SAYONARA SALVIOLI
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO



1  CONTOS / CRÔNICAS


1.01      ELIZABETH DOS POMBOS

O cenário pode ser a paisagem londrina de Trafalgar Square, a Piazza di San Marco, o Central Park ou um largo do Rio de Janeiro. Não importa onde. Sempre será possível encontrar na realidade, assim como no cinema, a figura mítica da mulher dos pombos... Quem não se lembra, por exemplo, daquela cena do filme Esqueceram de mim, em que a estranha mulher atemoriza o imaginativo Kevin, que depois estabelece com ela um simbológico laço de amizade?

Assim como no filme, essa espécie de peregrina dos animais é uma mulher de semblante pálido e olhar perdido, com características de viventes de rua, a sair por aí como se abandonadas da própria vida... A mulher dos pombos de qualquer país se destaca no meio da multidão justamente por ser aquela que não segue o fluxo dos humanos; ao contrário, pára no meio da praça a conversar com as aves, acariciando-as e ofertando-lhes comida... Talvez a solidão humana explique esse estranho subterfúgio das andarilhas sem rumo que parecem ver nas pequenas aves seus parentes mais próximos.

Se você é carioca e sabe do que eu estou falando, provavelmente já deve ter se deparado, num largo da cidade, com a mulher dos pombos que por ali passeia com ares de ermitã fora de contexto. Figura quase saída de uma Commedia dell’Arte, ela protagoniza uma espécie de personagem sem rumo, que se mascara e esconde do mundo. Aliás, esta mulher dos pombos versão carioca – envolta em seus mistérios de aparência e personalidade – representa uma bem contemporânea lenda urbana.

Como protagonista de uma boa história, nossa heroína das ruas se diz soberana: Rainha Elizabeth, segundo ela, é o seu nome. E um certo ar de nobreza realmente não lhe falta: além de algo implícito na fisionomia, veste-se com roupas sobrepostas umas às outras: saias longas, blusas de amplas mangas sob casacos pomposos... Ela parece uma caminhante das ruas, mas não uma mulher do povo. É bem verdade, porém, que a primeira impressão causada pela dita rainha é a de ser um ente fantasmagórico movendo-se por entre a multidão, como se a este mundo já não pertencesse. A primeira vez em que a vi, por exemplo, fiquei profundamente impressionada com a sua expressão vaga, um jeito de quem não está ligada na temporalidade da vida... Rainha Elizabeth abordou-me na rua, olhou-me com olhos de vidro embaçado e falou:

– Quer comprar um lencinho? 

E estendeu-me as mãos longas e ossudas com dois ou três lencinhos. No mesmo instante, parei e me pus a contemplá-la de alto a baixo... Alta, magra, de pele bem alva, ela me lembrava mesmo a idéia de fantasma que povoou a minha mente de criança. Por um átimo, quase murmurei meu espanto ao olhar para o seu rosto branco, branco, parecendo a encarnação própria de um ente de outro tempo, de outra vida! Deti meus olhos na face estranha e pude perceber que em sua superfície havia uma espécie de pancake ou algo como um creme branco derretido... O que era aquilo, meu Deus?! Teria ela saído de um palco de época ou migrado de outra esfera direto para o turbilhão do planeta?... No minuto seguinte, eu estava a fitá-la firmemente, propondo-lhe um de meus costumeiros questionamentos de quando desejo alcançar a alma alheia: 

– Por que quer me vender lencinhos? É você quem os faz? 

Ela reagiu apenas com um sorriso enigmático, desses que substituem a fala quando esta não quer se fazer ouvir. Eu insisti nas perguntas: 

– Você mora por aqui? 

Novamente Rainha Elizabeth não se curvou à minha curiosidade. Estendeu-me as mãos com os lencinhos, ainda uma vez, e me ofertou outro sorriso, tão doce quanto melancólico. Senti um misto de piedade e respeito humano. E não comprei seus produtos, pois acreditei que se o fizesse, estaria lhe oferecendo algum tipo de esmola. Não me pareceu justo tratar desse modo quem necessitava de outro tipo de ajuda, talvez psíquica ou amistosa. Também outro fato me chamou a atenção: ela usava roupas que, apesar de mal arranjadas, davam idéia de alguma opulência. A respeito, depois confirmei minha impressão, quando fiquei sabendo de seu endereço: um prédio nobre nas imediações do largo que freqüentava na companhia dos pombos. 

Correm no bairro diversos boatos sobre Rainha Elizabeth do Largo... Uns dizem que ela usa assim tantas roupas e mantém o rosto coberto com creme branco porque sofre de uma doença epitelial rara, o que a impediria de tomar sol normalmente. Numa versão dentro da outra, dizem que tal doença seria uma conseqüência de contaminação pelo contato estreito com os pombos, os quais pegava no colo, beijava e aconchegava junto ao peito... Outras pessoas já atribuem suas anomalias comportamentais a um distúrbio de ordem psicológica, surgido com um problema de amor: ela teria sofrido uma grande decepção com seu antigo noivo – um piloto da Força Aérea – e, desde então, passara a isolar-se do mundo real e a tornar-se personagem de um reino que imaginara para si. Ainda sobre seu suposto e propalado auto-reinado, disseram-me certa vez que ela ficava feliz quando alguém a chamava de Majestade. Assim, no outro dia em que a vi, quando ela se aproximou, eu lhe disse com ar solene: 

– Bom dia, Majestade! Como tem passado? 

