DAISY BUAZAR
PORTUGUÊS
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PENALETES E LEILETES Era o ano de 2010 e como sempre fazia, Márcia convidou suas amigar para comemorar seu aniversário. Alguns dias antes, ela havia deixado o seguinte recado na minha secretária eletrônica: “Daisy, estou te convidando para um almoço em casa no dia 10, às 13 horas. Vou reunir as penaletes e leiletes.” “Penaletes e leiletes”, termos carinhosos para designar as procuradoras do Estado que atuavam , as primeiras, na área penal , e as segundas, na área cível da Procuradoria , estas amalgamadas pela Leila, na época chefe da seção. Márcia foi minha primeira amiga na Procuradoria Geral do Estado. É verdade que já conhecia a Dora, mas somente ficamos realmente amigas algum tempo depois. Fiquei entusiasmada com o convite. No ano anterior, Márcia também me convidara, mas por motivo de saúde não pude comparecer. Este ano, nada me impediria de ir, e de fato o Cósmico conspirou a meu favor. Embora minha mãe estivesse acamada, sua enfermeira chegaria ao meio dia, de modo que poderia sair sem preocupação. E lá fui eu, com a Leila, minha prima, ansiosa por reencontrar nossas colegas. O táxi encostou quase em frente ao portão da casa da Márcia, e notei que algumas pessoas chegavam no mesmo instante, e de imediato, ainda que estivessem de costas, cumprimentando Márcia que as recebia no portão, pude identificar Efigênia e Josefina. Ao descer do táxi, observei que mais alguém se aproximava, e depois de cumprimentar a Márcia , ouvia-a perguntar: “Será que você se lembra de Mim?” Impossível não reconhecer essa voz rouca e querida, que há muito tempo não ouvia. Respondi quase gritando, com imensa alegria no coração: Ramza!!! E nos abraçamos demoradamente, felizes com o reencontro. E logo depois, foram chegando: Nilva, Kimiko, Tânia Lotto, Junia. Sarita, Sylvia, Ediva, Yara, Tânia Maluf, Adriana, Márcia Semer, Shirley, e outras mais que em épocas distintas trabalharam na Procuradoria e que ainda mantinham o vínculo de amizade. E o almoço se desenrolou descontraidamente, com grupos naturais se formando, seja pela afinidade, pela amizade ou pelo simples coleguismo. Não há nada mais gratificante do que ter grupos de amigos, e é um privilégio deles fazer parte. Ah, esse fenômeno instigante, o da amizade, como dizia Arthur da Távola.
                                                    ALQUIMIA


Há momentos na vida que nos marcam de maneira profunda, alguns tristes, outros alegres. Porem, estamos mais propensos a lembrar daqueles que foram mais difíceis de superar. Situações que nos levaram a mostrar nosso perfil negativo, deixando-nos expostos, a carga emocional ativada ao máximo. Pergunto-me por que? Dizem os místicos que precisamos passar por essas experiências porque nos trouxeram alguma lição, algo que devíamos aprender com a situação, uma falha em nosso comportamento que deve ser aperfeiçoado. Estamos sendo testados a cada minuto de nossa vida. Todo e qualquer evento de que participamos, mesmo que passivamente, tem algo a nos ensinar. Mesmo quando ficamos inertes , somos responsáveis pelo que acontece ao nosso redor, porque deixamos de agir para que a situação não acontecesse, ou acontecesse de modo diferente. Uma explosão de raiva, por exemplo. Ou uma situação de conflito protagonizada por pessoas próximas, a qual deixamos fluir sem qualquer interferência de nossa parte. Quando nos damos conta de que as palavras proferidas com alta carga emocional nos afetavam, sentimos que precisávamos fazer alguma coisa, e não fizemos.... E a situação volta a se repetir para aprendermos a agir, a tentar solucionar alguma coisa. Outras vezes nós é que somos os partícipes da situação conflituosa, e todas as nossas emoções negativas vêm à tona! E isso ocorre porque não a enfrentamos com serenidade. Somos levados pelo ímpeto, sentimo-nos agredidos, ofendidos, e reagimos na mesma proporção do mal que a ofensa nos causou. Precisamos identificar esses sentimentos e emoções negativas e revertê-las em positivas, ser tolerantes quando fomos intransigentes, ser compassivos quando desumanos. A meditação é uma ferramenta eficaz para a transformação. A alquimia, tal como a tradição esotérica ensina, consistia em transformar metais brutos em ouro. E seu fundamento era a natureza. Como fazemos parte da natureza, somos capazes de realizar essa transformação em nós mesmos. É a alquimia espiritual que nos leva a evoluir, a nos tornarmos pessoas mais humanas, mas isso somente é possível se colocarmos em prática aquilo que processamos na nossa mente como pensamentos e emoções positivas. Amor, tolerância, benevolência, paz. São as virtudes da alma que devemos projetar em atitudes para com os nossos semelhantes, e, assim, agirmos construtivamente para o nosso bem estar e de toda a humanidade.                                                         
   



