mental, intelectual e criativa, a perigo. – Uma pena.! Porque se sabe que o confronto é urgente e preciso. Amigos: vamos nos unir e lutar. Precisamos mudar o que está imposto!

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, 05.09.2008
(Somente publicado aqui)


VERGONHA UNIVERSAL.

Quando éramos pequenos, e havia qualquer desconforto por qualquer motivo entre nós crianças, e quando tínhamos razão, reivindicávamos nossos direitos em função daqueles arranca-rabos, dizendo: eu sou gente de cara e dente e nariz prá frente... – Hoje me dou conta de que esta afirmativa, mesmo incipiente, e inconsciente, já significava o reconhecimento de nós mesmos enquanto seres humanos, e dos nossos direitos enquanto tais.

O tempo passou. Trouxe-nos leis universais de direitos humanos, e nelas determinações para que o nosso comportamento nos levasse à paz, à “moralização”, e harmonização entre nós, fazendo-nos lembrar que gente, é gente, e que para sê-lo, não podemos ter apenas caras e dentes, e narizes prá frente!

Embora nenhuma delas seja textual quanto ao relativismo cultural, as suas consignações são no sentido de serem respeitados todos os aspectos do multiculturalismo; no entanto, respeitá-los, em muitos casos, nos faz incidir em silêncios violentos, e insultos contra nós mesmos, e à nossa espécie, nos levando a ser, se calados, co-autores de crimes contra a humanidade.

A reverência imposta à condição cultural de cada país permite a muitos deles um isolamento cômodo com a ausência da intercessão internacional quando isto deveria ser considerado impossível, pois que tal fato permite a eles, a aplicação de sanções ou penas, para muito além do necessário ao seu próprio povo.

O banimento da comunidade internacional ante os episódios grotescos e desumanamente inconcebíveis como os que vimos assistindo há bastante tempo em muitos países, impele a nos tornar uma platéia senão de lobos, de portadores de uma síndrome de adaptação (o que vem a ser muito pior), diante das tantas ferrenhas barbáries cometidas, porque causas do aviltamento moral, físico, da alma, do ser; quando o que deveria, era já se ter inventado um jeito de interferência legal a favor do respeito à interioridade, à integridade, à liberdade, e à diversidade do ser humano, porque ser humano é. – Este o grande desafio.

Fala-se em mundo globalizado. Fala-se em tratados de paz, mas como não se encontrou ainda, o tal meio de intervir a favor dos verdadeiros direitos quanto à natureza humana, naturalmente que enquanto isto se fortalece discriminações, racismo silencioso ou não, e desigualdades. Principalmente contra as mulheres.

Claro que hoje nenhum país deveria se furtar à intercessão de apelos internacionais quando passa dos limites. – Haja vista os últimos acontecimentos no Irã, que determina apedrejar até a morte uma mulher, por um “crime” presumido de adultério, ou prostituição. Ou mesmo, por uma confissão de tentativa de homicídio, dada sob tortura, e aos homossexuais de qualquer gênero. – E o caso das mulheres que têm os clitóris extraídos na África; e os bebes do gênero feminino na China, jogados à morte, pelo aborto ou não, ou pelo excesso de população; ou os tantos casamentos com mais de uma mulher por presidentes, príncipes, reis, ou ricos, por aí a fora? – Então, não cabe calar. Incumbe perguntar que leis universais de direitos humanos são estas que não coíbem semelhantes absurdos? Ou em nome de que, e de quem, eles acontecem? Dos costumes, ou valores morais? Como? – Será que não se vai ter jamais a consciência de que somos unos entre nós, e com a natureza, e que é próprio de nós, virtudes e defeitos?

O que estar aí estabelecido é uma instituição de vergonha universal, porque descabidamente responsável pela insensibilidade de medidas que insultam a condição humana, e que instigam a ausência de confronto positivo, e de diálogo. – Até no Brasil, onde, e apesar do avanço da lei Maria da Penha, 66% dos crimes, e violências, são contra as mulheres. Embora os homens morram mais! – O que se deveria impor, mundialmente, era a paz e o respeito por todos os direitos humanos, indistintamente. E ainda, se reconhecer que o século XXI, nos oferece a possibilidade de resistir, e ter esperança. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2010


VIOLÊNCIA DA MULHER CONTRA A MULHER.


Historicamente, a maior delas é o machismo, sem dúvida. Exatamente ele, que se exacerba em dias como os de hoje, chegando a materializar-se das mais variadas, requintadas, e sofisticadas formas. Formas que vão de uma tentativa de sedução barata e, por vezes, com cara inocente, até um assédio moral, uma facada, ou um tiro! Normalmente disparado por alguém cujo instinto bestial não sossega enquanto não estiver satisfeito, dando inclusive uma passada antes, e sempre, pelas traições masculinas cotidianas, sorrateiras, aceitas por elas – e pela sociedade – cheias de hipocrisia e desvelo pelo falso moralismo, imposto há milênios por quem determina que só a morte separe homens e mulheres casados, resumindo tudo à propriedade, cuja ausência da consciência feminista, também é companheira.

O pior de tudo é que as mulheres de hoje, ou pelo menos uma grande parte delas, são coniventes com a violência, na medida em que não questionam o que vive, e ainda trocam qualquer tentativa de mudança pelos carros do ano, seus motoristas, e pelos apartamentos de coberturas que têm, ou almejam ter, como se na vida somente eles valessem a pena.

As mulheres às quais me refiro, são co-autoras de todos os crimes praticados contra as outras. Não se apiedam, nem discutem o que acontece às de sua espécie, que se perdem sob maustratos, dependências, desrespeitos, ameaças, e tudo mais, porque ou não tiveram a oportunidade de se educar, ou não quiseram, se entregando à crença e à obediência a seus “donos”, tão despreparados quanto elas. Para, no fim, não dar em nada! – São consequências descabidas, pela ausência de visão crítica e pela formação calcada no desejo desperto pelas histórias de Charles Perreault, demais autores e autoras de contos de fadas (desde o século XVII), que as ensinaram a esperar o príncipe encantado, trazendo-lhes sapatinhos de cristal, de preferência, sem os quais nenhuma delas teria, ou têm, razão de existir. – Histórias tais que enfraqueceram o feminismo, fortalecendo o feudalismo e o machismo, próprios daquela época, condenando-as, até agora, à humildade, à subserviência, e ao propalado complexo de Cinderela, que elas se aceitam como portadoras absolutas.

As mulheres que trocam a própria vida, a independência e a liberdade de espírito, pelo status material e social, são cúmplices de todos os crimes contra nós, e co-participantes das estatísticas que desvelam e amontoam os números
da violência do dia a dia, atualizando-os, porque podem dar-se ao luxo de não se preocuparem com eles! Não sabem que a primeira arma de defesa da mulher é a consciência dos seus direitos.

São elas que, por tudo isto, enchem de pernas os palácios do consumo como a se vingarem dos maridos e do pequeno espaço dentro delas para conviverem com elas mesmas, das suas incompetências por não mudarem, e criarem um mundo novo, por não se darem menos oportunidades de conviverem com as mentiras permanentes dentro de seus casamentos simulados, sendo sim, infelizes, porque não entendem que bem próximo do amor estar o ódio... E haja, ainda, com avidez, a discussão sobre as vidas alheias como acobertando as suas próprias, a inconsciência da dor, e das suas iguais, cuja frustração resolvem com plásticas faciais, corporais, e não sei mais o quê, nas tantas fugas nas quais buscam a si, sem a menor possibilidade do encontro. Uma pena!

Também não lêem, não ampliam seus níveis de compreensão, não meditam, não amadurecem. Compram. Não enfrentam, ou rompem com a hipocrisia. E se referem criticando àquelas que como num exercício circense, rodam suas bolsas pelas calçadas das noites vazias mundo afora, porque sempre têm filhos, ou alguém mais para sustentar, como se os endereços chiques fizessem
a diferença, que não há entre elas.

E assim, vai-se rolando a vida, sem a barriga, naturalmente, porque as lipoaspirações já as deram fim, apenas não as transformando em alguém melhor, ou mais comprometida com a verdade, a decência e a lealdade por si próprias, e pela outra. Do mesmo modo, permanecem produzindo maus exemplos, esperando que seus filhos e filhas repitam o modelo surrado do cinismo que insistem em alimentar. Infelizmente! 

Praia da Piedade - Jaboatão dos Guararapes, PE.  
18.10. 2009 - Para a Antologia REBRA "Show de Talentos em Prosa e Verso" - 2010.


É TEMPO DE SABER DO TEMPO.
 

O tempo é sabido que só ele. Passa por entre gerações permeando vidas, condenando à morte, enquanto não se deixa faltar a si mesmo.

Ele é vaidoso e por vezes, parece volúvel ou ineficaz. Parece e aparece com preguiça quando quer, ou passa rápido, sabendo-se detentor de um poder ilimitado que o faz senhor de tudo. Senhor inclusive da teimosia, sem falar que é por isto autoritário, dominador, possessivo, e até egocêntrico e egoísta. Consegue até diminuir distâncias! Por ser assim, nos impõe e nos resgata paixões, saúde, saudades, amizades. – Vida, não sei!

Contudo, ele ainda é péssimo quando temos consciência dele, do seu cruzar! Pior ainda quando o vemos entrar em conluio com o destino para juntos fazerem complôs contra nossos desejos, sempre que lhes apraz. – Mesmo assim, convenhamos, ele é na medida exata. É também generoso, maravilhoso, quando nos deixa envelhecer.

