DALVA AGNE LYNCH
PORTUGUÊS
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Nas brumas de mim

Dalva Agne Lynch


Acalanta-me
nas brumas de mim!
Faze nascer o dia das pequenas horas
a antemanhã das ondas que me afogam
o despertar do sol
dos vagalhões que me silenciam!
Ah, aproxima-te!
Preciso de mãos que não as minhas
para fazer poemas.
Aproxima-te com um soneto
uma redondilha
declama em voz alta ao pé de mim
na hora do silêncio maior.
Até que se me voltem as palavras
e se me voltem belas
e outra vez desperte o canto
ao nascer do sol!
Ah, Poeta
peço-te
acalanta-me
nas brumas de mim!


Fita Amarela

Dalva Agne Lynch


Há uma fita amarela amarrada à minha porta.
Ela diz ao mundo
que me filho está na guerra.
Há uma fita amarela no coração do mundo.
Há uma fita amarela às portas dos oprimidos
das crianças com fome
das mulheres prisioneiras de seus véus
das meninas estupradas nas prisões.
Há uma fita amarela nos muros
os visíveis e os invisíveis.
Há uma fita amarela suja de petróleo
no coração da Palestina
e nas plantações de Eretz Yisrael.
Há uma fita amarela esmaecida
nos barcos que fogem de Havana.
Há uma fita amarela em cada consciência
dos que ainda têm consciência.
Nos que marcham nas avenidas latinas
temendo o futuro.
Nos que abarrotam os tribunais
buscado justiça.
Nos que enchem os bancos das igrejas
dos templos, dos círculos de respostas.
Nos que se curvam sobre livros à noite
e trabalham o dia todo pelo pão de cada dia.
Sim, há uma fita amarela
amarrada às portas do coração do mundo.
Um dia - espero que seja em breve!
retirarei a fita amarela de minha porta.
Um dia - ah, e como haverá gritos e lamentações!
será retirada das portas do mundo
todas as fitas amarelas.
Naquele dia - com canto e dança e risos
o amarelo brilhará só na luz do sol
e nas asas das borboletas.
As crianças e as mulheres e as meninas
e todos os cansados e sobrecarregados
vestirão trajes de muitas cores.
E os homens - aqueles que aprisionaram o mundo
por detrás de fitas amarelas
serão exilados em chamas amarelas.
Um dia...
Ah, como demora esse dia... 

Amicitia

₢ Dalva Agne Lynch


Catarina chegou numa manhã cinzenta e fria. Tinha cabelos escuros cortados à altura das orelhas, e usava roupas muito estranhas. Calças grossas, de cor azul desbotado, e uma blusa que lhe chegava quase até os joelhos. Ela carregava uma enorme caixa. Colocou-a no chão e levantou os olhos para mim. Ficamos amigas naquele exato momento.

Ela era muito divertida. Às vezes trazia amigas ao nosso quarto, mas falavam baixinho, para que eu não escutasse. Eu me amuava, mas depois ela sorria e eu esquecia que estava zangada.

O que mais me irritou foi quando Amarília, uma menina magricela com cara petulante, fez troça do meu vestido. Ao invés de me defender, Catarina riu. Fiquei realmente triste. Mas quando o dia de seu aniversário estava próximo, ela pediu à mãe que fizesse um vestido igual ao meu. Daí, no dia da festa, rodopiou à minha frente, segurando as saias de renda branca. "Viu só? Agora somos gêmeas!" Fiquei muito orgulhosa.

Há uma semana atrás, Catarina ficou doente. Sua mãe veio vê-la diversas vezes, e depois veio um homem vestido de branco. Ele sacudiu a cabeça, e a mãe começou a chorar. Daí eles vieram e a colocaram em uma caixa muito bonita, toda branca e dourada. Ela estava muito linda, usando o vestido igual ao meu.

Chamei baixinho: "Catarina..." Ela sorriu e abriu os olhos. "Venha, vamos correr no jardim!" Catarina levantou, pegou minha mão e saímos pela porta aberta.
.......

D. Elizabete levou um susto quando escutou o estrondo. Acompanhada do marido, correu ao quarto de Catarina. E pararam à porta, assombrados.

Aos pés do caixão branco e dourado onde repousava Catarina, em meio a estilhaços de vidro e madeira, jazia a pintura da "Menina em Vestido de Festa".