                                                           MAR AZUL                                                                            Para Juju (in memoriam) e Clara 


                                    Seus olhos azuis a todos encantavam
                                    E tornavam cintilantes seus cabelos prateados, 
                                    Iluminavam seu rosto suave
                                    E irradiavam uma simpatia contagiante.


                                                            Olhos azuis ela tinha e a todos enciumavam
.                                                           Cálidos, serenos, delicados
                                                            Contrastavam com a pele alva do corpo
                                                            Agora delgado pela idade

                                   Como os de Clara eram seus olhos
                                   E em suas vestes refletiam
                                   E ela se perdia naquele imenso mar azul

                                                           E neles queria se banhar
                                                          Ser infundida por aquele mágico olhar
                                                          Olhar de mãe que muito soube amar. 






                                                    CAMINHANDO E CANTANDO


Ela não se importava de sair, em um domingo qualquer, com a camiseta da escola de samba Império Serrano, do carnaval carioca de 2004. Com calça e sapatos brancos, parecia uma passista de sambódromo, embora com seus sessenta e poucos anos, pudesse muito bem ser convidada a desfilar no bloco da velha guarda da escola.

Nunca fora de seguir a moda, sempre se vestia com a roupa que lhe agradava no momento.

Caminhando e cantando, para não falar de flores com o saudoso Geraldo Vandré, pelo calçadão da Rua dos Pinheiros, atraia os olhares dos curiosos, alguns enviesados, para não dizer oblíquos como os de Capitu. Outros sorriam, e havia até aqueles que cantavam junto, num ato de solidariedade pela loucura.

Ela não se importava com o que se passava na cabeça dessa gente. Ela vivia a vida como bem lhe aprazia. Desejava no íntimo compensar os anos em que, tímida e recatada, seguia o que a sociedade impunha, numa submissão inconsciente e inconseqüente.

Longe ia o tempo em que desviava o olhar de quem a encarasse, não dirigia palavra a estranhos, nem mesmo a conhecidos, com receio de parecer pessoa de má fama, como se dizia.

Os costumes, hoje, são outros, a sociedade está mais aberta aos novos modos de ser e de agir, e mesmo que não estivesse dava de ombros. Não tinha tempo para contestá-los.

Estava aposentada dos conflitos, das reuniões infindáveis, das discussões estéreis, agora só desejava viver a vida, com a alegria estampada no rosto, como os sambistas de escola de samba.