Falando sobre sua importância em nossas vidas, se olharmos a sua atuação no campo das artes, onde se realizam as maiores traduções de nós mesmos, principalmente porque me recuso a outras, ele faz o ecológico trabalho de análise crítica de tudo que se criou ou produziu quando é hora de perpetuar para a história. Somente ele determina o que fica, ou não fica para ser lido, visto, contado, cantado, pintado. – Cumpre bem o seu papel de consagrar quem merece.

Para isto ele usa outras das suas possibilidades, que é o dom de reconhecer que a criação artística depende da qualidade da inspiração, dos sonhos, dos amores vividos, das lágrimas derramadas, dos medos frios e audazes, da intimidação das dores, e da responsabilidade de cada artista de se entregar por inteiro a cada letra escrita, notas ou pinceladas dadas. – Não nos perdoa o suor não derramado; que não ampliemos nossos níveis de consciência, muito menos, que não vivamos com responsabilidade.

Precisamos e devemos estar em permanente estado de alerta; como quem está de castigo, como estamos hoje em todo o planeta, sabe? – Ou nos tocamos, ou morremos. Só isto! Porque, ao fazermos uma breve reflexão, fica claro que estamos nos especializando em sermos armas. Armas tão letais, quanto às químicas, as nucleares, ou mesmo as “analógicas”. Apenas um pouco menos trágicos, porque vimos exterminando a vida no planeta, ao longo de milênios, como quem mata e por cima esquarteja, com a lentidão, e perfeição de um masoquista! Ou mesmo, com a avidez dos que não se dão tempo para serem honestos.

Não me lembro de nenhuma história do passado nas quais nossos ancestrais pagassem pela água que bebiam. Também, não sei de nenhuma história daqueles tempos, onde os legumes, as verduras ou as carnes fossem capazes de no lugar de alimentar, intoxicar. Imagine... Não me lembro mesmo, de nenhuma história em que o ar que se respirava, não fosse absolutamente saudável. Quanto às águas dos mares que hoje são mais uma ameaça, antes inspiravam poetas. As geleiras enfeitavam fotos, e se desenhavam com extremo encanto, como quem namorava a natureza. As matas? Ah, estas eram as que abrigavam riquíssima biodiversidade, numa silenciosa e bela permanência, e os meios delas.

Mas, não tem problema: Ele permanece aí, e já se nos deu tempo demais! Portanto: a consciência "ruge", e... “a Sapucaí é grande!”

Praia da Piedade – Jaboatão dos Guararapes.
27.05.2009 – Para a Antologia O PLANETA FEITO QUINTAL - Coordenação Lourdes Nicácio e Silva; Lúcio Ferreira, e Telma de Figueiredo Brilhante - Editora Novo Horizonte, PE. 


O SILÊNCIO DE DEUS.


Ouço o silêncio de Deus no grito pleno do orgasmo, na alegria da fome saciada do miserável, na esperança das assinaturas nos tratados de paz; na flor que abre, e na que dorme ao entardecer.

Ouço o silêncio de Deus, todas as vezes que converso com meu filho; quando o sol renasce às seis horas da manhã presenteando aos seres vivos a energia cósmica para que sobrevivam; onde os pássaros fazem seus ninhos, e quando ensino algo a alguém. Ou aprendo.

Ouvir o silêncio é tê-lo na alma, apesar do burburinho cotidiano. Ele é a dádiva de ser o contato consigo próprio, e de se saber alargar-se no outro. É o saber calar no sentimento, os sentimentos de angústia, e tristeza, reconhecendo que viver é bom, mesmo quando tudo está muito ruim. – Ele está na humildade consciente, no desejo irreversível de superar limites, e na ousadia de estraçalhar hipocrisias. Está também no reconhecimento da diversidade, e no afeto pelo meu gatinho de estimação.

Ouço-o sempre, numa música que gosto, na “cachaça” que tomo com meus amigos, no respeito que tenho pela natureza, no som do mar que acalenta a minha solitude; e em todas as possibilidades que os dias, e as noites trazem. Além disso, quando rezo enquanto dirijo, e no trabalho que faço porque gosto, e acredito nele, como meios de promover cidadania.

Até a tecnologia aproxima-me dele. Nos teclados que estão tão suaves que não parecem tocados; nas máquinas de fazer exames que o requerem, e à concentração, para receberem dele, saídas, leituras, e curas. – Embora que Deus meramente a assista, pois que a usada por ele, não requer contestação, ou melhoramentos, desde que vem da unidade do universo.

O silencio de Deus, está num barulho, ensurdecedor, que só a consciência percebe. Ele é fugaz ou incisivo; é sem alarde, mas definitivo. É ele que mobiliza encontros: os que vão para a cama, ou os que se transvertem em amizades; os que trocam ideologias, e os que trocam cinismos. Os que perdoam, e os que não perdoam, como todos os meus com meus amores.

Contudo, ele só não está durante cultos, ou cerimônias que mantêm a tradição do domínio, e a imposição do sacrifício. Também não está, onde não está a liberdade. Não está nas mentiras, muito menos onde estão todos os sentimentos inferiores. – O silêncio de Deus, simples, e definitivamente, está na capacidade que tenho de ouvi-lo, de senti-lo, aceitá-lo, e responder a ele, sendo apenas o que sou. 

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes - em 23.10.2009. Para Antologia "O SILÊNCIO DE DEUS" - Coordenada pelo Poeta Tarcísio Laureano dos Santos.


RESGATE DO ENTERRO. 

Alívio. É esta precisamente a palavra que explica o sentimento dos que fazem o Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. Uma equipe pequena, coesa, decidida a fazê-lo vivo a qualquer custo.

Levaram-nos uma das mais admiráveis pinturas do conjunto de obras do mestre Portinari. Não foi por omissão, ou negligência. Foi mesmo por acaso. – Acaso que já atacou o Louvre de Paris, que investiu contra o MASP de São Paulo, e assaltou há pouco, gravuras da Universidade Fluminense no Rio. – Infelizmente estamos expostos a vândalos como tais. São as circunstancias da vida. Como é da vida, receber tantos apoios durante os momentos de profunda tristeza enquanto durou o desaparecimento do quadro.

Eles foram muitos. Isentos. Responsáveis. Probos. Vieram de todas as instituições ligadas às artes, ciências, cultura, e letras, para nós do MAC, para a Polícia Civil de Pernambuco, para a Polícia Federal, a Polinter, e para toda a Imprensa. Vieram dos artistas de todas as manifestações; colecionadores, pesquisadores, estudiosos, e estudantes, amigos e amigas minhas, e do MAC. – Pessoas, sensíveis à obra de arte. Pessoas que sabem da importância, e do valor de conviver com ela, aprender, trocar, freqüentar, difundir. – Gostaria de poder abraçar, agora, a cada um, e agradecer do fundo do meu coração, em nome de todos nós. E ao governador Eduardo Campos, um dos primeiros a se solidarizar com a nossa perda, e porque não só estimulou como respeitou a polícia do nosso Estado, incentivando-a a com menos de trinta dias nos trazer de volta o que de tão valioso nos levaram.

Pode tudo isto parecer surrealismo, mas é realismo. Fantástico porque decorrente de uma violência sem par. – Ainda como disse minha amiga irmã Vera Brandão: levamos um susto que valeu para muitos alertas! – Como todo susto, é surrealista, ou pelo menos seu efeito, e como o surrealismo nos leva a pensar, desde a sua construção, ou desconstrução... Vale apena, pelo menos de vez em quando!

Naturalmente que não sou alucinada para não ver, ou ver ofuscada a realidade que nos cerca, e à cultura que produzimos. Bem sei o quanto não é priorizada porque esquecida como economia sem chaminé, geradora de recursos limpos, e, portanto, adequada ecologicamente; porque também inclui, porque não interessa à transformação social que possibilita a assunção à cidadania, porque precisa de subsídios, e porque não leva, ou trás, o voto fácil. Também, porque não há o costume de se respeitar pessoas que se dedicam ao que sabem e gostam de fazer o que fazem, mesmo com salários aviltantes. Para não falar nas faltas básicas. – Estas as nossas limitações.

Nossos potenciais estão no nosso trabalho. No nosso poder de poder, e saber fazer o que fazemos. – Gestão tem pouco a ver com teorias, dependendo fundamentalmente de se ter cultura, experiência, liderança, tempo de vida. – Está em reconhecer que as nossas instalações, embora deficientes, são um monumento do século XVII, uma apoteose à beleza, e à nossa história. Intacta, e bela; única prisão eclesiástica da história do Brasil, com o circuito de mostra museológica, e museográficamente pertinentes, com expografia das obras vistas e lidas facilmente. – Temos também uma Reserva Técnica, embora deficitária em tamanho, mas que mesmo assim, bem arrumada, funciona com os desumidificadores necessários, termo higrômetros, mapotecas para obras de papel, grades especialmente desenvolvidas guardando obras a tinta, toda lajeada, protegida contra fungos, cupins, e contra infiltrações, com forro de madeira, climatizada por sistema de ventilação natural, onde todas as obras estão adaptadas há exatos quarenta e três anos. – Sem falar, nos nossos programas educacionais, um deles concorrendo ao Prêmio Cultura Viva do MINC, o cine-clube, os encontros literários, os recitais de orquestras, biblioteca especializada, livraria com preços abaixo dos do mercado, e o acervo todo levantado, e registrado em novos livros de tombo. – Ainda, temos a convivência diária dos artistas, e das artistas plásticas, porque reconhecem o MAC como referência, e colaboram participando de tudo, desde o conselho curador, até a associação de amigos do Museu. Até em todas as festas.

