BELLA SANTIAGO
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HISTÓRIAS
DA ARCA DA VELHA

Bella Santiago






Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.
Jorge Luís Borges.



A ARCA DA VELHA

Nos últimos quarenta anos de sua vida, tia Anésia havia mantido um altar improvisado em um dos quartos da sua casa, onde guardava os santos que tinham pertencido à igreja do engenho. Depois de sua morte, aos noventa anos de idade, examinando seus pertences, encontramos embaixo do altar uma arca muito antiga de madeira entalhada. Até aquele momento ninguém tinha conhecimento da existência da tal arca nem do que ela poderia conter. Mesmo Celeste, afilhada e companheira da tia há muitos anos, nunca havia visto o misterioso objeto antes daquele dia. Curiosas e determinadas a elucidar o mistério, resolvemos abrir a arca para examinar seu conteúdo
A tarefa foi mais difícil do que pôde a princípio parecer. A arca estava fechada por um pequeno cadeado de aparência frágil mas que ofereceu surpreendente resistência a todas as tentativas de abri-lo. Empreendemos então uma obstinada busca à chave que abriria o cadeado. Foi aí que aconteceu o curioso fenômeno que ficou conhecido na família como a multiplicação das chaves. O fato foi que durante nossa busca começamos a encontrar chaves e mais chaves e quanto mais procurávamos mais chaves apareciam: dos mais variados feitios e tamanhos, dentro de armários, de gavetas, entre as roupas, em caixinhas, embrulhadas em lenços. À medida que as encontrávamos íamos recolhendo-as e testando-as uma a uma no cadeado que teimava em não querer abrir. O fenômeno aguçou ainda mais nossa curiosidade e nos encheu de ansiedade para desvendar o grande segredo da arca. Entre conversas e cismas sobre a utilidade e a procedência de todas aquelas chaves, continuamos procurando como se fizéssemos parte de um jogo póstumo criado pela tia para nos divertir. Participavam da busca eu e as primas, a vó, minha mãe e suas duas irmãs. Mas era justamente eu quem encontraria a chave e haveria uma razão para isto que só viria a perceber bem mais tarde.
Quando finalmente avistei a fina corrente pendurada no pescoço da santa portuguesa de olho de vidro que parecia vivo, compreendi de pronto que havia encontrado a chave tão procurada. Estranho é que fora justamente por ali que havíamos iniciado a busca e ninguém percebera a correntinha. Tomada de grande excitação, peguei a minúscula chave e com ela abri a arca de tia Anésia.
Para nossa surpresa, nenhum grande mistério ou raro segredo foi encontrado. Apenas fotos antigas, cartas e cartões postais enviados de lugares exóticos por amigos distantes, e alguns papéis velhos, escritos em caligrafia miúda, amarrados com uma fita branca já amarelada pelo tempo. Coisas que só poderiam ter algum valor para a tia.
Decepcionadas, fomos saindo para o terraço onde nos abancamos cansadas e passamos o resto daquela tarde comentando sobre a eterna mania de tia Anésia de criar mistério em torno de coisas sem importância, que, pelo visto, mantinha mesmo depois de morta. Mas lá no meu íntimo fiquei matutando sobre o motivo que levara a tia a se dar ao trabalho de guardar tão bem guardado aquele entulho. Pedi permissão à minha avó para levar a arca para casa, decidida a investigar melhor, examinar os objetos empoeirados, ler as cartas e papéis encardidos, olhar bem aqueles rostos que sorriam para mim nas fotografias desbotadas.
Foi assim que descobri as histórias: o velho manuscrito que ninguém se preocupara de ler contava a vida dos nossos antepassados. Nele estava registrado o caminho trilhado até ali por pessoas de quem eu jamais ouvira falar. Pessoas que há muito tempo atrás tomaram as decisões que nos levariam até aquele lugar onde vivíamos agora, que traçaram a rota de seus destinos há tempos atrás e, assim fazendo, traçaram também o mapa da nossa história.
Durante anos guardei o manuscrito de tia Anésia sem saber muito bem o que fazer com ele. Para dizer a verdade, nunca tive certeza do seu real valor, quer como literatura quer como testemunho. Ainda agora, mesmo decidida a publicá-lo, as dúvidas permanecem. Mas já não há mais como retê-lo e o passo adiante para que outros mais capazes que eu julguem por si próprios. Tentei ser fiel aos originais. Advirto, porém, que muitas vezes me traiu um incontrolável e irremediável romantismo, do qual sofro desde que me entendo por gente e que muitas vezes me torna vítima do excesso de divagações que, suponho, devo ter herdado da própria tia.
Feitas, assim, as necessárias advertências, deixo aqui registradas as histórias de tia Anésia, na esperança de que tenham encontrado seu verdadeiro destino. Porque histórias, se as há, são para ser contadas.



AS HISTÓRIAS



PRELÚDIO ÀS VALQUÍRIAS

Minha vida tem sido, até aqui, como uma flor do mal que brota tépida e bela, abre suas pétalas frescas, para em seguida exalar odor mortal que empesta o ar e envenena o coração. Venho acumulando perdas desde meus mais tenros anos. Como todo mundo, sigo o vão destino de caminhar, morta-viva, em direção ao Nada, assistindo impotente partirem os que amo. Com os anos, vão ficando para trás os sonhos; acumulam-se os desencantos.
Chego aos quarenta anos desprovida de esperança. Devo andar pela metade da minha vida, se não acontecer algum acidente que a encurte. Na minha família é comum as mulheres chegarem aos oitenta anos, quando não morrem de acidente ou de desgosto. Até aqui escapei de acidentes, e meu coração se tem mostrado muito resistente aos desgostos. Não fosse assim, não teria me mantido morta-viva, só com um terço de sua capacidade total de pulsação.
Sou solteira e não tenho filhos. Acho que jamais os terei. Sempre me faltou um sentimento mais forte de maternidade e me sobraram arrebatamentos. Agora, a idade e o coração não me permitem mais ter grandes ilusões sobre este assunto. Uma única vez experimentei o verdadeiro amor. Dele guardo ardente lembrança e a sensação de vazio que me ficou no peito, para sempre.
As dores que a vida me proporcionou, compenso-as com a arte. Primeiro foram as lições de piano, tomadas meio a contragosto na infância, mas que depois se foram transformando numa necessidade. Costumo tocar durante horas e horas, deixando a música fluir, escorregar para dentro dos espaços vazios. Nos últimos anos tenho me dedicado também a escrever peças curtas para serem apresentadas nas datas festivas como Semana Santa, Mês de Maio, e Natal. Enceno-as com o pessoal daqui mesmo do engenho. Não há muito o que se fazer por aqui e meus teatros são sempre uma festa. Gente de toda a redondeza vem assistir. Mas são os poemas que crio em momentos de intimidade que me dão maior satisfação. São pedaços de mim em carne viva.
Devido à longevidade característica da família, convivi com velhos parentes - alguns velhíssimos. Creio que tomei deles o gosto pelas histórias que cresci os ouvindo contar. E porque acredito sermos mais do que o limite do nosso tempo, brota em mim o desejo de seguir o exemplo dos meus ancestrais e contar estas histórias, para que alguém, no futuro, tenha a oportunidade de lê-las ou ouvi-las à luz da lua, como eu própria as ouvi um dia.
É, portanto, para as ternas valquírias que viverão quando meu tempo já se tiver esgotado, que escrevo. Para elas, em cujas faces, se olhadas com atenção, perpetuar-se-ão meus traços. Guardo a esperança de que estas histórias lhes tragam tanta verdade quanto a mim trouxeram. Que elas se reconheçam nestas páginas como eu tantas vezes me reconheci.
Leiam pois com carinho minhas histórias, ternas valquírias. Elas são o espelho do tempo, capaz de lhes revelar suas verdadeiras faces.