                                                     CHUVAS DE OUTONO

Momentos, apenas momentos. Efêmeros, mas intensos, tensos, densos, plenos de emoções contidas, ansiando extravasar.
Um gesto, um toque, um olhar. Vê-lo, ainda que em breves instantes, era o que me dava força para viver.
Era nele que encontrava um significado para minha vida. Quando menos esperava, quando meus sentidos estavam apaziguados, seu olhar começou a me perseguir e era um olhar penetrante, inquisidor, impossível de resistir.
Pressentia que ele me fitava, e meu olhar procurava o dele, mas instintivamente ele o desviava da minha direção, deixando-me intrigada. Frustrada, até, porque se ele mantivesse aquele olhar penetrante, eu teria algum vislumbre do que se passava na sua mente. Mas nada, nenhum sinal ele me dava, apenas aquele olhar oblíquo esperando que eu o notasse mais uma vez para mudar de curso quando meus olhos se voltavam para ele.
Dias e dias se passavam e a minha vida era como um remanso de um rio aguardando em seu leito as chuvas outonais para se movimentar.
Encontrava-o nos mais diversos lugares, sempre rodeado de pessoas famintas por sua atenção, e eu não ousava me aproximar. Apenas olhava. Um olhar fortuito, pois agora poderia denotar a emoção, o sangue subindo para minha face, deixando o rosto ardendo em brasa. Se ele me olhasse, veria todo o meu encantamento.
Ao som nostálgico do tema musical do filme “Em algum lugar do passado” meu pensamento volta no tempo. Até você, estranho incógnito na minha vida, um mistério ainda não revelado. Doce paixão que me aqueceu como um copo de vinho sorvido ao pé da lareira, no aconchego de braços imaginados. E entristeceu minha alma na descoberta do amor impossível, revivido a cada encontro, na troca de olhares, nos abraços apertados. Sem dizer palavras.
Um sonho que nasceu alimentado de esperança e se esvaeceu na fantasia. 






                                                 DE REPENTE

De repente, fiquei surda. Sem um sinal, nem aviso prévio.
Se bem que, pela herança genética, deveria imaginar que algum dia isso aconteceria.
Todos os tios paternos ficaram surdos. Minha mãe estava surda. Mas sua surdez era emocional e não cármica. Ela apenas não ouvia o que não queria . Eu me perguntava qual era a causa da minha surdez. Talvez também tivesse sido o desejo inconsciente de não querer ouvir coisas desagradáveis, coisas que me faziam sofrer.
Há muito deixara de ler os noticiários, a maldade humana, física ou moral, deixava-me angustiada..
Faço parte dos chamados “news resistents”.
Mas nunca mais ouvir música? Desde que me conheço por gente ouço música. Tenho paixão por música, clássica, jazz, Chico, Caetano, Nana Caymmi.
Esse pensamento me deixava transtornada. Entrava no carro, colocava um Cd, e somente ouvia com um ouvido, o esquerdo, bem do lado em que os alto-falantes não funcionavam.... uns sons surdos, abafados, tudo muito estranho.
─ Pelo menos você não escuta o barulho do trânsito ─ dizia minha irmã. Mas esse pensamento não me acalmava.
─ Você já foi a um otorrino? ─ perguntava minha amiga. ─ Meu namorado vivia reclamando que não conseguia ouvir, foi ao médico e descobriu que tinha cera no ouvido!
Lembrei-me de meu pai, que de tempos em tempos ia ao médico para retirar cera do ouvido.
Não fui, não precisei, porque de repente minha audição voltou. Exultei, sozinha, não contei a ninguém. Nas rodas de amigos podia conversar normalmente, sem o constrangimento de perguntar: O que você disse??? Ah???? 


