RAQUEL ROCHA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Alô, alô Marciano!

Dizem, os entendidos, que E.T’s costumam vir à terra para analisar essa máquina chamada Homem e o comportamento humano. Sendo assim, nada melhor do que um curso intensivo no planeta azul! Porque E.T. que se preze tem mais é que matar sua sede insaciável de conhecimento insaciável.
Deixando a máquina e falando de comportamento, há décadas temos notícias de que esses “voyeurs” rondam o nosso planeta deixando suas marcas, sinais do tipo: Eu estive aqui! Tanta ida e vinda justifica-se afinal, o ser humano é bicho-grilo e sua analise requer estudos e pesquisas profundas. . .
Imagine quantas dificuldades “nossos estudantes” têm sofrido? Já pensou? A cada regresso uma surpresa! São tantas mudanças de comportamento capaz de deixar qualquer E.T no mínimo confuso. O que é já não é mais, o que Era agora é! Vai entender! Roupas surradas, manchadas, rasgadas, era coisa de pobre, miserável, pelo menos até a última “visita”, agora é sinal de status, jovialidade, gente antenada, sintonizada na moda (e como é cara essa moda meu Deus!), coisa que pobre não pode se dar ao luxo!
Talvez da última vez em que “passaram” por aqui a pedida fosse segurar o tchan! Xiiii, já era! Agora quem segura, solta, estica e puxa é o tal do Funk, que se antes era discriminado, hoje é o rei da festa da garotada e... das Glamourosas é claro! Por falar em Glamourosas, como será para “eles” analisar o comportamento feminino? Esse ser de mistérios indecifráveis chamado Mulher. . . Será que lá no planeta vermelho (ou verde, ou roxo, ou seilaoque) existe um curso específico para estudar o sexo frágil? Que os céus os ajudem!
Terra, humanos, são tantos pormenores. . . EVOLUÇÃO, OVULAÇÃO, REVOLUÇÃO, EBOLIÇÃO e coisa e tal. . .
Nem com todo o avanço tecnológico é possível decifrar seres tão inusitados! Será que esses E.T’s estão certos da escolha de estudar o comportamento humano? Não teria nada mais simples, ou, menos complicado? Vejamos. . . O que? Política? Psiu! Melhor pular esse assunto, dá muito pano (superfaturado) pra manga!
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O despacho

Durval é um retirante nordestino que partiu de sua terra, como tantos outros, para tentar uma oportunidade na “cidade grande”, fugindo da seca e da fome. Batalhou muito, constituiu família, conquistou seu espaço com muito esforço e dedicação. Manteve o coração puro dos tempos de roça. Orgulhava-se em dizer que durante os quarenta e cinco anos em que foi funcionário público, jamais se atrasou ou faltou ao trabalho.
Era funcionário exemplar, tanto que conquistou, em pouco tempo, o cargo de Encarregado da Guarda Municipal. Bom chefe. Quando alguém passava da linha, aconselhava, procurava saber o quê o fez agir de modo inadequado, nada que meia hora de conversa não desse jeito. Por essa razão Durval era querido, talvez, o chefe mais querido que aquela prefeitura já teve.
O último local da ronda noturna era o cemitério, por volta das vinte e duas horas o encarregado passava para checar se tudo estava nos conformes. Acostumado a acordar o guarda noturno, que freqüentemente dormia no posto que deveria vigiar, chegava de mansinho para dar o flagrante. Certa noite, algo fugiu a rotina. Durval viu um homem muito bem vestido colocando um despacho de macumba na porta do cemitério. Tanto ele quanto o motorista da perua municipal, intrigaram-se com a cena. O encarregado desceu do veículo para falar com o “visitante” que tentava esconder o rosto com seu belo chapéu panamá.
- Boa noite. – cumprimentou.
- Boa noite. – respondeu o homem.
Chegando mais perto, Durval reconheceu a alinhada figura.
- É o senhor “seu” Geraldo? – perguntou.
De branco que era, o homem ficou tão vermelho quanto um vidro de pimenta.
- É... É sou... Sou eu – respondeu meio que balbuciando.
- Mas “seu” Geraldo! O que é isso?! Me admira o senhor, um homem estudado! Um advogado da mais alta competência, colocando despacho na porta do cemitério!
Geraldo, de tão envergonhado, sequer levantou a cabeça.
E o chefe da guarda municipal continuou com o sermão:
- O senhor é um homem ilustre de nossa cidade! Como pode fazer uma coisa dessas?! O senhor não sabe que não pode colocar despacho de macumba na porta cemitério?!
- O senhor me desculpe, é que eu...
- Não precisa se desculpar – interrompeu – O senhor é um homem de inteligência privilegiada! Não sabe que o lugar de colocar despacho é naquele canto ali?! 
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Danny. Sem Noção.
Ficha Técnica
Danny: 13 anos
Perfil: Super legal, super amiga, super feliz, super. . . Qualquer outra coisa
Amigas da Danny: Fe, Le, Re, Pri, Dri, Gi, Taty e Paty.
Passatempo preferido da Danny: Testes de revistas para adolescentes.