Assim é que, se há males que vem para o bem, este foi um. Serviu para alertar, para agradecer, para confirmar competências, seriedade, e entregas que se confrontam com o pessimismo, e com o espírito crítico e pobre dos que não convivem com o MAC. – Também para esperar, e desejar que o povo de Pernambuco se aproprie mais e mais do que é seu, e é belo. 

Para o Jornal FOLHA DE PERNAMBUCO. Em 2010.


MUSEUS.
 

Em tempos de crise econômica mundial, esquentamento global, caos geral no planeta, o que falar sobre “indústrias” não poluentes que empregam e geram renda? E ainda que são consideradas como instituições dinâmicas que trabalham com o poder da memória como instâncias relevantes para o desenvolvimento das funções educativas e formativas? Além disto, como ferramentas adequadas para respeitarem a diversidade cultural e natural, construindo uma nova via de acesso ao futuro com mais justiça social, harmonia, solidariedade, liberdade, paz, dignidade e direitos humanos? – Estas são os Museus. 

Cada um deles, planeta afora, guarda suas identidades, seus objetivos, suas ideologias. Todos resguardam a memória que contou e contará a história da humanidade seja científica, natural, artística, sociológica, biológica, religiosa, ou fratricida, no caso dos Museus que conservam, ou dedicam seus trabalhos a contar das guerras, das armas, das mortes, entre outros. Todos com suas reservas técnicas a céu aberto, ou não, dedicados a discutir, mostrar, alertar e abrir novos caminhos para quem os visita. 

Houve épocas em que os Museus eram considerados, senão mortos, estanques, parados, no tempo e no espaço. – Idéia equivocada que vem de sempre para alguns.
Os Museus são espaços geralmente institucionais onde se desenvolve a relação específica do homem/sujeito com o bem cultural. 

Em uma definição de caráter operacional, o Conselho Internacional de Museus – ICON conceitua os Museus como "estabelecimentos permanentes, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberto ao público, que coleciona, conserva, pesquisa, comunica e exibe, para o estudo, a educação e o entretenimento a evidência material do homem e seu meio ambiente". – Nada mais atual, e definitivo. 

Por patrimônio cultural entende-se toda a produção humana de ordem emocional, intelectual, material e imaterial, independente de sua origem, época natureza ou aspectos formais, que propicie o conhecimento e a consciência do homem sobre si mesmo, e sobre o mundo que o rodeia. 

Esse conceito se conjuga com o próprio conceito de cultura entendida como um sistema interdependente e ordenado de atividades humanas na sua dinâmica, em que não se separam as condições do meio ambiente daquelas do fazer do homem; em que não se deve privilegiar o produto – habitação, templo, artefato, dança, canto, palavra, em detrimento das condições históricas, socioeconômicas, étnicas, e ecológicos em que tais produtos se encontram inseridos. 

Dito isto, fica claro que os Museus, que só em Pernambuco são mais de oitenta e seis, estão todos por aí cumprindo com suas obrigações e objetivos, embora que quase à míngua. O que lhes falta, desesperadamente, é uma política de governo que os respeite e valorize; que os incentive e os divulgue. Pois sem isto, não adianta falar em falta de estrutura, quando o caso é de falta de prioridade; não adianta falar em desinteresse, se o caso é de ignorância, pura e simples, porque ao povo não se diz que ele é detentor de tamanho patrimônio cultural, artístico e natural , e que por ele, guardamos. 

Também que o turismo, e quem dele trata, que não se obriga a se preocupar de vender um pouco mais que o sol, as frutas, e outras “coisas mais”, que levam a preocupações como o debelar do turismo sexual, que geralmente é mais dispendioso; muitas vezes doloroso, também. – O mesmo pode se dizer ao empresariado, que se mantêm sem a informação de que há quem lhes guarde a história, pois que não tem responsabilidade social, daí que não procuram participar, ou juntar o nome de suas empresas à instituições de cultura com a seriedade dos Museus. 

Há que se comparar sim, o tratamento dado aos Museus internacionais, principalmente aos dos países desenvolvidos, pois os nossos, como no caso do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, o segundo em importância na América Latina, estamos todos prontos, tanto quanto os demais, esperando apenas por adequações para nos equiparar a qualquer deles, por imperativo, porque absolutamente capazes de incluir, e de produzir melhor qualidade de vida. – Viver e vivê-los, se nos ensina algo, é que a cultura faz a diferença.

Encontro dos Chefes de Museus do Brasil, promovido pelo IPHAN, Brasília, DF - em 01 de abril de 2009 - Artigo para o JORNAL DO COMMERCIO de Pernambuco. Em 2008.


CARNAVAL MULTICULTURAL? 

Aproxima-se o maior movimento de resistência cultural de que se tem notícia na história da humanidade: o carnaval do Recife. Resistência própria de um povo que vem lutando há pelo menos quinhentos anos para sobreviver a portugueses, holandeses, e a todas as demais intempéries políticas, climáticas, econômicas e sociais próprias da região onde se localiza. Agora à Prefeitura do Recife e quem lhe guarda a cultura.

Há quase dez anos ela arranjou umas máscaras orientais, arredondas e de olhos puxados, senão tailandesas, para enfeitar a cidade no carnaval, exatamente como  este ano, em que os homenageados não se encontraram nela. Um horror! 

Ora pessoal: é preciso estar alerta e forte, mas ter medo, sim, da morte. Não há nenhuma lei que nos obrigue a engolir, de goela abaixo, a quase violência com que os governos vêm tratando a nossa cultura e o nosso carnaval, e nenhuma outra irresponsabilidade que nem estas, em qualquer que seja a área.

É preciso que eles e nós todos entendamos que a cultura vem dos costumes, da manutenção das tradições, do guardar, respeitar e valorizar o documento e o patrimônio, qualquer que sejam eles, e a manifestação popular, ou erudita, que sejam advindas da vontade, da criatividade e da ação popular. O mesmo acontecendo com a arte que nada mais é senão a interferência do homem na natureza. Mas, ambas para nos fazer pensar, alem de apenas consumi-las sem qualquer consciência, em detrimento da preservação delas.

Estamos festejando os cento e três anos do frevo que é pernambucano, e patrimônio cultural imaterial do país. Mas, a ele os governos não têm tido o menor respeito! Principalmente depois que inventaram de chamar o carnaval, e Pernambuco, de multiculturais. – Nenhum dos dois é multicultural a ponto de justificar absurdos. Que conversa é esta? Aliás, o que significa multicultural senão todas as nações do planeta, em todos os tempos, que abrigaram e abrigam a presença de imigrantes? E São Paulo, onde fica? Podemos nos comparar? – O que temos é uma imensa, bela e única riqueza cultural a partir de nossas manifestações populares, que diga-se de passagem, de tão democráticas não precisa de nenhuma interferência do poder público, senão para deixarem de ser populares. Isto é gravíssimo!

Imagine-se que a este carnaval “multicultural”, sem um sentido plausível, cujo reinado e alegria do frevo acontece somente por quatro dias durante o ano, há muito que resolveram impor os demais ritmos brasileiros, e os repertórios de Alcione, Elba Ramalho, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, do funk, do rock, do punk, do pagode, do bolero, da seresta, e de não sei mais o quê; para quê? E a que preços, quando se sabe que há ainda agremiações e artistas pernambucanos que não receberam o que lhes é devido desde o carnaval passado? O que tem estes tais repertórios e ritmos a ver com o frevo, ou com o Bloco da Saudade, com o Lili, com o Vassourinhas,  com o Galo (que este ano resolveram definitivamente torná-lo raquítico e faminto diante dos seus mais de dois milhões de seguidores), o Nós Sofre, o Siri, o Guaimum; com os Tambores Silenciosos, o Bloco do Nada, o Homem da Meia Noite, a Mulher do Dia, o Elefante, a Pitombeira? E com os Maracatus, os Caboclinhos, os de Lança, os Papangus, os Ursos?

Para se ter uma idéia da inconseqüência destas atitudes, para não dizer da falta de cultura e de sabedoria no priorizar dos nossos governantes, estes desmandos e alienistmos ao frevo este ano, nos anos passados, e futuros, porque deve interessar ao "caixa" não sei de quem, os convidados especiais, também por uma fortuna, chegaram ao carnaval de Olinda! – Então, e assim, o que será do nosso carnaval pernambucano com seus frevos de bloco, de rua e de salão, com seus clarins, e seus metais, seus tambores e seus maracatus, daqui a uma geração? – E a pernambucanidade tão exaltada onde fica? Deixamos de ser  "madeira de lei que o cupim não roi"? - Acho bom pensar. E cuidar.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes. Em 2010. Para o JORNAL DO COMERCIO de Pernambuco.



MINI CONTOS:


1 - FOI DEMAIS.

Exaustão. Sexta feira: um som, e um bom livro, nada mais! Chega um amigo. Choraria seu amor desfeito. Tirou os aparelhos auditivos, os postou sobre o armário. E... Sorrindo aumentou o som.

Praia da Piedade, Jaboatão do Guararapes. - em 18.10.2009


2 - VESTIDA DE LUZ.


Ele encontrou-a assim. Encante-me disse-lhe ela. Depois, ousados como num sonho deram-se as mãos e seguiram para transformar o mundo indigente em que viviam.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes - em 02.01.2010


POESIAS:


SOLIDÃO.


Nada mais triste.
Assistir de uma janela
A noite que não dorme.
Sozinho. 