Capítulo Primeiro:
as origens




O CALEDÔNIO

A história de Angus Caledônio, nosso mais remoto ancestral, chegou até mim com as variações que sofrem as narrativas quando passam de boca em boca, de uma para outra geração, durante séculos. Adquiriu, portanto, a carga semântica a ela conferida pelos muitos e diversos narradores, cada qual imprimindo seu ponto de vista particular. Certo é que Angus, de quem herdamos os cabelos claros e o espírito temerário, legou-nos, além do gen, o bizarro sobrenome.
Natural das terras altas da Escócia, Angus descendia de uma antiga tribo de caledônios sobre a qual encontra-se registro já no século II. Nascido na região de Inverness-Shire, era o filho mais novo do senhor de um clã tipicamente escocês que levava até as últimas conseqüências o princípio do jus sanguinis. Haviam sido sempre os senhores daquelas terras. Viviam ali há séculos, embriagando-se com freqüência, tocando gaitas de fole e tomando as mulheres que queriam, como esposa ou como amante, o que lhes havia rendido muitas guerras com outros clãs. Passavam aos filhos e netos os costumes, os maus modos, e os direitos à propriedade, formando uma dinastia de homens ricos e rústicos. Os mais pacatos dedicavam-se à criação de carneiros, dos quais extraiam a lã que teciam para fabricar um famoso tweed. Os mais arrojados dedicavam-se à pesca. Destemidos, jogavam-se ao mar em frágeis embarcações.
Em Angus, os traços da raça saíram acentuados. Vivia com entusiasmo mesmo os acontecimentos banais do cotidiano. Sabia aproveitar o que lhe caia nas mãos. Sua vivacidade e beleza viril eram muito apreciadas, o que provocou o aparecimento nele de um certo cinismo de caráter que o acometeu desde muito jovem. Amava aventurar-se num barco pesqueiro, sobretudo se havia prenúncio de tempestade.
As razões que levaram Angus a deixar sua terra natal são um tanto obscuras. Conta-se que uma certa Duquesa Sunmore possuía uma casa de veraneio na costa de Inveness-Shire e lá veio a conhecer o jovem Angus, inclusive no sentido bíblico. A partir dessa primeira aventura, Angus perdeu-se no seio da nobreza inglesa e foi parar na corte de Elizabeth I. Ao cinismo dos seus anos de juventude veio ajuntar-se um agudo senso de oportunidade que, somado ao sorriso irresistível e às atitudes galantes, levou-o a ocupar posição privilegiada no seleto grupo dos preferidos da rainha. Em troca das atenções que dedicava à soberana foram-lhe concedidos larguíssimos benefícios e sólidas doações. Com o tempo, multiplicaram-se os favores concedidos à nobreza e em igual medida aumentou a ousadia do caledônio. Certa ocasião a rainha chegou a perguntar quando pararia de solicitar benefícios, ao que Angus respondeu: Quando Vossa Majestade cansar de concedê-los. Foi esta a origem de uma grande fortuna pessoal.
Durante as guerras elizabetanas contra a Espanha Angus engajou-se na pirataria comissionada. Gastou a maior parte da fortuna que acumulara para construir e equipar navios que levava aos mares do sul onde atacava galeões espanhóis vindos do México e do Caribe abarrotados de riquezas. Com o tempo foi tomando gosto pela vida de pirata. A paixão da juventude pelo mar voltou com força surpreendente. Chegou a comandar uma frota de quatro navios e cada vez mais raramente voltava à Inglaterra. Ficou famoso nos sete mares como o terrível corsário, Angus, o Caledônio, que navegava sempre cercado por seus cães perdigueiros.
Com o domínio da Espanha sobre Portugal, no reinado de Felipe, navios e possessões portuguesas passaram a ser alvo das investidas de Angus. Depois de várias incursões às ilhas do mar do Caribe chegou à costa sul-americana como se estivesse dando um passeio ao sabor da morna brisa dos trópicos. Presume-se que alcançou o estuário do rio Amazonas entre os anos de 1580 e 1590. Despachou dois dos navios da sua frota para a Inglaterra, e com os outros dois subiu o grande rio em direção à nascente, até ancorar no lugar que seria seu paraíso particular, em território hoje conhecido como Lábrea, às margens do afluente denominado Purus. Ali fincou finalmente raízes e foi aos poucos se apoderando das terras que seriam, no futuro, exploradas por seus descendentes.
A acomodação de Angus Caledônio à nova terra foi marcada pelo oportunismo e pela paixão, como todos os outros acontecimentos da sua intrépida vida. Escolheu o lugar onde aportaria porque julgou-o belo e porque a profundidade do rio não mais permitia que seus galeões avançassem. A ocupação do terreno foi, no princípio, pacífica. A terra de ninguém entregava-se ao conquistador sem maiores problemas. Só depois foram surgindo resistências que exigiram de Angus dedicação e perseverança. Pouco a pouco foi conquistando espaços ao longo das margens do rio e para dentro da selva, até onde a disposição levava e os perigos permitiam. As aldeias de índios que encontrou na sua desbravadora rota foram conquistadas sem muito esforço. Em parte por sua aparência física, em parte pelas roupas que vestia, exercia tal fascínio sobre os nativos que raramente era obrigado a usar de força contra aqueles seres curiosos e ingênuos. Assim procurou respeitar os costumes dos selvagens e conquistar a confiança que precisaria para tocar a fazenda que almejava instalar no local. Era mais um amigo que um conquistador sanguinário, negando a impiedade característica de outros invasores anglo-saxões. Em troca recebia dos índios agrados e presentes, além da ajuda de que necessitava.
Era costume das tribos oferecer cunhantãs aos visitantes para demonstrar hospitalidade e por isso as noites do Caledônio nunca foram solitárias. Tomava aquelas que mais lhe agradavam e deixava as outras, intocadas, passar a noite aos pés da sua esteira. Assim veio a ser querido e respeitado e graças à amizade com os índios construiu seu pequeno império às margens do rio Purus. Com pouco tempo já tinha uma casa rodeada de varandas, alguns barracões que serviam para guardar as madeiras extraídas da floresta e as provisões, além de algumas casas menores que abrigavam os marinheiros que lhe haviam seguido na amazônica aventura. Tudo construído sobre estacas para escapar das inundações, freqüentes por aqueles lados.
O tempo foi passando e Angus sentindo-se cada vez mais fascinado pela exuberante terra que escolhera como lar. O contato diário com os índios foi uma eficiente escola. Aprendeu muito com eles sobre a selva e sobre as criaturas que ali habitavam. Foram eles que lhe falaram também sobre certa tribo ta'puii, de sanguinários guerreiros que faziam a guerra por puro prazer e que cultivavam o estranho hábito de devorar os inimigos mortos nas batalhas. Muito se contava sobre os ta'puii, apesar de Angus jamais ter avistado algum.
Mas veio o tempo da ira ta'puii e os índios agitaram-se nas proximidades da fazenda: várias aldeias aliaram-se contra o inimigo comum, os guerreiros formaram grupos que se embrenharam na floresta para combater os temidos ta'puii, tabas inteiras foram mudadas de lugar para evitar a ação pedradora do inimigo. Angus reforçou a segurança nos limites da fazenda e procurou não interferir. A agitação já durava dias quando foi informado sobre o massacre. Guerreiros das tribos aliadas tinham dado com a aldeia ta'puii, cuja localização era sempre mantida em segredo e, aproveitando a escuridão da noite, mataram todos enquanto dormiam. Angus então juntou seus homens e seus cães de fila e seguiu para o local da chacina, guiado por alguns índios. Caminharam mata adentro por cerca de cinco horas até alcançarem a aldeia massacrada. Chegando lá, nos confins do Amazonas, o Caledônio presenciou o espetáculo mais macabro que os seus olhos acostumados à morte tinham visto. Diante dos corpos mutilados de velhos, mulheres, homens e crianças Angus sentiu as lágrimas lhe escorrerem pelo rosto. Aquela foi a única vez que o Caledônio chorou na vida, exceção feita à hora em que nasceu. E foi ali, ainda sob o impacto daquele hediondo espetáculo, que Angus conheceu Maria Cabocla, a índia ta’puii que viria a ser sua mulher. Mas isto já é uma outra história.
Meu avô contava que quando era menino ainda existiam os restos das caravelas de Angus, encalhadas no leito do rio como carcaça de bicho morto. A cada cheia um pedaço da carcaça era levado pela água, até que uma enchente maior, a pior que já se viu por aquelas bandas, acabou de arrastar o resto da carcaça e apagou os últimos vestígios do nosso ancestral pirata, Angus o Caledônio, primeiro conquistador da Amazônia.


TA'PUII

Foi quando voltava, não muito longe do local da chacina, que Angus, ainda transtornado pelo espetáculo hediondo, avistou a cunhantã escondida no meio do mato. Percebendo que tinha sido descoberta, a menina disparou pela selva como se tivesse asas nos pés. Angus e seus cães de caça perseguiram-na e por fim encurralaram-na de encontro ao tronco oco de uma samaumeira. Mesmo em desvantagem ela não se intimidou. Conta-se que até os cães recuaram diante da bravura da índia. Só depois de muita luta Angus e seus homens conseguiram amarrá-la a um pau, como se fosse caça. Assim, pendurada como bicho, foi levada à casa que um dia seria sua.
Por vários dias ficou acuada num recanto da cozinha sem deixar ninguém se aproximar. Reagia com chutes, arranhões e mordidas a cada tentativa de Angus para tratar de suas feridas. Cedeu, por fim, quando alguns cortes infeccionados começaram a causar-lhe febre e moleza.
Muito tempo ainda passaria até que a índia compreendesse que estava entre amigos. Perdeu então o medo e passou a seguir Angus por onde quer que ele fosse, como sombra. À noite deitava-se aos pés da cama de Angus e lá dormia. Sua presença constante impedia Angus de brincar com outras cunhantãs e ele acabou se contentando só com ela. Para lhe dar um nome, chamou-a Maria Cabocla. Depois, já casada, a esse nome seria ajuntado o sobrenome Caledônio, adotado pelo marido
Já entrada em anos, quando cansou de seguir Angus por toda parte, Maria Cabocla Caledônio passava as tardes sentada na sua tupé estirada no alpendre da casa, pitando um cachimbo comprido e esmagando frutos de purumã. A casa inteira se enchia do agradável perfume exalado pelo sumo do fruto, com o qual fabricava uma espécie de vinho que afirmava servir para curar muitos males, tanto do corpo quanto do coração. Aproveitava estas horas de alquimia para falar de Angus, seu assunto predileto. Recordava o dia em que o marido a pegara braba na selva e seus olhos enchiam-se de lágrimas. Muitos anos depois da morte de Angus ainda se emocionava quando falava nele e os olhos ficavam rasos d'água.
Segundo consta, Maria Cabocla viveu para mais de cem anos e acalentou quatro gerações de Caledônios.