Foi impressionante a sua reação: colocou, no mesmo instante, um sorriso complacente nos lábios e respondeu: 

– Muito bem. O czar da Rússia lhe manda lembranças. 

E afastou-se, sem mesmo me oferecer os lencinhos, não sem antes deixar de me ofertar um novo e amplo sorriso, que parecia me devotar amizade pelo resto da vida, já que eu partilhava do seu sentimento de nobreza. 

Houve, ainda, uma outra vez em que a encontrei: sentada bem no meio do largo, próximo ao chafariz, ela estava rodeada de pombos por todos os lados... Pensei até em em me aproximar, no desejo de falar melhor com ela, talvez até para uma entrevista, uma aproximação mais detida. No entanto, fiquei quase paralisada ao perceber que os pombos pareciam interagir com ela... Parecia até que a comprendiam e – mais que isso – que a amavam! Rainha Elizabeth e os seus pombos praticamente formavam uma pintura: os pequenos pássaros pareciam caminhar em seus braços e aconchegar-se na roda de sua longa saia... Ante a visão de quem quer que olhasse, misturavam-se mulher e pombos: não se sabia onde começava uma e onde terminavam outros... Diante da visão, até desisti de aproximar-me... Não, decididamente, eu não poderia influir – com a minha humana pessoa – naquela quase estátua de praça na forma de mulher dos pombos.
Rainha Elizabeth também externa certos medos e reações à tecnologia. Os que afirmam ter ela problema de memória (há também esta corrente) atribuem sua repulsa ao moderno a uma tentativa constante de voltar ao passado. Teria ela um medo exacerbado de entregar-se ao momento presente, já que para ela o amor e a alegria ficaram para trás, num tempo distante... Desse modo, ela teme elevadores e câmeras. Conta-se que, certa vez, reagiu quase agresivamente quando um colegial tentou tirar uma fotografia sua: 

– Não faça isso! Vai roubar a minha alma!... 

De tempos em tempos, Rainha Elizabeth some das ruas. É quando todos afirmam vê-la muito pouco, quase nada, às vezes nunca. Proclama-se, então, que ela morreu. E a população fica triste: adultos, crianças e adolescentes sentem falta do ente esquálido que por eles passa feito vento... e tão bem representa a fantasia em seu imaginário coletivo!... Rainha Elizabeth é importante no meio em que “figura“; não querem que ela deixe de reinar! 

Fazia muito tempo que eu não a via. Mas, determinado dia, minha intuição certeira pareceu avisar-me de sua presença. Estava no largo e, de repente, meus olhos se encheram com uma revoada abrupta, num deslocamento meio apoteótico de pássaros... Depois, novo ajuntamento das aves; dezenas delas aterrissavam em seu habitat urbano, já quase demarcado pelo pouso diário. Ouvi o arrulhar dos pombos que se reuniam no estacionamento próximo, junto à Igreja. Virei-me para o lado e vi uma cena que não mais me saiu da cabeça: Rainha Elizabeth - como se no âmago de seu castelo, rodeada de súditos - lá estava a acenar-me, sorrindo-me um sorriso plácido, a ostentar o peso suave de um pombo em seu ombro. 


                                                                                                                   Por Sayonara Salvioli



1.02           MOTORISTA MOVIDO A  ÁLCOOLCosme era, autenticamente, um motorista movido a álcool. Força de expressão? Não! O álcool era a força motriz de um estranho organismo, um corpo frágil que andava daqui e para ali à base de ingestões seguidas de tragos etílicos. Complicado? Impossível?! Absolutamente não! Seu nome era Cosme, e beber sempre foi seu hábito mais sagrado, uma espécie de religião e modo de viver. Tristemente, o álcool era o seu prazer e a sua refeição.

Cosme era um sujeito magro, de olhos esbugalhados, meio manchados de vermelho, e dentes deformados. Quando não estava dirigindo, trazia invariavelmente um cigarro na mão esquerda e um copo na mão direita. Apresentava, também, algumas características que lhe marcavam a conturbada personalidade de bebedor profissional: risada solta, jeito displicente e passadas largas, meio que sem destino ou objetividade.

Cosme trazia os bolsos sempre cheios de cédulas de baixo valor – amassadas, de mau aspecto (arghh!) – e moedas, usadas para comprar suas doses homeopáticas de álcool. Aqui e ali, entre os diversos pontos do itinerário de seus patrões, ao parar o carro, as usava nos botecos que descobria nas proximidades. Não importando onde estivesse, ele sempre achava um. Era incrível: mesmo em locais distantes – onde antes ele nunca estivera – ele se movimentava com uma facilidade tal que logo encontrava seus bares e fazia novos e rasos amigos... Muito simpático e falastrão, se enturmava com qualquer trupe que falasse a sua linguagem de copos.

