MARIA FERNANDES - ARÁDIA RAYMON
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Do livro inédito: JALIZA – A SACERDOTISA DE AMON-RÁ 
Jaliza chegou ao Egito, por ocasião da Festa do Nilo, quando o rio sagrado coalhava-se de pequenas e grandes embarcações engalanadas com flores e fitas coloridas e as ruas apinhavam-se de gente esperando o cortejo real que breve deveria passar para dar início às festividades.
Os acólitos do Faraó já distribuíam trigo, pão e vinho ao povo, como era comum àquela época durante as festas do Nilo.
Uma pequena caravana de ciganos acabara de chegar a Tebas e com seus apetrechos coloridos misturavam-se com a gente alegre que enchia as ruas naquela manhã.
Seus rostos, embora trigueiros, diferiam bastante do tipo egípcio, principalmente na cor dos olhos e na cabeleira ora acastanhada, ora negra, e algumas vezes alourados.
O interessante grupo cigano misturou-se à multidão para ver passar o Faraó e sua corte, quando os batedores reais já abriam caminho para o cortejo.
Numa rica liteira de ébano, ornada de ouro e plumas, sustentada por doze robustos escravos núbios, vinha comodamente sentado num trono dourado, o Faraó, cercado de portas-abano e acompanhado por sua real esposa e filho, e por diversos dignitários que vinham cada qual em sua liteira particular, acompanhados de suas famílias.
Neste cortejo encontravam-se, também, o Sumo sacerdote de Amon-Rá, que era o deus supremo venerado em Tebas; o Sumo Sacerdote de Hator, de Ptá, Hórus, Osíris e Ísis.
O cortejo seguia rumo à embarcação real, aportada no Nilo, entre aplausos e vivas do povo que atirava flores à passagem das liteiras.
Numa esquina, já próximo ao cais, uma linda cigana fitava com curiosidade o magnífico cortejo que se aproximava.
Seus olhos de um verde profundo destacavam-se naquele rosto amorenado, ornado por espessa cabeleira negra levemente ondulada, que he caía até à cintura, contrastando com a cor púrpura do seu vestido, cuja saia ampla, era salpicada de ramagens douradas.
Jaliza era de uma rara beleza, por onde passava os olhares se voltavam para contemplá-la, mas ela às vezes nem se dava conta.
Trazia naquela manhã uma rosa vermelha presa aos cabelos e quando o cortejo passava aclamado pela multidão, Jaliza, imitando o gesto do povo egípcio, retirou dos cabelos a rosa purpurina e atirou-a ao cortejo, sorrindo feliz.
Naquele momento passava a liteira do Sumo Sacerdote de Amon-Rá, o nobre Ahmés, e a rosa rubra caiu-lhe sobre a cabeça, ferindo-o levemente na testa, com os pequeninos espinhos do seu caule.
O jovem sacerdote levou a mão à testa, onde uma gota de sangue porejava e limpando-a, apanhou a rosa que caíra a seus pés.
Um grito de surpresa irrompeu da multidão e virando-se para ver quem o atingira, o Sumo Sacerdote de Amon-Rá pousou seu olhar sobre o rosto assustado de Jaliza, que sem saber o que fazer, quedara-se como uma estátua, a pequenina mão, ainda erguida, enquanto a multidão se agitava. E por um mágico instante seus olhos se encontraram e mergulharam profundamente uns nos outros.
O Sumo Sacerdote sentiu um frio glacial envolver seu corpo e seu coração, por um instante, bateu descompassado. Dominando, porém, a inusitada emoção, levou a rosa aos lábios e apanhou um lírio imaculado que enfeitava uma guirlanda amarrada à sua liteira e sorrindo atirou-o à cigana que estava como que petrificada pelo susto do incidente e por uma estranha sensação que lhe oprimia o peito ante o insondável olhar o sacerdote egípcio.
À vista deste gesto de benevolência a multidão se acalmou e o cortejo prosseguiu sem mais incidentes até as barcas ancoradas no Nilo.
Cada qual tomou o seu lugar de direito e o Faraó seguindo à frente em sua vistosa embarcação deu início às festividades.
O Sumo Sacerdote de Amom ocupava lugar de honra na embarcação do Faraó. Ia sentado entre duas interessantes personagens, uma era o Sumo Sacerdote de Ptá e a outra era Neferti, sua filha única, que não escondia o prazer que sentia em estar em tão agradável companhia.
Neferti era uma jovem de pouco mais de quinze anos, bonita, alegre e dona de uma personalidade forte e determinada.
Seu pai, o Sumo Sacerdote de Pthá, esperava casá-la com o garboso Sumo Sacerdote de Amom, jovem culto, de família nobre e abastada e com um brilhante futuro.
Fazia menos de um ano que o velho Sumo Sacerdote de Amom entregara seu Ká a Osíris e ele fora nomeado seu sucessor em pomposa cerimônia.
Já há este tempo, Neferti não tirava os olhos do rapaz, sempre que o encontrava em alguma festa ou reunião social, bem como em sua própria casa, que ele freqüentava assiduamente, muito embora não encorajasse nem mesmo um possível flerte.
Mas o velho sacerdote de Pthá estava resoluto quanto à possibilidade de torná-lo membro da família, uma vez que não havia nenhuma noiva a vista.
Havia mesmo chegado a consultar Neferti, que muito alegremente apoiara a escolha paterna e esperava ter oportunidade para falar ao Sumo Sacerdote de Amon, logo depois da cerimônia no Nilo, durante o banquete no palácio real.
Absorto em seus próprios pensamentos Ahmés não notou quando Neferti lhe perguntou coquete:
_ O que há nobre Ahmés, que te puseste tão taciturno de repente e nem pareces apreciar esta belíssima cerimônia?
Completamente absorto, Ahmés não ouviu, apenas sentiu que lhe tocavam o braço e voltou-se para Neferti, quase que num sobressalto.
_ Em que pensava assim tão distraidamente, nobre Ahmés, que se assustaste com um simples toque de meus dedos – inquiriu Neferti intrigada, pois Ahmés era sempre um rapaz tão alegre, tão atencioso e, agora, este descaso.
_ Oh! Nobre Neferti, queira desculpar-me, pois não percebi que me falava. Eu estava observando o desenrolar da festa tão distraidamente. Que falta a minha, queira perdoar-me.
_ Nobre Ahmés, nada tenho a perdoá-lo, apenas perguntava o que tens, hoje? Sente-se mal? Estás tão pálido!
_ Não é nada demais, apenas acordei um pouco indisposto, hoje, talvez tenha sido o assado que comi a noite passada que não me tenha feito bem. Mas isso passará logo – assegurou o jovem sorrindo.
Mas verdade era que Ahmés, realmente, não se sentia bem, uma sensação de vertigem o acometera, desde o momento do incidente da rosa rubra atirada por aquela criatura tão encantadora, que por algum motivo que ele não compreendia mexera com seus nervos.
Durante toda a cerimônia o Sumo Sacerdote de Amon-Rá refugiou-se num mutismo incompreensível, que desagradara profundamente à sensível Neferti, que via nele o seu futuro noivo.
Naquela manhã tudo era festa, em Tebas, sob o sol ardente do Egito.
Jaliza, a jovem cigana, tão logo se recuperou do incidente em que involuntariamente se envolvera, seguiu a passos lentos de volta à sua caravana, levando entre os seus finos dedos o lírio imaculado que lhe atirara o jovem sacerdote. Ia pensativa, caminhando como se ao seu redor não se desenrolasse uma festa tão exuberante e inusitada para ela, que pela primeira vez visitava o Egito.