O NORMANDO

Jean, o normando, se formou piloto de galeão na tradicional escola de Dieppe, de onde partiu na qualidade de tripulante de um navio pirata rumo à grande aventura dos mares do sul. Durante sua intrépida vida de expatriado participou de incontáveis expedições, às quais se referia pelo pomposo nome de explorações marítimas, nas intermináveis conversas em bares de má reputação, mas que não passavam de vis ações da mais abjeta pirataria. O bando de flibusteiros do qual era membro fixou seu covil numa ilha qualquer perdida no Atlântico, a meio caminho entre o Velho e o Novo Mundo. Adeptos da convivência pacífica com as nem sempre tão pacíficas tribos dos vastos litorais das terras onde aportavam, praticavam a pirataria utilizando-se de um sistema rudimentar de trocas .
Foi por causa da profissão que Jean veio parar nas praias do nordeste brasileiro, onde o bando do qual fazia parte tinha costume de piratear o pau-brasil. Como não ambicionavam a posse da terra, os franceses não molestavam os índios. Praticantes da convivência amigável, procuravam conquistar os nativos para depois solicitar a colaboração da tribo na difícil tarefa de extrair madeiras e embarcar as cargas nos galeões. O contato freqüente acabou por fazê-los sentir muito à vontade entre os gentios, ao ponto de alguns homens permanecerem nas tribos quando os galeões partiam, para aprender a língua e evitar que outros aventureiros fizessem contato com os índios enquanto estavam ausentes, o que em muito facilitava a convivência, além de possibilitar a preparação de estoques para quando os navios retornassem.
Sendo piloto Jean nunca havia aqui ficado, até o dia em que avistou a potiguara Ôjê. Conta-se que desde a primeira vez que pôs os olhos na cunhantã, o homem perdeu-se de paixão. A moça tinha o riso fácil, nascido lá nas profundezas da sua alma alegre, que jorrava farto como água de fonte. Perturbado pelas intensas emoções que tomaram de surpresa seu coração errante, Jean decidiu se apresentar como voluntário para um período de permanência na tribo, tempo que utilizou principalmente em perseguir a índia. Seguia a moça por todo canto, aparvalhado, implorando que ela o amasse. Chamava-a de eaux jaillissante, que na língua dele quer dizer água que jorra. A situação provocava o riso das outras cunhantãs da aldeia que imitando o estrangeiro de língua engraçada repetiam em coro:  Ôjê.
O normando ficou na tribo potiguara por um período mais longo do que planejara. Muitos navios vieram e partiram e quando Jean deu por si já se tinham ido cinco anos. Mas um dia os mesmos ventos que o trouxeram sopraram na direção oposta e ele partiu deixando Ojê com uma filha ainda pequena nos braços e um grande desgosto no coração.


ÔJÊ

Para ela, aquele homem estranho, de corpo dourado e cabelos de fogo, viera das águas mandado pela brisa que soprava do fim do mundo. Por isso aceitou-o naturalmente em sua vida. Foi ele quem lhe deu o nome de Ôjê e a felicidade de ter uma filha. Foi também ele que deu à filha aquele estranho nome que, segundo dizia, era nome de rainha: Fredegonda. A menina tinha a energia selvagem das terras pagãs e herdou do pai os cabelos da cor do fogo que a destacava no meio do verde profundo da mata tropical. Foi dele também que a menina herdou o dom de falar naquela língua engraçada de estrangeiro.
Da mesma forma intempestiva com que havia decidido ficar na tribo, um belo dia o normando decidiu partir. Embarcou num galeão e fez o vento inverter a direção do sopro levando-o para longe. Sua partida deixou frio o pequeno coração de Fredegonda e calou para sempre o riso borbulhante de Ôjê.
Durante muitas luas a potiguara esperou que seu amado voltasse. Cada nau que apontava no horizonte renovava-lhe a esperança. Aí ela se jogava na água nadando de encontro ao navio, ansiosa para reencontrar seu homem. Quando comprovava que ele não viera, alguma coisa dentro dela morria. De lua em lua a tristeza foi escurecendo o mundo e desbotando a cabeleira de Ôjê. Os cabelos foram ficando brancos, mais brancos, até que embranqueceram completamente. Mais conformada, afastou-se da tribo, retirou-se para as margens de um riacho de águas negras como sua tristeza e tratou de criar a filha. Ali viveu sempre sozinha sem jamais aceitar outro homem em sua oca. Era ainda jovem quando morreu de causa desconhecida. Muitos da sua raça asseguravam que morrera de desgosto.
Aos seus descendentes Ôjê legou a tendência para ter cabelos brancos prematuramente, perpetuando neles a marca indelével do seu desencanto.