Diferentemente do motorista movido a álcool, era o seu irmão gêmeo: Damião. Este era tímido, reservado e – incrivelmente – não bebia! Isso mesmo: era um empregado-padrão, que nunca negligenciava suas obrigações. Andava sempre arrumado, com a barba feita, apresentando-se com as reservas de seu temperamento assentado. A única semelhança ou interseção entre os gêmeos era a sua sincronicidade em sensações... Aquela conhecida simultaneidade que ocorre, principalmente, com univitelinos: um passa mal e o outro sente. No caso dos dois, toda vez que Damião – que tinha uma saúde frágil (apesar de não beber!) – passava mal, Cosme apresentava o mesmo sintoma. Até onde se sabia, contudo, Damião não sofria as conseqüências das bebedeiras de Cosme. Sorte a dele, visto que – em caso contrário – não teria mais paz orgânica ou de espírito. Segundo alguns, no entanto, não seria “à toa que ele tinha aquela saúde tão ruim”... Talvez fosse por causa dos hábitos alcoólicos do irmão!

Cosme, na verdade, era um bebedor inveterado de cachaça, mas não desses que ficam cambaleantes, se arrastando e beijando o chão... Não! Ele andava pelo mundo, em sua costumeira alegria, de modo tranqüilo e descontraído. Junto ao volante ou longe dele, nunca deixava perceptível o grau de acometimento etílico de sua corrente sangüínea. Era impressionante como a ingestão contínua da droga alcoólica não lhe afetava as atitudes e, principalmente, os reflexos na condução de um veículo. Ainda assim, certa vez, o patrão chamou:

– Cosme, assim não dá... Não é preciso nenhum bafômetro para perceber o seu “grau”. A partir de agora, você vai conduzir os veículos da empresa; não vai mais dirigir pra minha família.

E assim foi. O novo motorista da casa, Seu Nicanor, era um senhor cortês, polido, com ares e hábitos sérios, ou seja, não professava a fé da bebida; ao contrário, trazia sempre consigo uma Bíblia: seu alimento era o Evangelho. A patroa de Cosme, embora não desgostasse do antigo motorista, aprovou a nova contratação: Seu Nicanor era um motorista mais formal, dentro dos moldes convencionais exigidos pela profissão: concentrado, sensato e, essencialmente, sóbrio 24 horas por dia!

A rotina da casa pareceu ficar mais tranqüila com a chegada do novo motorista: horários ingleses e motorista a postos no automóvel. Nada de “fugidas” para o bar mais próximo, deixando o carro sozinho. Nunca mais houve atrasos ou displicências. E assim tudo correu maravilhosamente bem, por 17 dias. No 18º, Seu Nicanor bateu com o carro, com a filha dos patrões, de oito anos, a bordo. Batidinha sem maiores conseqüências, nada grave, mas que constituiu fato suficiente para afastar o novo motorista do cargo. E para a alegria da filha do casal – que era muito amiga de Cosme – voltava ao cargo o motorista que ela conhecia desde que se entendia por gente.

A verdade era que todos da família gostavam muito de Cosme e, mesmo, o preferiam aos outros empregados que passaram pelo volante da casa. Cosme era bom de se lidar, prestativo e bem-humorado, apesar dos problemas que enfrentava na rotina de seu próprio lar: vez por outra, segundo a empregada, lá chegava com os cabelos inundados de mucilon... A mulher dele – talvez irritada ou com ciúmes da rival cachaça – derramava sobre a sua cabeça todo o conteúdo da mamadeira de Cosme Júnior. 

                                                                            &&&

Probleminhas cotidianos à parte, Cosme retomou as funções em grande estilo e cheio de conversa:

– O Nicanor é bonzinho, coitado... Mas é barbeiro que só ele... Bater com a menina do carro! Vê se pode... Comigo isso nunca vai acontecer!

E não aconteceu mesmo. Cosme jamais deixou seu amigo álcool se apresentar diante da família do patrão. Segundo as pessoas da casa, a condição de bêbado de Cosme era algo que não se percebia do banco de trás: “Vez por outra, um odorzinho desagradável se espraiava pelos ares, mas nada que trouxesse grandes incômodos.”

Certamente o conhecido “bafo” de Cosme, não podia incomodar a distância a patroa e a patroinha. E os hábitos pouco ortodoxos do motorista já haviam se modificado com os anos; na verdade, quando fora admitido como “condutor oficial” da família, já fazia uma figura melhor: segundo os amigos, já até adquirira o hábito cotidiano do banho, prática que não adotava antes de trabalhar na casa. Segundo se conta – nos domínios do posto de gasolina onde trabalhava –, certa vez os colegas Bem-te-vi e Pardal o pegaram a força para uma limpeza devastadora: jogaram-no debaixo do chuveiro e aplicaram-lhe o tal “sabonete-do-diabo”. Para quem não conhece, este é um tipo falso de sabão, que, quanto mais friccionado na pele, mais a suja. Dizem que fizeram a maior festa com o coitado. Parece até que foi a partir daí que Cosme se despediu da abstinência do banho.