Seus belos olhos estavam turvos por uma estranha emoção, desde o momento em que encontrara o olhar do sacerdote que lhe parecia ao mesmo tempo familiar e misterioso, provocando um vazio indescritível dentro do seu peito.
Neste estado de ânimo chegou Jaliza junto aos seus irmãos de raça.
_ Onde estiveste que a procuramos por toda a parte e não a encontramos no meio desta multidão festiva? – perguntou a Jaliza um cigano de porte altivo, aparentando seus vinte e poucos anos, cabelos e olhos escuros, mas a fisionomia não o deixava negar sua origem cigana.
_ Andei apreciando esta belíssima festa, estive até próximo ao cais observando passar o cortejo do Faraó e sua corte. Ramon, como este povo é diferente de todos os que já conhecemos; o luxo e o requinte em que vivem não são vulgares, parece que este povo não poderia mesmo ser diferente. Viste que lindas são as mulheres, com suas indumentárias coloridas e finíssimas, suas jóias de rara beleza?
_ Vejo que Tebas já te cativou pequena Jaliza, porém, cuidado, estamos em uma terra estranha, cheia de estranhos costumes, mesmo para nós ciganos. Onde arranjaste esta flor? – perguntou Ramon.
_ Ah! Quase esqueço de contar-te, minha aventura inusitada. Ganhei-a de um nobre que passava todo paramentado em sua vistosa liteira, quando imitando o gesto do povo, que atirava flores à passagem do cortejo, atirei a rosa que trazia nos cabelos e não hás de ver que um espinho feriu a testa do nobre, que após apanhar a rosa, devolveu-me um lírio que estava preso à sua liteira – contou Jaliza, prendendo o lírio aos cabelos num gesto de naturalidade.
Ramon, porém, notara que algo perturbava sua amiguinha tão querida, sem saber, entretanto, o que seria, continuou:
_ Jaliza, imagine se tiveste atingido o Faraó. O que aconteceria?
_ Oh! Não sei Ramon, Sabes que a multidão ficou em expectativa, como se alguma coisa de ruim pudesse advir daquele meu gesto. Mas já passou e perdi o interesse pela festa; estou faminta. Onde iremos acampar?
_ Já estamos acampados próximo às margens do Nilo, numa área que nos foi destinada pelos guardas da cidade, não fica muito longe da praça do mercado. Hoje, à noite, faremos uma festa, também, em homenagem ao rio sagrado; creio que o Faraó gostará de apreciar nossa festa do terraço do seu palácio.
_ Verdade? Então me diga Ramon, onde está Jasan, nosso chefe?
_ Creio que deve estar fazendo um reconhecimento da cidade, pois sempre que chegamos a alguma terra desconhecida, procura inteirar-se sobre os costumes, tudo, pois sabes como Jasan é correto em seu modo de dirigir a nossa tribo. Por isso, é que todos nós seguimos suas leis sem maiores problemas, porque elas nos parecem justas.
_ É verdade, tem sido sempre assim com o nosso grupo. Jasan é realmente um verdadeiro príncipe cigano. Sinto-me feliz em estar sob sua proteção. Mirca me disse que quando ela e minha mãe eram jovens, ambas estavam apaixonadas por Jasan, mas aí apareceu um nobre que se apaixonou por Luanda, minha mãe, e mesmo contra as ordens do rei de nossa tribo, Luanda encontrava-se com o nobre às escondidas, até que um dia, seduzida, fugiu com ele. Mas nosso rei Jefer, pai de Jasan, que era na época príncipe herdeiro, não se conformou com a fuga da bela cigana que traía toda a sua tribo por amor de um gajon, um nobre que não respeitava as nossas tradições e mandou um grupo de ciganos ao encalço dos fugitivos.
O casal foi alcançado, o nobre foi assassinado ali mesmo e Luanda foi levada de volta à sua tribo com as mãos amarradas e atadas a uma das carroças da caravana, que a levaria à presença do nosso impiedoso rei. Jefer não permitia que nenhum dos seus ciganos traísse as tradições de seu povo e não perdoou Luanda, a fez sofrer todas as humilhações diante de toda a sua tribo. Humilhada e infeliz Luanda faleceu pouco tempo depois de dar à luz a uma menina, que então foi criada por sua fiel amiga Mirka, já há este tempo, noiva de Jasan. Essa pobre criança sou eu.
Quando Jefer foi acometido pela enfermidade maligna que o levou, Jasan assumiu o seu lugar de direito e governou o nosso povo com mais sabedoria e benevolência que seu pai, porém, continuou firme nas tradições do nosso povo. E assim, Ramon, fui sempre criada por Mirka e Jasan, nosso chefe e esta história muitas vezes me foi narrada por ela, para que eu jamais me esqueça de que sou uma cigana, muito embora tenha tido por pai um nobre de outra raça.
Mirca diz que herdei os mesmos olhos de minha mãe e, também, a sua graça ao dançar. Diz que quando minha mãe dançava numa praça a cidade parava para vê-la bailar. Os nossos profetas avisaram, dizem, que Luanda, que conhecia os segredos da magia, não viveria muito tempo entre o seu povo e assim foi. Porém, disseram também que sua filha teria um estranho destino e eu tenho medo, Ramon. Os profetas nunca erram, mas Mirka e Jasan procuram afastar essas idéias, dizendo que os profetas não profetizaram nada de ruim para a filha de Luanda. Mesmo assim tenho medo.
_ Nada temas, pequena Jaliza, tudo isso que acabas de dizer-me todos nós da tribo sempre soubemos e sempre a amamos, nunca um membro desta tribo a olhou como a filha do nobre, todos a vêem como a filha de Luanda, a bela cigana que todos amavam.
_ É verdade Ramon, minha mãe era muito querida entre o nosso povo e todos sofreram com a sua fuga e com a pena imposta a ela pelas nossas leis. Não sei o que me deu, agora, para ficar falando-te sobre tudo isso, acho que, hoje, não estou muito bem. Sinto-me triste, sem saber por que e essa nostalgia fez-me relembrar os tristes acontecimentos que envolveram minha mãe e do qual sou o fruto. Mas que nos importa o passado? Vamos Ramon, tenho fome.
E dizendo isso, Jaliza puxou seu amigo Ramon pelo braço e saiu quase a correr em direção ao acampamento do seu povo.
_ Mirka, Mirka, tenho fome de leão e Ramon também.
_ Onde andaste menina travessa? Então, tens fome, hein!? Pensei que o calor do Egito e a beleza da festa tivessem tirado sua fome – dissera Mirka sorrindo, em tom de censura fingida.
_ Oh! Sinto muito querida Mirka, eu esqueci da hora e fiquei olhado a festa, depois encontrei Ramon e ficamos conversando. Ramon disse que haverá festa, hoje, na praça defronte ao palácio real.
_ É verdade, Jasan quer que prestemos uma honrosa homenagem ao Faraó, esta noite. Todos nós estaremos lá e como de costume encantaremos com nossa dança e nossos cantos.
Jaliza parecia ter-se esquecido do incidente da rosa e a tarde transcorreu serena nos preparativos para a festa da noite. Os homens afinavam seus violinos e as mulheres arrumavam seus mais belos trajes. Era a primeira vez que dançavam para um Faraó. 
...