O ALMOCREVE

Conta-se que um certo nobre algarviense ambicionava imigrar para o Brasil em busca de riquezas que lhe engordassem a fortuna. Procurando um meio de realizar tais planos sem comprometer seus bens, aproveitou-se da febre do sebastianismo que tomou conta das terras portuguesas após a morte de D. Sebastião, para criar uma história capaz de dar apoio logístico à empreitada. Para tanto, chamou à causa alguns de seus servos de maior confiança, e encarregou-os de espalhar aos quatro cantos que a sua nobre alma havia sido agraciada com uma revelação divina sobre o paradeiro do amado soberano da pátria lusitana. Segundo ele soubera pela voz de um anjo, o rei estava vivo e se encontrava em terras brasileiras, empenhado em organizar um exército invencível, com o qual retornaria para reconquistar o trono português.
A notícia de que o tal nobre estava organizando uma expedição, para se ir juntar às tropas de D. Sebastião na colônia espalhou-se rápida como fogo em pólvora. Centenas de voluntários apresentaram-se almejando participar da patriótica empreitada. Além de satisfazer certas exigências, como gozar de boa saúde e de ter perfeita disposição para o trabalho, os escolhidos precisavam pagar uma determinada quantia ao tal algarviense pelo privilégio de fazer parte da histórica expedição. Foi assim que João, o almocreve, sabendo da nova, resolveu vender sua tropa de mulas para juntar-se aos que fariam parte do exército libertador.
A chegada da expedição em terras brasileiras data, se crê, do ano da graça de 1580. Após uma sofrida e decepcionante travessia, João veio parar na capitania da Paraíba de onde nunca mais sairia. Aqui viveu e morreu. Entre o tempo de chegada e a hora da morte lhe aconteceram muitas coisas. Constituiu família e se tornou respeitável proprietário de terras. Da sua antiga profissão no velho mundo manteve a disposição para o trabalho e a designação que adotou por sobrenome, uma vez que, em sendo um João do povo, não possuía nenhum.
As sucessivas gerações dos Almocreves conquistaram divisas e respeito, chegaram a possuir grandes plantações de cana-de-açúcar, o maior e mais próspero engenho da região, além de fazendas de criação de gado. Produziam o melhor açúcar, a mais pura das aguardentes e a mais legítima das rapaduras, que exportados para além-mar fizeram a riqueza da família.
Mas antes da prosperidade, recém-chegado ao novo mundo, João sofreria o seu calvário.
Desolado pela constatação de ter sido vítima da esperteza do algarviense, estabeleceu-se na cidade de Nossa Senhora das Neves que acabara de ser fundada para proteger o estuário do Paraíba das freqüentes invasões de piratas franceses. As poucas moedas que lhe restavam, usou para alugar um quartinho no quintal da única hospedaria do lugar, situada nas proximidades do Porto do Capim, por onde passava toda a mercadoria comercializada na província. Pagou seis meses adiantados e, com o que sobrou, comprou uma velha mula que mal se agüentava em pé. Com a ajuda do eqüino João fez de tudo um pouco para defender seu quinhão. Não foi difícil ganhar dinheiro, pois ali tudo estava ainda por fazer. Aos poucos foi adquirindo outras mulas que trabalhavam no transporte de carga. A experiência anterior no ofício foi de grande valia e não demorou muito até que conseguisse comprar seu primeiro pedaço de terra, área excelente de várzea, toda retalhada por rios caudais, própria para a cultura da cana-de-açúcar. Plantou com o auxílio das suas mulas e logo colheu o primeiro partido de cana que foi todo comprado pelo engenho d’ El Rei, o primeiro do lugar.
Foi por essa época que João fez uma grande descoberta sobre si mesmo: descobriu que era capaz de sentir ambição. Este sentimento novo, que acabava de florescer em seu coração, resumia-se em dois desejos principais: possuir o engenho d'El Rei e uma certa mulher conhecida pelo nome de Fredegonda.
A filha de índia potiguara com um corsário francês que estivera no litoral paraibano contrabandeando pau-brasil era conhecida pelo gênio irascível e pelos modos selvagens, que muitos atribuíam à mistura genética. Já nos seus trinta anos, era uma mulher bela e, até ali, mantivera os admiradores à distância utilizando-se de meios muitas vezes violentos. Costumava dizer que naquele mundo de aventureiros uma mulher sozinha tinha que valer por dois homens. Morava numa casinha parecida com uma caiçara, em um pequeno sítio herdado da mãe, à margem do rio Preto. O rio era a divisa natural das suas mirradas terras com a propriedade bem maior comprada pelo almocreve. João perdeu-se de amor por ela no dia em que a surpreendeu banhando-se no rio, nuinha como Deus a botou no mundo. Fascinado, não conseguiu desviar os olhos do corpo graúdo e rijo de mulher feita. Fredegonda, por sua vez, admirava de longe o vizinho calado e trabalhador, que chegara ali há pouco mais de dez anos e já prosperara tanto. A paixão foi recíproca, mas como toda paixão que se preza, teve empecilhos. Na verdade, um único empecilho que muito incomodou os amantes: a filha da dona da hospedaria do Porto do Capim, com quem João estava comprometido fazia algum tempo.
O homem tentou desmanchar o compromisso mas a moça se fazia de desentendida. Foi aí que Fredegonda resolveu intervir. Aproveitando uma das freqüentes visitas da rival à fazenda de João, atocaiou-a numa curva do caminho, pegou-a pelos cabelos com sua força de índia, amarrou seus pulsos com uma imbira e a imbira no rabo de uma mula. Depois açoitou a dita que disparou pela estrada em direção à cidade com a mulher varrendo o chão. Nunca mais aquela voltou a incomodar.
Livre do compromisso incômodo, dentro de pouco tempo João casou com Fredegonda, amansando assim a paixão que o consumia. Só então foi capaz de concentrar esforços para realização do segundo grande sonho de sua vida: tomar posse do engenho d'El Rei. Foi preciso lutar por mais quarenta anos até realizar o sonho tão acalentado. Quando já perdia as esperanças, quis o destino que viessem os hereges batavos e confiscassem os bens da coroa, inclusive o engenho. Os holandeses, ignorantes no assunto de açúcar, julgavam o investimento de tocar o engenho arriscado demais e resolveram vendê-lo, preferindo garantir o bom funcionamento e receber, na moleza, os impostos sobre a produção. Assim o engenho foi arrematado por João e filhos pelo astronômico preço de cem mil florins, disputando cada centavo com ricos comerciantes de Amsterdã que, temerosos de investir demais em negócio do qual não entendiam, acabaram cedendo à obstinação do almocreve.
Mais uma vez foi graças à experiência no ofício que João pôde ter o que queria. E a invasão que trouxera tragédia e prejuízo para tantos, deu a ele a oportunidade de possuir o tão ambicionado engenho.
Pode-se afirmar, sem perigo de cometer um grave erro, que o almocreve foi um homem feliz. Apesar dos entraves da vida e de ter trabalhado tão duro que se dizia ter sido ele o inspirador da expressão trabalhar feito um burro, João realizou os dois maiores sonhos de sua vida. E o que pode trazer mais felicidade para um homem do que a realização dos sonhos ?


DIABOS HOLANDESES

Após as guerras da conquista, relativa paz cobria o vale, desde a foz do Paraíba até a Vila Nova do Espírito Santo. No monte, defronte da Baía do Varadouro, o bosque espesso salpicado de paus-d'arcos roxos e amarelos escondia a cidade de Nossa Senhora das Neves. Os assentados na região progrediam. O açúcar produzido nos engenhos criou fama, a fama correu mundo, adoçou a mesa de ambiciosos povos e despertou a cobiça dos barba-ruivas holandeses da Companhia das Índias Ocidentais.
Primeiro chegaram os boatos, seguidos quase de imediato por tentativas de invasão. Por fim, os hereges, que já se tinham abancado no Recife e em Itamaracá, chegaram também ao nosso vale.
Desde os primeiros boatos sobre os ataques holandeses, a velha Fredegonda sentiu ferver nas veias seu sangue vermelho de potiguara. Meio caduca, mas possuidora de um vigor físico de fazer inveja a qualquer jovem, a cabeça de menina ordenava os atos mais insanos que o corpo, ainda forte, obedecia. Foi por causa dos boatos que Fredegonda pegou a mania de se armar até os dentes, feito índio em pé de guerra. Bastava ouvir falar em invasão para que ela se paramentasse toda com os bizacos de munição, pegasse o velho bacamarte, botasse na cinta a faca que fora da mãe e saísse mundo a fora, na direção do mar, com a intenção de defender seu chão a sangue e fogo, praguejando em francês: Je les tues, les diables hollandais !
Desde moça Fredegonda tinha o costume de misturar as línguas. Passava do dialeto dos índios para o português sem nenhuma cerimônia, temperando tudo com palavras e expressões em francês. A prodigalidade lingüística dava-lhe especial encanto. Era mesmo uma das coisas que mais João gostava nela. Nada era tão delicioso para ele quanto ouvi-la sussurrar na hora do amor, entre suspiros "chéri, chéri... " Curioso foi que na medida que envelhecia, aumentava a lembrança da língua aprendida com o pai na infância já tão distante. Depois que começou a caducar, então, seu francês se fez ainda mais apurado. Os filhos, acostumados desde pequenos à língua arranhada pela mãe, muitas vezes ficavam admirados diante da velha que se dirigia a eles falando períodos inteiros em francês. Parecia até que tinham uma estrangeira em casa.
Junto com a incrível habilidade para as línguas, Fredegonda desenvolveu também o primitivo espírito de combatividade. A família desdobrava-se, tanto para decifrar a comunicação misturada de Fredegonda, quanto para controlar seus arroubos bélicos. Quando resolvia sair armada procurando holandeses para matar, alguém tinha que ir correndo avisar aos filhos. Controlá-la era uma odisséia que requeria tática e paciência. A mulher disparava tiros na direção de qualquer um que tentasse aproximação. Os rapazes iam-se chegando sorrateiros, aproveitando os intervalos entre um e outro tiro, enquanto a velha recarregava o bacamarte com a destreza de um hábil soldado. Quando finalmente conseguiam desarmá-la, era reconduzida à casa, sempre reclamando em francês.
Na véspera do Natal do ano de 1634 o que era apenas boato se transformou em história: os invasores desembarcaram nas mansas praias do nosso calmo litoral, tomaram a fortaleza de Santa Catarina, tocaram fogo nos armazéns de açúcar e na esquadra portuguesa atracada na foz do Sanhauá. O horizonte ficou em chamas. Avistava-se o fogaréu de longe, até parecia o inferno. A fama de hereges que tinham os calvinistas foi confirmada, em definitivo, pela mania de queimar. Depois dos armazéns e navios foi a vez dos partidos de cana. Os canaviais em chamas clareavam as noites, a fumaça escurecia os dias e o cheiro acre de cinza inundou tudo.
A muito custo a família controlou a sanha guerreira de Fredegonda durante a invasão. Chegavam à fazenda notícias sobre o pânico que tomou conta do povo. Dizia-se que muitos haviam fugido deixando tudo para trás. Cada escalavrado que aparecia por lá, vindo do campo de batalha, despertava em Fredegonda incontrolável indignação e a velha desfiava abundante praguejar em francês. Foi uma luta mantê-la em casa quando o que desejava era estar no front, combatendo os diabos holandeses. Para segurá-la em casa, deram-lhe garapa e chá de flor de laranjeira por dias seguidos. Os Almocreves haviam decidido permanecer onde estavam, mesmo porque não podiam sequer conceber a idéia de deixar suas terras para viver em outro lugar. Além disso não teria sido fácil fugir com a velha Fredegonda no estado de insanidade em que se encontrava.
Aos poucos as coisas foram-se acalmando. Os invasores, já aboletados, decidiram ser razoáveis para não comprometer a produtividade dos engenhos de açúcar, motivo maior da presença deles nestas terras. Concederam liberdade religiosa e mantiveram o direito de propriedade. Confiscaram apenas os bens da Coroa e se apossaram dos bens abandonados e não mais reclamados pelos proprietários que preferiram voltar para Portugal. Com interesse apenas no produto e não na terra em si, os holandeses leiloaram os imóveis confiscados para que fossem tocados por quem tivesse mais saber e capacidade de produzir. Foi aí que surgiu a grande chance de João comprar o engenho dos seus sonhos.
Conta-se que Fredegonda, já mais sossegada de tanto chá que bebeu, estava tão feliz no dia em que tomou posse da casa-grande do engenho d'El Rei que não parava de beijar João e de chamá-lo chéri. Seu hálito e seu suor espalharam pela casa um leve odor de flor de laranjeira que entranhou nas pedras e ali ficou para sempre. Lembro de ter sentido esse cheiro quando, quase três séculos depois, pisei pela primeira vez os lajotões de pedra da casa do meu avô. Ali Fredegonda havia vivido sua velhice feliz, cuidando dos canteiros de rosas e dando ordens em francês às mucamas que fingiam entendê-la e riam muito daquela língua engraçada. Só não podia avistar um holandês que sua raiva de índia voltava. Alguns fiscais da Companhia das Índias Ocidentais chegaram a ser atacados por ela quando se aproximavam do engenho para cobrar impostos. Por sorte nenhum foi ferido gravemente, e terminaram por aprender a enviar um emissário na frente, avisando da visita, que era para a família afastar Fredegonda. Assim ela não via os diabos holandeses e os fiscais da Companhia podiam trabalhar a salvo.
Os Almocreves sofreram os sobressaltos e adversidades próprios da época, mas nunca abandonaram o engenho. O velho João havia economizado toda a vida para comprar seu sonho; as gerações seguintes trataram de mantê-lo vivo. João e Fredegonda morreram da idade, legando aos seus descendentes o engenho, terras, gado e para mais de cem negros. Além da crença descabida de que a verdadeira riqueza está na capacidade de realizar sonhos. Desde que haja também algum dinheiro para mantê-los.



