PAULA GANDARA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Excerto de Construindo Germano Almeida





INTRODUÇÃO:
O CENTRO DO MUNDO




There is a story of a surgeon who experienced a disturbance when working on hands.  It seemed that seeing both the hands of his patient and his own at the same time acted as a fundamental and unwelcomed reminder that he and his patients were the same thing.  This disturbed his usual attitude which, for understandable professional reasons, was to see his patients as meat.

− John Pickering in Varela (itálico nosso), 2002:273.


Nunca consegui reter a ideia de que o centro do mundo não seria Cabo Verde.

−  Neves, António Loja, “Entrev. a Germano Almeida” (itálico nosso) 1998.



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A bibliografia secundária até hoje produzida sobre Germano Almeida é bastante reduzida, e embora se possa contar um número bastante razoável de recensões jornalísticas os trabalhos de tipo académico produzidos sobre o Autor são ainda diminutos.  Refiram-se, porém, dois trabalhos de maior vulto, o primeiro, uma tese de Mestrado assinada por Maria Manuela Lopes Guerreiro intitulada Germano de Almeida e a Nova Escrita Cabo-Verdiana: um Estudo de ‘O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo’ (1998).  Este trabalho constitui um estudo muito básico da obra em questão, aparentemente elaborado com intuitos de ordem didáctica para um público menos especializado.  O segundo estudo a referir é a Tese di Laurea da autoria de Ângela Bortoluzzi, intitulada “Ironia, Morte e Sexualidade em ‘As Memórias de Um Espírito’” de Germano Almeida", Universitá Ca' Foscari di Veneza - Facoltá di Lingue e Letterature Stranjere − Corso di Laurea in Lingue e Letterature Stranjere, anno accademico 2001/2002, relatore: ch.mo prof.Vincenzo Arsillo; correlatore: ch.mo prof. Roberto Vecchi..  Infelizmente não tivemos oportunidade de consultar este trabalho.  Deve ainda mencionar-se uma das apresentações do “Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópicos, em homenagem a Gilberto Freyre”, intitulada “Relendo Gilberto Freyre: O Contexto do Romance Os Dois Irmãos de Germano Almeida” (Recife, 21-24 Mar. 2000) , onde o autor apresenta um quadro da literatura caboverdeana anterior a Germano Almeida e onde, apesar da promessa inicial de estabelecer fios de comparação e contraste com a literatura caboverdeana e brasileira a partir de Os Dois Irmãos e Aventura e rotina.  Sugestões de uma Viagem à Procura das Constantes Portuguesas de Carácter e Ação, de Gilberto Freyre, termina com a ideia de que a legitimação social e estética de Os Dois Irmãos, sendo particular ao contexto da mestiçagem caboverdeana, não desvaloriza as observações e as descrições de Gilberto Freyre, marcadas pelo signo da sua época, pelo que, conclui, dificilmente se poderá estabelecer entre os dois textos relações de exclusividade ou de complementaridade, não avançando, afinal, o título que a palestra anuncia.  Refira-se igualmente o artigo de Elsa Rodrigues dos Santos, intitulado “A Ironia, a Paródia, a Memória e o Picaresco em A Família Trago de Germano de Almeida”  onde a personagem principal é analisada de acordo com as características teóricas associadas ao cómico picaresco.  Finalmente, mencione-se o artigo de Michel Laban (1997), “Cap-Vert: Masses et Elites à Travers O Meu Poeta, de Germano Almeida, et Chiquinho, de Baltasar Lopes”.  Trata-se de um artigo que faz uma focalização bastante marcada na área do impacto político de ambos os textos, definindo claramente o espaço das elites e das massas nos diferentes espaços sociais retratados.  Curiosamente, Laban partilha da nossa opinião quanto aos elementos superficiais com que Baltasar Lopes caracteriza a sociedade mais alta de S. Vicente.  Michel Laban denota ainda, acuidadamente, como a emigração não é uma solução viável no mundo caboverdeano, quer no espaço de Baltasar Lopes quer no de Germano Almeida, no primeiro porque as condições financeiras são profundamente miseráveis, no segundo, porque a pequena e medíocre burguesia do Mindelo se recusa a largar mão dos seus privilégios de elite.  O autor considera que ambas as obras fazem uma notação clara do problema do alcoolismo na ilha, mas enquanto que em Chiquinho  se respira ainda um ar de ingenuidade e inocência, a sociedade almeidiana está corrompida até ao seu limite por uma espécie de doença social que se espelha claramente na mistura dos géneros e no grotesco escatológico.