                  Texto do livro inédito: YUCATAN


Teu rosto belo num passe de mágica parecia ter-se metamorfoseado num lindo rosto trigueiro, de magníficos olhos amendoados, fitando negros e profundos a suavidade da noite ao seu redor.
Levava nos ombros um manto esverdeado e tinha os negros cabelos ornados por um esplendido penacho branco matizado de plumagem colorida e brilhante.
No peito nu, trazia preso a uma grossa corrente de ouro reluzente, um magnífico pingente de jade esverdeado – a pedra mágica do amor.
Braceletes dourados ornavam seus pulsos fortes de guerreiro e a pele macia de um jaguar cingindo-lhe a cintura, descia-lhe até os joelhos, combinando lindamente com a sua pele de bronze, macia.
De pé, contemplava em silêncio a superfície espelhada do lago, refletindo a luz acinzentada da deusa lunar, quando repentinamente ouvira uma voz suave pronunciar seu nome:
- Iucatã!
Voltara-se lentamente à menção do seu nome e seus negros olhos pousaram suaves naquele rosto belo e inquiridor. Os magníficos olhos oblíquos da jovem sacerdotisa, erguidos para ele, fitavam-no com indizível expressão, misto de admiração, afeto e melancolia. Vestia uma túnica tão alva, que refletia em nuances nacaradas a luz prateada da lua que encimava os céus naquela estranha noite maia. Os longos e negros cabelos estavam presos em uma espécie de tiara de turquesas, de onde pendiam fitas de um tecido colorido e brilhante como a plumagem dos pássaros sagrados.
- Por que miras assim tão tristemente as águas sagradas?
- Sabes bem por que, minha deusa querida. Penso em teus olhos e no teu amor – respondeu o guerreiro, rosto afogueado de pejo e paixão a muito custo contida.
- És louco, meu adorado Iucatã, e o teu amor por mim também é loucura, bem sabes – respondera a jovem virgem do sol, cujo coração também batia descompassado ante a presença do belo guerreiro.
- Mira, vês, lá em cima a luz do luar, ela sabe do meu amor por ti e não me condena – falara o guerreiro, coração opresso – Bela Akalli, sei que nutres por mim inefável sentimento de amor, vejo nos teus olhos de jade, o resplandecer ardente deste fogo que também te consome , queimando o teu nobre coração.
- Iucatã, silencia-te, eu vos rogo; bem sabes, que prometida estou a Ixcauaztinz, sou uma sacerdotisa do sol, não posso amar-te.
- Akalli, Kukulcán jamais condenaria o teu amor por mim, sou um guerreiro da casa real, sirvo ao nosso deus com todas as honras.
Os olhos da sacerdotisa contrastando exoticamente com sua tez de bronze, fitando o disco lunar, se encheram de lágrimas, surpreendendo o impetuoso Yucatã.
- Choras? – perguntou atônito o guerreiro – não, não posso ver-te chorar. E num impulso incontido, abraçou-a, como se quisesse naquele abraço secar-lhe todas as lágrimas presentes e vindouras.
-Akalli, minha adorada estrela, - disse beijando-lhe os olhos molhados de lágrimas.
A sacerdotisa não podendo mais conter seu imenso amor pelo guerreiro, erguendo os olhos para ele murmurou errante:
- Amo-te, Yucatã e jamais poderei deixar de amar-te, mesmo que o sol e a lua deixem o seu caminho no céu e caíam sobre a terra, sempre o amarei, mesmo que passem os dias e os anos, ainda assim haverei de amá-lo pela eternidade afora.
- Yucatã segurando-lhe o queixo suavemente, mirou-lhe profundamente nos olhos e naquele instante fundia-se naquele olhar todo o ardor incontido daquele amor proibido. Parecia que no espaço suas almas se uniam, eles, porém, não o sabiam, apenas sentiam e isso lhes dava uma imensa alegria.
Trêmula, a sacerdotisa erguendo os seus braços esguios, cheios de ouro e turquesas, enlaçou-lhe o pescoço, num abraço onde ternura e amor se fundiam.
- Mesmo que passe o tempo e o sol de Yucatã não brilhe mais, ainda assim hei de amar-te linda Akalli – pronunciara Yucatã, beijando-a com ternura e paixão.
No céu, brilhando esplendorosamente a deusa lunar selava com luz aquele sublime pacto de amor, enquanto às margens do poço sagrado de Chichén-Itzá, Yucatã e Akalli deixavam fluir livremente aquele amor que há tempos teimavam em ocultar de si mesmos.
- Akalli, amanhã, antes que o sol de erga no horizonte, parta comigo. Vamos para os montes, depois alcançaremos Palenque e lá, bem distante, viveremos sob a poderosa proteção do sacerdote de Kukulcán. Não poderei mais, depois desta noite, viver longe de ti, minha pedra preciosa.
Meu amado, irei contigo, bem sabes, porém, sei também o preço que me será cobrado. Eu, sacerdotisa do sol, marcada pelo selo de Kukulcán, jamais encontrarei a paz porque renegando ao meu ofício sagrado por amor a um guerreiro estou traindo a minha casta. Se eu for presa serei sacrificada à luz do sol nascente e tu serás esfolado vivo pelo crime de macular uma virgem do sol – dissera Akalli e todo o seu corpo se arrepiava ao mencionar as torturas que teria que enfrentar se eles fossem presos pelos sacerdotes de Chichén-Itzá.
Então, Akalli desvencilhando-se dos braços fortes do guerreiro, aproximou-se do poço sagrado e erguendo o rosto fitou o disco lunar por longo tempo.
Estava soberba nesta atitude solene, sua alva túnica esvoaçava à brisa da noite e também os seus cabelos de um negro profundo. De pé, a alguns passos dela, Yucatã a contemplava embriagado de amor e felicidade.
- Eu sou a jovem guerreira do meu povo, que acendo o lume do ano novo quando as estrelas traçam o seu caminho no céu e neste instante renuncio ao meu povo – dissera solene a bela sacerdotisa, enquanto retirava do pescoço uma corrente de ouro com um talismã de jade, turquesa e jaspe. Estendendo a mão aberta, contendo a jóia ritualística, Akalli elevou-a ao céu, oferecendo-a à lua, depois a jogou no poço de Chichén-itzá. Fazendo grave reverência.
Em seguida, despojando-se de suas vestes nobres, primeiro os braceletes, depois a tiara de turquesa, onde havia o símbolo do sol incrustado em ouro reluzente. Em seguida, retirou dos ombros o manto sagrado e o depositou sobre a pedra dos sacrifícios, ali depositando também as plumagens esverdeadas que trazia presa aos cabelos.
Vestindo unicamente uma singela túnica branca e levando como única jóia, um magnífico anel de ouro e jade, Akalli invocou as forças do sol sob a testemunha do luar e renunciou, pelo amor de um nobre guerreiro, aos seus sagrados votos de sacerdotisa, virgem do sol:
- Grandioso sol que irradia a Terra alimentando de luz os seus viventes, conduz-me neste instante à plenitude de sua força solar e desfaz em mim os laços que me prendem ao culto do teu sagrado lume, porque neste instante, eu Akalli, filha de Irakén, sacerdotisa de honra a Kukulcán, abjuro dos meus votos sagrados de virgem do sol, ante a luz testemunha do luar, unicamente por muito a um nobre guerreiro amar – falava a jovem sacerdotisa como se estivesse em transe.
- Porém, grandioso sol – continuava solene a sacerdotisa - afirmo-te que em minha alma o teu culto não morrerá e sempre em meus olhos a tua luz há de brilhar e onde quer que eu vá sempre estarei pronta para a tua força irradiar.
Com os olhos marejados de lágrimas e fixos no disco lunar que encimava naquela noite os céus de Chichén-Itzá, Akalli retirara da cintura o último elo que a ligava ao culto do deus kukulcán, estendendo-o com suavidade sobre a pedra dos sacrifícios, porém conservou consigo, como símbolo do seu culto íntimo a Kukulcán, o esplendido anel de ouro e jade que trazia no dedo anular de sua mão esquerda. 



                     Texto do livro inédito:  JARA 
O Califa acostumado às excentricidades de sua filha Jara, notando os preparativos quis saber o motivo de tanto rebuliço.
- Minha filha querida - dissera o Califa, abrindo um largo sorriso - o que significa todo esse movimento?
Jara falara então da beleza da tarde lá fora e da vontade de acampar livremente no seu oásis preferido.
- Lá fora o céu se incendeia nos raios mortiços do sol que se deita, meu pai, e eu sinto-me embriagada por toda essa beleza e quero mais uma vez apreciar de perto toda essa beleza - explicara Jara, fazendo com as mãos um gesto que abrangia toda a herdade.
Com um sorriso de benevolência o califa assentiu:
- Seja, minha louca criança, jamais pude negar-lhe um mimo sequer - dissera o califa, porém, havia desta vez em seu rosto um ar preocupado e Jara compreendeu... Mas fingiu não ver e sorrindo lhe estendera sedutoramente as mãos e dirigindo-se a uma das janelas mostrou-lhe o ar encantado da tarde que começava a querer descer sobre a Terra, lá fora.
- Veja, olhe ao longe o céu róseo que parece encarnar todas as cores do sol nas flores do meu jardim. Meu pai, aprecie comigo esse doce entardecer e sinta a magia da brisa quente - dissera -lhe Jara sorridente.
Logo a magnífica comitiva da princesa Jara deixava o Palácio, rumo ao deserto, escoltada por bravos guerreiros da guarda real. Em sua rica liteira montada sobre um camelo seguia a altiva princesa, rodeada pelas suas aias. À sua frente seguiam alguns batedores da guarda real, encarregados de evitarem os perigos do caminho e Jara seguia linda e monárquica, envolta em véus de rara beleza, acomodada em coxins sobre o camelo, rodeada pelas aias e eunucos, sempre fiéis à sua ama.
Caia a noite quando alcançaram Falléh. A luz prata do luar iluminava esplendorosamente o deserto, tornando a areia branca e sedutora. As primeiras estrelas faiscavam no céu ainda claro, como se saudassem aquela inusitada visita, quando Jara se acercara do seu oásis predileto. Reinava naquele lugar um ar de encantamento místico, sob as palmeiras que projetavam à luz do luar suas sombras alongadas e bonitas sobre a vegetação rasteira e a superfície do límpido espelho d’água que refletia a luz das estrelas.
Majestosamente ajudada pelo seu fiel eunuco Morát, Jara pisara a areia fina do oásis de falléh e caminhando calmamente dirigira-se com três de suas aias para as margens do pequeno lago, enquanto os servos desmontavam os apetrechos da viagem e armavam a rica tenda de sua altaneira ama.
- Jamila - chamou Jara, num tom suave, à sua serva.
- Sim, minha ama - respondeu a aia inclinando-se reverente ante a princesa.
- Jamila, a lua vai alto ao céu, quero aproveitar o ar encantado dessa noite para decidir sobre a melhor maneira de executar o meu intento. Busca tua cítara e toca para mim. - ordenou.
- Minha ama, teu menor desejo é ordem para tua humilde serva, não me demorarei Alteza - respondera a aia, numa reverência.
Alguns minutos se passaram até que Jamila, a aia predileta da princesa, retornasse empunhando a cítara.
Jamila era uma bela jovem, de tez morena e expressivos olhos negros, traços delicados e serenos, de radiosa beleza. Vinda de nobre família da Arábia, criara-se praticamente junto com a princesa, e intensa amizade nascera entre as duas desde a mais tenra idade, tanto que depois de crescidas, Jara para não se separar da amiga fez dela sua aia, a primeira dentre todas.
-Toque Jamila e cante suaves melodias para alegrar o coração de sua princesa - falara Jara.
Atendendo à imperativa solicitação de sua ama e senhora, Jamila sentou-se numa rocha à beira do lago e tirou de seu instrumento as primeiras notas, iniciando uma suave melodia que ia aos poucos embalando o coração irrequieto da bela Princesa de Bagdá. Cantando, a meiga Jamila levava ao coração do irreverente princesa um toque de ternura e melancolia.



