NETA MELLO
PORTUGUÊS
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ELA VAI CHEGAR Outro dia ouvi uma conversa na fila do supermercado. Minha diarista agora vai embora antes das 4, pode isso? Abuso, não? A moça do caixa trocou olhares comigo. Vontade de perguntar se uma das duas senhoras já usou transporte público em São Paulo. Respirei fundo, desisti. E você? Já pegou busão, metrô e trem depois das 4 da tarde? Uma odisseia para milhares de mulheres que deixam filhos e netos para cuidar da casa dos outros todo dia. A manicure de um salão confessa. Não sei como tanta gente vai às manifestações, será que não trabalha? Mulherada aqui não pode se dar a esse luxo. Saio às 5 de casa, chego no salão às 8. Na volta o mesmo tanto. A que horas vou ver meus filhos? Marido foi embora há um tempão. Melhor assim, não tem perigo de apanhar mais. Sou mãe e pai. Meus filhos não sabem, na minha terra mal cheguei ao 3o ano. Vergonha. Sabem mais do que eu. Os livros que você deu não consigo ler, me dói a cabeça, não guardo a história. Faltou estudo. Meu filho vai ser o primeiro com diploma na família. Orgulho. Trabalha já num banco grande. Clientes fieis encomendam bolo e brigadeiro. Um bico para engrossar o mês. Deliciosos. A babá folga no final de semana. Vende água nos parques. Gosta quando tem show, cordão de carnaval. Quanto mais quente, melhor. E produtos de beleza, vitaminas e suplementos. Filho não quer não. O marido já tem os dele. Pobre não pode ter muito filho. Como vai educar? Ajudo a criar, tem criança que não quer o colo da mãe, corre pro meu. Ao lado da escola, uma fila de peruas amarelas. A mulher, mais de quarenta, deixa a direção e cumprimenta o vendedor de frutas da Kombi. Uma dúzia de bananas, posso escolher? Linda, pra você faço uma dúzia de quinze! Em outros tempos, respondia com um palavrão, mas como está tudo pela hora da morte e, desisti de homem, aceito a gentileza. O fruteiro não entende nada. Na linha amarela do metrô, escadas rolantes congestionadas. Entro no vagão, uma moça olha pra mim, cede a cadeira. A cada parada, mais gente. A mulher do meu lado no celular. Ainda não cheguei na Paulista, filha. A baldeação em Pinheiros estava um horror! Me espera na plataforma da Luz. Ao lado do hambúrguer. Pelo menos te dou um beijo antes da aula. Desço na República. A que horas ela vai chegar? São Paulo, 10 de setembro de 2013 Querida vovó Tuneta, hoje você faria 100 anos! Faz 35 que se foi e sinto muitas saudades até hoje. Herdei seu nome pomposo, Maria Antonietta, com um T a menos. Lembro do seu jeito doce com os netos, com o vovô. Das noites na sua casa e na fazenda, das férias imensas da infância. Do seu sorriso aberto. Da sua vontade de viver. Da sua alegria. Da sua coragem ao enfrentar o que a vida te mandou. De bom e de ruim. Sei que foi difícil ser mãe. Mimou os filhos e mais ainda os netos. Se isso foi um defeito, benditos os defeitos! Hoje vejo alguns de seus traços nos seus netos quase todos com mais de cinquenta. Nos bisnetos ao sorrir, ao comer com gosto sem se preocupar com nada. Ao ser rápida para dar respostas a quem vinha com pedras e a quem vinha com flores. Obrigada por ter me ensinado tantas coisas. Obrigada pelos banhos deliciosos de banheira na fazenda. Do cabelo escovado na escada do terraço. Do cheiro gostoso de camomila precursor dos condicionadores. Dos bolos e pães de minuto no meio da tarde. Obrigada por tantas coisas que só mais velha me dei conta. Por ter existido na minha vida. Continuo pedindo que, onde estiver, veja o que ajudou a construir e que cuide de todos que estão por aqui, lutando de todas as formas para ter sua alegria e vontade de viver. Amém. De sua neta Neta VOVÔ ESTÁ DIFERENTE Tem coisa melhor do que ter avós? Quatro então, que delícia! As lembranças dos momentos mágicos passados com eles ficam registradas no HD do coração por toda a vida. Vovô Antônio se transforma quando está com o neto João. O homem sério de terno e gravata veste bermuda, camiseta e tênis nos pés, entra no mundo de um menino de três anos. Sabe bem o que significa a troca de afetos entre as gerações. Já são muitas as histórias e experiências vividas, mas a última vale um registro. João chega de carro com a mãe na casa dos avós paternos para passar a noite e parte do dia seguinte. Vovô Antônio espera o neto com uma grande novidade. Acabara de tirar o bigode de mais de quarenta anos. Vovô está muito diferente. Lembra até a história da Chapeuzinho que João sabe de cor. A voz é do vovô, mas quando ele fala o bigode já não mexe mais! Não é a cara do vovô. João empaca na cadeirinha do carro. Não quer sair. Por que será que o vovô resolveu tirar o bigode? Será que dá para confiar num avô assim tão mudado? Esse novo avô lembraria das brincadeiras e passeios do avô de bigode? A mãe de João explica que o vovô é o mesmo, só que sem bigode! Não tem gente que pinta o cabelo? Você cortou o cabelo outro dia e continua a ser o João. Tem gente que tem tatuagem no corpo, tem gente que deixa o cabelo comprido. Tem gente, como seus tios, que usa barba. O papai e o vovô Roberto fazem a barba todo dia. A mamãe e a vovó usam maquiagem, passam batom. Continuam as mesmas pessoas. João adora argumentos. Muito pensativo, registra o que a mãe acaba de falar. A cada fala do vovô para convence-lo a sair, João coloca o indicador entre o nariz e a boca formando um bigode próprio. Talvez para se acostumar à falta que faz o bigode do avô. Uma compensação. Se colocar no lugar do outro. Não fala nada. Resolve sair da cadeirinha do carro. Relutante, dá a mão para o vovô Antônio. Na cabeça do menino de três anos, um novo avô com o mesmo jeito e a mesma voz já recuperou toda a confiança do vovô Antônio de bigode. O amor sem maquiagem é o que vale para sempre. Neta Mello 23 de janeiro 2015