                                                             YASID

Yasid sentia-se realizada em sua profissão. Afinal, havia trilhado o caminho que escolhera seguir desde a adolescência. Não fizera teste vocacional. Não havia necessidade. Sempre soube o que desejava ser. Assim, não hesitou em responder à pergunta do professor de Filosofia que pretendia cursar Direito. Somente ela e mais duas colegas, numa classe de quarenta alunas, afirmaram que queriam ser advogadas.
O professor, um advogado que não se dera bem na profissão, ficou surpreso e estupefato com a ousadia das três adolescentes e tentou de todas as maneiras dissuadi-las de seu intento. Tudo em vão. As três rebeldes, que se tornaram amigas inseparáveis, fizeram o curso de Direito, formaram-se e construíram seus sonhos.
Yasid, depois de trabalhar durante alguns anos em um escritório de advocacia de médio porte, onde adquiriu certa experiência, decidira seguir carreira pública, enquanto suas amigas firmaram-se como profissionais liberais, abrindo seu próprio escritório.
As amigas riam quando se lembravam da expressão de desalento do professor Mariano e de suas tentativas desesperadas de fazê-las perceber que estavam indo pelo caminho errado.
- Algum dia vocês me darão razão, irão se arrepender como eu me arrependi.
As três colegiais, um pouco desapontadas pela falta de estímulo do mestre, perguntaram-lhe porque pensava dessa maneira.
- O Direito é lindo, é certo, porém a teoria é bem diferente da prática. A justiça é algo inatingível -, respondia ele filosofando e com uma expressão triste no olhar.
Yasid, a mais idealista das três, retorquia com ousadia:
- Mestre, o Direito é a própria justiça. E a justiça nada mais é do que o respeito à verdade, àquilo que é correto, que tende para o bem, que proporciona bem-estar aos outros e condiz com a realidade dos fatos. Não me parece que isso seja impossível de se alcançar.
- Minha cara aluna, você está equivocada. Quero dizer, em termos filosóficos e éticos seu pensamento é plenamente aceitável. Mas este é o mundo ideal de que falava Platão. Você se esquece de que as leis são feitas pelos homens e que elas nem sempre levam em conta o bem comum. Ao contrário, servem apenas aos interesses de poucos, quando não daqueles que legislam.

As três amigas entreolhavam-se interrogativas, tentando entender o ponto de vista do professor. Respeitavam a opinião do mestre, mas não a acataram. Seguiram em frente no caminho que decidiram percorrer.
Na faculdade ouviriam aquele argumento nas aulas de direito constitucional. Yasid relembrou o episódio com as amigas e comentou:
- O Mariano – tinham o hábito de chamar os professores pelo primeiro nome – estava em parte com a razão. Mas não compreendo como isso pode servir de motivo para alguém desistir de uma profissão.
- Talvez citasse Platão e Aristóteles nas petições e recursos, e os juízes, sem entenderem nada do que ele estava dizendo, acabavam dando ganho de causa â parte contrária - e as amigas riam para valer.
As amigas passavam as tardes de sábado assim, recordando os momentos alegres e descontraídos do tempo de estudantes. Falavam também de suas paixões, dos amores não correspondidos, das desilusões. Apenas uma delas se casara e tivera dois filhos, um dos quais seguiu a carreira da mãe. O outro, um menino que Yasid adotara como seu afilhado, preferiu trilhar outro caminho. 
- Paixão é sofrimento – dizia agora Yazid – não traz nada senão dor, desespero, é algo com que não quero mais lidar. Amor? Eu amei muito, não sei se fui amada.

Yasid já estava aposentada e agora se dedicava a outro sonho antigo, a literatura. Afiliara-se a uma associação de escritoras e publicara algumas poesias e contos, mas ainda permanecia no anonimato. As amigas continuavam exercendo a advocacia, conquistando grande prestígio no mundo jurídico. Mas o que importava mesmo era a amizade que as unia em um elo inquebrantável e o amor que Yasid sentia ainda pelo menino. 