A ASSUNÇÃO DE SÃO TIAGO

Um cristão novo e exímio entalhador, de nome Ignácio, chegou em peregrinação a Santiago de Compostela, em fins dos Quinhentos, ansiando por milagres e revelações que fortificassem sua fé ainda verde. Maltrapilho e faminto, foi acolhido pelos religiosos no Hospicio de los Reyes Católicos mandado construir justamente para abrigar os peregrinos que, como Ignácio, chegavam ao local em petição de miséria. Enquanto esperava pelos milagres, foi ficando por ali, fazendo seus entalhes que retratavam cenas da vida de Jesus, a martirização de São Tiago, e a violação do lugar santo por Al Mansur, o terrível comandante do califado de Córdoba. Vendia as talhas a outros peregrinos que acudiam ao chamado da fé, e com isso ia levando a vida.
Certa noite, durante as celebrações do aniversário da suposta chegada dos restos mortais de São Tiago à Espanha, depois de um prolongado jejum e um dia inteiro de penitências, Ignácio dormia ao relento, com o estômago vazio e o coração inquieto, quando foi acordado por uma intensa luz que brilhava no pretume dos seus sonhos. Abrindo os olhos descobriu que a mesma luz do sonho brilhava também na escuridão da noite sem lua. Foi então que viu o mártir de Compostela flutuando no meio de toda aquela claridade, e escutou uma voz que dizia: – Na graça do Espírito Santo sigo para junto do Pai. Tu, Ignácio, deves partir para o Novo Mundo para evangelizar os ímpios, em nome do Cristo.
Nos anos que se seguiram, obcecado pela revelação, Ignácio contava sobre o milagre que presenciara a todos quantos por ali passavam. E muitos creram e compraram os entalhes que ele fazia, então com um único tema: a visão que tivera e que acreditava ser a assunção de São Tiago. Ficou na cidade por mais de uma década ainda, levando uma vida franciscana, poupando cada centavo que ganhava, com a única finalidade de cumprir a missão que lhe fora atribuída pelo santo de sua devoção.
Por essa época conheceu Isabel, uma peregrina de longas tranças negras, que, fascinada pela história da assunção, passou a dedicar a Ignácio uma afeição quase religiosa. Depois, já casados, emigraram para o Brasil num dos galeões que partiam com destino às promissoras possessões de Felipe de Espanha e Portugal.
Aqui chegando, instalaram-se em casa de franciscanos, na cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, onde os religiosos iniciavam a construção de um convento e precisavam de mão de obra qualificada. Dominando bem a arte de entalhar, Ignácio foi de grande valia para os capuchinhos. Ele e Isabel ficaram com os frades por um bom tempo, até Ignácio ser designado para exercer a missão evangelizadora que tanto almejava. Foram então mandados mais para o interior, rio Paraíba acima, para ocupar uma capelinha campestre, abandonada desde que o último frade que lá estivera fora morto pelos índios. Próximo à capela o casal construiu uma pequena casa onde passaram tempos de paz e harmonia, cultivando a terra e vivendo do que aquele solo pródigo lhes dava. Aos domingos Ignácio pregava o evangelho para raros fiéis estabelecidos nas redondezas e alguns índios que se achegavam, mais curiosos do que interessados em religião. Até que um dia a felicidade acabou. Mas isso já é uma outra história. 



      A ESPANHOLA



  Duas forças contraditórias brigavam dentro do espírito de Isabel desde a infância: o apelo do céu e o apelo do mundo. Filha de um criador de gansos dos arredores de Salamanca, perdeu a mãe quando tinha apenas seis anos. Este fato proporcionou-lhe o primeiro contato com a idéia de Deus que ficaria gravada por muitos e muitos anos na sua mente: um Deus tirano levara sua amada mãe fazendo uso do poder arbitrário da Sua vontade indiscutível. O triste quadro das lacrimosas mulheres vestidas de negro que rezavam velando o corpo inerte de sua pobre mãe, igualmente trajada de negro e com a expressão mais desolada que poderia se ver numa face humana, pôs no coração de Isabel a certeza de que aquele Deus era cruel e o céu, para onde, segundo as carpideiras, sua mãe tinha seguido, não era um lugar bom. Caso contrário, a morta não estaria com aquela cara tão triste.
  Duplamente sofreu Isabel; pela morte da mãe, e pela indiferença do pai, mergulhado na apatia desde o dia que enviuvou. Para espantar a tristeza, a menina largava-se pelos campos tangendo os gansos e só voltava para casa quando anoitecia. Durante esses passeios solitários alimentava-se de frutos silvestres, bebia água dos córregos, sentava-se nas rochas mais altas para contemplar os vales, e não pensava em nada, atenta apenas às batidas do próprio coração. A algazarra dos gansos e o frescor dos campos aliviavam a tristeza que com o tempo foi desaparecendo até sumir sem deixar marcas visíveis.
  Assim Isabel foi crescendo e nem se deu conta. E na medida que crescia seus longos cabelos negros iam ficando cada vez mais longos, passaram da cintura, e tão longos ficaram que um dia a menina precisou trançá-los para que não lhe atrapalhassem os passos. Quando surpreendeu a menina trançando o cabelo seu pai finalmente reagiu como se acordasse de um longo sono. Prevendo que dali para a frente todo homem que visse aquela negra trança ia desejar desmanchá-la, mandou que a menina arrumasse seus pouquíssimos pertences e a levou para um convento onde, acreditava ele, as freiras a protegeriam dos males do mundo e lhe dariam uma educação mais esmerada.
  Isabel tinha treze anos quando entrou no convento isolado no topo das colinas de Ávila. Aquele foi o seu segundo contato com o mundo de Deus, ainda mais assustador que o anterior. As religiosas levavam uma vida que, à primeira vista, poderia parecer sublime, mas que depois, avaliada pelo lado de dentro das pesadas portas do convento, se revelava insana. Aquele mundo de orações e penitências, de orações e votos de silêncio, de orações e renúncias, era definitivamente um mundo triste. Foi por essa época que Isabel começou a suspirar. Dava longos e desolados suspiros que faziam estremecer convicções cultivadas com cuidado nos corações das religiosas, espalhando inquietação. Mais tarde, pensando nos sete intermináveis anos que passou no convento, Isabel concluiu que sobrevivera graças aos gansos.
  Tendo conhecimento da experiência da menina com as aves, as freiras encarregaram-na da criação. Logo cedo, depois das primeiras orações, ela alimentava galinhas, patos e gansos e depois os tangia encosta abaixo, a roupa branca de noviça confundindo-a com as aves. Esses momentos de liberdade deixavam seu corpo leve como devem ser os espíritos, e sem dúvida foram responsáveis por sua sobrevivência naquele lugar sombrio.
  Às vésperas de prestar votos perpétuos, sua atitude inadequada e seus suspiros inconvenientes preocupavam a superiora da ordem que decidiu enviar Isabel em peregrinação, num último esforço de ver confirmada uma vocação inexistente. Caso não desse certo, não sabia o que fazer, pois o pai da moça falecera dois anos antes, deixando-a órfã e sem parentes que a acolhessem.
  Assim foi que Isabel seguiu a pé para Santiago de Compostela, acompanhada por duas freiras e, lá chegando, veio a conhecer Ignácio, o entalhador que fora agraciado com uma revelação divina. A fé sem sombra de dúvida personificava-se naquele homem magro, de cabelos longos e barba aparada, que parecia o Cristo. Nele Isabel encontrou o que buscava dentro de si mesma sem jamais encontrar: a verdadeira fé.
  Impressionado com a devoção no olhar da moça e arrebatado pela visão da longa trança negra que mal divisou sob a mantilha e desejou desmanchar, Ignácio sentiu seus instintos acordarem com assustadora intensidade. Informado sobre a situação da moça, tomou a única atitude que as circunstâncias e a decência permitiam. Procurou as freiras e propôs casamento a Isabel. Um mensageiro foi mandado para consultar a madre superiora que concordou de pronto, sem disfarçar o alívio que sentia em livrar-se do problema.
  Ignácio e Isabel casaram-se numa cerimônia campestre, simples mas bonita, assistida por padres, freiras e andarilhos. Quinze dias depois partiriam para a grande aventura do Novo Mundo. 