O objectivo do estudo que aqui efectuaremos prende-se com a elaboração de uma síntese de algumas das abordagens possíveis à obra de Germano Almeida.  A ideia que nos guia baseia-se na possibilidade de integração das várias áreas teóricas de estudo aqui em foco, de molde a alcançar uma nova e holística visão do texto almeidiano em conjunção com o mundo que o rodeia.  Partiremos de abordagens literárias e terminaremos com uma hipótese de trabalho alargada ao ramo das ciências naturais.  Pretendemos com este último capítulo abrir hipóteses de trabalho tanto ou quanto válidas como as primeiras, com a vantagem de obrigar o autor-leitor primordial desta dissertação, a signatária, a assumir um ponto de vista totalmente distinto daquele que tem caracterizado os seus estudos até ao momento.  O último capítulo desta dissertação não tem como propósito questionar a validade das interpretações efectuadas nos quatro primeiros capítulos, mas sim o de apresentar uma outra e perfeitamente distinta hipótese de trabalho, hipótese esta que terá como objectivo originário o de apontar o modo como as abordagens iniciais, do ramo da teoria da literatura, se podem ligar a um novo espaço, mais aberto e harmónico, onde essas teorias possam encontrar um desenrolar distinto daquele a que nos habituámos, o de uma solução inexistente num mundo fragmento que mais não pode fazer do que reconhecer isso mesmo.
O primeiro capítulo, intitulado “Raízes do Tempo”, tem como intuito contextualizar a obra de Germano Almeida face aos nomes mais importantes da tradição literária caboverdeana, tendo em mente que a literatura deste país foi, desde o advento da revista Claridade, caracterizada pelo binómio chuva-seca como segmento marcante da identidade autóctone (sem esquecer a importância de outros temas).  Este binómio, apresentado segundo as premissas que regem o Realismo literário e trabalhado numa atmosfera que raia a desesperança, permitia, por vezes, a materialização de promessas afirmativas localizadas no espaço longínquo das águas e dos que se iam, na busca de um mundo melhor, sempre envolvidos na nostalgia do regresso.  Trata-se do espaço de uma emigração causada, em primeira e última análise, por um clima que regulariza o espaço social em que se manifesta. 
Faremos, assim, uma pausa para apontar a factualidade destas ideias em Jorge Barbosa, Manuel Lopes e Baltasar Lopes.  Na poesia destes autores – a que faremos apenas uma breve notação − o tema, diversamente apresentado mas sempre radicando na dialéctica basal chuva-seca, é o mesmo que invade a sua prosa.  E que, por sua vez, terá ressonâncias directas na escrita de Germano Almeida.  Procuraremos ainda fazer uma apresentação de Chiquinho de Baltazar Lopes dada a importância axiomática da obra no imaginário caboverdeano e no contexto social que os textos de Germano Almeida retratam.  Desconstruir-se-ão as contradições que a obra encerra numa tentativa de a religar à paródia dela efectuada por Germano Almeida. 
O espaço literário que enforma o texto almeidiano insere-se ainda na mesma ânsia de criação duma literatura nacional de que Claridade é índice primeiro No entanto, este desejo de uma linguagem que seja espelho narcísico da nação espraia-se bem para além de si, para outros espaços afirmativos onde o contexto social e político se enquadram com humor e ironia. 
A obra de Germano Almeida denota uma preocupação formal específica ao Autor.  O modo como a obra se estrutura e organiza na sua globalidade é característica fundamental dos textos e será o que nos vai permitir visionar uma mistura inovadora face ao espaço literário que a precede, e que o próprio Germano Almeida se encarrega de desmistificar mas, acima de tudo, face ao contexto presente onde a obra se insere.
 Observaremos então o modo como o escritor questiona a inovação possível da obra literária parodiando o estatuto do artista como o génio dissociado do mundo real.  O escritor-narrador-personagem e persona é, no mundo almeidiano, parte geral duma história sócio-política que finalmente nos é descrita em toda a incongruência de um pós-  -colonialismo que não soube ou que não tinha como desenvencilhar-se dos erros anteriores.  Veremos então a possibilidade de encontrar sentidos viáveis nesse mundo caboverdeano que não se sabe até que ponto deixou de estar ligado umbilicamente à portugalidade em que vivia. 