                           MIRAGEM 
Luziam no horizonte, ainda, os últimos raios púrpuros dos últimos desenganos do meu combalido coração e eu não esperava mais crer na ventura do amor, nem na ilusão dos sentimentos que nos ligam a outrem.
Eclipsavam-se aos poucos naquele horizonte de cor avermelhada os meus últimos sentimentos de amor e também de desilusão neste sentimento que ora me fora tão nobre e, agora, me parecia fictício e irreal. Fruto mesmo da imaginação dos que sonham com o imaginário.
E já começava a crer que a grossa e áspera casca que agora me envolvia o coração, tornando-o imune às sutilezas desse sentimento, jamais se quebrasse.
Um dia, já mais pés na terra, insistindo em trazer à terra, também, o meu coração, que há muito teimava em escolher por morada as estrelas, vi-me de repente sucumbida diante de um olhar. Alguma coisa dentro do coração protegido pela casca áspera e grossa, de cor terra, se agitava num frêmito, sussurrando uma melodia suave e tão sublime, que todo o meu ser se enternecia.
Mas a mente, possuidora de todas as lembranças do passado, das marcas das dores, dos dissabores, habilmente apertara o cerco, procurando amalgamar mais densa e espessa a camada de casca, para proteger o seu tesouro de mais uma desilusão.
E como dois fortes elementos, a mente, como mãe protetora, cuidava ansiosa do seu filho alvissareiro, o coração, já tantas vezes machucado, porém não sei de que força dotado que não se abatera sob tantos dissabores.
E quando naquele céu em que o azul da calma empurrava os últimos vestígios púrpuros da desilusão que ali passara no horizonte uma luz se prenunciara e, de repente, com seus raios fulgurantes a tudo iluminara.
Sob seus raios incandescentes, suaves e brilhantes, mais uma vez sucumbia a mente e nascia o amor, inundando de alegria e sentimento o teimoso e ingênuo coração, derrubando as barreiras, rompendo a casca que o protegera e lançando a semente.
Como uma explosão de estrela, onde das poeiras renascem a vida e novas estrelas, assim o coração vencendo suas próprias barreiras, uma vez ainda se comovera e inundando de luz branca e resplandecente de amor se enternecera.
Aquele riso muitas vezes calmo e ora se fazendo surgir numa suave gargalhada vinda da alma. Um riso profundo, que suas faces iluminavam. O seu olhar negro, profundo, distante e matizado de alguma tristeza infinita, oculta no recôndito da alma, aquele porte nobre e trazendo de volta sonhos do passado, imagens de outrora, como se eu o visse, vestindo as túnicas egípcias, trazendo na cabeça o “claft”, ornado pela “uraeus”, de pé como uma efígie, imóvel e seguro de si, belo, infinitamente belo, aos meus olhos apaixonados, ao meu coração enternecido por suave sentimento de ternura infinita, cheia de carinho e beleza.
Assim, se me apresentara naquela tarde, trazendo em teus olhos o brilho magnífico que tanto amei outrora e que ainda hoje me toca sensivelmente o coração.
Vontade infinita de acariciar suavemente seu rosto, seus olhos, seus lábios, aconchegando-te ao coração, com ternura infinita, não querendo jamais de ti me separar.
E assim mais uma vez, fez-se o amor... 

                   

                      OLHOS VERDES DE SEMÁFOROS 

Naquela manhã, os dourados raios de sol faziam as folhas das árvores brilharem sorridentes.
Havia uma alegria presente no ar que não se podia ver, mas que se sentia na pele, no viço das folhas, no colorido das flores... E em algum canto da mente...
Sentada no banco do passageiro do meu carro, eu olhava o mundo lá fora com olhos de sabedoria... Enquanto meu marido dirigia, sem se dar conta da beleza diáfana que nos envolvia...
À nossa frente se estendia a avenida, o trânsito calmo àquela hora do dia,
E os lânguidos olhos verdes do semáforo fitavam a Avenida Epia repleta de veículos multicores, onde pessoas de sonhos também coloridos trafegavam naquela manhã rumo aos seus incógnitos destinos...
O olhar esverdeado do semáforo parecia combinar perfeitamente com a luz do dia, como se fosse a extensão do meu próprio olhar... olhando o dia...
E eu sorri para mim mesma, um riso de sonho, como se eu fora outra vez a menina adolescente e sonhadora de outrora...
E pela primeira vez depois de anos de preocupação adulta eu sorri despreocupada, confiante, como se o mundo inteiro me pertencesse... E pela primeira vez tive certeza de que de fato me pertencia...
Sentia-me naquela manhã, sem nenhum motivo aparente, dona da situação.
Olhei para trás, para o meu passado incerto, para os meus sonhos perdidos nas curvas dos caminhos que trilhei e um a um, os reencontrei...
E que prazer poder retomar sonhos, reviver alegrias... E mais, poder compartilhar esses sonhos e essas alegrias com aqueles que verdadeiramente me são tão caros...
A menina sonhadora de outrora, hoje também tem uma menina sonhadora.... Tem um menino sonhador.... Tem um marido sonhador... E ainda segue pela vida olhando o mundo através dos olhos verdes do semáforo...



                                                      A VINGANÇA

Cercava-me uma pequena cadeia rochosa, de areias amareladas e escaldantes ao sol do deserto. Aquele oásis, naquela tarde embriagante de calor aromatizado pelos sicômoros - que ao longe refulgiam suas folhagens brilhantes de luz solar - tornava-se meu refúgio e minha prisão.
E eu, envolta num véu espesso, de fios prateados num fundo azul escuro, achegava-me ao peitoral de mármore branco daquela pequena fortaleza erguida íngreme no meio das montanhas e contemplava o horizonte distante e arenoso.
Uma brisa quente soprava acariciando-me as faces e desmanchando algumas mechas de negros cabelos que teimavam em sobressair ao véu que os protegiam e ocultava em parte a fisionomia austera, porém, delicada, que me tornava encantadora e bela, enquanto meus misteriosos olhos denunciavam perigo, muitas vezes mortal.
Mas esquecida do poder místico do meu olhar, deixava-me levar em quimeras, em pensamentos amenos e suaves, sabendo que muito perto estava o dia em que não mais poderia contemplar o ar abrasador do meu deserto amado.
Contemplei sem vestígios de desgosto a areia fina do pátio à minha frente colocado, sabendo que já ao longe refulgiam os primeiros sinais da aproximação de grande escolta que traria aos meus pés o astucioso guerreiro que ousara denunciar-me.
Eu era ali a lei, não o perdão, a espada que tirava a vida, não a mão que salvava com indolente perdão.
E naquele instante vago sentimento de comiseração banhou calidamente o meu intrépido coração, mas à lembrança de tamanha audácia e traição, rebrilhou-me nos olhos a sede de vingança.
E esperei pacientemente por tê-lo entregue às minhas mãos, cega de ferino orgulho e surda aos apelos do meu insensato coração.
Quando ao longe, a poeira arenosa pareceu elevar-se ao céu, anunciando a célere aproximação dos meus devotados serviçais, trazendo prisioneiro o causador da minha perda, revi em lembranças o incisivo momento em que descobrira minha traição, ao transgredir severas leis que proibiam a prática da magia. Transgressão cuja pena era ser banida do meu adorado país, sem nem mesmo poder fazer valer a minha privilegiada posição.
... A lua clara descia sobre o rio naquela noite mágica, quando em suntuosa liteira dirigi-me à surdina ao abrigo das pedras, onde todo o segredo da vida e da morte era-me revelado por misterioso sábio caldeu - que um dia, já no exílio, vim descobrir ser meu pai, homem destemido e iniciado nas artes da magia, que com seu olhar magnético e belo, houvera um dia seduzido a bela princesa egípcia, minha mãe.
No preciso instante em que com meu olhar abrasador incendiava a areia em jatos de luz fosforescente, sob a orientação do velho mestre, o meu fiel rastreador tudo viu e aturdido regressou a palácio e me denunciou ao faraó. Somente a posição hierárquica de minha mãe e a total ignorância sobre minha origem paterna, salvara-me a vida, porém não a minha condição de cidadã egípcia, membro da família real.
Condenada ao exílio na Babilônia, aguardava agora no meu próprio palácio de campo, o dia da partida, que não tardaria, segundo as ordens do faraó e seus dignitários, que para não encolerizar, ainda mais a classe sacerdotal, não atendeu aos rogos da princesa real, que se esquecendo de sua posição na corte de Tebas, tencionava salvar a filha adorada.
Porém, munida de feroz desejo de vingança contra aquele que tão perfidamente me denunciara e fora o causador da minha dor - deixar o meu Egito amado era-me penoso e cruel, deixar para trás a família e a posição hierárquica que ocupava na corte - ordenara, do meu refúgio, a prisão secreta do infame delator para fazê-lo pagar o meu infortúnio.
Um clarão ocasionado pelo refulgir dos gládios à luz de Rá, fez-me voltar ao presente, abandonando as tristes lembranças daquela mal fadada noite de luar.
Nunca até então havia provocado voluntariamente a morte de um ser vivente através dos meus poderes exercitados na magia, mas sabia ser possível tal feito e tencionava fazê-lo com o guerreiro que dentro em pouco me seria entregue e cujo rosto eu tinha visto muito imperfeitamente apenas uma vez, naquela noite distante e decisiva.
Mal sabia eu o que de fato me aguardava. Ah, se eu pudesse ter previsto tudo o que os deuses ainda me reservavam...