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                                                       CONSOLAMENTUM
  Durante os primeiros anos no Novo Mundo Ignácio evangelizou raríssimos ímpios que se achegavam desconfiados, trabalhou muito e teve com Isabel seis filhos, todos homens. Uma vez por mês um jovem frade do convento de Santo Antônio, chamado Clemente, vinha de visita à capelinha onde o então beato Ignácio fora parar, por concessão dos franciscanos. Clemente hospedava-se na casa dos espanhóis, trazendo as novidades da cidade, provisões e ensinamentos religiosos.
As visitas de Frei Clemente eram sempre um acontecimento. Com a casa toda arrumada para recebê-lo, Isabel esmerava-se nos quitutes e esperava ansiosa a chegada do religioso por quem tinha indisfarçável afeição. Nos dias de visita, Frei Clemente e Isabel passavam as tardes no alpendre em animadas conversas que entravam pela noite. Ele sempre ficava por dois dias, depois tomava o caminho de volta descendo o rio na canoa conduzida por um índio batizado com o nome de Adão.  
  Foi o franciscano o involuntário causador da desdita que se abateu sobre a família de Isabel, e que iria outra vez mudar radicalmente a vida da espanhola.
Tudo começou quando, no meio de uma conversa sobre a criação da ordem a qual pertencia, o frade mencionou os hereges cátaros e Ignácio demonstrou grande interesse sobre o assunto. Por isso, na visita seguinte o frade trouxe-lhe de presente uma cópia do Liber de Duobus Principiis e um antigo exemplar da bíblia cátara, usados no convento para estudos. Acreditando estar contribuindo para reforçar a fé do espanhol, Frei Clemente estava na verdade plantando perigosa semente. A partir da leitura do material fornecido pelo frade, Ignácio começou a mudar. Passou a acreditar que o caráter divino do mundo espiritual era tão verdadeiro quanto o caráter satânico do mundo material. Essas convicções germinaram com surpreendente força no terreno fértil do seu espírito atormentado pela vida de penúria, sofrimento e isolamento levada durante tantos anos, até que encontrara alguma alegria no amor de Isabel.
  Nos meses que se seguiram a doutrina cátara foi tema de intermináveis discussões durante as visitas de Frei Clemente. Por mais que argumentasse com as idéias do próprio São Francisco e de outros renomados teólogos, o religioso não conseguia tirar da cabeça de Ignácio a intenção de se tornar um puro. Convencido de que vagava num universo mau, Ignácio passou a rejeitar a mulher no leito conjugal e renegou os filhos, declarando-se culpado de ter contribuído para aprisionar aquelas pobres almas à vil matéria. Mudou-se para a minúscula sacristia da igreja a fim de se manter distante dos parentes que podiam contaminá-lo com seus corpos impuros. Alimentava-se apenas de vegetais porque acreditava que os animais também tinham alma. Rezava e se penitenciava o dia inteiro. Concentrado na contemplação divina, não trabalhava, o que levou Isabel a arregaçar as mangas e assumir a responsabilidade pelo sustento da família. Os meninos tiveram que ajudar: os dois mais velhos junto com ela pegando no pesado trabalho do campo, os dois do meio ajudando com o pai enfermo e com os irmãos menores ainda muito pequenos para trabalhar. Enquanto Ignácio definhava, Isabel lutava para manter vivos os filhos e ela própria.
  Mais surpreendente do que a conversão de Ignácio foi o sucesso das pregações que fazia. Nunca antes a igrejinha tinha abrigado tanta gente. Alguns vinham de longe para ouvir aquele que pregava a perfeição, porque então Ignácio já se considerava um perfeito e praticava o consolamentum.
Alarmados com as notícias que vinham da igrejinha e com o rumo que as pregações do espanhol tomaram, os frades alertaram o governador da província para o perigo que representava a propagação de uma seita herege numa terra ainda sem grandes convicções religiosas. Todo o trabalho de catequese que vinham realizando poderia ser anulado por um único desvairado como Ignácio. Solicitada a intervenção do governo, uma milícia foi enviada ao local para proibir o culto herege e interditar a capela.
  A chegada da guarnição foi o estopim da tragédia. Era domingo e Ignácio estava no meio de uma pregação quando os soldados invadiram a igrejinha lotada. Houve um arremedo de alvoroço na hora que o comandante se dirigiu ao pregador e lhe passou às mãos a proibição oficial ao culto. Depois de ler o papel, um transtornado Ignácio, aos berros, insuflou os fiéis contra os soldados, que, segundo ele, estavam ali a serviço do demônio. A confusão que se formou então resultou em muitos feridos de ambos os lados. Chocado com a violência que presenciava, Ignácio, ainda mais alucinado, subiu no altar e diante da atônita platéia fez aquela que seria a última pregação de sua vida, antes de varar o próprio peito com uma lança retirada da mão de uma imagem de São Jorge que enfeitava o altar.
  Morto Ignácio, os religiosos, preocupados com o destino da jovem viúva cheia filhos por criar, decidiram doar legalmente a Isabel as terras ao redor da capelinha. Assim a espanhola veio a ser a primeira mulher fazendeira no vale do Paraíba.