Este primeiro capítulo oferecerá então uma breve análise dos autores precedentes a Germano Almeida de modo a que se possa avaliar a importância do novo espaço da literatura almeidiana que, construída em metalinguagem, tem como uma das suas faculdades a de se auto-parodiar.  Procuraremos apreender o modo como os textos que vamos avaliar criam esta auto-paródia que corre o risco de destruir o regime anterior e o regime presente.  E procuraremos entrever, apesar disso e por isso mesmo, o futuro imaginável. 
O segundo capítulo intitula-se “A Fronteira da Desconstrução”.  O tema da fronteira surge-nos como um momento de estudo inescapável assim que Germano Almeida se afirma “perseguido” pelas estórias que nos conta, como se as estórias se constituíssem nele, mero sujeito veicular de uma comunicação independente da sua vontade racional.  Ou seja, põe-se de imediato a questão destes textos como espaço de fronteira psicológica para o seu Autor.  Não é difícil entrever como o Autor se sente coagido por uma necessidade que de algum modo ultrapassa a sua consciência e que de certa maneira faz síntese do dualismo entre o indivíduo e a sociedade de que escreve e/ou para que escreve.  Sub-dividiremos o capítulo, por motivos de facilidade expositiva, e trataremos numa secção primeira a questão da ironia que envolve grande parte da obra almeidiana, com a consciência, porém, de que esta ironia pode ser entendida primacialmente como fronteira linguística entre o Autor e o leitor.  O Autor surpreende-   -nos assim no uso da linguagem como acção, de obra para obra.
Segue-se a sub-divisão dedicada à metaficção historiográfica, um conceito que trataremos de acordo com os pressupostos explicitados por Linda Hutcheon em The Politics of Postmodernism (1989).  Interessar-nos-ão, especificamente, as menções da autora quanto à forma narrativa, que, segundo a sua representação, se encontra entre limiar da história e da ficção.  É precisamente a esta ambiguidade que Linda Hutcheon denomina de “metaficção historiográfica” (Hutcheon, 1989, 14).  Este conceito será aplicado por nós à obra de Germano Almeida a partir do momento em que pode ser entendido como um espaço intensivo da ambivalência que caracteriza o romanesco, oferendo-nos ainda uma solução conflitual à exploração da linguagem, paródia, ironia e ambiguidade. 
Teremos ainda oportunidade de, neste sub-capítulo, inserir a questão do pós-           -colonialismo, que se regista dentro da mesma lógica de interrogação de qualquer momento liminar bem como de um questionamento plural sobre a representação do Outro, conforme se trate de um discurso imperialista ou de busca da nacionalidade.  Ou seja, contextualizaremos os textos almeidianos num território onde não há como circunscrever ou controlar o Real e onde a consciência do discurso que define o pós-        -modernismo vai exactamente contestar o poder e a limitação que caracteriza qualquer regime totalitário.
Na sub-divisão dedicada ao estudo da Fronteira valer-nos-emos do maior espectro de análise possível e considerar-se-á a fronteira entre o passado, o presente e o futuro, a fronteira entre a (in)dependência, entre o (ir)real, e entre a (sub-)consciência.  No último caso observaremos especificamente  A Ilha Fantástica  e aceitaremos a obra como expressão metafórica de imagens oníricas, onde a representação assume significados inconscientes de conteúdo latente.  Trata-se de um tema que poderá ser visto não apenas como mais uma possível vertente da metaficção historiográfica, mas também como um dos pontos de trabalho no novo olhar que se ensaia sobre a psicanálise e as aproximações psico-analíticas à estética.
O terceiro capítulo dá pelo título “O Corpo do Desejo” e nele recorreremos a abordagens teóricas essencialmente do domínio da psicanálise e da psicologia.  Através delas procuraremos estabelecer os laços possíveis entre desejo e amor, desejo e conhecimento, desejo e ausência, e ainda estabelecer a coordenação mais viável à união da esfera interior do desejo à sua contraparte exterior no que toca ao próprio sujeito.  Trataremos de demonstrar como, a partir deste movimento, se processa a alteração dos afectos, a ligação do exteriormente perceptível com o mais fundo do interior do sujeito.  Deixaremos claro como é o desejo que obsta e incita o sujeito que o vive na direcção da morte.  Chegar ao fim do espaço do desejo é chegar à morte, à não interacção, à inabilidade de conjugar o corpo e o Outro.  E finalmente procederemos ao encontro das possibilidades de vínculo desta estratégia eminentemente individual ao território de análise ético-política.

