FÁTIMA DIÓGENES
PORTUGUÊS
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Canção da Inteireza Hoje, depois de uma longa conversa pelo Skyipe com um amigo que está passando por um momento difícil, veio à minha lembrança uma história que ouvi anos atrás quando facilitava um trabalho de Identidade Pessoal e Grupal. Contei a história para meu amigo e agora a repasso para você, caro leitor. Tenho a clara lembrança da pessoa que me contou esta historia. Era um aluno muito participativo embora bastante antipatizado pelo grupo. Suas colocações eram ambíguas, parecia que tinha algo que queria dizer e não podia, mas gostaria que as pessoas soubessem. Este comportamento confuso irritava a todos e gerava fantasias a respeito de um ou outro participante. Houve momentos difíceis durante os encontros por conta das suas atitudes. Foi exatamente esta pessoa que trouxe a historia que originou o presente texto. Certamente não reproduzirei a história com toda sua beleza e conteúdo, mas espero, pelo menos, conseguir passar a mensagem. Conta-se que numa certa tribo africana quando uma mulher engravida, ela vai para a floresta com outras mulheres para orar pela nova vida e para juntas encontrarem a canção da criança que vai nascer. A partir daí aquela será a SUA canção, a musica que lhe acompanhará até o fim de sua vida. Esta música tem o sentido de lembrar a esta pessoa quem ela é e por isto ela é entoada em todos os rituais de passagem, para que ele, ou ela, jamais se esqueça da sua verdadeira essência. E a pessoa vai crescendo e internalizando a sua música, sempre cantada em ocasiões especiais. Quando alguém da tribo comete um delito, se distancia do próprio caminho ou dos valores da comunidade, é trazido para a aldeia e seu povo entoa a sua canção até ele/ela se lembrar de quem é verdadeiramente. Este é o jeito de se lidar com os casos de transgressões de qualquer natureza. A história como um todo, me faz refletir sobre coisas que considero importantes: - a educação através do afeto, - o cuidado com o outro, - a crença inabalável na luz interior - e a capacidade de renascimento de todo ser humano. Mostra o valor inestimável do apoio afetivo dos grupos e a importância do sentimento de pertinência. Ressalta também a necessidade de respeito ao ritmo individual, que exige paciência para esperar o tempo de despertar de cada pessoa. O início da história me toca de forma especial. Como ela nos conta, ao nascer ganhamos uma Canção singular e individual: recebemos nossos potenciais genéticos - nossa Identidade. Quando a música é entoada pela comunidade indica que precisamos ser reconhecidos e fortalecidos pela voz do outro. Aprendo quem Sou Eu na relação com os outros. O potencial genético floresce integrado com a totalidade (ambiente, cultura e grupos) gerando a Inteireza. Como nos fala Martin Buber, o Eu se dá na presença do Tu. Ao conversar longamente com meu amigo eu cantei a sua canção particular e única para que ele se lembrasse de quem ele é. Ampliando as reflexões sobre o assunto, percebo que na nossa Canção estão inseridas perguntas sobre nosso Projeto Existencial (lembrando Rolando Toro, criador da Biodança) e que considero fundamental respondê-las, atualizando-as sempre que for necessário: - Com quem quero viver?...Formar vínculos? - Onde quero viver?...Qual é o meu lugar no mundo? - O que eu quero fazer?... Quais os meus talentos e habilidades? Estas perguntas me levam a outras: - Quais são os meus valores e reais necessidades? - O que penso/sinto sobre as realidades que me rodeiam? - Quais são os meus limites/ possibilidades de intervenção no mundo? - Quais são os meus sonhos e os meus objetivos de vida? -Que atitudes/comportamentos são meus ou repito, sem dar-me conta, coisas de outras pessoas? - Para quê estou fazendo isto ou aquilo? Por onde quero seguir, qual é meu Caminho? -Teria a mesma profissão e trabalharia no(s) mesmo(s) lugar (es)? - Viveria a minha mesma vida, se eu pudesse renascer? Nem sempre as respostas chegam de forma espontânea, rápida, e fluida ou as temos com clareza. São perguntas difíceis de responder por que exigem respostas sinceras (sem cera, sem máscara) onde o pensar, o sentir e o agir precisam estar integrados, interconectados. Por vezes, lembrar-se de quem verdadeiramente somos provoca incomodo, pois, a luta de cada dia pela sobrevivência nos aliena nos distancia da nossa Identidade e faz com que aquilo que temos de mais precioso dentro de nós pareça pequeno ou distante demais para ser buscado. Talvez tenhamos certa preguiça. A lembrança da nossa Canção também pode nos assustar, pois diante dos dentes ferozes do cotidiano tendemos a sentir impotência e fragilidade. Existem alguns sinais que indicam quando estamos nos distanciando de quem somos: - Tristeza, vazio e sensação de que o que estamos fazendo não tem sentido, - Doenças que se repetem, - Dependências de varias naturezas, - Energia sexual e/ou criativa paradas, sem movimentos significativos. - Falta de ternura, de amizade, de amor, - Sentimento de estar desconectado do Todo. Nestes momentos se faz necessária a presença amorosa do outro: um familiar, companheiro (a), amigos, grupo, colega de trabalho ou a ajuda especializada de um profissional. Necessitamos nestes momentos de pessoas que entoem para nós a nossa Canção e nos ajude a retomar o nosso caminho. Um sábio, de quem não lembro o nome, escreveu que o maior desafio do ser humano é ser quem ele realmente é. A sociedade está o tempo todo nos puxando para longe de nós mesmos, nos apresentando máscaras e papéis para serem grudadas em nosso corpo, como se fizessem parte da nossa Identidade e não apenas máscaras e papéis para serem usados no tempo e lugar adequados, como as crianças fazem em seus jogos infantis porque sabem deixá-los de lado quando a brincadeira termina (lembrando Góis, psicólogo cearense, teórico da Biodança e da Educação Biocêntrica). Minha Inteireza se revela quando assumo o que Sou em todas as minhas dimensões. Canto minha Inteireza quando me mostro ao mundo com a simplicidade e a liberdade da criança, cujo compromisso é com o Presente e com a Vida. Penso que o maior, mais assustador, mais caro e o mais bonito ato de coragem de um ser humano é assumir para si e para o mundo quem ele é, com Simplicidade, Liberdade e Amor. E lembrando mais um grande mestre da humanidade, Nelson Mandela: E por que merecemos tanta Luz?...Porque somos filhos de Deus!... Que não esqueçamos nossa canção e que tenhamos a sorte de ter alguém ao nosso lado para entoá-la se por um instante esquecermo-nos de quem somos! Fátima Diógenes Mãe, companheira, amiga, psicóloga, gestalt-terapeuta, didata em Biodança. Paris, primavera de 2008