* Texto do capítulo "Vingança" do próximo livro da autora, ainda sem título definido

                                


                     Laços ...Laços Eternos
...
A primavera agora vicejava em toda a sua plenitude. Os dias estavam ensolarados e brilhantes.
O céu era novamente azul e eu sentia-me mais alegre, poder-se-ia dizer que eu era quase feliz.
Os últimos preparativos para o casamento se concluíam.
Já muitos hóspedes estavam instalados na mansão e meu tempo agora era muito pouco para divagações. As idas e vindas ao atelier de Madame Savoy, que confeccionava o meu vestido de noiva, tomava quase todo o meu tempo.
O vestido estava belíssimo, era de um branco nacarado, todo bordado de pedrarias e pérolas, saia ampla e farta, na mais pura seda.
Quantas vezes o experimentei sentindo vontade de rasgá-lo! Ao ver minha imagem refletida no espelho meu coração se apertava de dor e desgosto, mas meu senso de responsabilidade estava muito desenvolvido para que eu fraquejasse ante ao sacrifício iminente.
Muitas noites chorei de desespero e de saudades, mas quando raiava o dia, enchia-me de nova esperança e continuava meus preparativos para o casamento, sempre acompanhada de perto por minha dedicada Sulamita.
A Quinta estava decorada ao meu gosto. Frederico fez questão de anuir aos meus mais sofisticados caprichos, tanto que o palacete estava deveras magnífico, encantador mesmo.
Quantas vezes, sentada no seu jardim sonhei que era o Duque e não o Conde de O. quem me desposaria. Quiméricos devaneios...
Chegou o dia tão esperado por todos, menos por mim, que me sentia indiferente, como se não fora eu a noiva tão aclamada naquela magnífica catedral.
Pouco antes de começar a vestir-me, uma criada pediu a Sulamita para falar-me.
-Lady Allina, um portador acaba de entregar essa encomenda, que assegurou ser imperioso que lhe chegue às mãos antes da sua saída para a igreja. - dissera a criada entregando-me uma caixa de presente de rica decoração, demonstrando ser realmente algo muito precioso.
Sem qualquer pensamento, tomei a caixa e abrindo-a vislumbrei um estojo de veludo negro bem antigo, onde se lia em letras douradas, as iniciais D.V.
Senti um calafrio. Tive ímpetos de atirar fora aquele estojo, como se estivera infectado com algum malefício, mas depois, diante do olhar arguto de Sulamita, abri o estojo. Uma magnífica jóia repousava sobre o fundo negro do estojo. Era um rico colar de pérolas e rubis de rara beleza, onde placas de ouro arqueadas, trabalhadas em filigranas e incrustadas de delicados rubis orientais intercaladas por fileiras de maravilhosas pérolas de valor inestimável, sustentavam um pingente de onde pendia um esplêndido rubi oriental em forma de gota de beleza realmente singular, acompanhado de dois brincos onde pérolas nacaradas rodeavam um rubi de beleza também especial.
Ao fundo um bilhete, escrito de próprio punho, dizia: “Señorita Allina, peço-te que em prova de que perdoaste o incômodo que minha presença em vossa casa lhe causou, aceite este pequeno mimo que lhe oferto de coração e que outrora pertenceu à Duquesa, minha bisavó. Use-o no dia do seu casamento, sentir-me-ei assim redimido de todas as minhas faltas para com a Señorita. Aceite ainda os meus cumprimentos. Espero sinceramente que sejas feliz! Enrico - Duque de V.”.
À medida que lia o bilhete ia empalidecendo a cada palavra, parecia que ouvia a sonoridade da voz do Duque sussurrando em meus ouvidos, até que Sulamita, tomando-me das mãos o precioso estojo, disse-me:
_Toma Allina, beba um pouco de água fresca, logo estarás bem!
Acedi ao seu pedido, ainda entontecida, e tomando-lhe das mãos a taça com água, sorvi-a de um só gole. Minha fronte latejava, todos os momentos vividos alguns meses antes, quando da estada do Duque em nossa casa, vieram-me à mente e ao coração e a lembrança do seu olhar de fogo no dia de sua despedida atordoou-me.
-Levante a cabeça, menina, - disse-me Sulamita, pressurosa - nada de recaídas agora. Vamos, continuemos a nos preparar.
-Viste Sulamita o presente que acabo de receber? Sabes de quem vem?
-Sim, Allina, sei, mas isso não importa agora. Vais mesmo aceitar esse presente?
-Como recusá-lo, Sulamita? Trata-se de um presente do melhor amigo de papai e... - calei-me sem poder continuar.
-Sim, Allina, porém, observa bem se queres mesmo aceitar esse presente. Parece-me uma jóia antiga, diria mesmo que é uma jóia de família.
- Temo que seja por isso sinto-me na obrigação de aceitá-la. - falei constrangida.
- Pois seja, Allina, é uma jóia realmente digna de uma princesa, vais atender também ao pedido de usá-la na cerimônia? Os olhos de Sulamita brilhavam interrogativamente.
-Sim, vou. - respondi decidida. Minha alma dilacerada, naquele momento só pensou que tinha todo o direito do mundo de usar a jóia presenteada por aquele a quem amava no mais recôndito de minha alma. Fora esse pensamento certamente o que levara o Duque a se desfazer de tão preciosa relíquia.
Já mais calma, prossegui nos preparativos, com Sulamita sempre ao meu lado.
A catedral estava magnificamente decorada de brancas rosas e singelas madressilvas. A nave estava repleta de convidados, parecia que toda a Londres se comprimia ali dentro. Frederico, muito elegante esperava-me ao pé do altar, vestindo um sóbrio fraque cinza-claro.
Um imenso tapete vermelho estendia-se desde a porta até o altar, formando um longo corredor, ornado de rosas brancas.
Pelo braço de papai, eu caminhava vacilante, pela nave adentro, como uma sonâmbula, rumo ao altar, onde Frederico esperava-me feliz.
Todos os olhares se voltavam para ver a noiva passar. Estava realmente bela, naquele vestido amplo magnífico. Enfeitando o delicado colo, o esplêndido colar de pérolas e rubis combinava sobremaneira com o tom nacarado do meu vestido. E o precioso rubi que me pendia sobre o peito era realmente como uma gota de sangue que jorrava do meu coração naquele instante tão definitivo de minha vida.
Ao chegar ao altar, papai entregou-me a Frederico, após beijar-me delicadamente a testa, enquanto desejava-me felicidades.
Frederico recebeu-me com um sorriso nos lábios. Tomei seu braço e juntos nos postamos diante do altar. Naquele momento, senti todo o peso do meu ato e lancei um furtivo olhar sobre a imagem do Senhor que pendia sobre o altar, pedindo forças.
A cerimônia foi longa e eu parecia que a tudo assistia de longe, como se não fosse eu a noiva feliz que se unia pelos sagrados laços do matrimônio a um dos mais cobiçados partidos da Inglaterra, o nobre Conde de O.
Quando estendi a mão esquerda para Frederico colocar a aliança em meu dedo anular, uma lágrima de dor rolou dos meus olhos e caiu sobre o rubi em forma de gota, desaparecendo no vazio do meu entristecido coração. Ninguém, nem mesmo Frederico, notou a furtiva lágrima que maculou com sua dor aquela jóia que naquele momento pareceu-me, de repente, tão familiar. Além disso, sentia como se o Duque em pessoa estivesse presente à cerimônia. Arrependi-me de ter colocado aquela jóia.
Naquele momento a lembrança do olhar do Duque de Valença calou mais fundo em minha alma dorida.
Vencendo o dissabor daquela hora, fui em frente e jurei a mim mesma fazer feliz o meu esposo, que ali me jurava o seu amor. E diante o altar tomei a resoluta decisão de jamais voltar a pensar no Duque, a partir daquele momento.
Depois da cerimônia, um lauto banquete foi servido no palácio para os convidados.
Frederico e eu combinamos que não viajaríamos e que depois do casamento iríamos direto para nossa Quinta nos arredores de Londres. E assim foi.
Partimos para nosso novo lar, logo depois do jantar...