Certo dia o avô da Danny, um senhor de 86 anos, foi buscá-la na escola. Combinaram de encontrar os pais dela na cidade vizinha. Viagem longa, uma hora de ônibus. Sem as amigas, se sentiu um tanto deprimida. Nada pra fazer. Tédio total! Sacou da mochila uma dessas revistas para adolescentes. Leu, re-leu.
- Que saco! – bufou.
Mais uma folheada e encontrou um super-teste “Você sabe levar um fora e sair numa boa?”. Sem nenhuma amiga por perto resolveu fazer o teste com o vovô, que estava lá, na sua, olhando a paisagem, alheio a tudo.
- Vô olha só, vou fazer um teste com você. Ókééi?
- Hrum – resmungou sem entender nada, continuava alheio olhando a paisagem.
- Ó presta atensaum! Você tem que responder as alternativas a, b ou c.
- C.
- Que c? Alôôôôuuu!! Ainda naum comece-ei! Vai, vou começar, si liga: “Você sai pra balada e encontra aquela gatinha e ela não te dá a menor bola. O que você faz? a) Vai embora com os amigos pra outra balada; b) Nem liga e fica com outra gatinha; c) Vai para um canto chorar no ombro de um amigo.”
- C.
- Ah, fálá sério! Dããããã! Continuando: “Você descobre, através de um amigo, que o seu melhor amigo ficou com a garota que você ficava. O que você faz? a) Nem liga, você já partiu pra outra; b) Fica chateado mas, não perde a amizade; c) Procura os dois pra tirar satisfação, dá na cara da garota e sai na porrada com o amigo.”
- C.
- Crééédo, o mêue violência não leva a nada! Sacou? Outra pergunta: “Você convida uma gatinha pra balada, ela recusa e diz que no sábado à noite vai levar o irmãozinho ao cinema”. O que você faz? a) Convida outra menina; b) Fica furioso e decide nunca mais convida-la; c) Compreende e acha lindo.”
- C.
- Que C o quê! Dãããããã! Ô si liga! Ninguém troca uma balada de sábado à noite pra levar irmãozinho pro cinema! Hum, cada uma! Vai, continuando: “Você vai dançar num baile de debutante, daí convida a garota que você esta super afim e ouve um sonoro ‘Ããããhhh! Ta louco!? Viajou você, heim!’. O que você faz? a) Chora a noite inteira; b) Dá risada na cara dela e diz ‘tava zoando contigo bruxa!’; c) Convida outra garota, afinal, a fila anda.”
- C.
- Aêêêêê! Súúúper! É isso ai, gostei! Ó si liga: “Depois de um longo namoro de uma semana, a garota vira pra você e diz: ‘Méu, tipo assim, acho que a dgentchi naum tem nada a vê’. O que você faz? a) Tudo bem, estava mesmo com saudades dos amigos e das baladinhas; b) Arma o maior barraco; c) Implora para que ela não te deixe, pois, não vive sem ela”.
- C.
- Sério!? Bom, agora, vamos ver quantos pontos você fez. Caraca! Só dez pontos! Ó presta atensaum, vou ler o seu perfil: “Você precisa aumentar sua auto-estima. Levar um fora é super normal. Curte a vida, as baladas, afinal, você ainda tem muito para aproveitar. Isso é só o começo”. Nóóóssaaaa! Súúúúper legal! Eu adoro esses testes dão súúúúper certo!! 
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Malu Maluca
Ficha Técnica
Malu, 05 anos
Irmã da Danny (sem noção)
Amigas (os): Guilberth, Bia e Bulú (o palhacinho encardido).
Hobby: Escalar estantes e armários.
Sonho do momento: Ser um Iglu (!?).