A felicidade é um contínuo progresso do desejo, de um objecto para outro, não sendo a obtenção do primeiro senão o caminho para a obtenção do segundo.  Sendo a causa disso que o objecto do desejo humano não é gozar apenas uma só vez, mas garantir para sempre os caminhos de seu desejo futuro (...).  Assinalo, assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte (Hobbes, Leviathan, I, 11, apud Chaui, 1990, 53).


Tendo concluído, no capítulo anterior, que os textos de Germano Almeida se podem inserir na categoria de metaficção historiográfica, tal como é proposta por Linda Hutcheon, essa mesma categoria patenteia agora mais uma extensão ideal para o desenvolvimento da noção de desejo na obra almeidiana.  A descontinuidade narrativa, temporal e espacial, a paródia, a ironia, as alusões e as glosas testemunham a impersonalidade do desejo: os amantes são sempre outros e as suas vozes ecos de outras vozes.  A esfera romanesca de Germano Almeida é anticlimaticamente não romântica e deste modo invalida o binarismo dualidade corpo/mente e a própria fantasia amorosa que eventualmente se traduz em monotonia, aborrecimento ou meros jogos de poder que nos fazem indagar sobre teorias feministas e sociedades de natureza patriarcal.  A obra almeidiana será acima de tudo sedutora, envolvente, e passível de cativar, inclusive, apresar o leitor.  Ficamos face a um espaço que corre todos os riscos de não se distinguir de uma área de autoridade e lógica que, no seu âmago, é essencialmente de tipo colonialista. 
Veremos como em Germano Almeida o desejo se alarga para um universo para-   -histórico onde a obra se desenvolve e a um universo para-psicológico das suas próprias personagens cuja construção nunca é definitiva.  Quando as personagens se conduzem de uma obra para a outra e a história se alarga à estória, a ruptura que, segundo Barthes, é a condição fundamental do desejo, visiona-se imanente à própria escrita da obra.  O Autor transporta o seu desejo de recriação da personagem e aqui veremos como se instaura a diferença face ao conceito barthesiano. 
Chegaremos ao final deste terceiro capítulo ainda sem possibilidade de responder satisfatoriamente à questão da ambiguidade do espaço de análise do leitor face a um narrador que várias vezes se aproxima duma figura tutelar.  Deparamos agora com uma interpretação que nos aponta a jactância, o excesso verbal das personagens e dos diversos episódios como uma espécie de festa equivalente a um discurso político cujo objectivo se define na conquista.  Mais, este tipo de desmando narrativo, que ao mesmo tempo que se constrói destrói a própria noção de narratividade clássica, transcende o lugar da escrita para alcançar o corpo da escrita.  Mas o fim da estória nunca chega e o objecto textual é apenas um desejo em construção permanente.  Veremos, finalmente, como o discurso almeidiano começa quantas vezes num ritmo alucinante de criação/desejo e depois se apazigua no gozo sensual da intertextualidade não só histórica como de personagem.
“Da Escatologia ao Feminismo” é o título do quarto capítulo onde nos continuará a ser permitido fazer a ligação da ideia do texto como corpo e da literatura como recriadora do desejo.
A comida ou é gozada em absoluto ou termina não sendo absorvida de todo pelo organismo.  Mais, a situação chega até a ser passível de se ler como um estado de perversão: num país onde se sofria de fomes cíclicas, que alguém não possa conter a comida ao seu dispor é a leitura de um mundo em perversão.  É do conhecimento geral que a fome foi uma das principais razões conducentes à emigração caboverdeana.  Nos textos de Germano Almeida, porém, a fome é substituída pelo princípio do prazer que se prolonga com sofreguidão.  Parece até que a fome não se soluciona através da alimentação mais básica, como se a comida fosse incapaz de conter os inaplacáveis apetites internos.  