ROSY FEROS
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

PAPIRO DE CARNE


Escrevo como quem enrola papiro.
Minha superfície de escrita é meu corpo.

As idéias escorrem pelos cabelos
e encharcam a pele, os ossos, as vestes.
Escrevo como quem burila a pele de todo dia.

Meu corpo é todo marcado de palavras...
Palavras que são ganchos,
que extraio de dentro da carne!
Ganchos que ferem,
mas que me fazem sentir mais a carne...

Meus ditos são pedaços de carne.
Carne crua e cheia de sangue.

Não escrevo como quem planta árvores.
Escrevo como quem revolve a terra.

[In "Tecendo Diários", Rio de Janeiro, Ed. Blocos, 2000, p. 62.]