- E você sabe o que é um Iglu Malu? – perguntou o pai desesperado tirando a pequenina de dentro da geladeira.
- Sei! O Guilberth disse que Iglu são pessoas que moram dentro da geladeira!
O (pobre) pai, já mais calmo, explicou (como pôde) que Iglu não são pessoas, são “casas” onde moram os Esquimós.
- O que é Esquimó?!
- São povos que vivem na região Ártica. – essa era uma resposta simples para um pai - Como posso explicar – coçou a cabeça, pensou, lembrou das contas pra pagar, a janela pra concertar, o carro na oficina, o aumento da gasolina, e todas essas coisas que os pais pensam. Até que voltou para a pergunta da Malu – Eles vivem em um lugar onde só tem gelo, tudo é gelado, até a casa deles os “iglus” são feitas de gelo, mas por dentro não são geladas, por isso eles conseguem viver lá dentro entendeu?
- Hum – Malu pensava, pensava - Entendi! Lá é a casa do sorvete! Que nem o Pólo Norte é a casa do Papai Noel!!
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Menina-Joaninha

Joaninha foi criada pela madrinha. Esperta só pensava em estudar, isso para ela era sonhar... O contrário da madrinha que só queria descansar e repetir que Joaninha tinha que trabalhar ao invés de sonhar. Esse conselho, a menina não seguia. Dizem que: Aquele que tem fé naquilo que quer, tem o poder de transformar sonho em realidade! E isso é verdade...
Joaninha um dia leu sobre a simbologia da Águia: A única ave que atravessa tempestades e voa acima das nuvens. A partir de então, passou acreditar que dentro dela existia uma linda Águia que transporia dificuldades fazendo de seus sonhos realidade.
- Deixe de sonhar. – era o que a Madrinha dizia sobre os ideais de Joaninha - Cadê meu chá? To indisposta hoje! Vá trabalha! – resmungava no sofá.
Joaninha cresceu ouvindo as lamurias da madrinha. Era só anoitecer para um milagre acontecer. Madrinha rezava pedindo disposição. Agradecia pela graça no baile de salão.
- Madrinha, lugar de agradecer por uma graça e na igreja!
- Deixe de graça menina! Santa gosta de alegria!
Era assim todo dia, à noite: folia; de dia: sofá.
Certo dia, madrinha dormia. Mas, quando acordou...
- Joaninha! Cadê minha canja? To fraquinha!
Chamava, chamava e nada. Flor, amiga da madrinha, chegou.
- Flô, Joaninha sumiu!
- Sumiu nada! Olha, aqui tem um bilhete dela!
“Querida Madrinha, hoje meu sonho virou realidade, por esforço venci dificuldades, fui aceita em uma Universidade que, além de moradia, me trará oportunidades. Agradeço tudo o que me ensinou. Mesmo sem tempo pra comigo conversar, deixou-me a vassoura, e toda a casa pra arrumar. Com a cabeça sempre ocupada na louça, almoço, faxina, aprendi a sonhar e tracei meu caminho. Não sou borralheira, sou princesa! Aceite um conselho: Não faça do sofá sua morada! Lá fora tem um jardim lindo, que com carinho cultivei. Flores e o canto dos passarinhos são belezas imperdíveis. Sorria, cante! Leia bons livros, são excelentes professores. Adote um bichinho, trate-o com carinho e terás um amigo. Despeço-me com alegria, pois, sei bem o que me espera! Pra onde vou é Primavera!”.
- Vou morrer do coração, quanta ingratidão! Flô, não fique aí parada! Vá lá pegar um copo d’água! Vá trabalha!
Flor, que até então ouvia as lamurias da amiga calada, resolveu falar o que pensava:
- Você não entendeu nada do que leu. E sabe de uma coisa, enquanto Joana sonhava você dormia! Ta na hora de acordar!
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Asas da Imaginação