• Este texto faz parte do livro "Laços...Eternos Laços" que será publicado em breve pela autora. 



                                     Um Trecho do livro: "O Segredo de Leonor" 
...  Esta noite, serás sacrificada durante um sabá negro, seu sangue vai servir ao senhor da escuridão - falara a condessa, rosto lívido de ódio.
A freira deu um grito de terror a tal menção.
- Também gritei de dor e desespero, madre, no dia em que arrancaste das minhas entranhas o meu adorado filhinho e não tiveste piedade de mim, sequer me deixaste vê-lo – lembras-te?
- Jurei que a mataria, madre, que vingaria a minha infelicidade e o farei. E não viverá para narrar tudo o que acabas de saber. Não se pode tornar-se dono do destino dos outros impunemente, madre, eu o sei - falou a condessa sem desviar os seus olhos negros do rosto apavorada da velha madre.
E à noite, aquela turba grotesca, de novo se reunia, na clareira no meio das montanhas e lá estava Artemísia, bela e cruel - nada em sua fisionomia lembrava a meiga Leonor que outrora vivia sorrindo entre os serviçais da rica mansão de seus pais. Como sempre, presidia o sabá ao lado do mestre encapuzado, que se sabia jovem, porém, ninguém, além dela, jamais vira seu rosto, enquanto dois anões empurravam a madre superiora, que tinha os pés e as mãos amarrados por grossas correntes até o centro da clareira.
O elegante cavalheiro de capuz negro aproximou-se deles e com um gesto pediu silêncio à turba.
- Hoje, vamos julgar essa mulher e condená-la por um crime cometido contra nossa bela Artemísia, rainha deste Sabá.
A turba ensandecida gritava palavras desconexas e Artemísia se aproximou implacável, olhos injetados de ódio e avançou para a madre.
- Ela não terá direito a julgamento. - dissera Artemísia - a menina, cujo filho ela arrancou do ventre para atirá-lo em mãos estranhas não o teve. E assim dizendo fez um gesto e os anões empurraram a freira para o cadafalso, aos pés do grotesco ídolo, cuja fisionomia causava arrepio no mais experiente dos viventes.
Antes de ter a cabeça decepada por um afiado machado, cuja lâmina reluzia à luz do luar, a infeliz madre tentou falar, mas tinha a boca tapada por uma mordaça, para que não invocasse o nome Sagrado do Criador.
A lâmina do afiado machado reluziu à luz do luar e a cabeça da freira rolou aos pés de Artemísia. O que se seguiu foi um festim bestial, inenarrável. Ao raiar da aurora, ela retornou ao castelo, saciada em sua sede de vingança, porém com um vazio ainda mais abissal na alma, agora negra como seu elegante traje.
Extenuada pela noite sacrílega que presidira Artemísia, deitara-se quase ao amanhecer, mas não conseguira conciliar o sono.
Por um daqueles caprichos do destino, logo ao amanhecer, sua criada veio avisá-la de que um jovem padre, da ordem dos franciscanos, que esmolava para o convento dos irmãos pobres queria vê-la.
Desgostosa de ter que receber a indesejável visita, mas sabendo que não poderia levantar suspeita sobre sua pessoa, fingiu-se satisfeita com a honra e desceu para recebê-lo.
No saguão, o jovem padre a esperava.
- Gostaria de falar-me, senhor padre? – perguntou a Condessa, chamando a atenção do religioso, que se virou para cumprimentá-la.
Foi, então, que sentiu suas pernas fraquejarem e, branca como cera, apoiou-se sobre o espaldar da poltrona. À sua frente estava a réplica do seu amado Ramon, como se houvera regressado no tempo, o mesmo olhar, o mesmo sorriso, o mesmo porte altivo. Quis falar, mas a voz lhe faltou e ela caiu pesadamente sobre o rico tapete do salão.
...

                           Você

Em meio a tanto vento, tanta turbulência,
De repente, você, brisa suave em nuvem calma.
Aquele olhar calmo, de quem nada pede
E a ausência de sorriso na face serena,
De quem não se aflige, como um oásis solitário,
Em desertos de areia, nas noites de lua.



Rosto sereno de coração paciente e olhar sincero
De quem busca um coração apaixonado.
Assim como brisa que passa suavizando a tarde,
Vieras ternamente ao meu coração,
Como quem busca uma nota musical
De alguma canção desconhecida.
E encontraras um coração sonhador,
Que sem pensar, por ti se apaixonou.
E compreenderas, então, que valera a pena buscar
E por tanto tempo esperar,
O momento de encontrar o amor,
Que a todos enobrece e alcança,
Elevando o coração do homem. 