Praia da Piedade, Jaboatão dos Gurarapes. - em 04.07.009


FLORES PARA FLORBELA 


Bela flor
Espanca no gesto
O desamor.
Flor bela
Bela flor
Espanca na dor
O desamor.
Flor bela
Bela flor
Espanca da perda
O destemor.
Flor bela
Bela flor
Espanca no vento
O desamor.
Bela flor
Florbela Espanca
Na morte
O maior gesto de amor.

Praia da Piedade – Jaboatão dos Guararapes, 11.10.2010 



LA VEM ELA. 


Nua
Como convém aos puros.
Alegre
Como convém aos anjos
Feliz
Como convém às fêmeas. 

Num domingo qualquer de maio de 2010,  Praia da Piedade - Jaboatão dos Guararapes, PE. 



DENTRO DE MIM SOU EU


Vive dentro de mim
Comprometida com o fato e a ficção
Uma mulher livre Sobre a tênue linha da fantasia

Escolheu-se sem laços
Sem amarras 
Mesmo de contrafeito

Sonha porque sem culpas
Alegria sente na magia de ser
Nariz sabe onde tem

Fêmea, forte Até quando a dor é de amor
Boêmia
Sensível às vozes dos anjos Aos sons de se tocar
Às cores, às flores, aos amores
Na vida... a coragem de lutar

Ao amante as asas de voejar.

Praia de Piedade, Jaboatão dos Guararapes, 20 de outubro de 2010. 



A MULHER NUA.


Uma mulher nua
Nua e louca
Caminhava
Quarto à varanda
Varanda ao Quarto
Sem parar
Sem pudor
Cabeça entregue
Desejo
Repetia
Eu me amo
Eu me aprovo
Eu tenho saúde
Eu sou feliz
Na minha vida
No meu corpo
Só fica o que for saúde
Felicidade
Sucesso
Continuava
Dia após dia
Teimosa
Nas muitas que era ela
Repetia
Anos passando
Firme como um mantra.
Uma mulher nua.
Nua e louca.
Via o sol nascer
Acompanhava-lhe o despontar
A primeira luz
Sorria
Sabia para onde ia
Pensando solto.
Flutuava de alma em alma.
Encontrando-se em sonhos
Com seus amores.
Uma mulher nua
Nua e louca
Como ela só
Não parava
Andava
Andava
Andava
Segura
Abria mão das dores
Espírito encapelado
Expandindo alegria
À sua frente
Horizonte verde.
Sem Fim
Cantava
Terna
Versos de amor
Nua e louca
Como ela só.

Praia da Piedade – Jaboatão dos Guararapes – em 23 de março de 2010. – 5:40 da manhã. 



TRIBUTO AO MEU AMOR

Sou tudo menos dor
Sou loucura, e devaneio
A cabeça de fogo e ar.
Sou alegria, ousadia, sou coragem
Sou o certo, o errado, o aloprado
Sou madeira de lei que cupim não roe.
Sou o rato que roeu a roupa do rei
Sou justiça, sou encontro
Sou o sim, o legado, a oração
Sou arma do bem, contra o mau
Sou vulcão, sou furação.
Sou do céu, da terra, do mar
Sou terra de ninguém
Sou doida de jogar pedra
Sou forte que nem o cão
Sou briguenta, sou terrível
Sou pior que chulé, mau-hálito, e comichão.
Sou amiga de verdade
Sou de fé, de entrega, inclusão
Sou sabedoria, juventude, alegria
Sou sensual, sou companheira
Sou chuva de estrelas no céu
No tributo ao meu amor.
Sou paciência de Jó
Sou santa, bruxa, alucinada
Sou veneno, sou espera
Incapaz de bater, e de cobrar
Sou frágil, sou perdão
Sou retidão, sou construção
Sou jaqueira, e fruta pão.
Sou mar revolto, sou calmaria
Sou areia quente, e fria
Sou vela que sopra prá longe
O gosto de fel, a mágoa, a solidão.
Sou o canto da ciranda
Sou frevo, maracatu e baião
Tenho raça pra mamar em onça
Sou livre, feia ou bela
Sou feliz por opção. 

Praia da Piedade -Jaboatão dos Guararapes. Em 04 .06.2006


OS ARTISTAS PERNAMBUCANOS.


Água até o pescoço e um conjunto de outras coisas desagradáveis: situação geográfica, artimanhas da natureza e maus-tratos públicos. Caos. – Ilhada, logo escolho um dos meus mais queridos destinos: pensar. Como agora que "viajo" sobre a predestinação dos artistas que são pessoas especiais que não se improvisam! Apercebo-me de que nada do que produzem deixa de estar antes em suas almas ancestrais; tudo lhes foge do banal e é construído a partir da inquietude de suas crenças. Para execução de seus projetos, dispõem de todos os insumos da criação, depositários dos dons divinos que são, e que lhes armam para lutar contra os desmandos de sua contemporaneidade. – Para conhecê-los é dispensável observar pontos finais; senão, os três pontinhos que lhes encerram os fazeres. 

Os artistas! Ah... Os artistas pernambucanos! Eles que se consomem em seus caminhos, envelhecem cerrando olhos às dores, caminham sem parar, de fora para dentro "por esta pátria de liberdade, asilo da honra e alcáçar da virtude!", como disse um dia Frei Caneca; ouvindo turbilhões de vozes que lhes assustam e desvanecem; proclamadores das incertezas, dos afetos e da bela recomendação de amar à terra. – Todos, em seus tempos e lugares, através de partos e partituras, traçaram e traçam uma ode a ela, desde Jerônimo de Albuquerque, desde Paranã-puka dos índios antropófagos e que quer dizer mar furado. E depois Paranambuco aportuguesado, até o Pernambuco de agora e sempre. 

Em suas telas e textos se libertam em milhares de tons, acenando pelas transformações no mundo, igualando seres vivos às flores que não se despetalam, enquanto o dia fica vermelho! Deixam que a prosa invada o verso e que as horas passem sem que surjam maldições. São absolutamente capazes de capturar e amordaçar amores, para depois transferi-los desesperadamente para suas obras. Somente a muito custo, conseguem manter a sensatez, colocando paciências no gelo, enquanto resguardam medos.
Os mesmos medos que motivaram nosso povo a restaurar por três vezes a "república pernambucana", firme em seus propósitos insurretos, e que jamais os deixará se render. Nem ao futuro. 

Assim, exatamente assim, são o escritor e a escritora, são os artistas plásticos de todos os suportes e estilos, são os compositores, músicos, cantores e cantoras, bailarinos e bailarinas, cineastas, artesãos pernambucanos, quando, a cada manhã, munidos de seus equipamentos, seguem os corredores dos seus fins impregnados pelo desejo de criar até que suas almas possam descansar. – Ao voltarem para casa, ainda arrumam sensações e lembranças desses encontros com o dom e a história, rebuscando-as, como se a obra não lhes tivessem sido comprometidas com a ampliação da consciência e o sentido da verdade histórica, pactuadas com a verdade de cada um, que, sem dúvida, reconhecem ser, o caminho mais curto para a liberdade. Liberdade que conhecem porque atrelada ao compromisso ético e estético em suas manifestações. – Não conseguem, de jeito nenhum, ficar de costas para a realidade povoada pela ambição dos "invasores" que insistem por condenar. 

Ah... Os Artistas! Ah... Os pernambucanos! Somos todos como os anônimos de Paris que numa tarde chuvosa qualquer como tantas outras de outono, sem nada para comer, não morremos de fome; temos apenas a busca desenfreada por alimentar o espírito e conseguir chegar o mais próximo possível das venturas de não sermos mais uma colônia portuguesa! – Nossos gestos são os mesmos que escondem sentimentos simples que se perdem densos, como que tatuados por palavras a serem ditas ao encontro de nossas razões existenciais, profundamente íntimas, contritas e silenciosas, quase perplexas, diante dos tantos sonhos recorrentes. 

Sou um deles. Sinto em mim, como eles, a cada registro do meu pensar o prazer se instalar imenso, iluminado pelos raios de sol da terra quase linda, Olinda, cujos arrecifes a unem ao Recife de rios e pontes que preenchem mistérios que só os deuses podem decifrar. E de cujos mares a cantaria sedimenta loucura e sabedoria, e banha a poesia que cheira a mel e cachaça nos perfumando os viveres e os saberes num Brasil onde, de todos, somos os mais brasileiros. 

Publicado na Antologia “TALENTO EM PROSA E VERSO” coordenada por Joyce Cavalccante para a REBRA - 2008 


NÃO É FREVO! 

Esperei com o coração aberto até as 2:45 da madrugada do domingo de carnaval para ver o desfile da Mangueira que homenagearia os cem anos do frevo pernambucano. – Naturalmente que atenta, assisti até o último minuto enquanto todas as minhas melhores esperanças iam embora e eu ficava sozinha e desolada, sem mais conseguir dormir ao fim de tamanho desastre.

Muitas questões ficaram me atormentando. – Precisava de alguém para explicar, principalmente o que não vi; e não tive ninguém, porque a decepção adormece mais cedo quem se confronta com ela. Assim é que estou sem respostas até agora. Dois dias depois. Infelizmente.