Abstinência da bebida, porém, esta Cosme nunca conheceu. Não costumava almoçar ou jantar, mas fazia várias “refeições” líquidas por dia: um cardápio de diferentes aperitivos compunha a sua alimentação. Muito brincalhão, ao chegar à casa dos patrões, sempre procurava pela cozinheira – junto à qual fazia suas investidas –, pedindo-lhe um cafezinho:

– Me dá um cafezinho aí, minha fror.

Fror dava o cafezinho a ele. E ainda lhe oferecia comida, mas ele nunca aceitava. Houve um dia em que a patroa, ao ouvir a voz de Cosme na área de serviço, dirigiu-se até lá, para pedir à cozinheira que oferecesse almoço a ele. Lá chegando e o vendo sem camisa (a empregada estava tirando uma mancha de aveia do traje de motorista), ficou estarrecida com a magreza de Cosme e exclamou:

– Cosme, você precisa se alimentar e parar de beber. Se continuar assim, você vai morrer!

Mais proféticas não poderiam ter sido as palavras da patroa de Cosme. Não muito tempo depois, se soube que ele fora internado em estado grave. “Assim, de repente?!”, as pessoas se perguntavam. Não tão de repente assim. Na verdade, o álcool foi corroendo o organismo de Cosme aos poucos, como um veneno letal de efeitos de longa duração. Segundo os médicos que o atenderam, seu esôfago estava “regado de sangue”... Na realidade, Cosme resistiu à morte o máximo que um organismo poderia suportar. Os males foram se acumulando e, um dia, numa dessas surpresas cabais da vilã doença, seu corpo – aparentemente sem seqüelas – combaliu-se, de uma vez, e caiu por terra. Literalmente.

Depois de uns poucos dias no hospital, Cosme foi enterrado no alto de uma colina. Ao seu lado, em concomitância absoluta, jaz o seu irmão Damião, que havia morrido pouco tempo antes.

Apesar do desfecho fatídico de sua história, Cosme deixou um milhão de amigos e simpatizantes. Sempre que se lembram dele, as pessoas riem, descontraídas, numa espécie de recordação relaxante. Seu jeito alegre e descompromissado fazia dele uma pessoa leve, dessas que nos trazem boas lembranças. Neste caso, também se construiu um emblema: Cosme era o estereótipo perfeito do motorista movido a álcool! 


                                                                                                              Por Sayonara Salvioli

1.03        O DISTRAÍDO
Como todo mundo aprendeu em História do Brasil, a Revolução Constitucionalista de 32 foi uma luta armada que teve dois objetivos, basicamente: derrubar o governo provisório de Vargas e conquistar o direito de uma nova Constituição para o país. Conseqüências sociopolíticas à parte – ainda que nunca se possa negar o quantitativo das perdas humanas num conflito –, o personagem central deste conto é, apenas, um dos combatentes. Mas não um desses soldados que deixaram suas marcas e fizeram história... Não, ele não ficou eternizado em nenhum santuário de pedra de heróis desconhecidos. Nem era um lutador audaz ou destemido; nem fora líder de qualquer posicionamento político-filosófico. Na verdade, nem mesmo morrera pela causa!... Apenas “foi à guerra e voltou, sem sofrer nenhuma lesão ou trauma. Saiu ileso das intempéries do combate”. Seu nome era Ludovico e, segundo contavam testemunhas de sua ação no campo de batalha, balaços passavam raspando em seu rosto e ele nem notava: “Inúmeras foram as vezes em que a morte lhe passou bem na frente do nariz sem que ele nem se apercebesse da dita cuja! Desapontada com o seu desprezo, a “da foice” desistiu de levá-lo na ocasião. Decidiu que seria bem mais divertido vê-lo caminhar, entre inocente e trôpego, pelos acasos da vida”... E Ludovico viveu – depois da guerra em que foi sem ser notado – bem mais uns setenta anos!...

Ludovico, o distraído, era um sujeito de boa família, bom caráter e boa reputação. De ruim ele tinha apenas a cabal desatenção perante a vida. Fora um menino meio lunático, havendo crescido diante dos ventos inconseqüentes dos canaviais... Apesar de distraído, bem cedo conseguiu aperceber-se dos rabos de saia que lhe roçavam as pernas de filho de fazendeiro. Casara-se, cedo, então com Linda, que de fato era linda e lhe deu quatro filhos. No nascimento do quarto, porém, a linda morreu de febre puerperal e Ludovico quase nem notou. Falaram as más – e também as boas – línguas que ele só dera por si da viuvez quando já enredado na cama com Inocência, que de inocente não tinha nada, e bem fez o desatento patrão perceber a sua brejeirice e o seu furor uterino. Foi assim que Ludovico, o distraído, se casou pela segunda vez e teve mais dois filhos saudáveis com outra mulher bonita.