                                     Estrela madrinha... Estrela minha... 
          Naquela noite tudo eram mistério e solidão.
          Embora, estivesse cercada de amigos em meio a uma das costumeiras e animada festa da turma, bem ao gosto dos adolescentes que eram uma vaga sensação de melancolia corroia o coração de Júlia.
          Havia naquela noite um vazio, um quê de solidão, de vontade absoluta de não estar só, de ter alguém para amar e ser amada... Há muito que Júlia almejava o amor de João, sonhava ser a sua amada... Mas ele parecia não enxergar esse amor... E ela estava ali tão perto...
          A noite ia pela metade e, entediada, Júlia saiu para o pequeno jardim que circundava a casa, para tomar um pouco de ar, respirar a noite que a envolvia lá fora.
          Recostou-se à grade do murinho e ali ficou olhando as estrelas que lá no alto cintilavam, enquanto pensava... Pensava em seu amor, em seu olhar, em seu sorriso cativante... Em sua voz...
          Quanto tempo havia que desejava conquistá-lo! E ele sequer parecia entender a mensagem velada que discretamente seus olhos lhe passavam...
          Num desses momentos de romântica contemplação, ali estava ela olhando o céu pontilhado de lindas e distantes estrelas, que lá no alto cintilavam indiferentes à sua solidão. E o alvo dos meus doces e jovens pensamentos estava ali, bem na sua linha de visão, porém, como sempre, lindo, sereno e coração distante...
          Júlia suspirou profundamente sentindo no peito um misto de dor e desilusão, pensando:  - “afinal, por que não te aproximas de mim?”.
          Naquele momento, um raio de luz cruzou o céu do norte para o sul - uma magnífica estrela cadente se fez notar em toda a sua beleza e luminescência... 
          Olhos grudados no céu, no rastro de luz fosforescente que ela deixou, Júlia fez o pedido mentalmente: - “estrela cadente, estrela madrinha, estrela minha, realiza o meu desejo e não o deixe pendente”.
          - “Faça com que o João venha até aqui, agora, e seja meu namorado; agora, linda estrela!” - enfatizou mentalmente, olhando o céu.
          O último vestígio de luz daquela estrela de fogo se apagou e ela baixou os olhos, bem a tempo de ver o alvo dos seus sonhos ali à sua frente, convidando-a para dançar. Júlia sentiu um calafrio... 
          Aceitou o seu convite, porém, não sem antes olhar para o céu onde segundos antes brilhara a luz incandescente daquela estrela... Madrinha.
          Acompanhada pelo jovem dos seus sonhos entrou no salão... E dançaram o resto da noite, embevecidos em doce idílio de amor. Ela mal podia crer que aquela estrela danada atendera ao seu pedido tão prontamente.
          Mas atendera e ali estava Júlia ao lado do seu novo namorado, como tantas vezes desejara. Foram dias de alegria e encantamento, afinal Júlia conseguira o que tanto almejara.
          Agora ela tinha o doce amor de João, o seu olhar, o seu sorriso... Ah! E o seu cantar, o seu doce cantar ao violão... Mas havia no coração de Júlia, por vezes, uma vaga certeza de que esse doce enlevo não duraria.
          Um dia acordou com uma estranha sensação no peito, porém não havia nenhuma razão que justificasse aquele mal estar que, de repente, assolava a sua alma.
          Sentiu como se o ar ficasse diferente, como se o ar fosse palpável, como se ela pudesse enxergar o ar, ou pegá-lo. Não sabia explicar bem, mas essa era a sensação que, por várias vezes, sentiu naquele dia. Por mais que tentasse, não conseguia fazer uma correlação do que estava sentindo com nenhum acontecimento real. Apenas uma estranha sensação de que algo desagradável se passava e a incomodava repetidas vezes naquela manhã.
          Então, por volta do meio dia, precisamente quando ela entrava na sala de estar, vindo do seu quarto, voltou a sentir aquela horrível sensação, só que desta vez veio nítida a lembrança de um sonho, um sonho que tivera na noite anterior e do qual não havia ainda se lembrado.
          Era noite e Júlia se via numa posição bastante peculiar, estava pairando sobre a rua, bem em frente à casa de João, quando o viu chegar, abrir o portão de ferro e entrar... Antes, porém, ele olhou para cima e a viu, mas sem nada dizer entrou em casa...
          Lembranças... Tão reais que não pareciam ter sido um sonho.
Imediatamente, Júlia compreendeu a razão daquele estranho mal estar.
          - “Mas isso foi apenas um sonho, não foi real” - pensou, tentando afastar do peito aquela opressão.
          Então, o telefone tocou e prontamente Júlia atendeu, ainda, sentindo no peito a melancolia que a cena recordada do sonho lhe trouxera. Era uma de suas amigas, contando as novidades da noite anterior e querendo saber por que ela não fora à festa de aniversário da amiga Andréia.
          Naquele instante, tudo clareou na sua mente. Naquele momento, ficou sabendo pela amiga que João estivera presente ao aniversário da colega, sem sequer convidá-la e compreendeu que quando o viu em sonho abrir o portão de sua casa às 2 horas da manhã, ela, Júlia, realmente estava lá, em espírito e verdade, constatando in loco a chegada do seu amado em casa.
          Não fora um sonho, ela estivera lá e o vira chegar de madrugada em sua casa. O seu sonho de amor estava desfeito... E diante do constatado, Júlia já ia se entristecer com o feito quando a lembrança daquela estrela madrinha lhe acorreu à memória, como se lhe dissesse: - “presente de estrela cadente é como presente de fada, não dura para sempre, se esvaece, termina infalivelmente às doze badaladas”... Mas vale o baile... Ah, se vale!


FOGO

Fogo, elemento máximo da natureza, especialmente criado.
Luz incandescente de avermelhadas labaredas matizando o alaranjado das brasas.
Fascinante luminosidade rubra que me hipnotiza a alma.
Luz purpúrea que, às vezes, se eleva acima das matas iluminando a escuridão da noite em terríveis incêndios noturnos de alaranjados matizes; de cores fenomenais que irresistivelmente atrai e fascina o expectador com sua perigosa beleza incandescente.
Sua ígnea beleza é como um mistério pleno de energia, seja na luz da fogueira que arde alumbrando a noite escura, seja na magnífica explosão do vulcão jogando aos ares rochas rubras e chamejantes despejando sobre as encostas crestadas pelas cinzas indescritíveis rios de lavas alaranjadas e luminescentes de fogo, como se de ouro derretido fossem feitas.
Fogo, luz fascinante que me entorpece a alma diante de descomunal beleza.
Que me fascina atraindo meus olhos como se naquele espetáculo incandescente o perigo não estivesse latente.
No crepitar das brasas pode se ouvir a voz melodiosa das deidades ígneas, labaredas salamandras, que povoam a sua luz incandescente em infinita combustão.
Sois partícula do criador e parte da criação,
Oh fogo áureo, que em si encerra todo o mistério da estrela cadente que corta o céu nas noites luminescentes e também o calor abrasador de infinitos sóis que iluminam os planetas neste universo imenso possibilitando o surgimento da vida.
Ao teu calor, deverás abrasador, e à tua fascinante beleza ígnea rendo tal qual antiga sacerdotisa, minha singela homenagem em forma de versos. 


Lillith 
Lillith, deusa negra no céu surgida,
Quando à sombra da Terra dos raios solares te ocultaste,
Tingindo-se de púrpura coloração à Terra teu brilho de sangue emprestaste,
Naquela noite plena de estrelas que no céu formavam solenes a sua corte.
E tu, Lillith, majestosa e bela,
Emprestava aos céus, naquela noite, sanguíneos matizes de rara beleza,
Imergindo a Terra em uma profusão de luzes avermelhadas e misteriosamente belas.

Teu disco, outrora suave e pálido, tornara-se rubro e incandescente,
Abrasando a Terra e os corações dos seus habitantes.
Lillith, como preciosa granada de tamanho descomunal,
Lapidada com extremo esmero, reinavas, naquela noite,
Lançando no espaço sua purpúrea luminosidade.
E assemelhava-se a um novo astro surgido no céu
E em nada lembravas a lua pálida e prateada que eras.

E na Terra milhares de corações rendiam-lhe honrosa homenagem
Em forma de emoção, vibrando com sua mística coloração.
Inesquecível Lillith, lua negra no céu surgida,
Tua fascinante metamorfose durara apenas um instante,
Mas suficiente fora para gravar nas mentes
A indelével certeza de que és um mundo ressonante
De vidas e luzes sutis, neste universo tão perfeito! 