Por exemplo: de quem foi a “inocência”, e com que objetivo alguém aceitou mostrar com tamanha deformação uma manifestação popular, a mais bonita do país, com cem anos já comemorados, permitindo que por preço tão alto o fizessem sem conteúdo, sem critério e sem comprometimento com a verdade? – Como aceitar a homenagem de uma Escola de Samba que nem ao menos usou, em nenhuma das suas fantasias, adereços e alegorias pelo menos as cores do frevo, do Recife e de Pernambuco? – Como aceitar o desdém que se usou para mostrar uma Comissão de Frente com crianças pernambucanas, especialistas em frevo, sem que nenhuma delas estivesse usando a fantasia e as cores dele, que inclusive são as que elas reconhecem? – Como não sentir doer os tímpanos se na letra do Samba Enredo se atendia ao convite para vir “pra Recife” e não “ao ou pro Recife”? – Que homenagem foi aquela que mostrou apenas o Homem da Meia Noite, sem sua roupa tradicional e de gala? Será que foi culpa do "caos aéreo" a não ida da Mulher do Dia, do Bacalhau do Batata, e dos demais ícones incontestes do frevo e da cultura pernambucana como Alceu Valença, J.Michilles, Ariano Suassuna, para ficar com apenas estes, e Silvio Botelho, “pai” de todos eles, e muitos mais, com seus bonecos apostos? Quem reconheceu um sequer daqueles que desfilou? – Que Alas foram aquelas daquela escola, que em nenhum momento, nem na letra do samba, nem em nada mais, fez referências aos nossos símbolos, senão trazendo um leão e um galo, minúsculos, e dourados, e não lhes contando a história? Por que cada uma daquelas Alas não levou o nome dos nossos tradicionais Blocos de Carnaval, tais como Lili Nem Sempre Toca Flauta, Nós Sofre Mas Nós Goza, Siri na Lata, Bloco da Saudade, se eles sim, são as nossas mais profundas raízes carnavalescas, e no frevo, as mais irreverentes e líricas? Com certeza, teriam muito mais o que mostrar e dizer. – E Cartola, o que fazia ali? Quantos frevos eles compôs? – Quem do interior do sul do Brasil, ou de além mares, vendo a Mangueira passar como passou pelo Sambódromo, dizendo o que disse, consegue entender ou dar a dimensão ao que o frevo tem e é? – Bem que eu teria outros temas a levantar; mas somente estes já bastam!

Permito-me então, em nome do frevo e da nossa cultura popular pedir ao povo do Recife e de Pernambuco, meu conterrâneo de terra e de luta, aos intelectuais, ao pessoal das artes e das universidades, e a todos que pensam e gostam de carnaval, que se rebelem e se antenem. Gritem para não deixar que matem o frevo e a sua história que é nossa, como já fizeram com os Blocos da Paz, Toureiros, Lenhadores e tantos outros. Também, para não se permitirem baixar a estima. Acreditem: nós valemos muito mais do que possa pensar qualquer irresponsável, ou irresponsáveis públicos, por nós e por nossa cultura popular. – Desculpem! Faço este apelo porque não consigo ficar calada diante da inconseqüência com que tratam o povo, o dinheiro do povo, o artista do carnaval, o turismo e a cultura de Pernambuco. – Ainda assim estou feliz porque como eu, o Brasil deu à Mangueira, segundo a pesquisa, um dos últimos lugares no ranking das Escolas daquela noite. Ainda bem! 

Publicado no Jornal Folha de Pernambuco, em 12.02.2008 e transcrito para os Anais da Assembléia Legislativo do Estado de Pernambuco.


PARIS É LOGO ALÍ.

Um dia, quando menos esperei, até porque sou muito ruim de sonhar dormindo, porque acho, prefiro fazê-lo acordada, me acudiu o que talvez tenha sido um deles!

Acordei sem saber onde estava. Tinha claro que nele Henry Porter, quase igual à sua autora, invadia a Amazônia, com a ajuda de uma sociedade secreta da qual faziam parte anjos e demônios, com o objetivo de dominá-la; queriam escondidos dentro dela, pelos seus caminhos mais recônditos e preservados, esperar um dia de sol qualquer para saírem e pesquisarem sobre a confirmação da teoria da relatividade de Einstein! – Como pode? Foi a primeira pergunta que fiz no limbo de minha consciência ainda quase adormecida.

Acordei às risadas e logo pensei: só podia mesmo um sonho deste sair de minha cabeça! – Pus-me depois, a pensar sobre ele, mais sóbria e com mais vagar. Pensei em Freud e no inconsciente coletivo que deve estar muito preocupado com o esquentamento global e com a poluição natural e existencial que estão dando cabo de nós e do planeta, e questionei sobre o que o inconsciente humano é capaz de fazer e de dizer quando “inventa” uma estória como esta.

Tarde da noite, ainda sem conseguir sequer um mínimo de entendimento sobre o que houvera pensado o dia inteiro, por entre os intervalos dos meus afazeres, cheguei à conclusão de que deveria esquecer de tudo e ir dormir sem mais delongas: o que houvera com o meu sonho, não foi nada demais. Foi simplesmente um sonho, que embora inusitado, poderia ter acontecido com qualquer pessoa mediamente bem informada, pois que pelo menos tratou de assuntos reais e preocupantes que aí estão para quem quer ver. – Dormi, mesmo sem me conformar!

Shakespeare disse que “há muito mais entre o céu e a terra do que possa pensar nossa vã filosofia”, e eu me dou ao desplante de completar-lhe o pensamento dizendo que apesar de ter razão, que somente Freud, explica! – Tanto que no último fim de semana fui a um casamento de filhos de amigos e lá encontrei um amigo comum, Clodoaldo Sampaio, odontólogo da melhor qualidade, nascido na “República Independente do Cariri”, onde fica sua terra a cidade Jardim, lá no Ceará, aquela que dista apenas sete mil e quinhentos quilômetros de Paris e um pouco menos de Londres, pertinho de Juazeiro do Norte, com quem conversei toda a festa por entre uísques e assuntos diversos, e fechei a “gestalt” do tal sonho.

Contou-me ele, que foi em Sobral, em 1919, que o astrofísico britânico, Charles Davidson confirmou depois da análise dos resultados da pesquisa pela qual foi responsável, a teoria de Einstein de que a luz é mesmo desviada pela gravidade do sol por um fator calculável por meio da Teoria da Relatividade Geral, pois que a gravitação pode ser interpretada como uma curvatura na geometria do espaço, bastando para tanto um prévio desvio da luz pela gravidade, segundo Marcelo Gleiser em seu último livro “Micro Macro”.

Enquanto Clodoaldo me falava sobre isto, eu justificava o sonho e ficava sabendo o quanto o Ceará foi importante para a ciência. – Fui então, capaz de fazer as mais estaparfúdias correlações: liguei Einstein e a consagração de sua teoria ao belo céu cearense, mais especialmente ao de Clodoaldo, porque somente um gênio louco, poderia fazer conta da quilometragem entre Jardim, Paris e Londres; depois juntei Freud, Shakespeare, Herry Porter e sua autora, e a mim mesma, que conhecendo a todos eles, e a Amazônia em sua exuberância infinitamente ameaçada, ainda arranjara um jeito de sonhar o que sonhei. – Ao lhe contar o sonho e os pensamentos que tive sobre eles, rimos juntos, noite adentro, do tamanho do surrealismo que é capaz de nos unir e explicar idéias, as mais fantásticas, vida afora. 

(Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. - Em 2007. - Somente pblicado aqui)


ACREDITO EM DEUS, SIM! 


Vez por outra, como conta o escritor e psicanalista mineiro Rubem Alves, citando Margueritte Youcernar, “me perguntam se creio em Deus”. Ela respondeu que sim e citou trinta e três possibilidades que a fazem assim. Ele acrescentou outras tantas, entre as dela: “ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas das árvores... Morder uma jabuticaba” ...

A mim, também perguntam. E eu começo por confirmá-los e à minha fé em Deus, copiando-lhes o tema. Mais, porque tenho muito mais a acrescentar.

Claro que confio em Deus, respondo. Claro que creio Nele, porque creio em mim. O que não creio é no fazem Dele as religiões! – Creio Nele como um ente lógico, cuja divindade não Lhe apraz, muito menos por estar eternidade além, punindo sua criação, impondo-lhe castigos e pecados. Muito menos, proibindo ou censurando métodos científicos de preservação da saúde, de reconhecimento da diversidade humana, da maternidade não desejada, ou das pesquisas, como as das células-tronco, embrionárias, que só lhes negam a missão, quem não confia Nele. 

Claro que creio em Deus, como não? – Ele se comprova cientificamente, pelas leis da física quântica, pelas leis da atração, e por todas as leis que determinam a procura do caminho do meio, que o sistema machista, capitalista, moralista, e materialista, rechaça.

Creio Nele sim! Como um ser não repressor, já disse, muito menos preconceituoso e intolerante. E ainda acho que a única forma que temos de nos respeitar é nos reconhecermos como seres humanos, e como tal criação de energias superiores em concluio com o bem. Portanto não precisamos também fazer alardes quando em nossas meditações nos dirigimos a Ele, em nosso silêncio ou mesmo diante dos altares formais.

Também não O temo. Temo sim, profundamente, os que dizem que Ele é fiel. Afinal, fies temos que ser nós, os que se respeitam e aos direitos humanos, simplesmente.  

