CLAIR DE MATTOS
PORTUGUÊS
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A VOLTA DO TEMPO
(Prêmio Fernando Chinaglia - 1981)
Romance de trama densa e envolvente, apresenta ao leitor uma história enigmática, onde o suspense e o surpreendente caminham lado a lado, criando um clima de mistério, plano ideal para que a magia se concentre no território do fantástico-maravilhoso.
Uma família comum, transferindo-se da grande metrópole para uma antiga fazenda interiorana, propondo-se a cultivar um novo estilo de vida, ligado ao campo e às coisas simples. No entanto, já quase à chegada, estranhos fenômenos começam a ocorrer. Carolina, a jovem mãe de família, é acometida por sensações de ordem extra-sensorial e deixa-se levar por sentimentos confusos, contraditórios, estranhos ao seu natural. Carolina depara-se com a invulgar figura de uma mulher, envolta em andrajos, silenciosa, sombria, triste e assustadora. Torna-se presa fácil de imagens que a remetem a um passado desconhecido, envolto na névoa do tempo. Um passado de dor, mágoa e sofrimentos.
Somente ao final do último parágrafo todos os segredos são desvendados e o leitor, mais uma vez descobrirá que "há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia." Um romance forte e eletrizante.
"Podia quase sentir tantas coisas... Podia evocá-la, lembrá-la, até mesmo vê-la, todos os dias. Só não podia tê-la. Sumira. Deixara seu corpo, ou o que restara dele, mas levara sua alma. Gozado isso. Não conseguia compreender o que se passara com ela. Era algo assim como um vidro de perfume, cujo conteúdo não se evaporara, ao contrário, estava todo lá, mas perdera o aroma. Exatamente isso. Carolina perdera a essência. Por quê? Como? Algo devia ter acontecido. (...) "

PAIXÃO NA CASA MORTA
(Prêmio P.E.N. Clube do Brasil - 1989)
Uma família tradicional, que vive numa mansão antiga - herança de tempos idos, de inquestionável poder. Uma matriarca dominadora, que retém a família entre os dedos, com mãos de ferro e palavras duras. Duas irmãs, Carlota e Cândida - uma feia, a outra bonita -, que disputam a atenção e o amor do mesmo homem. Dois sobrinhos, filhos da terceira irmã, já morta; frutos de um casamento indesejado e inadequado. Um genro passivo, que ama secretamente a própria cunhada. Eis Paixão na casa morta, esse grande romance de Clair de Mattos, onde o leitor se vê ora diante da aparente normalidade de uma família que apenas mantém as aparências, ora diante de um astucioso assassino, que se mostra em primeira pessoa mas não revela sua identidade.
Mestra na arte de escrever, Clair nos brinda com este grande livro, um romance diferente que só o artesão vocacional conseguiria compor. O tom dramático impressiona não só pela realidade dos quadros, mas principalmente pela perícia na sua apresentação. A história nada mais é do que a saga dos temperamentos insatisfeitos, condenados a viver sob o mesmo teto, dentro das mesmas paredes, mas cada um com uma personalidade própria, com seu modo de agir às ocultas e encaminhando a história para as tragédias, tecidas pelo destino inexorável.
"E por que não? Se ninguém jamais saberia, por que não? Um jogo. Jogo de vida. Fatal. Vida e morte nascem juntos. Por que não? Quem rege todos os destinos, afinal? Uma vida em troca da minha. Poderia ser feito. Claro. Compete a cada um cumprir ou não o carma. Eu posso trapacear com a sorte, essa inimiga. Negociar meu futuro. Por que não? Seria errado inventar um acaso justo, alterar traçados cruéis? Quem demarca os valores? Decide? Determina os fados? Valerá qualquer outra vida mais do que a minha? Não e nunca!"

