LUCINDA PERSONA
PORTUGUÊS
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ALGUNS POEMAS

AQUELE SÚBITO VENTO

Aquele súbito vento
entrou nas casas
Desfolhou jornais
derrubou estátuas e bateu portas
Quebrou santos de barro
fez cantar os alumínios
Bonecas rodopiaram
Gatos fugiram arrepiados
em direção ao ponto de partida
Fantasmas se toparam
em exageros de horror
Mulheres e meninos inermes
flutuaram nos quintais
(os homens, ao longe, escaparam
cada qual no seu trabalho)
com o vento veio
a irreprimível poeira
Soterrou os livros
dominou o ar
e outras lacunas
Tudo perdeu contorno e sentido
A vida mudou de lugar. 
                                         (de Por imenso gosto, 1995). 


LÍNGUA
 
Floresce
na pia de aço
um enorme buquê
de couve-flor.

Floresce
é um modo de dizer
com nervos
com saliva
com céu
e com palavra
da minha língua deslumbrada.

A língua que ajuda
a empurrar à digestão
o cotidiano. 
                                        (de Ser cotidiano, 1998). 


HOTEL EM VENEZA
 
Nunca
nunca mais se repete
qualquer instante vivido.
Lá estávamos, no líquido endereço
de hotel em Veneza.
Era meia-noite em ponto e o silêncio
(representando a fonte real
de inútil recordação)
o silêncio era o que é: um vazio,
uma acomodação de tudo – carne e verbo.

De fato, ele dormia a sono solto
enquanto eu (no tempo vago)
velava as coisas mortas
os espelhos revelando
a natureza íntima das horas.

Havíamos caminhado tanto
através das ruelas, pontes e pombos,
perseguidos por nossos passos fantasmas.

É longo o tempo de luta
das asas com o vento
Dentro daquela noite
(tão escura quanto uma gôndola)
eu era uma noiva incomodada
com o peso das levezas
O espelho aconselhou ainda:
vá dormir, por hora
calma e sóbria feito uma abóbora
obedeci – o que tem ocorrido em outros momentos. 
                                                                                  (de Sopa escaldante, 2001).
 

FIGOS
 
O nada é uma grandeza indescritível
dimensão que me fadiga e maravilha.
É como se Deus me perguntasse:
O que vês, filha?
E eu não soubesse responder
com absoluta clareza
como o fez Jeremias
diante de dois cestos de figos.
                                               (de Leito de Acaso, 2004). 

NA LENTIDÃO DE UM VELÓRIO 

Simples
Simples
Simples
A morte é mais longa
do que a vida
Quem disse isso
terá sido
na lentidão de um velório
Lá estávamos
contemplando mamãe
na mais densa concentração
de seus segredos
As pálpebras inchadas
acompanhavam o corpo
já tão cheio de si
Aquele repouso da vista
na contemplação dos vivos
mais desastroso ainda se tornava
porque estava
demasiadamente pronto
a não chorar
(a não chorar).
                                              (de Tempo comum, 2009).