SENHORA DO MASSAPÊ

A morte de Ignácio causou em Isabel sentimentos contraditórios. Antes, quando o marido abdicou das responsabilidades com a família para tornar-se um puro, ela havia ficado desolada, aniquilada pelo peso da sensação de abandono que lhe comprimia o peito, só aliviada pela lida diária com os meninos e a fazenda, questão que por seu caráter imediato sobrepusera todas as outras. Depois, no momento que soube da morte do companheiro foi tomada por uma profunda tristeza, semelhante àquela que sentira diante da mãe morta anos antes. Mas, após o primeiro impacto, uma inexplicável sensação de alívio foi crescendo, crescendo dentro do seu peito, e no terceiro dia após o sepultamento do marido já se havia transformado em alegria tão intensa e verdadeira que ela mal podia disfarçar. Uma palavra pulsava no seu corpo, esboçava-se na sua mente, tomava forma e sentido e desabrochava em um sorriso. Liberdade! dizia a brisa que soprava suave nos campos daquela nova terra que agora sentia mais do que nunca sua.
Seguira seu homem numa aventura perigosa em nome de uma fé da qual ela própria não compartilhava. Depois da morte do marido compreendeu que havia driblado o destino obscuro que a ameaçava em cada recanto de sua terra natal, uma Espanha onde ecoava lúgubre a voz sombria da Inquisição. Desde que ingressara no convento sentira-se atormentada pelo medo da heresia. Depois encontrou Ignácio e a fé inabalável do homem fora para ela como uma tábua de salvação. Ele a salvara da areia movediça da perdição e ela lhe seria sempre grata por isso. Com ele atravessara oceanos e teria feito muito mais.
Da travessia guardava vagas lembranças. Mais sensações que lembranças  deslumbramento diante do mar imenso que se estendia até o infinito; medo das fortes tempestades que enfrentaram; sobressaltos noturnos; ruídos: do vento nas velas, da água batendo no casco do navio, da madeira rangendo na escuridão. E o cheiro do mar misturado ao cheiro do homem, seu marido, quase um desconhecido com aquele rosto de santo e o corpo magro, morno, onde ela aninhava a cabeça para acalmar as tumultuadas sensações.
Depois foi a visão da exuberante terra que se delineava na neblina da manhã em que chegaram: a densa vegetação tão verde, a terra exalando odores, pulsando como se respirasse. Viva. E as garças brancas pousadas na margem do rio que desembocava nas praias claras. Parecia o início dos tempos quando o mundo acabara de ser criado. A intensa luz e os odores exóticos escorreram para dentro dela, espalharam-se pelo corpo intoxicando os sentidos e atingiram recantos secretos de sua alma.
Foi aí que aconteceu o milagre. Entendeu que havia finalmente encontrado Deus. Ele estava bem ali, onde sempre estivera, na emoção que sentia em contemplar aquele espetáculo e no supremo prazer de fazer parte da natureza. Estava ali, naquela terra toda nova, para onde a trouxeram as correntezas da vida, como estivera sempre nos velhos campos da sua Espanha sem que ela O reconhecesse. As duas forças que brigavam dentro dela fundiram-se então numa única crença: Deus era o mundo. E toda noção de pecado se evaporou sob o sol escaldante do trópico.
Os primeiros anos na nova terra foram particularmente penosos. Ainda mais do que os tempos de Ávila. Ignácio tinha arranjado trabalho na construção do convento de São Francisco e o casal foi alojado na residência dos frades. Para Isabel era mais difícil conviver com a rotina contida dos religiosos depois da descoberta que fizera. O entalhador era tratado pelos frades com o respeito devido a um verdadeiro artista, e Isabel recebia as atenções devidas a uma senhora. Foi nesse tempo que a moça voltou a suspirar. Suspiros longos que acabaram perturbando a santa paz dos religiosos. Aqueles indícios de vida ameaçando explodir faziam os jantares no refeitório terminar mais cedo. Isabel suspirava fundo e os frades, perturbados, um após outro iam pedindo licença para se retirar, deixando as refeições inacabadas esquecidas no prato. Apenas Frei Clemente, um jovem frade seguidor fiel das máximas do santo de Assis, sorria para ela e terminava de comer placidamente. Isabel se afeiçoou ao franciscano, o tinha como ao irmão que nunca tivera. Aprendeu com ele a oração ensinada pelo patrono da ordem que falava de pássaros e flores e chamava-os de irmãos. Foi essa a única oração que os lábios da espanhola conseguiram pronunciar com sincera fé. Unidos pela simpatia e juventude, Isabel e Frei Clemente construíram uma verdadeira amizade, que crescia na proporção que subiam as paredes do convento.
Conta-se que também os frades desejavam desmanchar a longa trança negra de Isabel, e por isso resolveram considerar os insistentes pedidos do obstinado Ignácio para se dedicar à catequese. Concederam-lhe então a patente de beato, junto com a licença tão almejada, e foi com alívio que viram o casal partir para a capelinha campestre onde se instalariam. Permitiram também o usufruto das terras em volta para que tivessem com que sobreviver, livrando desta forma os solitários corredores do convento da perturbadora presença da espanhola.
Na sua nova casa, pela primeira vez na vida Isabel sentir-se-ia realmente feliz. Tinha liberdade para fazer o que quisesse: largar-se pelos campos quando bem entendesse, suspirar quanto desejasse, e rir sem que sua alegria incomodasse ninguém. Cuidava da casa, da horta, do jardim, das galinhas, pescava no riacho. Gostava de se deitar na varanda e, mais que tudo, gostava de tomar banho de rio como as índias. Seu maior prazer era descer de manhãzinha até a beira do rio, desfazer a longa trança, lavar os cabelos na água cristalina, depois deitar na relva para secar-se ao sol. Muitas vezes Ignácio repreendeu sua nudez nesses momentos, mas ela não se importava. Argumentava com a inexistência de colonos nas proximidades da missão que pudessem surpreendê-la. E os índios que porventura aparecessem poderiam se admirar mais das pesadas roupas que usava do que da visão do seu corpo nu. O marido encerrava sempre a discussão afirmando, de cara amarrada, que se ninguém via, Deus estava vendo o pecado que ela cometia. Mas Isabel não ligava. Sabia que alguns carinhos desamarrariam a cara do homem e ficava em paz consigo mesma e com o mundo. Aqueles foram tempos felizes. Nasceram os meninos, a mesa era farta e o querido Frei Clemente visitava-os sempre.
Isabel sentia-se tão satisfeita que só percebeu a loucura do marido quando ele, antes tão apaixonado, passou a rejeitá-la. Tudo nela parecia incomodar o homem e aquilo lhe doeu muito. O olhar insano do marido era mais feroz do que os olhares dos infelizes padres que enxergavam nela a tentação. Depois, a morte de Ignácio, trágica e ao mesmo tempo patética, encheu-a de uma tristeza comprida que se ligava àquela outra sentida lá no passado, quando havia perdido a mãe. Mas, no meio de todo pesar, entendeu que com Ignácio se ia também o último elo que a ligava àquela velha noção de um Deus com cara de morte. Seu novo Deus tinha a face resplandecente da vida, e por causa dessa verdade a tristeza que sentia foi se transformando na mais pura alegria, até que o corpo ficou leve como devem ser os espíritos.
Essa alegria se multiplicou e quase não coube no peito quando se viu dona das terras doadas pelos frades. Sabia que dali por diante seria senhora da sua própria existência, legítima senhora daquela terra escura saída das entranhas do mundo. No massapê fecundo plantaria a doce cana creoula e dela tiraria sua força. Por isso amou aquela terra com o fervor que passaria a todos os seus descendentes, que partilhariam desse amor com idêntica devoção. Dessa devoção à terra, seus filhos varões tirariam apuradíssimo senso de justiça, e os que por força do destino não foram homens da terra, tornariam-se competentes homens das leis. Quanto às mulheres, viriam outras Isabéis como ela, dotadas de apaixonado amor pela vida e sem qualquer noção de pecado.