Da minha certeza Dele, estão para acrescentar à lista de Marguerite e Rubem, os gritos de Kheith Jarreth que ao piano, precisa fazê-lo de tão pleno que está; estão todas as obras dos grandes pintores e pintoras cujo dom não escapa a divindade; as criações de todos os compositores clássicos de todos os tempos; os cientistas de todos os matizes, permanentemente em busca de explicar a vida e fazê-la melhor. Estão ainda os puros de coração; os que têm esperanças; os honestos de índole; os que respeitam a natureza. Está também a brincadeira alegre de Bom-Bom, meu poodlezinho branquinho e querido, o miado forte e o olhar sincero de Dom Luxo, meu gato persa, elegante e determinado que só ele; as plantas verdes e lindas do meu “bosque” mesmo que no oitavo andar à beira do mar; a permanente troca de energia a cada quebrada das ondas do mar à minha frente; a confiança e a amizade de Vinícius, meu filho, assim como as flores que enfeitam, permanentemente, minha casa em homenagem à minha mãe, meu pai e Cláudio; no olhar de cuidados do meu amor; na paz que sinto quando volto para casa. Ele também está na força do meu trabalho; no tesão que sinto pela vida; em mim e no meu coração, enfim...

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. - Em 03.2007. (Somente publicado aqui) 


A IMPORTÂNCIA DA ESCOLHA. 

Estive pensando e já faz algum tempo, sobre a importância da escolha... – A crença é o que está na cabeça, e eu quero falar sobre ela a partir de Louise Hay, pesquisadora e cientista americana, autora de vários livros que não são de auto-ajuda. Ainda bem.

Da crença religiosa, não me ocupo. Ela fica para as pessoas que obedecem às ideologias que tratam do sacrifício. Aquelas que dizem ser mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, mesmo que com a corcova atapetada para passeios e fotos turísticas, do que um rico entrar nos reinos do céu; enquanto eu prefiro acreditar, e seguir liberta apenas amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesma. E ainda em Louise Hay, e nos pensadores orientais de todos os tempos que dizem não existir doenças e sim doentes.

Em seu livro, “Você Pode Curar Sua Vida”, ela conta o que a levou às pesquisas científicas e os métodos que a fizeram concluir novos conceitos para além da medicina alopata convencional a partir da correlação entre a doença e o estado psicológico e emocional dos pacientes que quando desequilibrados permitem a queda das defesas orgânicas.

Ela dividiu o ser humano da seguinte forma: da base do pescoço à cabeça, ficam a razão e o inconsciente, que formam o corpo emocional. Do pescoço até a cintura, estão os territórios afetivo e sentimental regidos pelo coração. Da cintura até a pélvis, a sexualidade, que quando é mal resolvida leva a doenças e contradições de caráter, infinitas. As pernas e os braços significam movimento, locomoção, capacidade de mudar.

Todas as doenças que possam acometer qualquer destas áreas têm diagnóstico psicológico. E ela diz: gripes e resfriados, são conseqüência de uma cabeça com muitas atribulações, confusão mental, e muitas decisões a serem tomadas ao mesmo tempo. As dores de garganta e faringites ou alterações de voz advêm de coisas a serem ditas por algo ou a alguém, e que por qualquer motivo deixaram de ser ditas. O câncer seria resultado de mágoas profundas, solidão, abandono, rejeição e raivas contidas, no geral. No específico, por exemplo, câncer de pâncreas, é a resposta dada pelo emocional, por tamanha rigidez para consigo e pela vida; é falta de doçura. Doenças do pulmão, todas elas tem por base a tristeza já que o pulmão é por onde circula o ar, fluxo da vida. O Infarto e as doenças coronarianas significam o medo de ser feliz. As aftas são decorrentes da insegurança, e do desejo extremo de agradar. As doenças alérgicas, cutâneas ou não, decorrem das insatisfações, e para curá-las basta se perguntar alergia a quê, ou a quem, e mudar de atitude. E por aí vai... Tudo com muita lógica.

Então as pessoas que não tem consciência destas possibilidades psicológicas, não se sentem responsáveis pela própria vida e pelas escolhas que faz, “entregando” a Deus e a todos os santos e santas o compromisso de adoecê-las e curá-las, milagrosamente, como se Eles tivessem um computador de última geração a distribuir graças e cobranças indiscriminadamente, estas estão perdidas. E ainda tem os que se arvoram por se sentirem injustiçados com Eles, quando a história é bem outra!

Já Bagwan Sheree Rajnheesh, que foi um dos mais importantes mestres espirituais da India, o mestre dos mestres, dizia que “ninguém chega a Deus dizendo não ao que quer que seja, muito menos a si próprios. E que para chegar ao caminho certo de pouco adiantam exterioridades, dietas alimentares, acúmulos do que quer que seja, renuncias ou posturas búdicas de forma a conseguir chegar à verdadeira percepção. O que realmente importa é a pessoa mudar de atitude perante a sua realidade e com isto transformar-se em algo melhor”.

Quando o ser humano se decidir a fazer grandes e infindas buscas por descobrir a si mesmo, e ao mistério que faz de todos proprietários de um segredo que não se domina ou explica, chegará não só à saúde física, mental ou psicológica, mas basicamente ecológica, diante de si próprio e da natureza. Basta escolher passar pela grande revolução pela qual passam os que se dispõem a crescer no sentido de ampliar a consciência, e escolher não aceitar apenas o pré-estabelecido, que na maioria das vezes está tão longe da verdade.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. - Em ,2007. (somente publicado aqui) 


MEDO DO CANTO DO CISNE 

Sou do Recife. Só que junto com isto, eu sou pernambucana, brasileira, mulher, cidadã e responsável. A esta altura do campeonato, com um vasto “curriculum” de tantos feitos, claro que tenho acompanhado a história do país no meu tempo, e tenho pensado muito sobre ela. Principalmente com referência à área que mais me interessa, a da cultura. – Infelizmente, tenho constatado que a felicidade sempre passa ao largo quando se trata dela por aqui.

Nos países lá de fora, considerados berços da civilização ocidental e da cultura universal, os governos se atêm à arte e à cultura com o respeito que elas merecem. As subsidiam porque sabem o quanto valem, e o quanto são fundamentais para a formação da cidadania, da geração de emprego e de renda, e como instrumento valioso também, e hoje principalmente, para a economia e a indústria do turismo, porque não poluidora, e porque não se pode realmente pensar numa indústria de turismo forte e competente se pensando em vender apenas praia e sol, sem se manter os equipamentos de cultura preservados e funcionando. Muito menos, sem neles mostrar nossas melhores manifestações culturais.

Aqui as intenções e os discursos são inúmeros e a favor. As promessas vãs vêm de todos os lados, e a sensibilidade embota pelo corre-corre em busca apenas do material, que vai dar em nada. E nós continuamos à espera de uma política real e eficaz que saia do papel e tire das gavetas e prateleiras o nosso potencial de criar arte e cultura; produzi-la, vendê-la e expandi-la em benefício da humanidade e do povo brasileiro, seus grandes e verdadeiros proprietários e consumidores.

Aqui se criam e se modificam leis de incentivo em todos os âmbitos institucionais e para onde se voltam os interesses e esperanças de pintores e pintoras, escritores e escritoras, produtores e criadores de cultura e intelectuais, para no fim darem em muito pouco. Espera-se constantemente que elas sejam o passo certeiro e definitivo para as mais variadas possibilidades de realização e mercado. – Só não se preparou o empresariado de quem ela passou a depender. Ou seja, não os levou a compreender a importância de financiá-la na medida das isenções dos impostos permitidos. E assim vai se perdendo o registrar através da pintura, do cinema e sua gama de artes visuais; da literatura, da dança, da fotografia, ou da música; a realidade e a história de todos nós, numa proporção muito maior, para ser guardada, estudada, pesquisada, preservada e mostrada como convêm à humanidade de todos os tempos. Isto tem gerado o que se considera uma miopia generalizada.

As leis que seriam de incentivo, criaram enorme dificuldade na medida em que cada artista tendo seu projeto aprovado, e haja burocracia e mão de obra para que isso aconteça, precisa sair de cuia na mão, literalmente, de empresa em empresa, para conseguir financiá-los, o que é raro. Senão, extremamente difícil. E a sensação pior é de que se está esmolando, mendigando, por uma causa sem conteúdo ou significado. O que não é absolutamente verdade.
Para o empresariado que não sabe dimensionar o que poderia ser juntar o nome de sua empresa a um projeto, ou ao nome de uma artista de alto nível, a isenção de impostos previstos pelas leis tornou-se um estorvo. Ou por puro despreparo, ou porque se considera sem responsabilidades por mudar o “status qüo”. E assim ainda se perdeu o patrocínio: a forma menos humilhante de se conseguir financiar a obra de arte, seja ela qual for.

O artista em Pernambuco e no país que permanece sem ter o mercado implementado em função do desinteresse geral e da completa ausência dos governos. que infelizmente ainda não fazem a distinção entre o fazer artístico que é cultura pura, e o evento, que por maior público que tenha, é passageiro e inócuo, como diz o próprio termo: é vento... Vive então à míngua.

Aqui a coisa tem se dado exatamente assim. Estamos todos, vivendo momentos de profundas angústias, porque ainda diante de prazos, comprovantes, contabilidades, esperas, insistências, pedidos, cartas de adesão, explicações, inseguranças e tudo mais que nos tira significativamente do nosso fazer que é criar e administrar a cultura. – Burocracia sem fim, pela ausência total de prioridade. Uma pena! Porque tudo isto, somente desestimula. Tudo isso somente investe no descaso cada dia maior da criação e da inclusão.

E assim vai ficando tudo... E assim vamos ficando nós, sós, artistas em geral e diretores de cultura comprometidos não só com o belo canto dos sabiás e dos canários, mas com um medo danado de ouvirmos próximo o canto do cisne.

Publicado no JORNAL DO COMMERCIO DE PERNAMBUCO, Em 2007.


MEU CARNAVAL INESQUECÍVEL.

Nenhum. Porquê foram todos! 