                                                              O LEGADO

                                                             “É quando estão fechados que meus olhos vêem
                                                              melhor;  pois,  durante  o  dia,  eles  contemplam
                                                              coisas indiferentes;  mas, quando eu durmo, em
                                                              meus sonhos  eles  te  olham,  iluminam-se  na
                                                              sombra e teu luminoso olhar penetra as trevas”. 
                                                                                                                           Shakespeare


Deitada na cama, olhos fechados, pensamentos desconexos povoam minha mente. Num esforço de concentração, fixo minha visão interior em um ponto de luz que insiste em piscar, desviando minha atenção. Respiro profundamente e volto a me concentrar no foco luminoso. Aos poucos ele se expande, tomando uma dimensão humana. Os traços de um rosto vão adquirindo contornos conhecidos.
Cabelos pretos, olhos cor de mel, sua feição é jovial. Lembra-me a do retrato em cima de minha cômoda, os cabelos repartidos do lado. A tez clara, o nariz afilado, os lábios finos, o rosto largo. A expressão é seria, mas gentil. Na minha tela mental os olhos sorriem e parecem dizer para eu me acalmar. Meu coração é invadido por uma alegria incontida.
Meu pai falava com os olhos. E sentia também. Emoção, orgulho. Agora mostram carinho.
Ele me diz com uma voz inaudível, “Eu estou sempre com você, minha filha, deste lado da vida posso ver que você trilha um caminho que sempre desejei para você”.
Faz-me compreender as responsabilidades que assumi. Alguém tinha que continuar a missão que o destino, sorrateiramente, impediu-o de terminar.
“Primeiro sua mãe teve que se desdobrar para que você e suas irmãs concluíssem os estudos, e depois as contingências da vida fizeram com que você naturalmente assumisse o controle de nosso empreendimento”.E continuou com sua voz doce, “Um homem quer que seu legado seja respeitado e você o está dirigindo com honra e dedicação”.
“Em alguns momentos sinto-me impotente, o desalento toma conta de mim”, digo em voz queixosa. “Há muito por fazer”.
Ainda sorrindo, ele me lembra que a felicidade que sinto ao propiciar alimento às crianças carentes é o bem maior que uma pessoa pode desejar. Por ela o sacrifício transforma-se em prazer.
“Quando sentir que irá fraquejar, pense no brilho nos olhos com que as crianças a recebem, a alegria estampada em seus rostinhos miúdos e a energia que emana de seus corações trarão de volta o ânimo e a vontade de continuar”.
À medida que contemplava aquela fisionomia querida, a inquietude que se apossara de mim dissipava-se como uma nuvem que abre caminho para o Sol se revelar em todo o seu esplendor.
Seu semblante suave acalenta meu coração. Suas palavras aquietam-me. Despede-se de mim, dá-me sua benção e seu rosto desaparece na imensidão. O foco de luz se esvai. Tenho a sensação de que minha alma o acompanha. Meu corpo adormece num sono tranqüilo e regenerador. 


