TEREZINHA MANCZAK
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

CRÔNICA DO AMOR AUSENTE

O suor do corpo foi levado pela água do chuveiro. Mas nos poros continua o soluço da falta que faz o toque e o cheiro das mãos do meu amado.
Na pele, o arrepio e a doçura calma dos sentidos. Faz tão pouco que se foi e a dor de não estarmos juntos agora toma conta de tudo. A luz branca do ambiente não clareia. Refaço entre as paredes da memória todo o gesto, toda a fala.
Fecho os olhos e retornam os sons e as palavras. Mergulho no arco-íris, que há pouco se projetara no universo único e povoa-do apenas por nossas almas gêmeas.
O perfume das flores, na jarra azul sobre a mesa de frio mármore, não afasta a lembrança do hálito quente, que acompanha a imagem do rosto amado, ainda tão perto e tão real. Nada é claro. Só o sentimento. Também a certeza de que mais uma vez o tempo e o espaço foram cúmplices de nossos sonhos, no mesmo tic-tac das horas e do coração.
Faz tão pouco tempo. Mas dói no corpo e na alma a espera de um novo encontro.
Tão fácil saber que depois desse amor não haverá mais nada.
Como sobrepor amor maior a esse amor tão grande?
Por isso a calma espera. E o sonho, no sono tranqüilo.
Há um quê de eterno e de loucura, nessa tentativa de fazer-lhe as vontades e de ficar sempre mais um pouquinho ao seu lado.
E quem sabe, ouvir uma palavra a mais que possa ser o milagre que sonho o tempo inteiro.


VEGETAL E HUMANA


"Foi pra isso que me fiz. Estremecer. Ouvir o corpo gritar sacudindo cada célula vegetal e humana, no instante plácido e úmido das vivências. Eu me faço e refaço para isso.
Todo o vasto mundo notório e único, resume-se no espaço quebrantado do meu corpo. Lua e céu. Sol e fotossíntese. O momento é. Retido para sempre na memória dos sentidos.
Aqui, ainda não se pode dizer tudo. É o mistério. Algo assim, como um quê sobre as nuvens .
Não possuímos formas concretas para humanos olhos. Só o assombro de quem não vê mas adivinha o que existe. Aro o jardim de ausências e espero, enquanto transitas entre o limiar do sonho e da aurora.
Guardo todas as maçãs para saciar-te a fome. Trago a água. Bebo e reparto contigo. Ainda não aprendi todas as letras para escrever teu nome. Mas a impressão é tátil e permanece.
Mesmo que te agregues à distância; da qual não sei o tamanho, mas sei a saudade."


ORAÇÃO DO AMOR QUE NÃO SE CANSA


Nada mais direi do meu amor. Silenciarei os quatro cantos do peito e guardarei sob as nuvens de sonho os meus mais loucos pretextos.
Fecharei as portas e as torrentes dos desejos e aguardarei o chamado calmamente. Estarei pronta para quando as luzes se acenderem e desanuviarem o lado escuro de minha lua.
Nada mais direi do meu amor, que dorme em paz e nada pede.
Não chorarei pelas coisas que não tive por saber que nada perco. Pois o que me foi dado é diferente do que qualquer outra pessoa possa ter.
Apagarei o nome da ilusão, o endereço da dor e as tramas da vaidade, onde um dia enraizei-me até o último fio de cabelo.
Não esquecerei os caminhos percorridos, pois levaram - me a lugares onde conheci as verdades do corpo e da alma, mas não repetirei as mesmas vias.
Inventarei novas trilhas e evitarei os sulcos na terra que derrubaram-me várias vezes, toldando- me a visão e a nitidez da realidade.
Nada mais direi do meu amor. Guardarei os versos plenos de poesia e a melodia, ainda sem letra e sem retorno do meu canto.
Fecharei o livro das palavras não lidas a tempo e revelarei apenas na estante o que se propõe imutável.
Não há como voltar atrás. Os vestidos de um corpo despido pela paixão, ficarão pendurados no armário da história que não se apaga.
Nada mais direi do meu amor. Mas a casa do meu coração será seu endereço permitido e permanente.