Foliã que é foliã não escolhe um, porque um é pouco! Foliã que é foliã é brincante. Brinca aprendendo, celebrando, amando. É quem vive a vida alucinada e ludicamente. – Como eu. 

Tenho no departamento das boas lembranças, todos os carnavais da minha infância quando às tardes, passavam em frente à minha casa, todos os anos, como quem desfila a insensatez dos apaixonados, o Maracatu de Dona Santa, os blocos e as troças de Ursos, os Caboclinhos e os Caboclos de Lança em seus coloridos desmedidos, suas danças e sons encantados. 

Depois, vieram os com muita lança perfume recebidas sem cuidados, cheirosas que só elas! Corso, paqueras, marchinhas, frevos, frevos canções, sonhos e fantasias. 

Como num seriado, vieram depois os dos clubes à noite; e os de Olinda, cantando-lhe o céu, os coqueiros e o mar... Suas ladeiras, beijos de boca, abraços fraternos, alegria sem par. Os prêmios no “Nós Sofre, Mas Nós Goza” vestidas de “Noivas” e de “taiêr” “Na Cela com Rosane”, perucas loiras, um grupo de mulheres parodiando a história, e o “Na Sala com Danuza”! – E as tantas madrugadas à espera do Galo? 

Agora, no terceiro ato, lembro-me dos que passei fora: em Londres, Paris, Bariloche, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, Guaramiranga,NO cEARÁ, e em tantos outros lugares. – No Rio, os desfiles na Beija-Flor, minha escola de samba do coração. 

Agora, os revivo feliz, mas ando preocupada! – Não entendo porque não entendem que multicultural é característica do nosso Estado. Não do nosso carnaval. Ele faz parte do nosso multiculturalismo sim, mas não merece o que vem acontecendo: ter misturado aos nossos ritmos carnavalescos, ritmos e artistas que não nos dizem respeito nessa época. Por favor: que se cuide do caráter de resistência cultural próprio do nosso povo e do nosso carnaval. – Deixem o carnaval de Pernambuco, ser apenas o carnaval de Pernambuco, com seus metais, clarins, bandolins, violões e os tambores de todos os maracatus afinados com a voz e o coração do nosso povo. 

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. - Em 2007. (Será publicado, revisado, na Antologia "FESTAS PERNAMBUCANAS" - CARNAVAL, em 2013, coordenada pelos escritores Cássio Cavalcanti, e tELMA bRILHANTE) 


SANGUE NEGRO. 

Dia desses, passados há pouco, assisti no canal Futura da tv a cabo, uma entrevista feita em Maputo, capital de Moçambique, com o escritor Nelson Saúte. – Essa entrevista foi feita por uma jornalista brasileira que infelizmente não guardei o nome porque quando terminam os programas apresentados nas tvs do Brasil os créditos passam tão rápido que por muitas vezes não consigo nem ler quem o apresentou, criou ou dirigiu, muito menos guardá-los na memória. Foi o que aconteceu para eu não ter guardado o nome dela. Uma falha sem dúvida, embora a espere perdoada pelos motivos citados. – Mas, o que vale é que a conversa entre eles foi de uma delicadeza, uma calma e uma profundidade somente próprias dos verdadeiros intelectuais, aqueles que pensam sem pressa e não se preocupam em provar nada a ninguém. Aqueles que são brincantes, que enquanto vivem aprendem, deixando para os brincalhões a esperteza que lhes satisfaz os egos ,e os faz burlar de si mesmos a verdade de suas ausências e omissões, seja de ética, seja de algo maior quanto o amor, por si ou por outrem.

Bem, mas o que me interessa conversar aqui, é que até o dia da tal entrevista eu apenas sabia pouco e de longe quem era Nelson Saúte, um jornalista que havia se tornado poeta e escritor e que foi organizador de antologias tentando difundir a literatura africana movido pelo conhecimento das limitações culturais do seu país, e continente, e que já estava sendo inclusive editado aqui, pelas editoras brasileiras, porque me parece, agora, está na moda editar escritores portugueses e africanos. – Claro que com estas informações me atraí por ele. Eram informações que para minha cabeça já significavam que eu deveria respeitá-lo.

Nas antologias que publicou procurou que os autores participantes deixassem claro, os sofrimentos e sentimentos de perdas e mortes que foram as experiências que eles mais conheceram ao viverem as histórias de seus países. Com isto, segundo ele, seriam já que sedimentadas, entendidas sociológica, política e historicamente, não só as guerras, como as dores vividas no resgate deles próprios, e ao mesmo tempo, no exorcismo de tudo: da miséria à indigência intelectual, respostas deixadas pelos tantos governos colonizadores, que ele no seu mais profundo desejo, gostaria de superar no sentido de incentivar a cultura africana tão rica em seus meandros, sons, cores, danças e sentimentos, assim credenciando o seu povo para ser apenas o que é, no aumento da estima e da consciência de que ele é o povo pai e mãe da humanidade, a Mama África, embora rejeitada.

Pois bem, durante a entrevista tive tempo bastante, o que faltava, para me apaixonar por ele perdidamente. Afinal, não é fácil encontrar com quem pactuar valores, crenças, ideologia. – Mesmo que de tão longe!

Ele ao longo de sua vida pessoal e profissional, viajou por muitos países e se entregou a aprendê-los. – Uma coisa que adoro fazer e faço como quem reza.

Enquanto falava sobre suas experiências de viajante contumaz, e sobre tudo mais que respondia à jornalista, comecei a pensar sobre milhares de coisas. Tantas, tantas, que precisei frear meus pensamentos sob pena de não conseguir agora ao escrever, discutir o que mais me interessou. Por exemplo: enquanto discorriam sobre as viagens que ambos já haviam feito bastante vezes, pensei sobre a globalização que se instala no planeta, e que ela sob o aspecto humanista da intenção, pode valer a pena, se pensarmos com nitidez sobre o pedido urgente de perdão do mundo inteiro, que há milênios não reconhece o sangue negro que corre em todas as veias e terras, e se soubermos que o mar foi quem nos trouxe a multiculturalidade, filha da miscigenação, que pertence e é característica de todos, e que hoje também virou tema de justificativas sem fim, servindo até para interferências nos costumes dos povos que muito bem sabem o que fazer do que acreditam.

Neste mesmo mar que cobre toda a costa africana em suas mesmas águas, se devem lavar nossas culpas dos períodos escravagistas e desumanos que fizeram o contraditório histórico. Mas que pode se tornar saudável, se reconhecermos que nossa língua é de união, e que no passado nem disto sabíamos! – Quanto ao aspecto econômico da globalização, deixa pra lá, é assunto para se discutir antenados de outra forma. Porquê pode ser mais uma armadilha moderna, informatizada, contemporânea, fashion, ou sei lá mais o quê, de dominação. O reconhecimento à África e a seus criadores de cultura, não! Pois então, que viva nosso sangue, que negro, corre também nas veias e nas poesias de Nelson Saúte!

Artigo publicado no JORNAL DO COMMERCIO DE PERNAMBUCO. - Em 2007. 


UNIVERSOS PARALELOS. 

Exatamente agora, estou pensando que gosto desta expressão: universos paralelos. Ela indica diferenças dos universos masculino e feminino, e dos muitos que a física quântica, a ciência de todas as possibilidades já comprovam.

Faço desta vez apenas uma reflexão sobre os nossos mais próximos, ou mais comuns, e sobre os quais melhor transitamos, os dos homens e o das mulheres, ambos cheios de nuances na emoção, no sentimento, na ótica e na lógica.

Os homens se dão ao direito de embora detendo o poder há milênios, de conviver com ciúmes e inseguranças relativas ao passado de suas mulheres, como se presente entre eles não houvesse, ou como se elas não tivessem o respeito e a compreensão que lhes concedem há milênios.

O tempo para as mulheres que não são mães, e se recusam a ser dos seus homens, se conta por um calendário quase desumano: pelas dores do abandono, da mentira, da rejeição, da traição e pelos perdões que são passíveis somente delas. – Contabilidade que eles não conhecem mesmo porque são suas mentes apenas matemáticas! Eles entendem de números, de matéria, de poder, e do machismo que lhes enche a alma e os fazem se bastarem. – Elas, não!

Elas só tratam do afeto, e por inteiro! Entregam-se sem olharem para trás. Estão permanentemente tentando construir o presente e o futuro feliz com eles; são quase tão loucas quanto suas fantasias e romantismo.

Não é difícil compreendê-las assim. Afinal é por serem como são que são cômodas ao silencio e à ausência deles, e às procuras na cama que somente se justificam nos descomprometidos desejos deles, na maioria das vezes! – Um cansaço eterno!

Por estas diferenças é que há a reconhecida “solidão a dois” aquela que troca o prazer e põe no lugar dele a agonia, a mentira e a hipocrisia nos lugares da verdade; a obrigação no lugar do tesão. E o pior: ninguém se toca! Nem tenta minorar estas diferenças ou ter consciência delas.

Insisto ser a consciência a palavra chave da existência. Acredito nela e na sua ampliação, como único meio de se sobreviver sendo capazes de entender o outro em si mesmos, e de não deixar condicionar nossos corpos e mentes aos descompromissos com o mistério que é cada um de nós. – Precisamos para tanto, entender que para isto; para que se tenha liberdade, é necessário se fazer novas associações, já que nosso cérebro só reconhece o que já conhece.