AMOR DE TIMBÓ

Nos meses que se seguiram à morte de Ignácio Isabel trabalhou incansável no plantio da cana. Com o tempo foi comprando negros de lavoura e aumentando a produção. A plantação cresceu, as boas safras financiaram a aquisição de mais terras e mais escravos, até que Isabel se tornou a poderosa senhora dos massapês. Mas a nova vida não desfez velhos hábitos. Duas vezes por mês Frei Clemente aparecia na fazenda, como fazia nos tempos de Ignácio. Chegava pelo rio na canoa remada pelo índio Adão, e em uma dessas visitas trouxe a cabocla Rosa do Cardo, para ajudar Isabel nos trabalhos domésticos.
Foi com Rosa que Isabel aprendeu a pescar usando timbó. A planta que crescia nos alagados das margens do rio era colhida, esmagada em um pequeno pilão, e logo em seguida derramada nas águas claras da levadinha que desembocava em um remanso do Paraíba. Não demorava muito os peixes boiavam bêbados e podiam ser pescados com puçá ou até mesmo com as mãos.
Atribui-se a culpa do que aconteceu naquela verão de 1617 à prática da pesca com timbó. Aquele dia já amanheceu diferente. Isabel acordou mais tarde do que costumava e ficou na cama tomada de estranha preguiça, suspirando como nos tempos do convento. Completava 38 anos naquela data e havia combinado um almoço com os filhos. O único convidado de fora seria Frei Clemente que deveria estar chegando por volta das onze horas. Quando finalmente a espanhola levantou da cama, os filhos já tinham saído, cada qual para seus afazeres. Tomou o café servido por Rosa, e desceu para a levadinha na intenção de pegar alguns peixes e camarões para o almoço. Rosa sempre a acompanhava nas pescarias, mas naquele dia a ama ficou adiantando as coisas na cozinha. Isabel queria um almoço de aniversário impecável, com pastel doce de sobremesa.
Já no remanso, Isabel colheu e começou a esmagar o timbó distraída, pensando na inquietação que vinha sentindo ultimamente, toda vez que Frei Clemente estava para chegar. Esperava-o com ansiedade, uma coisa apertando o peito, tirando o fôlego. Quando o avistava descendo da canoa, se dirigindo à casa com passo firme, sentia indiscritível bem estar. O corpo ia aos poucos relaxando e um gostoso calor subia afogueando-lhe o rosto. Era cheia de alegria que retribuía o sorriso meigo que fazia parecer de menino o rosto de homem já maduro do frade.
Até ali não se permitira examinar com mais cuidado seus desconcertantes sentimentos. O dia do trigésimo oitavo aniversário, porém, trouxera consigo uma espécie de urgência. Sentia que estava mais velha e, pensava, talvez não tivesse mais muito tempo. A intensidade das emoções experimentadas na solidão do remanso misturou-se ao forte cheiro da erva amassada e Isabel sentiu uma zonzeira na cabeça que a deixou meio mole. Mesmo assim espalhou a planta na água e logo começou a recolher os peixes e camarões que, entorpecidos, praticamente pulavam sozinhos na puçá. Tratou ali mesmo do pescado e depois levou para Rosa temperar. Não deu muita atenção quando a cabocla perguntou se ela tinha lavado bem os peixes para tirar o excesso do narcótico. Respondeu qualquer coisa enquanto seguia para o quarto para se aprontar. Os rapazes já chegavam famintos e Frei Clemente não tardaria.
Supõe-se que a lavagem inadequada do pescado foi a causa da forte sonolência que tomou conta de todos depois do almoço. Mal haviam terminado a sobremesa os rapazes foram-se recolhendo aos quartos para a sesta. Isabel tinha lembrança muito vaga de ter acompanhado Frei Clemente ao terraço onde sentaram para prosear, e a sensação ainda mais remota de tê-lo surpreendido mirando-a de modo estranho, como se tivesse fogo nos olhos. Sentados lado a lado nas espreguiçadeiras ela podia sentir o calor do corpo do homem e aspirava o suave odor que ele exalava, mistura de lavanda e incenso, que fazia sua cabeça rodar ainda mais. Os olhos pesavam como chumbo, por isso fechou-os devagar e quando os abriu outra vez o frade não estava mais na cadeira ao lado.
Levantou ainda muito sonolenta e saiu à procura do amigo. Os meninos dormiam nos quartos. Rosa ressonava deitada numa esteira na fresca do quintal. Como se uma força invisível lhe guiasse os passos, Isabel tomou o rumo do remanso. Lá havia um enorme cajueiro cujas raízes grossas entranhavam-se na ribanceira e desciam como tentáculos até à margem do rio de areias alvas como nas praias de mar. Primeiro avistou as roupas escuras do frade jogadas sobre a raiz mais graúda do cajueiro. Depois descobriu o homem no meio da água, o corpo forte e belo livre do hábito sem forma revelando-se como uma aparição. Com o coração quase pulando para fora do peito e a cabeça zonza, Isabel entrou na água vestida como estava, até chegar bem perto do homem que continuava imóvel. Parou ao lado dele muda e palpitante. Fitou os belos olhos que pareciam bêbados como os dos peixes afetados pelo timbó e sentiu que se afogava na escuridão daquele olhar. Nunca soube direito quem fez o primeiro movimento. Só lembrava que sentira o corpo molhado do homem escorregando sobre o seu enquanto as mãos enormes desfaziam sua longa trança negra. Quando sentiu os lábios de bálsamo sugarem sua boca, foi varrida por uma tempestade mais intensa que aquelas enfrentadas na travessia dos oceanos. Perdeu toda noção de tempo e espaço. Tudo que conseguia sentir era aquele corpo amando-a. Depois, vendo o homem sair da água, recolher o hábito escuro e desaparecer no mato, compreendeu que viera a este mundo apenas para viver aquele instante. Com a mente clara feito um dia de sol reconheceu em Clemente o verdadeiro amor de sua vida. E sentiu o corpo leve como devem ser os espíritos.
O frade partiu sem que uma palavra fosse trocada entre eles. Apenas os olhos desesperados mergulhados nos dela confirmavam o milagre que haviam partilhado. As visitas foram suspensas temporariamente. Só muitos domingos depois ele apareceria outra vez, com uma sombra de tristeza no sorriso doce. Ele e Isabel se comportaram como de costume. Nada denunciava o tumulto dos seus corações apaixonados. Só quando se preparava para voltar ao convento Clemente falou, quase num murmúrio, que apesar do imenso amor que sentia por ela, era padre por vocação, uma vocação que não podia ignorar. Por isso partiria para longe, para refletir e avaliar seus sentimentos. Cada palavra que dizia penetrava como ferro em brasa no coração da espanhola, e cada palavra dita por aqueles lábios que podiam ser tão apaixonados fazia crescer seu desespero. Mas ela não moveu um dedo para detê-lo. Assistiu a canoa descer o rio levando para sempre o único amor verdadeiro que experimentara e que deixara, sem o saber, um pedaço dele no seu ventre. Porque então Isabel já sabia que estava grávida.
Foi desse amor de timbó, louco e impossível, que nasceu a segunda Isabel, chamada carinhosamente na fazenda de a Bastardinha, tão bela quanto são belos os filhos do amor. Depois do nascimento da menina, sua única filha mulher, Isabel decidiu que devia se desvencilhar do passado de uma vez por todas: vendeu as terras da várzea, pegou seus filhos, seus negros e o que podia ser levado e, resolvida a criar gado, marchou para o interior, até onde só raros aventureiros tinham ousado chegar. Apossou-se de milhares de hectares de terras e importou as primeiras matrizes dos Açores. Chamou a fazenda de Ingá do Bacamarte, porque quando ali chegaram tudo que havia eram os campos de pasto nativo que se estendiam até o horizonte, e um solitário ingazeiro debaixo do qual foi encontrado um velho bacamarte, abandonado ali só Deus sabia quando e por quem. A fazenda tornou-se um exemplo de empreendimento no Novo Mundo e muito se falou da espanhola que comandava terras e vidas com mão de ferro.




In: Histórias da Arca da Velha/
Bella Santiago. 2ª edição. João Pessoa:
Idéia,2003. 



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Poesia Selecionada


Ares
Deve ser de estar no mundo,
pelas estradas, pelas esquinas
meio jogada, nas avenidas
meu ar profundo.

Deve ser de andar nas praias,
pelas areias, meio largada,
meio sereia por entre ondas,
meu ar de mar.

Deve ser de estar nos trópicos
entre calores de tantos corpos,
vivendo amores e dissabores,
meu ar de lobo.

Deve ser de andar ausente
como se fosse indiferente
aos teus apelos, aos teus afagos,
meu ar de ar. 




Colibri

Se me calo é de temor,
asa de borboleta,
debatendo-me em segredos,
escondo o mel do desejo
- beija-flor.

Mas se acaso te calas
emudeço de tristeza,
navego a incerteza,
perco rumo, desgarrada
- gaivota.

Quando segredos me falas
sorrio boba e perdida,
desmedida, embevecida
de ti, da vida, de mim
- colibri.

Mas se tu és desamor,
escureço como a tarde,
como o mar na tempestade,
sou planta murcha, sou morta
- gaivota.




Amigo Oculto

O amor do meu amor se oculta tanto,
em silenciosos contrapontos
entre um e outro beijo; 

o querer do meu amor se faz custoso
e deixa no seu rastro duvidoso
tumultos no meu peito...





Mar Espelho

Olhar cristalino, límpido,
neste outro olhar despejo,
penetro teu corpo líquido
água sem pensamento,
tépido corpo que invejo,
corpo de esquecimento.

Mar espelho em que me vejo
inteira em ti me derramo,
também meu padecimento.

Em ti me vejo e te amo
mar espelho de segredos,
água sem pensamento. 




Inspiração

...foi então que num rompante
me veio o desejo insano
de eternizar teu riso branco
em puro mármore de Carrara,
ou pintar jeitos e gestos
prá mandar emoldurar
e depois dependurar
na Uffizi da memória,
ou então serigrafar
prá te ver multiplicado
e vender nas galerias
aos amantes, namorados;

...foi então que num rompante
me veio o desejo insano
de imortalizar o lampejo
de paixão no teu olhar,
ou fazer desse teu beijo
um filme lindo, mundano,
prá ser premiado em Cannes
e depois sair em vídeo
prá qu'eu reveja mil vezes
numa tela imensa e clara;


...foi então que num rompante
me veio o desejo insano
de te amar em tom maior,
numa sonata cantar-te
ou num poema de amor,
transfigurar-te. 




Germinal

Como escutares
ao raiar do dia
pios de aves.

Como nasceres
despertando pétalas,
como papoulas.

Como outras flores
exalando odores
são primavera.

Qual violetas
em mil matizes
brotam amores.

Como murmúrios,
como segredos...





Composição

Na sintaxe do teu corpo
perco o rumo,
em dissonâncias
me atrapalho,
ancoro meu discurso
no teu dorso,
ávida leio teu beijo
e absorvo
muda
a doce linguagem do desejo. 
My love

Não me servem
alusões, suspiros, cenas,
insinuações, elipses, poemas,
não me servem silêncios nem olhares,
tão pouco queixas, tão pouco penas.

Preciso dos teus lábios
inquietos
a proferir claro amor por mim.

Profano amor,
sê obsceno! 

Verso Secreto.

se ao menos pudesse
prender teu olhar incerto,
penetrar devagar teus segredos,
teus apegos,
teus afetos...

se ao menos pudesse
cravar um punhal no teu sexo,
senti-lo entrar na tua carne,
no âmago
no secreto... 
Traçado

Deu traça
naquela carta de amor
que tu me mandaste.
E sabe,
pensando às claras,
depois de tanto sereno
no amor também
deu traça!