As tensões políticas e sociais, normalmente desencadeadas pelo fenómeno da fome, revelam-se na obra almeidiana de uma forma muito mais subtil, através, não só na desagregação do processo alimentar, mas na fragmentação da escrita.  A comida surgirá, nesta análise, como um símile da linguagem, e linguagem e comida serão aparentemente incapazes de prover ao desenvolvimento necessário do sujeito e da nação.  O prazer da comida é uma constante em Germano Almeida, tanto na ficção como nas crónicas e é o próprio Autor quem se encarrega de nos dar os fios da comparação possível principalmente através das figuras masculinas.  Estas parem poemas inúteis e textos de prosa imbecil − e vê-lo-emos flagrantemente nos casos de o Meu Poeta e de Caga-Vírgulas − cuja função é retratar a imagem política do seu autor e da sociedade onde este se insere.  A interpretação mais óbvia permitir-nos-á reduzir literatura, poesia e política à esfera do biológico e antecipar a trágico-comédia da morte.  Germano Almeida poderia estar assim insinuando uma nação moribunda, lugar da morte biológica, do corpo físico e da incapacidade de criar e reproduzir não apenas outros corpos e outros homens, mas também outros textos e ideias.  Mas a verdade é que a morte é simplesmente o outro lado do desejo e do apetite, a metáfora possivelmente mais óbvia do que seria a lascívia de ingerir a ideia mal-acabada de um país incapaz de parir uma nova ordem per si.  O tubarão e a sua fome em A Morte do Meu Poeta serão elos fundamentais na criação de uma sociedade em que a satisfação auto-narcísica que a figura do Meu Poeta incorpora definitivamente se repele.
Defecar e vomitar e fazer amor são actos básicos de satisfação dos instintos e podem ser vistos dentro duma simbologia de vida e sensualidade inserida num espírito de renovação, e afirmação de gratificações sensuais basicamente primitivas; tal como podem ser vistas como paradigmas de violência e poder.  Uma ambiguidade que é incorporada na figura de o Meu Poeta, um escritor-presidente que, como teremos oportunidade de ver, vomita os seus poemas e saboreia a comida ao mesmo tempo que é digerido por tubarões.  A morte não é, afinal, o fim mas sim uma função apelativa que, assumindo traços de referente discursivo, ao invés de fechar um passado promove a realização do futuro.  A linguagem de Germano Almeida será o manto que impede a chegada da verdadeira morte quando, metaficcionalmente, denuncia o abismo entre aquilo que diz, aquilo que significa e a dramatização/subversão da realidade onde se alicerça .
A vertente positiva desta emética/escatologia almeidiana revelar-se-nos-á igualmente no elogio do espaço interno, no triunfo do feio e na consequente ruptura com a hipocrisia moral e a mediocridade burguesa que mantém à distância todo e qualquer confronto com a descrição das áreas digestivas e intestinais do corpo biológico.  A vitória da descrição escatológica será assim, em grande medida, a abertura de um espaço de justiça essencialmente no feminino já que são as mulheres aquelas que, histórica e primeiramente, se associam aos ciclos da natureza, da biologia, da menstruação como momento de reclusão, de impureza e dessacralização. 
Na obra de Germano Almeida, a repetição fragmentada dos episódios e até mesmo o reaparecimento disperso das diversas personagens levantam um problema da concepção do tempo tipicamente associada ao espaço feminino e pós-modernista.  Denotaremos como, nestes universos teóricos, a fragmentação nos deixa perdidos numa descontinuidade espácio-temporal.  Sabemos como diferentes grupos culturais e sexuais experienciam de modo plural as noções de espaço e de tempo e que isso nos permite a diferenciação dos marcos temporais históricos conforme a natureza de cada um desses grupos.  Ao analisarmos sobre esta perspectiva a realidade vivida nos textos de Germano Almeida, não encontraremos, porém, uma versão positiva de um tempo biológico, ginocêntrico em desfavor de uma temporalidade organizada, tipicamente falocêntrica. 