                                                               A ESPERA
Sentada em sua mesa de trabalho, Diana tentava organizar a correspondência do dia. Aos vinte e sete anos, era uma bem-sucedida assessora jurídica de uma empresa de telecomunicações, pela qual fora contratada desde que se formara. A expressão serena dissimulava a inquietude de seus pensamentos.
O soar do telefone a fez voltar à realidade. Hesitou em atendê-lo. Não gostava de ser interrompida. Depois, imaginava tratar-se de Paolo, com quem não queria conversar, pelo menos até que conseguisse entender os acontecimentos da véspera.
Recostou-se no espaldar da cadeira e recordou, com nostalgia, a ocasião em que o conhecera. Agosto de 1994. Festa de casamento de Alice. Ainda vivas em sua memória a cerimônia, com ritual ecumênico, ao som de violinos, e a recepção, em um luxuoso restaurante de São Paulo. Entre os padrinhos, dois amigos italianos do noivo.
Um deles chamara a atenção de Diana por sua beleza, pelos traços perfeitos de seu rosto e por sua jovialidade. Como os italianos, ele “vivia” a música enquanto dançava, fazendo gestos de mímica de uma maneira engraçada e divertida. Quando seus olhos se cruzaram, ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Teve a certeza de que alguma coisa iria acontecer. “Ele ainda vai dançar comigo esta noite”, pensara consigo mesma vendo-o descolar a camisa molhada do corpo.
A mesa de Diana, próxima da pista de dança, era iluminada apenas pelos refletores das filmadoras e pela luz da vela que a decorava. Apesar da penumbra, ele conseguiu vê-la. Com as mãos, abanava o rosto suado e as apontava na direção de Diana, depois as voltava para os seus cabelos, encaracolados como os dela.
Com movimentos de cabeça, Diana dava-lhe a entender que o compreendia. Saudou-o com um brinde, levantando a taça de vinho que tinha nas mãos. Paolo retribuiu o gesto e ambos levaram à boca seus copos. Ela desviou por alguns segundos seu olhar, perdendo o rapaz de vista. Não a confiança em sua intuição.
Contagiada pelo ritmo alegre da música, ensaiou alguns passos de dança, tentando acompanhar os noivos, bem à sua frente. Seu coração pulsou mais forte ao vislumbrar Paolo. Com um suave gesto de mão, ele convidou-a a dançar. Hipnotizada, viu-se no centro da pista, diante de Paolo. Não trocaram palavras, não se tocaram. Apenas uma música dançaram. Paolo cantava e representava, Diana o acompanhava, sem desgrudar-lhe os olhos.
Terminada a música, Diana sussurrou-lhe um “ciao”. Paolo a seguiu até a mesa e sentou-se a seu lado. Fitava-a com insistência. Bebeu um gole de sua taça de vinho, passando a língua nos lábios. Os dedos contornaram o rosto de Diana e pousaram em sua boca. Diana transpirava, ardia em chamas e, atendendo a seu desejo, abriu os lábios e deixou-se beijar. Mãos famintas deslizaram até seus seios, apalpou-os, pressionou-os, e depois desceram até suas coxas. Diana ofegava, sua boca ainda unida à de Paolo. Delicadamente segurou as mãos de Paolo, desgrudou-se de sua boca, fitou seus olhos nos dele e assim ficaram por algum tempo, em silêncio, um querendo entrar no outro pelos olhos.
Quando cansaram de se olhar, abraçaram-se e assim ficaram até a festa acabar.
Naquela noite nada mais aconteceu. Apenas a promessa de que se veriam novamente.
No dia seguinte, o retorno à Itália. Diana precisou esperar três meses para saciar o seu desejo. De início, os encontros aconteciam no apartamento dela. Depois, na casa em que o amante comprou.
Diana apaixonara-se, mas não tinha certeza dos sentimentos de Paolo. Ela sabia-o conquistador.
A relação fora intensa, temperada por brigas e reconciliações, ela sempre cedendo às suplicas do amado . Tinha terror de ficar sozinha, não suportaria um novo rompimento, e por isso acabava aceitando-o de volta.
Suas dúvidas, pensava agora, após anos de vida em comum, comprovaram-se quando, na noite anterior, flagrou Paolo beijando Alice, já separada do marido. Naquele momento não fora capaz de assimilar o que via, estava aturdida demais para raciocinar. Diana não se deixara notar. Saiu às escondidas, quase correndo, deixando atrás de si um rastro de lágrimas.
Passara a noite em claro, revivendo a cena que a deixara transtornada. Pela manhã, a despeito da mágoa que ainda corroía seu coração, sentia-se mais calma, capaz de analisar melhor a situação. Não fora um simples beijo de amigos, como muitas vezes os via se cumprimentar. Não. Paolo beijava Alice impetuosamente, quase deitado sobre ela no sofá de sua casa.
Diana sabia que a amiga estava com um novo amor, ela mesma lhe contara. Mas não podia acreditar, não queria acreditar, que fosse o seu amado.
O telefone soou novamente. Com o coração apertado, decidiu atender. Ninguém respondeu do outro lado da linha. Desligou desapontada.
Voltou a se concentrar no trabalho. Afinal, não gostava de ser interrompida.