O NOME DE ALICE
A história de Alice é a mesma de muitas e muitas mulheres: como enfrentar um divórcio depois de vinte anos de casamento? Como superar a dor e a humilhação de ver-se trocada por outra, muito mais jovem e grávida? Como aprender a lutar pela sobrevivência se sua única atividade sempre foi a "administração do lar"?
As buscas de Alice, suas decepções, dores e conflitos são também as forças que a impulsionam a descobrir sua verdadeira identidade, seu verdadeiro nome, sua verdadeira essência. Numa narrativa intimista, profunda e surpreendente, Clair de Mattos descortina a alma da mulher. Sua personagem, por caminhos tortuosos e doloridos, consegue encontrar-se com si mesma, fazer as pazes com a própria alma e encontrar-se com o próprio destino.
Alice mulher, Alice em busca das verdades - que não estão no hipotético País das Maravilhas, mas sim em seu próprio coração - são o tom mágico da narrativa, pois trata-se de uma viagem solitária, profunda e sem volta ao âmago de sua própria alma, de sua própria essência. A luz se faz ao final, quando Alice descobre quem verdadeiramente é. Imperdível.
"Por que homens e mulheres não se ajustam, nem se entendem onde há lacunas e falhas abrindo buracos, vazios e abismos? Como e por que as gentes se perdem e desencontram, um pra cada lado, sempre? Por nunca juntos, só partilhando? Fui menina obediente quando minh'alma não era. Ninguém entendeu. Se fosse possível ser amada em meus avessos, interiores inquietos de infinitas buscas, os profundos e densos, face que oculto secreta, puro medo e solidão. Amada naqueles labirintos que guardo e não mostro, sem censuras nem bridões a conter meus galopes solitários dentro de noites tempestuosas, trovejantes e sombrias, mas minhas. Ah, que alguém me amasse na alma, essa ânima única a confusa que sou, mulher, escrava por gosto jamais por dever. (...)"

GRÃOS VERMELHOS NO VALE
Prêmio Luzes da Cidade - 1994)
Nesta nova edição de "Grãos vermelhos no vale", agora comentada, ampliada e ilustrada, Clair de Mattos - a grande intérprete das paixões humanas, nas palavras de Antonio Olinto - nos traz, mais uma vez, um romance imperdível e apaixonante, que narra fatos acontecidos na região sul-fluminense: o ciclo do café, a Abolição da Escravatura e subseqüente Proclamação da República. Denso, profundo e questionador, "Grãos vermelhos no vale" recria todos os conflitos da saga do café no séc. XIX.
"Grãos vermelhos no vale' foi lançado pela primeira vez em 1988. Trata-se de um romance histórico-ficcional que narra fatos acontecidos na região sul-fluminense, a Abolição da Escravatura e subseqüente Proclamação da República. Para escrevê-lo baseei-me na figura do Barão de Vista Alegre, grande proprietário de terras em Valença. Sendo a sesquicentenária Fazenda Vista Alegre há mais de 20 anos de minha propriedade, a inspiração de recontar o passado surgiu-me fácil. Bastava acompanhar os dados históricos já documentados. No entanto, alguns anos mais tarde, com a descoberta de novos e valiosos documentos - até então ocultos nos porões de uma antiga propriedade desabitada -, foram-me revelados dados e documentos até então inéditos, alterando a história oficial. Decidi reescrever o livro, calcando minha narrativa nas recentes descobertas. Assim nasceu o novo 'Grãos vermelhos no vale'. Apesar de manter a narrativa ficcional intacta, precisei documentar e ilustrar a atual edição, trazendo à luz sobre fatos antigos e recuperando a verdade histórica."

MOSAICO EM BRANCO E PRETO
MOSAICO EM BRANCO E PRETO (Prêmio Ficção 2000, concedido pela ABL)
Clair de Mattos, romancista, contista, cronista, tem o domínio da prosa. Seja em narrativas curtas, seja em casos longos ou em poemas de linguagem corrida, sem versos, dá um tom de encanto ao que diz, ao que narra e comenta. Ao falar do silêncio das ruas, de caminhos e desencontros, na noite de São João, quando "a terra grita mais vermelha", "do moço, da besta, da donzela de negrosos olhos", encontra meios de a palavra cair sobre o detalhe preciso, sobre a sílaba certa, para exprimir o espanto das coisas.
Neste livro, o preto-e-branco prevalece. O normal e o estranho, o bom e o nem-tanto, o fácil e o perigoso, os palácios e as casas pequeninas onde nascem o amor, o inferno e o purgatório, a bela e a fera - todos os contrastes, opostos e próximos do contrário, se unem em prosa que constituem o cerne deste volume.
Mosaico Em Branco E Preto segue também o estilo do flagrante, documentário de cenas e momentos, focalizando a "moça descendo o morro", a noite de Copacabana, a hora da reza, a preta na cozinha fazendo o feijão de seu homem, a menina de bochechas vermelhas. Há, na prosa de Clair de Mattos, um canto e um encanto, num cântico das coisas fechadas no seu silêncio.
Antonio Olinto