A noção de tempo, de facto, acarreta uma forte complexidade que torna quase ridícula a simplicidade de um tempo linear e patriarcal vs  o tempo repetitivo e ginocêntrico.  O tempo é uma realidade que envolve o espaço público e privado, o espaço terreno e o cósmico, as relações íntimas e as questões globais, ritmo, sequência, intensidade e até concepções matemáticas em abstracção, isto para não insinuar as inter-relações entre espaço-tempo e o modo como tal afecta o movimento dos corpos. Procuraremos tornar claro que a obra de Germano Almeida procura abrir espaço para a conjugação destas duas perspectivas, e não só. E, no nosso estudo, procuraremos salientar as diversas possibilidades de entendimento temporal de acordo com perspectivas (pós-     -)feministas que tendem a não radicalizar a diferença e procurar hipóteses de compromisso.  No entanto, veremos bem como essas soluções são ainda respostas incompletas face às quais se impõe a questão basal de saber se em Germano Almeida nos encontramos face a uma era em que o indefinível é o modelo.
    Esta questão é aquela a que se nos afigura que temos a obrigação de responder positivamente.  Não acreditamos na desesperança da fragmentação nem na ilusão de um mundo recortado e dividido como espaço capaz de suportar um desenvolvimento cultural e político que a literatura tem como função espelhar.  No capítulo quinto procuraremos, então, através de uma resposta quiçá inesperada, a solução imaginada.  Este capítulo dará pelo título “Da Desconstrução à Consciência Global” e nele efectuaremos uma síntese das ideias de Francisco Varela e Humberto Maturana tal qual se apresentam na chamada Teoria de Santiago, uma das teorias relevantes à construção da ciência cognitiva, disciplina através da qual nos propomos realizar uma ponte interdisciplinar entre a literatura e as ciências naturais e assim forçar o aparecimento de um novo ponto de vista, mais integrado e abrangente, onde cabem as teorias que viemos a explicitar nos capítulos anteriores como instrumento de análise mas onde a função do observador cabe simultaneamente no lugar interno e no lugar externo, no “cá” e no “lá”, no corpo e na mente, no feminino e no masculino sem excepção.  Esta visão não será a área das utopias mas sim um território explícito, especificado e, esperamos, pelo menos, quase perfeitamente compreensível.  Nesse território, Germano Almeida, a sua obra e a nação caboverdeana encontrarão um espelho cognitivo, uma estrutura de vida e a esperança de sarar uma mutilação que afinal não é especificamente caboverdeana mas de uma sociedade dita pós-moderna que urge reformular.

Excerto de Horas de Lingua

I. Cape Bacalhau 1

os céus mudaram
não são os mesmos azuis aqui
e há lama no mar
não sei já porque vim
esqueci-me de quase tudo quando te vi
e não aprendi quase nada aqui
o mar é quente e chove enquanto me lavo na lama escura
povoada de caranguejos que só falam inglês
não reconhecem os meus velhos pés
eles, habituados ao cheiro de quem pisa a lama
lavados das misérias de se ser um povo de mil anos
escorridos pés pisados e torcidos
mares atravessados de pés antigos.
Os caranguejos falam comigo.
E eu não entendo a língua das marés
deito-me contigo e é só na cama
que esqueço a lama
que vejo a boca aprendida
a réstia de luz  que escapa por entre as cortinas mal corridas
e abro as pernas à tua boca
e abro as pernas à tua boca
e em horas apenas
minutos de dias que se esbatem no ar
aprendo a falar a língua dos que se enterram na lama
desse mar quente
destes dias
em que mal sei porque vim
e grito
aos caranguejos transparentes
que se confudem com o branco do mar
que sei porque mergulhei aqui

na cama onde esqueço a lama em que me arrasto para ti.