Os anos se passaram e Ludovico continuou vivendo sem perceber muito as intenções da vida. Apresentava a sua dispersão de sempre também em relação a trabalho: não sabia bem fazer as contas do café ou da lavoura frutífera de 8.200 pés de maracujá. Também não se dava conta dos colegas de espécie de Isolina, que pintavam os seus campos esparsos de uma alvura nelore de dar gosto! Gosto no leite, gosto na carne, gosto na conta do banco e nos áureos cofres tilintantes da secular fazenda Florença. Ludovico parecia não se adonar de nenhuma dessas vantagens: do leite e da carne, só sabia na própria mesa. Quanto ao maracujá, apenas se servia bem da fruta, cujo consumo acirrava ainda mais a sua placidez perante a vida. Nada que demonstrasse espasmo diante das dezenas de caminhões que portavam na fazenda para levar as bolinhas calmantes amarelas... aquelas preciosidades frutíferas – que se convertiam em dividendos metálicos – após serem colhidas, transportadas e imersas nas milhares de garrafas dos sucos Florença. Quanto ao resto, para Ludovico, ia tudo muito bem, obrigado, visto que vivia de toda aquela renda sem dispêndio de força, e nunca, em qualquer tempo, precisou trabalhar. Não precisava, mesmo, tomar conta pessoalmente da fazenda e do ouro que as gerações anteriores haviam construído para ele. Até porque D. Constância, sua mãe, o fazia.

Muito aqui poderia ser dito sobre as singulares aventuras de Ludovico, o distraído. Passagens interessantes mesmo e não apenas fragmentos de suas estranhas atitudes cotidianas, como quando foi apanhando tentando dar jabuticaba à sua bisnetinha de meses... Também havia os episódios de passar do destino em suas viagens porque se entretinha conversando longamente com o motorista... Ainda houve aquela vez em que perdeu a chave do cofre de casa no estábulo (o tal cofre tinha barras, barras.... quilogramas de ouro!... títulos, ações, dobrões e dobrões do dinheiro da época!!!)... E Onofre, o retireiro, depois foi lhe entregar no alpendre da casa grande – em que Ludovico dormitava sob massagens de Inocência – a dita chave, encontrada em meio às defecações de Isolina, a sua vaca predileta. Fato semelhante à perda do anel que dera a Inocência nas Bodas de Papel e que, depois – como que por milagre (desses que só aconteciam com ele) fora reencontrado dentro de um tubérculo pela cozinheira Leôncia, na hora de assar batatas... Porém, se pode resumir este painel de apresentação de Ludovico narrando como ele se despedira da vida, como afinal se encontrara com a “da foice”, a mesma de quem um dia ele se desvencilhara nos campos de batalha... Apesar de sua distração também alimentar (Ludovico comia com extremados prazer e gula, fartava-se de manjares pesados, bebia vinho como Baco e fumava repetidos Havanas), viveu mais que gordos noventa anos! Quase cem, na verdade. E quando a festa do centenário já ia chegar, um dia se distraiu tão profundamente num sono que dele não mais acordou. Deve estar até hoje passeando pelas vielas floridas do Paraíso sem notar que deixara a sua fazenda Florença no Brasil!

Contudo, um pouco mais ainda vou contar aqui sobre Ludovico: ela deixou boa e feliz descendência. Dentre os seis filhos que deixara, ao todo (do primeiro e do segundo matrimônio, como costumava dizer), três se destacaram vivamente: o mais velho, superdotado, alcançou a condição de milionário quase por mérito próprio (alguém tinha que trabalhar depois do pai... e, comparado ao filho, Ludovico era apenas rico); uma filha que deixou uma prole maravilhosa e numerosa de filhos e netos geniais – intelectuais, desportistas e artistas; e outra filha um tanto quanto diferente, que – não se sabe por que cargas d’água – sempre se mostrou lunática vida afora, atuando como astróloga, quiromancista, mãe-de-santo, leitora de borra de café, benzedeira e angelologista. Por esta sua última especialidade, registrara no livro Dos astros que escrevera: Papai escapou da morte em plena guerra, foi intensamente amado, foi sempre rico sem trabalhar e morreu como um passarinho em virtude de seu estado de alma de dispersão. Explico: ele foi um ser humano fortemente protegido por seu anjo – Ariel – que lhe permitia usufruir de bens herdados e facilidades na vida, entre a proteção do amor e as nuances da sorte. Estava sempre protegido em sua distração. 

                                                                                                                   Por Sayonara Salvioli



2    ROMANCE 2.01 - PARTE DO CAPÍTULO VII DO LIVRO O OURO DO CAPITÃO, DE SAYONARA SALVIOLI


COTIDIANO NEGRO
Depois da morte de Kusumwa, o único alento da escravinha Nana, esta não via mais qualquer graça na vida. Sem contar que aquela vida, em princípio, já não tinha mesmo graça nenhuma. Ao contrário, eram só sofrimentos e dissabores que permeavam os seus dias. 

Mas a moça tinha mesmo muita fibra. E diferente não poderia ser, afinal era descendente da nobre família real Galanga, na distante Angola. Talvez tirasse desse resquício de dignidade – da vida que tivera até os catorze anos na África – a pouca força que tinha para continuar vivendo. 

E muito mais do que fibra era necessário para a dura resistência ao trabalho escaldante nos campos de café. Nana era, de fato, uma guerreira, como lhe ditava a ascendência. 