Pois então, que se criem universos alternativos! Relacionemos o homem e a mulher como seres que escolhem um ao outro para serem felizes e não para burlarem a si mesmos e aos seus sentimentos, porque se sabe que cada um de nós é quem afeta a realidade que vemos e sentimos. – Os pensamentos e os sentimentos de cada um de nós são fortes o bastante para que se possa mudar tudo, para melhor, basta que queiramos, como diz a física neural que estuda as tempestades elétricas dos nossos cérebros.

Diz ela que toda emoção vem de experiências criadas pelos sentimentos, que numa resposta química, derrama-se em nosso sangue impedindo que funcionemos integrados com nossos desejos. – Por que não então, associarmos a relação homem e mulher ao que há de melhor, sobre ou longe da cama? Por que aceitamos que o cotidiano nos limite a felicidade? Por que concorremos entre nós como se o poder estivesse longe do poder de sermos felizes?

Acho bom assim, que se mudem até o impossível! Que se deixem para trás a estória boba e perversa que alimenta e separa nossos universos desde o além dos tempos, repetindo o modelo das religiões que nos ensinaram a ver Deus longe e fora de nós, quando a verdade é que somos Ele, e O temos em nós! – Talvez por isto não nos reconheçamos unos com Ele, com a natureza e com os nossos amores, que todos, estão presentemente representados num só, o escolhido ou escolhida.

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE. - Em 2007. 
(Somente publicado aqui_


FUMAR NÃO MATA.
 

O  Brasil prima pelo inusitado. Depois acha ruim quando alguém diz que é um país exótico. – Ouve tal classificação como se estivesse ouvindo algo pejorativo, ou mesmo desrespeitoso. Mas, não! Porque se ele não é exótico é pelo menos o antídoto, o antagônico do lógico, do coerente, do conseqüente, do racional.

Definitivamente começamos a ser o tal país do futuro que tanto meus avós diziam que não seria para eles, mas com certeza para seus netos O que não significa que não tenhamos muito mais em que pensar, ou em como agir, do que mobilizar a nação em torno de proibições como as que agora tentam reformular na lei 9.294, de 1996, que desde lá trata desnecessariamente do controle e fiscalização do cigarro e de sua propaganda, ampliando-lhe os efeitos: segregando pessoas, alijando-as do convívio social, prejudicando economicamente empresas de lazer como bares e restaurantes, seus empregados e os da indústria tabagista. – Proíbe-se que se fume em espaços fechados, nos fumódromos, e não sei mais aonde. – Mas, isto seria legal? Onde ficam os direitos individuais e constitucionais de liberdade dos cidadãos e cidadãs? – Claro que fumar em local fechado, com ar condicionado não mata ninguém, mas que pode ser desagradável, pode; sem dúvidas.

Não escrevo para fazer apologia ao cigarro. A faço sim, à liberdade a que se tem direito, e que tão bem sabemos, termina quando começa a do semelhante. Por isto, sou conivente apenas com a idéia de não se fumar em lugares fechados.

Disse um poeta que moramos “num país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza” e outro, que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. Ambos têm razão. Somos mesmo. Somente precisamos ainda de nos desincompatibilizar da culpa e do colonialismo que por centenas de anos nos aliena e nos baixa a estima, e acabar com esta história de imitar os outros. – Precisamos é manter nossa identidade. Mas, cobrar de nós mesmos e de nossos governantes, o que efetivamente tem sentido. Se não, fica tudo mais difícil, inclusive crescermos deixando que a hipocrisia continue se alastrando.

Precisamos sim, de leis que se cumpram e que tratem a realidade nua e cruamente. O vício de fumar não agride ninguém, até porque, o não fumante pode se abster de se manter por perto na hora que quiser. O mais depende das consciências individuais. – Veja-se o caso do jogo. Proíbe-se, desemprega-se, e imediatamente institucionaliza-se uma nova loteria federal para ajudar os clubes a pagarem suas dívidas. E ainda: soltam-se praticantes de crimes hediondos, com apenas um sexto da pena cumprida, quando devia ser duplicada! Como entender, então, semelhantes disparates?

Depois, como se conviver calados diante da ausência das vigilâncias sanitárias que não fiscalizam as carências dos produtos ingeridos “in natura” carregados que são de agrotóxicos, fungicidas e inseticidas sistêmicos e de contato, que são aplicados nas culturas agrícolas sem cuidados? E com os hormônios de crescimento e antibióticos que já vêm contidos nas rações para animais e principalmente na avicultura? – O que fazer diante dos conservantes em todos os enlatados? E do excesso na emissão do gás carbono despendido pelas indústrias de transformação, carros e caminhões? O que fazer com o desmatamento da Amazônia, o aquecimento global e os buracos negros? – E com as bebidas alcoólicas que estão livremente no mercado, muitas com teor alcoólico acima de 30 e 50%? Com os produtos “diet” comprovados que engordam? E com as “gorduras trans” que aumentam o colesterol ruim? – Ora, isto tudo é que teria que ser repensado, estudado, fiscalizado, porque são os verdadeiros vilões da saúde. Fazem mal generalizadamente. – Estes não segregam. Matam.

Este papo de que o cigarro é caso de saúde pública é balela. Dividam os percentuais dos componentes de uma carteira de cigarros por vinte, que ficará claro que caso de saúde pública é o analfabetismo e a corrupção, a demagogia e demais mazelas que nos fazem permanecer sentados no terceiro mundismo. 

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararapes, PE.  - Em 2008.


POR UM FIO. 

Tenho uma enorme e incurável mania de grandeza, por isso disse por toda a minha vida que tenho a maior indústria de hormônio da felicidade do mundo, com a produção de todos os subprodutos possíveis. – Aquela que fabrica endorfina, sabe? – A mesma que a maioria das pessoas pagam caro para produzi-la e que eu, sem nem ao menos me esforçar, produzo em grande quantidade, apenas com o meu desejo e meus pensamentos positivos. Também com humildade diante da vontade de Deus e do imponderável, claro!

Sinceramente, como eu um dia já disse, sou feliz por opção. Porque desejo e porque que mereço.

Mas, hoje, porque mais experiente, tenho sentido-me alquebrar diante dos tantos desequilíbrios por que passamos o planeta, a humanidade e eu. Algumas vezes penso até que é um complô cósmico, contra mim.

Logo contra mim? Rechaço. Não pode ser! – O que farei então com a minha fábrica? A declaro falida, inoperante? O que faço com quem me cerca e a quem amo, se todos estão acostumados à minha alegria, às chatices de minhas verdades, minhas impertinências e desobediências? Será que entrarão coletivamente com alguma medida judicial contra mim e o meu “empreendimento”, a pedirem direitos trabalhistas, por abandono ou por descaso? Como ficará o que lutei e transgredi para avançar sobre os meus limites? Tudo que criei, ousei, inovei, fica por isto mesmo? O que poderei fazer para levantar a humanidade contra as agressões ecológicas à condição humana e à natureza? – Bem, estas são apenas algumas das questões que me fazem preocupar quando o tempo dá, e as dores permitem; muitas outras teria e tenho, mas não vale citá-las agora. Até porquê, estou me dando conta que o meu tempo está sobrando! E eu não quero permitir isto a ele, senão, não suportarei.

Meu coração está despedaçado. Todo o meu ser vem chorando, embora desacostumado, pelo tanto que tenho visto, e visto gente do bem passar. Há excesso de falsidade, morosidade, descompromissos, desinteresse, inveja, concorrência, insanidade, provocação, destruição, desatenção, amargura, abandono, solidão, mágoas, destempero, afrontamentos, embustes, apego, cobiça, insanidades. Tudo pura e simplesmente como se os sete pecados capitais fossem pouquíssimos! – Como então conviver com tudo isto? Como fazer para que se entenda que os valores e os desejos precisam ser outros? - Que tanta dificuldade é esta e por quê?

Esta semana uma amiga querida desde a minha infância perdeu uma filha com trinta e poucos anos;  tinha três filhos pequenos,  e ela a perdeu para as seqüelas da catapora. O vírus que ficou destruiu-lhe o coração. Pode? – No trabalho a batalha tem sido hercúlea, e os dozes trabalhos, embora venham sendo tentados e bem feitos, não têm trazido respostas possíveis. – Outra amiga, reencontrou o grande amor de sua vida, também desde o início da juventude e ele fez ”cara de lindo”, de “paisagem”, e ainda disse-lhe que não se lembrava de nada. Como não se lembra? – Os negócios dos amigos precisam ser definidos e nada acontece, a não ser os stresses advindos das negociações comerciais próprias dos sabidos. – A corrupção encampa o país de há 500 anos, e ninguém se toca que elas hoje estão apenas vindo à tona. – Os hospitais públicos parecem máquinas de adoecer e não de curar. – As fábricas de laticínio corrompem e pervertem o leite como se fosse para servi-lo aos inimigos das cortes dos czares, ou do império romano, quando a prática do envenenamento era condizente com o poder, e a ambição da época. – O mesmo acontecendo com o soro, com a droga, com o contrabando de armas, de órgãos, de gente, e até com os brinquedos, fabricados inapropriadamente para as crianças. – Jogos feios estes! Neles a gente só perde, ora!

As bandeiras da juventude com as quais transformamos a revolução social numa “guerra” cujas armas eram as flores, a música e o amor livre, pois que não eram entidades dirigidas a manter o status qüo, foram todas rasgadas, de fio a pavio. E de lá para cá, parece, se perdeu o rumo da vida. Está-se trilhando o caminho da morte, do fim, da agonia, da amargura. – Uma pena!

Por tudo isto é porque hoje, estou por um fio. 

Praia da Piedade, Jaboatão dos Guararaes, PE. - Em 2008.
(Somente publicado aqui)