A Lenda da Tapera do Anhangüera
A noite desce sobre a fazenda Água Tirada e a lua cheia lança furtivos raios prateados sobre as ruínas de uma casa velha perdida no meio do mato. Envolto na penumbra o Anhanguera ainda ronda pelas cercanias de sua antiga morada, ali naqueles confins de Goiás, próximo à margem do rio Corumbá, no coração do Brasil. Quem por lá se aventurar nas noites enluaradas poderá ver o espectro do velho bandeirante português com seu chapéu de aba larga e calça de algodão arregaçada na canela... A esperar que alguém realmente corajoso venha libertar sua alma fatigada.
Os restos de sua velha morada lá estão, envoltos pelo cerrado; árvores enormes cresceram onde antes era o salão da casa grande, mas o batente de aroeira e o alicerce de pedra, ainda podem ser vistos, se a gente se aventurar pelo meio do mato fechado, dos cipós e dos troncos velhos, sem se importar com as picadas dos mosquitos.
O famoso bandeirante, desbravador de Goiás, Bartolomeu Bueno da Silva - o Anhanguera faleceu em 19 de setembro de 1740. Era dono de lavras de ouro, possuía vasta fortuna, inclusive, tinha, dentre outras, essa propriedade às margens do Rio Corumbá, próximo ao porto que mais tarde veio a chamar-se “Porto da Eulália”, em homenagem à sua bisneta. Ali o famoso bandeirante viveu alguns anos, deixando para a posteridade o legado do seu nome e um tacho de ouro enterrado com belas e valiosas esmeraldas, não se sabe com que intuito, provavelmente o de burlar o quinto da Coroa Portuguesa. O que se sabe é que sua alma vaga há mais de dois séculos e meio por aqueles sítios em busca de salvação. E nas noites de lua cheia ele aparece aos transeuntes para dar o tesouro a quem tiver coragem para desenterrá-lo, mas a maioria foge amedrontada.
Há 75 anos, o lavrador Alvino Damião da Cruz, passando altas horas da noite pelas proximidades da Tapera do Anhanguera, se deparou sob a luz do luar com o espectro do bandeirante. A misteriosa visão deu ao lavrador o tesouro enterrado, ensinando-lhe com detalhes o local onde estava escondida a riqueza. Mas para que Alvino conseguisse desenterrar o tesouro o “Anhanguera” exigiu que ele levasse consigo o seu afilhado, um garoto de cerca de oito anos de idade.
Alvino Damião, um baiano destemido, depois desse dia passou a sonhar repetidas vezes com o bandeirante, até que resolveu atender ao apelo do velho português que lhe aparecia em sonhos para lhe dar a riqueza, mas preferiu não atender à exigência de levar consigo o pequeno afilhado.
Convidou, então, um amigo de nome Miguel para acompanhá-lo na aventura em busca do tesouro enterrado e numa noite de lua muito clara lá se foram os dois munidos de pá, enxadão, picareta e água benta, desenterrar o valioso tesouro.
Depois de muito cavar no local indicado pelo fantasma do bandeirante, Alvino e Miguel descobriram sob o enorme tronco de aroeira indicado pelo espectro, um lugar demarcado, calçado de pedras, que correspondia ao que o velho português lhe dissera em sonho. Animados continuaram cavando, mas não encontravam nada e não conseguiam também retirar o tronco de aroeira, que lhes parecia feito de chumbo. Cavaram noite adentro, sem descanso, mas nada de encontrar o cobiçado tacho de ouro e esmeraldas.
Muito depois da meia-noite, quando já tinham cavado um buraco aproximadamente da altura de um homem, em dado momento, Miguel, repentinamente, saiu em disparada gritando como louco: - “Cruz Credo... Corre Alvino, corre..., depressa... Socorro... Socorro...”.
Ouvindo a gritaria do seu companheiro, Alvino saiu depressa do buraco, pensando que ele tivesse sido picado por uma cobra. Ao alcançar o seu amigo, porém, descobriu que o motivo da correria era outro bem diferente.
Ofegante e apavorado, Miguel a muito custo explicou que lá dentro do buraco, junto com Alvino Damião, tinha “uma coisa muita feia, uma assombração horripilante, misto de gente e de fera, olhos de fogo e chifres pontiagudos na cabeça” que fazia menção de pegá-los. Miguel ficou tão estarrecido de medo que nunca mais quis saber do tesouro do Anhanguera.
Desde então, Alvino Damião voltou a sonhar com o velho português orientando-o para desenterrar a riqueza encantada. Entretanto, a alma do bandeirante o alertou, dizendo que levasse apenas o menino, seu afilhado, mas não levasse o seu amigo Miguel, porque este tinha más intenções para com ele.
Miguel, que jamais quis voltar ao local, apenas sorria sem graça quando alguém mencionava o aviso que, em sonho, a alma do bandeirante dera ao seu amigo.
Alvino pediu aos seus compadres Raimundo e dona Maria, para que deixassem o afilhado ir com ele desenterrar o tacho de ouro, mas a mãe do menino recusou veementemente, talvez receando que, em dado momento, a aparição exigisse a alma da criança em troca do tesouro. E temendo que vencido pela cobiça, Alvino acabasse por ceder, a zelosa mãe nunca permitiu que seu filho se metesse em tal aventura.
Com o passar do tempo o buraco, escavado por Alvino Damião e Miguel, encheu de água e esta não mais secou. Diz-se que são as lágrimas do bandeirante que, ainda hoje, chora de tristeza porque não terá salvação enquanto não for desenterrado o seu valioso tesouro encantado.
Assim, o desventurado Anhanguera ainda vagueia na solidão das noites goianas... Suas lágrimas continuam, naquele sertão, refletindo indefinidamente a luz do luar... À espera que alguém venha o seu tesouro desencantar...


ADEUS

Descia a lua suave sobre as águas, naquela noite, onde as estrelas cintilavam no céu, trazendo à terra o brilho fulgurante de seus raios luminosos e vivificantes.
E eu caminhava absorta, perdida entre um pensamento de amor e uma rósea esperança.
Ao longe, teus olhos negros fitavam meu rosto, iluminado na luz plácida do luar, enquanto no peito o coração se agitava num redemoinho de dor e desespero, pensando em mim e no meu amor.
Teu olhar tinha a suavidade das brumas da tarde, quando soprava as folhas do sicômoro, mas trazia o brilho fulgurante de uma alma profunda e apaixonada.
E eu te amava, sim, eu te amava. E era grande o meu amor por ti...
Quando sob a luz das estrelas caminhávamos, perdidos em pensamentos e sonhos, fundiam-se no espaço o brilho áureo do fogo ardente, porém de suavidade profunda e inimaginável, que nos devorava alma.
Como eu amava o teu olhar, o teu negro olhar, que via além dos horizontes purpúreos do anoitecer, que se enchia de ternura somente por amar. E foras tudo, o sonho e a vida, a esperança e a saudade...
A saudade... Quando partistes, me deixaste com a alma dilacerada e infinitamente triste.
Esperei por ti em cada vagar de vento, em cada estrela cadente, em cada brisa da noite e não regressaste... Partiras e nunca regressaste...
Disseste-me adeus numa tarde de sol causticante, como seu sempre amei e, num sorriso de quem ama profundamente, fechaste mansamente os teus lindos olhos negros, que eu infinitamente amei e apenas roçastes, ainda, o teu olhar no meu e, depois, tudo se esmaeceu...
As nossas estrelas tornaram-se, então, silenciosas e tristes, o céu do deserto perdera a sua resplandecência no teu olhar que se apagava, como se nele mil estrelas juntas se matassem.


Solidariedade

Corria o dia 20 de dezembro do ano de 1984, uma manhã cheia de sol, daquelas em que a vida nos parece novamente possível na Terra.
Era assim, uma manhã de sol esplendidamente clara, de céu azul, onde brancas nuvens vagavam por vezes meio indiferentes, como se não fizessem questão de embaçar a luz dourada que tão suavemente abrasava, naquele instante, a cidade.
Pensamento longe, coração meio entristecido, eu seguia meu rumo incerto na vida, como quem espera, ainda, a verdade desta vida.
E estava, então, distraída, olhando um ponto qualquer da imensidão, quando aquela figura pequena, de pele morena e olhar estranhamente suave e consternador, chamou-me a atenção, trazendo-me de volta ao mundo que nos cerca.
Aquela figura quase insólita, de pele enrugada pelos anos de sofrimento e privação que se perdiam no tempo, estava ali, sentada como tantas outras vezes, ao longo da calçada, rosto calmo de expressão quase feliz, estendendo os braços numa súplica de quem quer muito mais que uma moeda, de quem quer um aperto de mão.
E ao largo passavam indiferentes e distantes imensidades de transeuntes, preocupados não se sabe com que; mergulhados em suas próprias vidas, contudo, conscientes da presença real daquele velhinho, cujos olhos brilhavam cada vez que alguém se vislumbrava na calçada.
Como se o tempo tivesse parado, como quem assiste ao desenrolar de uma cena ao longe, fiquei ali, deixando o café esfriar, enquanto contemplava com ternura aquele velhinho aparentemente tão doce e sofredor.
Inutilmente tentei afastar de minha mente o triste pensamento de uma humanidade perdida e sem esperança, pois dezenas de pessoas tropeçavam naquele ser especial e fingiam não vê-lo, fingiam não ouvir sua voz pedindo uma moeda, um pão; fingiam não ver seus braços abertos, clamando por atenção, ignorando seu olhar de irmão, de gente, de busca e, por incrível que pareça, de esperanças.
A indiferença dos homens diante daquele a cena “de amor” (sim, porque apesar de tudo aquele velhinho era a expressão mais pura do amor em seu rosto sereno) espelhava a que insensibilidade se reduzira a humanidade.
Profundamente triste em presenciar num gesto tão pequeno a comprovação da degeneração da minha a própria raça, senti imensa vontade de chorar, e uma lágrima triste, teimosa, embaçou por um instante a minha vista.
Foi então que, naquele instante, um grupo de garotos despreocupados, camisas na mão, shorts coloridos, em alegre tagarelar, aproximaram-se do ponto onde o velhinho, de olhar inesquecível, sentado falava sozinho à brisa da manhã. E ao passar por ele, interromperam por um instante o papo alegre e voltaram para estender uma nota de moeda corrente e também as suas mãos, num gesto único de amor e compreensão.
Aquele gesto inesperado de fraternidade daquelas quase crianças, ainda, fez-me ver que nem tudo está perdido na Terra, porque são eles, as crianças e jovens de hoje, o futuro, o amanhã, e se o hoje está repleto de homens que só pensam em si mesmos, amanhã será diferente, porque de todos os que por ali passaram somente aqueles cinco garotos pararam para ouvir a voz de um coração solitário e de uma alma faminta.
Um gesto da minha amiga Marina tentou trazer-me de volta à lanchonete onde lanchávamos, mas eu já havia retornado e tudo em mim havia mudado. Era uma outra manhã!

Desencontro

E eu te amava.
Eras tu meu mundo,
Só tu meu sorriso
E não me amaste.
Não fui teu riso
E me esqueceste.
Agora que me amas,
Que sou teu riso,
Cansei da espera
E já não te amo mais.