Nos dias que se seguiram à morte de seu Kusumwa, a vida também parecera deixar-lhe o corpo. Na roça, trabalhava maquinalmente: manuseava os grãos como se fossem de ferro, sem o sentimento da produção alimentar, como era peculiar aos africanos. Nesses dias, Nana parecia não sentir qualquer contato com a terra, depositária de seu trabalho cotidiano e até de seu plantio de esperança, agora minada. 

Mas a vida insistia, mesmo que em apelos cruéis. Servil que era, em seu sentido de obrigação, sentia-se compelida a transcender as próprias forças e continuar trabalhando. João Praga via sua obstinação e a interpretava erroneamente; pensava mesmo que Nana já superara a morte do namorado. E se sentiu encorajado para suas investidas. 

Certo dia, no intervalo que correspondia a um pequeno lanche, ocorrido às treze horas (o almoço ocorria por volta das dez), levou ele mesmo um resto de angu para Nana. A moça arregalou seus olhos já grandes e franziu o cenho: 

– Pra modo de quê esse comê, sinhô? 

– É para ti, Nana. Serve para aliviar um pouco a fome da lida. 

A escravinha, um tanto desconcertada, pegou a cuia das mãos do feitor, levando as sobras de comida à boca, devagar e olhando nos olhos de João Praga. Nana estava apenas assustada, mas o malvado pensou que ela começava a ceder a seus caprichos. 

O mau homem repetiu a gentileza por três dias. No quarto, certo de que estava agradando, ordenou à serva que o acompanhasse a certo ponto do cafezal. A moça, sem poder recusar-se, seguiu-o. Chegando a um local ermo, já um tanto distante dos talhões, João Praga, sem mais nem menos, começou a agarrar a cativa, que inutilmente se debatia para desvencilhá-lo... Quanta ingenuidade! Safar-se do asqueroso homem era tarefa impossível. Ele estava decidido a possuí-la, de qualquer jeito! E agora, percebendo a sua repulsa, nem por isso deixava de levar a cabo o seu intento... Fixou a mocinha com um fogo crispante no olhar e disse: 

– Se não queres por bem, vai ser por mal, mesmo. Vem cá, potranca! Não dês uma de santa! Para o negrinho bem que abriste as pernas! 

Como Nana ainda continuasse a lutar contra ele, João Praga machucou-a com violência: vergões de sangue cobriram a sua face... Nana sentiu o mau cheiro do suor do homem, asqueroso, e cuspiu no chão. Desventura! O maldito inflou-se ainda mais de ódio e a esbofeteou violentamente. A escrava caiu por terra, sucumbida. João Praga abaixou-se e, com um riso malévolo entre os dentes, luxurioso, desfez as vestes de Nana, rasgando-as com brutalidade, enquanto abria a braguilha de sua calça: 

– Quero ver este dorso nu, fêmea! Quero ver esse animalzinho da África ganir... 

Não contente com o seu domínio, o feitor tomou da chibata e, covardemente, chicoteou as costas da pobre, que tremiam de dor. O malvado gritou com ferocidade:
– Estou fazendo tua carne tremer, ó fêmea d’Angola! Tu quem pediste assim! Eu preferia sem forçar, mas até que está divertido. Vem cá, negra! 

Animalesco, abaixou as calças e, estapeando-a ainda mais, penetrou-a. Nana sentiu uma dor absurda, pois ainda era virgem, sofrendo horrivelmente com o ato forçado. Uma mancha de sangue tomou o branco de sua roupa... Soluços incontidos e uma forte tremedeira tomaram-na, como em choque. Ela chorava, gritava e sofria, já sem qualquer resistência. 

Depois de soltar um berro, o homem puxou as calças e se foi. Satisfeitos seus instintos selvagens, o carrasco voltou para o roçado, feliz e cantarolando. 


                                                                              


João Praga nem mesmo sabia quantas já violentara. O ato de estuprar cativas, sem dúvida, dava-lhe sempre grande prazer. Ele era um autêntico facínora. Após seus feitos covardes, ainda se vangloriava da brutalidade aos demais capatazes da fazenda: 

– Não há remédio melhor para uma sífilis do que o ventre quente de uma virgem negra. Quem não acreditar, é só experimentar. – E ria-se o diabo, orgulhoso de sua tirania. 

Momentos depois do estupro, Nana, sentindo-se como que paralisada, chorava convulsivamente. Deitada de bruços, sua boca engolia terra... Mas forte mesmo era o gosto de fel que lhe tomou a gustação. Também veio à sua memória auditiva o fedor, ainda espraiado no ar, daquele monstro insano e repugnante! Sentindo tamanha aversão, além dos efeitos dos solavancos que levou, Nana vomitou, desenfreada, longa e explosivamente! Parecia assim “botar pra fora” toda a sujeira que lhe penetrara a alma e o corpo. 