Pedro sempre foi introvertido. Na infância era de poucos amigos. O único amigo que tinha de verdade era Reginaldo, a ele Pedro confidenciava segredos, temores, amores. Reginaldo era quase um irmão com quem podia contar, brincavam o dia todo sem nunca brigar. Essa amizade durou o tempo que tinha que durar, à medida que cresciam, Pedro sentia Reginaldo se afastar. Coisa natural, afinal, a infância dava lugar a questões práticas como: Futuro, profissão, trabalho, ganha-pão. Brincadeiras, diversão era coisa do passado assim como Reginaldo.
Pedro formou-se advogado bem sucedido, bajulado, estava sempre ocupado. Muitos o qualificavam de arrogante, antipático e mal amado. Porém, quase ninguém, sabia que na verdade Pedro não era assim. Na infância sonhava ser poeta, astronauta e encontrar um grande amor. Nada mudou no mundo interior de Pedro, ele só cresceu e adultos costumam acreditar que nessa fase da vida, não há tempo para sonhar, imaginar, poetizar a vida. Era bem mais fácil esconder esse lado encantador que só revelou para um amigo do passado. Um dia Pedro conheceu Clara, que era exatamente tudo aquilo que ele nunca sonhara. Clara era alegre, falante, extrovertida, admirada. Era pediatra e quando alguém perguntava porquê escolheu essa profissão, ela respondia que se enxergava em cada criança, dessa forma estaria segura da insegurança que os adultos têm em admitir que tem muito a aprender.
A medida em que Pedro aproxima-se de Clara, deixava que lembranças da infância trouxesse de volta o seu verdadeiro “eu”. Até de Reginaldo ele lembrou! Contou à Clara sobre o amigo e suas peripécias, riram juntos e neste momento Clara confidenciou que também teve uma amiga, quase irmã, e dela jamais se separou, porque, Keila era perfeita, talvez por fazer parte de sua imaginação. Pedro deu um salto mal conseguia acreditar no que acabara de escutar! Então revelou o seu segredo: Reginaldo era seu amigo imaginário.
Anos depois, Clara e Pedro se casaram.
E em algum lugar onde o sol possa alcançar Reginaldo e Keila seguem a vida, fazendo parte das vidas de outros Pedros e Claras tornando-as mais coloridas.
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Vivo está todo aquele que ainda sorri
A chegada da primavera trazia flores e calor. Nem a beleza da estação era capaz de tirá-la de seu mundo de dor e silêncio. Esquecera da última vez que ouvira a própria voz. Os filhos pequenos rogavam por um pouco de sua atenção. Os maiores desistiram de tentar.
Sua mente tornara-se um turbilhão de questionamentos silenciosos. Pedia uma resposta capaz de convencê-la a continuar. Quando fechava os olhos, caindo em sono profundo, via aquela figura correndo feliz em sua direção, jogando-se em seus braços. Juntos rodavam de mãos dadas, brincavam de pega-pega, construíam castelos na areia. Ali não cabia tristeza, saudades. Tudo era perfeita felicidade. Permaneceria assim para sempre, porém, o clarear do dia, o canto dos pássaros, a fala das crianças, devolvia-lhe à realidade.
Numa noite, de chuva forte, ouviu daquela voz serena um apelo à vida: “Mãe, vivo está todo aquele que ainda sorri”. Aquele sorriso largo e a frase continuaram em sua mente.
Após meses de pura inércia, conseguiu sair da cama. Na gasta bolsa de tecido barato, encontrou alguns trocados; era a conta certa para a passagem de ônibus até a praia. Na viagem, rogava forças ao alto. Precisava exorcizar a angústia que a sufocava sem piedade. Os filhos careciam de sua presença viva, saudável; entregar-se não mudaria o rumo das coisas. A retomada à vida era urgente.
Pisou na areia alva e fofa como se pisasse em brasas. Aproximou-se da água.
O vento balançava, levemente, sua saia. Dos olhos, fixos na linha do horizonte, brotavam lágrimas que lavavam sua face cansada. As ondas beijavam-lhe os pés, como se pedissem perdão por ter roubado seu maior tesouro. O mar levou Moisés pra sempre, e pra sempre ele sorri.
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QUEM ÉS TU?!

Não sou perfeita
Nem sou direita, nem esquerda. . .
Sempre me viro (do avesso) às vezes esqueço,
tropeço, caio, desmaio, mas sempre levanto.
E sigo adiante, um tanto distante...
Como num parto difícil me parto em dois,
refaço em mil!
Solta no vento sento,
espero um afago sincero...
Aconteço, re-conheço,
re-des-cubro o mundo que vibra em mim. . .
Desisto, resisto,
insisto em deixar o cisco que me impede enxergar!
Corro, morro, vou devagar, volto a sonhar. . .
Sou uma, mais um grão de areia que teima em semear.
Faço, refaço, disfarço o tom da voz,
dos nós na garganta
que (dês)cansa em paz. . .
Tenho nome, (sobre)nome, codinome
e muita fome de amor, justiça e liberdade,
Na verdade,
Sou apenas uma mulher...
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A Caneta e o Poeta 
O poeta abandonou a caneta. Largou-a na gaveta
O poeta não quer mais sonhar, por não ter com quem compartilhar.

O poeta pôs o pé na estrada. Não encontrou nada, além, de solidão
E um vai e vem de gente (des)contente por detrás de um véu de ilusão

O poeta não podia ficar mudo, precisava contar ao mundo...
Foi à praça no afã de declamar em versos o que viu, ouviu e sentiu!

O povo não se interessou.
A voz do poeta foi abafada, por notícias corriqueiras,
Grito da torcida e muitas gargalhadas.

O poeta sentiu-se só em meio à multidão sem cor(ação)

Voltou pra casa. Correu pra gaveta.
Certo de que a caneta era única que poderia escutá-lo...

O poeta re(descobriu)
Que sonho, poeta e caneta,
Formam um mundo particular.