Horas depois de queimar ao sol, já quase sem resistência, a pobre foi encontrada pela colega de senzala, Dandara, que a levou para os cuidados de Mãe Luanda, uma angolana septuagenária que era uma espécie de curandeira dos negros e, principalmente, das negrinhas violentadas por sinhozinhos e feitores. Ao ver chegar nova vítima, a velha de turbante branco e longos colares de contas coloridas, com um pito aceso na boca sem dentes, professou: 

– Deixa a minina aí que já curo ela... Umas benzedura, uns caldo e erva... e isso passa tudo, tudinho nuns dia...



2.02    CAPÍTULO 9 DO LIVRO A PENUMBRA E O ARCO-ÍRIS,  DE SAYONARA SALVIOLI  [BIOGRAFIA DE ZENY BASTOS VILLAÇA, SOBRINHA-NETA DE TAVARES BASTOS, PATRONO DA CADEIRA Nº 35 DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS].

A CAFUA

E os meses iam se passando numa cronologia lenta de acontecimentos cortantes. Aos poucos, a pequena, esperta como era, passara a conhecer todos os domínios da instituição. Aquela casa era vasta em dimensões, acontecimentos e histórias. 
A vida ali era algo ímpar, e a menina sabia disso. Sempre pensava que se vivesse cem anos, ainda assim nunca esqueceria o Abrigo de Menores. 

Zeny e algumas colegas andavam muito irrequietas, pois a vida lhes parecia demasiado sem graça. Apesar de viverem o momento mágico da infância beirando a juventude, as circunstâncias de vida levavam-nas a uma total perda de encanto. A maneira como eram tratadas, as torturas a que eram submetidas e a escassez de comida eram algumas das pesadas imposições que a vida lhes ditava. 

Na hora do lanche, as crianças se amontoavam e pisavam nos pés umas das outras, para avançarem na fila. Isto porque, às vezes, não havia mais frutas para os últimos e estes ganhavam pão puro. Pão, unicamente... pão seco e água, quando escasseavam as bananas. E as crianças, ainda assim, gostavam mais do lanche, já que a comida, quase sempre, era acre e aguada. Tanta carência não se justificava diante da farta despensa daquele núcleo de assistência pública. 

Vez por outra, a caminho da copa, viam pela porta entreaberta um imenso depósito de produtos alimentícios. Ficavam num tremendo empurra-empurra para apreciar a enorme quantidade de comida que abarrotava o pequeno cômodo: mantas enormes de carne seca e numerosos pacotes de cereais, além de latas e mais latas de 20Kg de manteiga... verdadeiras guloseimas das quais as crianças não usufruíam. Carne seca, por exemplo, era para Zeny petisco maravilhoso que só provara uma vez, num almoço de Ano Novo do Recolhimento. Ali no Abrigo, nunca nem mesmo sentira o cheiro... E a manteiga então... Hummmmm! Como as crianças gostavam quando, aos domingos pela manhã, recebiam o pão com uma leve pincelada amarelinha! Que sabor delicioso tinha aquele creme derretido que as deixavam a salivar!... Pena que era tão pouco e em tão raras vezes! E pensar que havia latões e mais latões daquela delícia na despensa intocada... 

As mocinhas maiores, num pensamento mais perspicaz, ficavam a imaginar aonde iria parar tudo aquilo... O que, afinal, era feito com toda aquela opulência?!...
Naquela época, Zeny ficara sabendo pela mãe, em uma de suas raras visitas, o paradeiro de seu irmão Renato. Cecília segredara-lhe que o menino vivia ali bem perto, numa outra instituição para menores. Por causa dessa revelação, Zeny passara a olhar, através dos muros, na tentativa de avistar o irmão. Desejava muito vê-lo, ainda que fosse por um minuto apenas! Mas não conseguiu...
E os dias se passavam, semanas se seguiam a outras, os meses se interpunham... sem que a rotina acompanhasse as inovações do calendário. Dividida entre a carência do dia e o medo da noite, a pequena ainda não se esquecera das historietas contadas pelas colegas. O receio permanecia e era tal que, à noite, quando uma se levantava para urinar, as demais também se erguiam em companhia... Ninguém tinha coragem de dar dois passos adiante da cama, perto da qual se encontrava o seu balde particular. Quando amanhecia, era tamanho o fedor que todas se erguiam num salto e corriam para o banheiro próximo. 

Quanto aos fantasmas e lendas inesquecíveis, Zeny vivia a imaginar se seriam verdadeiros os fatos narrados: será que realmente ali havia esqueletos enterrados? E como seria a tenebrosa e famigerada cafua, de que todos falavam tanto? 

A cafua era um compartimento escuro e solitário que funcionava como uma pequena masmorra para quem cometia infrações. Zeny já conhecera outras formas de castigo, mas aquela lhe suscitava um verdadeiro pavor d’alma!  As moradoras mais antigas do Abrigo diziam ter ouvido que, no passado, os estrangeiros que invadiam a costa brasileira eram punidos pelos portugueses e levados para o pequeno cárcere do então quartel. Falava-se que eram de meter medo os gritos ouvidos na calada da noite... Afirmavam que os prisioneiros, por vezes, eram encerrados no cubículo com uma onça, que os devorava implacavelmente. Outros juravam que lá havia uma máquina de moer gente, a qual, acionada por uma outra pessoa, triturava macabramente o condenado: “... gritos medonhos se espraiavam pelo mar distante e ecoavam, sibilantes, nas entrecostas dos rochedos...” Afinal, naquele tempo, não havia construções que pudessem bloquear as ressonâncias. Assim, sons levados pelo vento podiam atingir distâncias verdadeiramente inacreditáveis! 

Lendas sinistras ou realidade sombria de um passado bárbaro, aquilo era demais para uma criança de dez anos. Zeny vivia no seu dia-a-dia a tortura viva de um filme de terror sem intervalos. Ninguém pode imaginar o dilaceramento que lhe atravessava o peito e a emoção... Emoção que precisava ser adestrada, duramente, para que continuasse a viver. O mais impressionante é que um sofrimento tão brutal não lhe sufocasse os sonhos. E a pequena ia crescendo e se revestindo com uma suavidade tal que, indubitavelmente, provinha do Espírito de Deus. 

Era esta leveza de alma que a fazia suportar o martírio daquela fortaleza. E os acontecimentos que se sucediam naqueles meses começavam a mostrar-lhe um mundo novo ainda mais cruel que a sua vivência até então.  Houve uma sexta-feira que ficaria marcada para sempre no seu calendário de lembranças amargas. Zeny vira um tremendo rebuliço entre as maiores, que se aglomeravam, em polvorosa, perto do refeitório. Era um tal burburinho que deixava antever algum acontecimento extraordinário. Foi quando se segredou, baixinho, que Bernadete iria para a cafua. Até então, a menina só ouvira falar de pessoas estranhas sendo castigadas naquele cárcere. Nunca antes uma conhecida sua tivera sido condenada ao terrível castigo.
Conhecera Bernadete numa refeição vespertina de sábado. Nesse dia da semana, as atividades eram antecipadas, para que a programação diária terminasse mais cedo, a fim de facilitar os horários do domingo de visitação. Aliás, visitação essa que se não lhe atribuía, visto que a sua mãe levava meses para visitá-la... Pois fora numa dessas refeições de sábado que fizera amizade com a moreninha cor-de-jambo.
Bernadete era uma moçoila de dezesseis anos, alegre e esfuziante. Parecia estar sempre feliz em seu sorriso de dentes cristalinos. Como Zeny achava bonito o contraste daquela pele bem morena com aqueles dentes branquinhos e certinhos! E como se afeiçoara àquela amiga recente, que tanto lhe manifestava carinho... Na verdade, Bernadete adotara em seu coração a pequena, como se sua irmã fosse.
A dócil moça dedicava à menina uma amizade que esta via como uma substituição à Dona Teresa, a professora querida do Recolhimento. Na época de sua transferência para o Abrigo, Zeny muito sofrera com a separação. E agora achava que Bernadete, apesar de muito mais nova, supria a falta dessa amizade. É que a moça, também sozinha por toda uma vida, entregava-se a cuidados com a pequena, numa espécie de compensação pelo que não tivera naquela idade. Chegara até a defendê-la de duas meninas mais velhas que ameaçaram dar-lhe uma sova. Afinal, a lei do mais forte preponderava naquele lugar. 

E essa mesma lei implacável agora se virava contra Bernadete, que no pensamento da menina, não poderia ter cometido delito algum. Mas, acontecera o seguinte: o jardineiro mais moço do Abrigo, Aristóteles, tomara-se de encantos pela morena e a seduzira... Zeny não conseguia entender por que a moça estava sendo castigada. Apenas porque diziam que passara a noite no quartinho do jardineiro?!... Pueril e ingênua, a menina não via lógica na punição. A pequena sabia que era proibido visitar outras alas do Abrigo, até porque ela e as colegas da mesma idade nunca saíram da ala das meninas. Vez por outra, se encontravam com as maiores, apenas às refeições. Ainda assim, Zeny achava que a amiga nada tinha feito de tão grave para ser trancada na cafua... 

Mas Bernadete seria realmente castigada. E a pequena ficara desesperada! Não queria que a amiga sofresse. O que Zeny não sabia era que aquele castigo não será nada se comparado ao que estava por vir. 

Naquela mesma noite, começava novo martírio para a menina. A coitadinha em nenhum momento dormira, por causa dos brados de Bernadete. A moça gritou roucamente durante toda a madrugada até que sua voz se sumisse num lamento fraco... Gritara, berrara e se debatera até perder a voz e o alento. Caíra, então, desabalada sobre o chão grosso da cela gelada. Tal se repetira pelas três noites que ocupara o cubículo. 

Ao sair, Bernadete já não exibia qualquer espécie de ânimo perante a vida. A sua alegria de antes ficara para sempre perdida no interior da cafua. A moça transformara-se com a experiência. Vivera tal imersão no recôndito das trevas do medo que talvez não pudesse mais emergir à realidade; parecia que passara a viver no mundo das sombras. O namorado fora embora do abrigo, e Bernadete passava os dias como se não vivesse a própria vida. Seus atos pareciam movimentos mecanizados de robôs. Bernadete ficara louca.